2011/08/17

GENRO & SOGRA

Porta do Banco.
Dia de pagamento, entra e sai contínuo.
O prédio mais parece uma colméia tanto o movimento, na calçada em frente, camelôs vendem de tudo um pouco, lanches, cigarros em maço ou unidade, balas...
Aos pés da escada de granito cinza na calçada numa cadeira de rodas, uma senhora pede esmolas, mendiga uma moeda aos prantos e com voz lamuriosa.
Não convence, as pessoas passam fingindo que não a vêem.

- Uma moeda, uma moeda, por favor, uma moedinha...

Nada. Ela ainda finge que chora, entorta a perna direita, encarquilha a mão esquerda – quase derruba o pratinho com meia dúzia de moedas e uma tampinha de garrafa.
De repente um carro estaciona em frente a ela.
Agora sim ela chora de verdade, soluça e pede aos passantes que não deixem que a tirem dali, tenta segurar as pessoas que passam, causando mais repulsa ainda.
Segurando-se firmemente aos braços da cadeira de roda, ela grita que dali ninguém a tira, mas seus gritos e choro não convencem ninguém...
Do carro sai um homem sorridente, simpático, que cumprimenta todos que saem do Banco e delicadamente pega a velhinha no colo e a coloca no automóvel.
Espanto geral!
Como alguém com um carro desses, sinal de posse, poderia deixar uma velha assim pedir esmola na porta de um Banco?
Percebendo o mal-estar à sua volta ele explica:

- Ela está senil, foge quando não estamos vendo e vem para cá, isso quando não senta na porta de restaurantes... É uma cruz que tenho que carregar. Pobrezinha... – Vamos para casa, vamos – diz-lhe sorridente, angariando a simpatia de todos.
Com cuidado extremo coloca a velhinha no banco traseiro, prende-a com o cinto de segurança, limpa-lhe o enrugado rosto com um lenço.
Parte sob aplausos.

- Achou que ia fugir de mim? – diz rangendo os dentes.

A velha afunda-se mais ainda no banco de couro, perde a cor, começa a tremer.

- Achou que eu não ia encontrá-la?

Ela tenta abrir a porta. Travada.

- Achou que eu não cumpriria a minha promessa? Olha lá fora. Veja o sol. Está com calor, esta?

A velha está fria, congelada de medo.

- Nem se preocupe com a cadeira de rodas. Tenho coisa melhor para a senhora lá em casa...

Ela entrega os pontos.
Relaxa o corpo, sabe que está perdida...
Chegando em casa, o carro estacionado, ela é levada no colo para dentro, sob o olhar penalizado da vizinhança.

- Pobre homem – comenta a portuguesa que mora em frente – como sofre com a sogra.

- Esse homem vai para o céu – concorda a paraibana que faz faxina na casa da portuguesa - vai pro céu! – e volta a varrer a calçada.

Dentro de casa, o homem joga a velha numa outra cadeira rodas – ele tem uma garagem cheia delas, comprada no atacado, só para se garantir – e empurra a sogra para o quintal.
Deixa-a no meio do jardim bem sob o sol que está a pino, o calor está fazendo murchar as plantas e derreter os brinquedinhos de plásticos do Nenê – o cachorro.
O homem deixa a velha e vai para cozinha tomar uma cerveja. Abre a lata lentamente de modo que o gás saia fazendo barulho. A velha ouve e seus olhos brilham. Ela está com sede, com medo e com raiva.
Com a latinha na mão ele vai até o jardim para que a velha o veja beber, chama Nenê e oferece um pouco da bebida ao cachorro que aceita prontamente. Enquanto bebe, brinca com o cão, joga a bola cada vez mais longe para o animal ir buscar, fazendo com que bata com a cauda nas pernas da velha.
Ela olha com mais ódio ainda para o genro.
O calor aumenta.
É fevereiro...

- Então a senhora tentou fugir outra vez – fala o genro protegido na sombra de uma jaqueira - Achou que esmolando iria conseguir dinheiro para fugir daqui de casa? Nenê! – chama o cachorro que estava indo dormir na sala, sob o ventilador – Vêm brincar coma vovó, vem...

A velha teme o cachorro, quase tanto como teme o genro.
O cachorro vem correndo e babando trazendo à boca outra bolinha, a velha para de respirar. Quem sabe assim o bicho não repara nela?
Mas o genro joga a bolinha no colo da sogra. Ela não conseguindo mais segurar, começa a chorar...

- O Nenê não – implora humildemente - o Nenê não...

O cachorrão lambe-lhe o rosto provocando um misto de asco e pavor.
Uma trovoada faz tremer o chão assustando o animal que assustado corre a esconder-se debaixo da mesa da cozinha. A velha olha para o céu, olha para o genro, e começa a sacudir a cabeça apavorada.

-Não... – suplica baixinho – não, outra vez não!

O genro sacode os braços, entra na casa, e após uns poucos minutos, volta com outra lata de cerveja e um guarda-chuva. Pega uma cadeira de praia e senta-se sob a cobertura de lona de faz sombra na lateral do jardim.
Senta-se, estica as pernas e olha o relógio.

- Não dou meia hora para arriar o molho, acho que ainda vai umas três ou quatro cervejas... – ri do pavor da velha.

Muda de horror a velha sogra arregala os olhos e murmura alguma coisa – talvez o nome do falecido marido, que teve, segundo o genro, a sorte grande de ir antes dela.
Outra trovoada, agora mais perto.
Não tarda a chover...

- Eu te avisei velha, eu te avisei – ri enquanto entorna a cerveja – quando eu viesse a tomar conta de vocês eu acertaria todas as nossas diferenças – ri a ponto de engasgar-se.

Outro trovão.
O genro olha o relógio, rir e diz:

- Vai começar a chover bem na hora de seu banho.

Ela sacode a cabeça a ponto de seus brincos de pérolas caírem no chão e perderem-se na grama do jardim. Começa a chuviscar, o genro protege-se indo para dentro da cozinha, diz que agora vai preparar um café, afinal daqui à pouco a esposa vai chegar e vai querer um lanche.
Enfim cai a chuva.
Forte.
Pingos grossos.
Lá fora as lágrimas desesperadas da velha misturam-se à chuva, e antes que possa rogar uma praga para o genro, escuta-lhe a voz que diz, vindo de dentro da cozinha:

- Se comentar alguma coisa com a sua filha, fico com os trocadinhos que a senhora conseguiu no Banco.

Com ódio, sua dentadura trinca.

4 comentários:

Mirze disse...

MEU DEUS!

Agora quem está com medo sou eu. Tomara que eu morra logo.

Aliás, como os seres humanos conseguem criar cenas e contos de horror que podem vir a ser verdadeiros.

Parabéns pelo impacto! Mais uma vez admito que você escreve bem demais.

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

Eu também espero morrer antes de ficar decadente & dependente!

costa disse...

Não há outra saída para a morte, a não ser se matar antes de morrer!

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Deveras condescendente esse genro, fica mimando essa vigarista para cima e para baixo, gastando dinheiro com um monte de acessórios, fala sério...