2011/07/27

ARTE NAQUELE BAR

Tem coisas que só acontecem naquele Bar.

Vejam isso! Depois da proibição de fumar dentro do bar ou mesmo na sua marquise, os fregueses passaram a reclamar das músicas que o galego tocava lá. Era breganejo, pagode, forró, dor-de-cotovelo, dor-de-corno, dores-de-amores, e outras tantas misérias que rara era a noite que um ou outro não tentava cortar os pulsos com um caco de garrafa de cerveja. Pois cansado dos protestos, ele resolveu inovar e vejam só a encrenca que ele criou.

Entra um casalzinho, procuram uma mesa bem discreta nos fundos, perto da cozinha e ao lado dos banheiros – sim a vigilância sanitária parece que não passa lá há muitas eras. Ouso dizer, culpa do Senhor Vadinho – dão-se as mãos, olham-se nos olhos, pedem uma coca com gelo e limão e dois copos – no bar do Galego não tem canudinhos.

Ela, segurando a mão do rapaz começa a falar quando a luz se apaga, o galego trepado em cima a de uma pipa de chope começa a falar:

- Galego - Atenas. O palácio de Teseu. Entram Teseu, Hipólita, Filóstrato e pessoas do séqüito.

E saindo dos banheiros, um homem e uma mulher com os corpos cobertos por lençóis e começam a falar:

- TESEU — Depressa, bela Hipólita, aproxima-se a hora de nossas núpcias. Quatro dias felizes nos trarão uma outra lua. Mas, para mim, como esta lua velha se extingue lentamente! Ela retarda meus anelos, tal como o faz madrasta ou viúva que retém os bens do herdeiro.

- HIPÓLITA — Mergulharão depressa quatro dias na negra noite; quatro noites, presto, farão escoar o tempo como em sonhos. E então a lua que, como arco argênteo no céu ora se encurva, verá a noite solene do esposório.

- TESEU — Vai, Filóstrato, concita os atenienses para a festa, desperta o alegre e buliçoso espírito da alegria, despacha para os ritos fúnebres a tristeza, que essa pálida hóspede não vai bem em nossas pompas. (Sai Filóstrato.) De espada em mão te fiz a corte, Hipólita; o coração te conquistei à custa de violência; mas quero desposar-te com música de tom mais auspicioso, com pompas, com triunfos, com festejos.

O galego, com uma toalha xadrez verde e vermelha enrolada à volta da cintura, torcendo os bastos bigodes, diz emocionado:

Galego - Entram Egeu, Hérmia, Lisandro e Demétrio!

O rapaz que segundos antes interpretava Teseu, muda de lençol que antes era amarelo, para um lençol branco.

- EGEU - Salve, Teseu, nosso famoso duque! - E mudando o lençol amarelo para branco novamente, - TESEU - Bom Egeu, obrigado. Que há de novo? – e mudando outra vez a cor de lençol - EGEU - Cheio de dor, venho fazer-te queixa de minha própria filha, Hérmia querida. Vem para cá, Demétrio. Nobre lorde, tem este homem o meu consentimento para casar com ela. Agora avança. Lisandro. E este, meu príncipe gracioso, o peito de Hérmia traz enfeitiçado. Sim, Lisandro, tu mesmo, com tuas rimas! Prendas de amor com ela tu trocaste; sob a sua janela, à luz da lua, cantaste-lhe canções com voz fingida, versos de amor fingido, e cativaste as impressões de sua fantasia com cachos de cabelo, anéis, brinquedos, ramalhetes, docinhos, ninharias, mensageiros de efeito decisivo nas jovens ainda brandas...

Nesse momento crucial, eles são abruptamente interrompidos, pois a mocinha que tudo via sem nada entender, assustada começa a chorar e pede para ir embora.

Mocinha – Você me prometeu uma noite romântica e me trás num antro de loucos? Cadê as músicas de amor, cadê os músicos seus amigos? Você me trás para ver essa indecência? Homens e mulheres semi-nuas vestida em lençóis...

O rapaz, intelectual achando que estava impressionando a namorada, fica sem graça, olha envergonhado para os atores - esses sim seus amigos, não os músicos citados pela namorada – chama o galego e pede a conta.

Levanta-se e segue em direção a saída, mas antes de descer para a rua grita pro galego:

- Eu falei que essa droga de William Shakespeare não ia dar certo, da próxima vez tem de ser Plínio Marcos, Plínio Marcos, o povão não quer arte, quer palavrão.

No dia seguinte o Galego escreve com giz na tabuinha na porta do estabelecimento:

Prato do dia : Buchada de Bode, lentilhas, batatas ao murro e à noite “Navalha na Carne”

4 comentários:

MIRZE disse...

Adorei!

Concordo com essa troca. William Shakespeare poeta dos poetas, que me perdoe. Mas estamos no Brasil e nossa literatura é a mais rica.

Valeu, Galego:"NAVALHA NA CARNE" com batatas ao murro!

Muito BOM!

Parabéns, Roberto!

Beijos

Mirze

Ranzinza disse...

HAhahahahahah, o Velho Plínio lá onde ele estiver deve estar se contorcendo de rir

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Se vivo fosse, Plínio usaria tudo quanto fosse peça de grego para sacaneá-los, jogando na cara que eles não pagam conta nenhuma, que são uns perdulários do caralho. Mas que ainda assim não devem US$ 14 trilhões.

wolverine disse...
Este comentário foi removido pelo autor.