2011/01/06

CELESTINO

DRAMA RELÂMPAGO E METAFÍSICO



Som de choro, soluços e fungadas de nariz.
A mocinha, vamos chamá-la de Eleonice, ainda esfrega o rosto da última bofetada.
Começa a chorar, quando a porta da sala é aberta de forma brusca e entra Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Eleonice, o que te aconteceu?

Eleonice – O Celestino esteve aqui hoje e... - Empurrando os cabelos louros para trás, chora e gagueja.

Jurandyr Tosco – Celestino? Aqui? Como você pode permitir que ele atravessasse o umbral de nosso lar? – irado, ele grita – eco.

Eleonice tenta falar algo, mas é interrompida por uma outra bofetada violentamente desferida em seu rosto por Jurandyr Tosco, aumentando ainda mais o hematoma sob o olho direito.
Ela cai ao chão e rola até ser amparada pela parede pintada de amarelo canário do quarto de visitas, derrubando pelo caminho a mesinha de centro, vinte e dois bibelôs de cristal, uma ou duas cadeiras de cana da índia e por fim uma replica de o Triunfo da Morte de Bruegel, comprado numa feira de praia...
Jurandyr Tosco, chocado com a destruição dos bibelôs, presente de sua mãe para Eleonice, destrói todos os CDs e DVDs de Celine Dion que Eleonice tocava na hora em que ambos faziam amor. Antes de sair do apartamento, ele dá uma última olhada na mulher caída no chão coberta de cacos de cristal e uma tela atravessada na cabeça.

Jurandyr Tosco – Pobre Bruegel, sempre achei que você merecia sorte melhor. Ele sai e bate a porta.

Som de porta batendo.

O vizinho do terceiro andar reclama do barulho e ameaça começar uma confusão logo resolvida pela violência inerente de Jurandyr Tosco.

Eleonice– Jurandyr, esse teu mau gênio será o nosso fim... – fala chorando

Fim do Primeiro Ato

SEGUNDO ATO


Eleonice – Ainda chorando e maquiando o olho inchado – Pleno Segundo Ato e ninguém faz idéia de meu drama.

Toca o telefone.

Ela dirige-se à mesinha caída no chão e atende o aparelho.

Eleonice - Alô¬? Quem fala?

Toca a campanhinha, o fax dá sinal, a televisão liga sozinha, o vizinho do terceiro andar reclama, as flores nos vasos murcham, e a unha do de dedo anular direito quebra.
Eleonice – Minha unha nããããão – terminem esse ato, terminem esse ato, por favor. Uma voz poderosa vinda de todos os lugares responde.

Voz – Não! The Show Must Go On!

Eleonice – chorando - por favor mudem esse roteiro, aqui eu só sofro, choro, apanho, e acabaram de destruir meu cenário no primeiro ato. Por favor, eu sou linda, rainha da laje 2009, eu mereço o melhor, o melhor, o melhor – ri loucamente...

Voz – Luzes... Apaguem!
Som de objetos caindo.

Eleonice – Força Superior, eu te odeio, eu te odeio, entenda bem isso, eu te odeio.

Som de porta sendo chutada.

Entra Jurandyr Tosco mais furioso que o seu normal.

Jurandyr Tosco – Eleonice, responda-me o que eu estou fazendo aqui? Eu estava no aeroporto, quase embarcando no avião e quando dou por mim o que acontece? O que acontece é que me vejo entrando nesse apartamento, nesse maldito apartamento onde você me traiu com o Celestino.
Música dramática.

Eleonice – eu nunca o trai com o - interrompida por outra bofetada de Jurandyr Tosco.

Ela cai sobre a mesinha do telefone outra vez , mas em vez de chorar agora ela ri, ri e gargalha histericamente.

Jurandyr Tosco – Com essa gargalhada devo entender que você admite ter me traído com o Celestino?

Eleonice – rindo e corando ao mesmo tempo - não, Jurandyr, rio sim, mas rio de meu destino. Saiba você, Jurandyr Tosco, que há muito mais mistério entre o céu e a terra que pode entender sua vã – interrompida por outra bofetada de Jurandyr Tosco.
Jurandyr Tosco – Quantas vezes já lhe falei para nunca, nunca e nunca me chamar de ignorante! – Dá-lhe outra bofetada e sai do apartamento.
Som da porta batendo e voz do vizinho do terceiro andar reclamando do barulho, seguido de som de porradas.
Eleonice – gritando - Ok, ok, você me provou que existe uma força superior, que você pode mandar no meu destino, destruir minha vida quando bem entender, e daí? Me responda, o que você quer provar? Me diga!

