2011/03/25

ANIVERSÁRIOS

Está certo eu vou! – respondi contrariado e de má vontade. Detesto, ou melhor, passei a detestar ir a aniversários, aniversários e qualquer outro tipo de comemoração em que eu tenha que ver pessoas que não quero ver. Não suporto quando chegam para mim e dizem:

- Engordou hein? Barba branquinha já hein? Falta muito para aposentar? – e o pior: - Já viu teu cunhado ai? Francamente... Mas como ela insistiu muito, pediu, quase chorou e ameaçou, resolvi ir. Mas eu sabia que não deveria ter aberto esse precedente, eu sabia...

Da rua já ouvia o pagode comendo solto, os gritos, as risadas, e o pior, o que só parecia ser um pagode era na realidade um karaoquê. Quis voltar dali mesmo, mas uma força maior que a minha me segurou belo braço e me puxou para dentro. Entrei no salão como um condenado sobe ao patíbulo. Olhei para os lados, não havia nenhuma outra porta que eu pudesse usar, as janelas eram altas e pequenas para meu tamanho, pensei nesse momento: O primeiro que me chamar de gordo morre aqui e agora.

Dei o primeiro passo em direção a uma mesa, uma no canto, perto das caixas de som. Dirigi-me para lá em passos ligeiros enquanto a mulher ia cumprimentar as irmãs e as sobrinhas. Sentei de costas para o salão, era o único nessa posição e rezei para que ninguém percebesse minha presença.

O sacrifício humano, digo, o karaoquê prosseguiu ainda por muito tempo. Serviram cerveja quente, que recusei; uísque paraguaio, que recusei; empadinha empapadas de gordura, que também recusei, eu me recusava a admitir que estava lá. Será que ninguém percebia isso?

Passado algum tempo, começaram a apagar as luzes para os parabéns, pensei ser essa a chance de sair correndo, empurrar quem quer que estivesse na frente e alcançar a rua. Outra ilusão perdida, pois minha mulher, outra vez ela, me pegou pelo braço e levou-me à mesa.

Cantaram “parabéns prá você” três vezes seguidas, pois a criança assustada não conseguia apagar a velinha e chorava convulsivamente. Discretamente empurrei minha mulher para o lado e fui, de costas, me esfregando à parede na ilusão de conseguir, feito uma barata deslizar para a porta da frente.

Estava com sorte, pensei, pois até agora ninguém deu pela minha presença. Uma vez na porta, corri para a rua e acendi um cigarro. Me pergunto como podem falar mal de um companheiro tão fiel como ele. Enchi o pulmão de fumaça e a expeli com volúpia. Logo, vendo que a coisa seguiria longe ainda, acendi outro e fumei com mais calma e prazer redobrado... Olhei o relógio e me perguntei quanto tempo mais teria de sossego antes que minha mulher viesse me puxar pelo braço para dentro do salão outra vez.

Terminei o cigarro e fiquei vendo os carros passarem na rua, contei os ônibus e calculei em quanto tempo eles completavam o percurso da linha, fiquei vigiando os guardadores de carro, fui até o pipoqueiro, atravessei para o outro lado da rua e acendi outro cigarro. Nesse momento começo a sentir no meu íntimo que estava nos momentos finais de minha alegria. Mal terminei o pensamento e uma voz me chama para dentro da festa.

- Estão servindo o bolo!

Como se eu tivesse saído de casa para comer bolo regado a pagode, bebedeira e gente dançando bêbadas e descalças...

E lá estava eu com um pratinho de plástico azul, um pedaço pequeno de bolo com quilômetros de glacê derretendo, dois brigadeiros quadrados, um beijinho onde haviam economizado no côco e um cajuzinho sem o amendoim na ponta. Olhava em volta procurando um lugar para depositar o prato e toda aquela hecatombe açucarada.

Segui outra vez rastejando pelas paredes, pelas partes escuras e com cortinas do salão até porta. Precisava ir ao bar da esquina tomar uma água mineral.

Ao chegar à porta, agoniado, sinto outra vez minha mulher pegar meu braço, mas para meu alívio Ela me diz:

- Vamos embora, a festa acabou.

Aliviado entro no carro, dou a partida e antes de chegar em casa indignado desabafo com minha mulher.

- É prá isso que me leva nas festas da sua família? Todo mundo me ignorou lá dentro!

Acho que ainda tem mais uns dez aniversários daqui até o fim do ano...

5 comentários:

solaris disse...

Pois é Srº Ranzinza, as coisas são assim mesmo, karaokê é uma lástima e pagode então..mas o pq do aborrecimento? afinal todo mundo te ignorou, Seja feita a vossa vontade..ahahahahaha

solaris disse...

"A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem. "
(Guimarães Rosa)

Ranzinza disse...

Belíssíma citação!
Espero vê-la aqui mais vezes.

solaris disse...

Verá***

Ranzinza disse...

Ótimo!