2011/03/01

A ARTE PERDIDA

- Minha arte me abandonou me deixou. Preciso me conformar com isso, preciso aceitar isso como se aceita a morte, o fim... Ela me deixou, ponto! Ando pela minha sala, nos quartos, no meu escritório, na estante, a prova cabal! Meus últimos trabalhos, ele me olham e penso que eles riem de mim, dizem entre si:

-Olhem pro fracassado!

É isso mesmo que eu sou um fracassado, um homem abandonado pela sua arte, abandonado com um João esperando pela sua Maria que foi buscar e pão e fugiu pro Norte, olho para meu último trabalho de sucesso – e ele julga, ele pensa que não percebo isso, mas eu percebo sim! -, quantos anos faz? Dez anos, não, uns oito anos, depois, a decadência, cada um pior que o outro, mas pobre, mais miserável, até que por fim, a pausa, a parada, o desespero de saber-se impotente, incapaz de fazer melhor...

-Minha arte me abandonou... – me sirvo de um uísque. E me pergunto de que valeu tantos anos de pesquisas na Amazônia..., Eu, eu que auxiliei - para não dizer que carreguei sozinho nas costas - explorador polonês Edmundo Bielawski nos anos sessenta, as picadas de mosquitos, tantas anotações, para no fim da vida descobrir que minha arte me abandonou...

Já evito andar pelas ruas, meus poucos – cada vez menos – amigos me cobram:

- E aí, nada de novo ainda?

Acabrunhado, com os dentes trincando. Morrendo de vergonha respondo:

- Minha arte me abandonou me deixou...

Como um corno, um homem traído, me retraio e fujo pelas sombras. Em casa, entocado entre as paredes – Meu Deus! Há quanto não pinto essas paredes? – passo horas e fitar minhas antigas obras na estante... Como faço para reaver minha inspiração? Como falo para voltar a ser o artista que fui um dia? Olho minhas mãos, meus dedos finos, as unhas aparadas, no grande espelho que reflete minha e duplica minhas obras, velho um homem cansado, frustrado, de olhos azuis profundamente encavados, emprestando uma fantasmagórica imagem de caveira...

Onde e quando e perdi minha arte? O que fiz? Onde errei com ela?

Sinto ganas de chorar, mas não, não chorarei, não entregarei meus pontos, sou um artista! Sou um artista, está ouvindo isso meu Deus? Artista!

Volto às minhas ferramentas de trabalho, limpo-as, pulo-as, manipulo-as com afeição, como se fizesse carinho na mulher amada...

- Quantas cabeças terão de rolar até reaver a minha arte. Quantas?

Mas não resisto e me entrego ao pranto e choro como uma criança, um amante que vê a mulher com um amante.

- Sou um fraco! – poderia arrancar meus olhos tamanho o desespero. Nunca mais produzirei, nunca mais nada de novo, nunca mais uma obra nova em minha estante, nunca mais me orgulhar diante de qualquer reflexo meu. Sou um grande nada!

Eu, eu, eu que já fui um grande artista na arte de encolher cabeças...

5 comentários:

Ale(atório) disse...

Ainda bem que esse cara não é você!

Ranzinza disse...

Humpf!

Folhetim Cultural disse...

Olá Ranzinza a internet aqui voltou que bom que você está postando sempre aqui! Sucesso amigo trago comigo boas novas

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Esse cidadão deveria fazer como o Embaixador Antonio Patriota, não ter nem TV nem computador em casa. A inspiração fluiria naturalmente na ausência da ignorãncia e da superficialidade.

Anônimo disse...

...mas isso é bom ou ruim?