Voz – Eu não me reporto a ninguém, não me explico a ninguém, sou um ser superior, muito superior a você, sua criaturazinha inferior e ridícula.

Som da porta da sala sendo aberta outra vez, e outra vez entra Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Eleonice, não quero mais te dar porrada, tenho um avião para pegar e nunca mais quero ver a sua cara e esse apartamento onde você me traiu com o Celestino.

Eleonice – Mas é que, Celestino – outra vez interrompida por outra porrada de Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – gritando - Nunca mais pronuncie esse nome na minha frente, nunca mais.
Eleonice – Jurandyr, você não está entendendo – interrompida por um chute.

Jurandyr Tosco – furioso – Não me chame de ignorante, não me chame de ignorante, já te pedi, não me chame de ignorante – chuta o que restou da mesinha de centro – som do aparelho telefônico caindo ao chão.
Eleonice – Jurandyr, entenda que somos meros fantoches nas mãos de seres superiores, não somos donos de nosso destino, não temos livre arbítrio nenhum, tem alguém lá em cima – interrompida por outra porrada.
Jurandyr Tosco – Então é lá em cima que o celestino está morando? O sacana mudou-se pro quinto andar? Tá aí um lugar que eu nunca pensaria em procurá-lo – interrompido por Eleonice.

Som de outro chute.

Jurandyr Tosco – Nunca me interrompa, tenho poucas falas nesse drama e você ainda me interrompe?

Eleonice – É isso mesmo Jurandyr, isso aqui é um drama, um drama escrito por uma entidade muito superior que nós todos, tanto os que estão aqui deste lado como os que estão nos lendo, vendo ou ouvindo agora.

Jurandyr Tosco – nervoso – Pare com essa conversa, mulher, para agora, você está tentando me confundir.
Eleonice – Se é verdade que eu quero te confundir, suba até o quinto andar, procure pelo celestino.. - interrompida por um soco de Jurandyr.

Jurandyr Tosco – eu sabia que se te apertasse bastante você se entregaria. Então é aqui em cima mesmo que mora o tal do Celestino. Pois vou lá agora acabar com esse miserável.
Jurandyr Tosco sai intempestivamente batendo a porta e fazendo o vizinho do terceiro andar reclamar. Logo ele volta, nervoso e chutando a porta, que dessa vez cai definitivamente.
Jurandyr Tosco – Eleonice, nesse prédio não tem quinto andar. Me diga onde mora esse Celestino, me diga logo, eu tenho um avião prá pegar e eu perder esse vôo nem sei do que sou capaz de fazer. Me diga onde eu encontro o Celestino?


FIM DO SEGUNDO ATO


TERCEIRO E DERRADEIRO ATO
Deus ex-machina



Eleonice – Ok Celestino, ok, você provou seu ponto de vista O Jurandyr é a besta que você falou, ele é limitado, irracional e incapaz de compreender algum coisa metafísica, e que eu tenho muita resistência física, mas não vou me dedicar o Box-tailandês.

Jurandyr Tosco – Com quem você esta falando, ficou louca de vez? Para de falar com o teto! Eleonice, com quem você está falando? – Demonstrando medo pela primeira vez nesse drama - Que história é essa de se dedicar ao Box-tailandês?

Eleonice – Agora que você provou que está certo, será que você poderia dizer pro Jurandyr quem é o celestino?

Voz – Jurandyr – que corre a se esconder sob o que sobrou do sofá – Jurandyr Tosco, eu só fiz uma aposta com a Eleocine, que você irracional como é nunca compreenderia um drama metafísico como esse. Você foi uma falha na minha produção, mas antes de descartar-te resolvi provar que você realmente não tinha solução, e assim sendo, decido que vou apagá-lo desse texto, a partir de agora você não existe mais.

Toca a campainha e Eleonice, desligando a televisão, levanta-se para atender.


FIM

2 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Conheci um Celestino que era dentuço como o coelhinho da Páscoa.

MIRZE disse...

SALVA pela PORTA!

Odeio violência!

Mesmo em drama!

Beijos

Mirze