2014/02/28

GUARDE A ÚLTIMA MÚSICA PARA MIM


Dançou aquela música com toda a sua alma
E o corpo...
O corpo ficou largado na pista
Pela manhã a faxineira há de varrê-lo para a rua


2014/02/26

MEÇA BEM SUAS PALAVRAS, ALGUÉM LÁ EM CIMA PODE OUVIR...



Suas cinzas
Misturadas à areia da praia
Era prova cabal
Que sua blasfêmia foi ouvida



PORQUÊ MEU DEUS, PORQUÊ INSISTO?




E então na enésima música Wandeco, nervoso, sai com essa:
- Se eu gostasse de ouvir as letras de uma música eu leria um livro, o que eu quero é um solo de guitarra!
Guardei meus discos da Nana e fui-me embora.



2014/02/21

MEU MAL



O que, dizem, me matará
Não é a amargura que rói e destrói tantas pessoas
Meu mal é doce
Meu mal é o doce
Nem amargurado fico...


- E agora? Quem apagará as velinhas?



Na sala os convidados
O bolo, presentes e docinhos
No quarto balança o corpo



2014/02/17

DESABAFO

Ontem ensaiamos pela ducentésima milésima vez nossa separação. Depois de uma longa sequência de bilhetes na porta da geladeira, mensagens escritas com batom no espelho do banheiro e papeiznhos passados sob as portas do apartamento.


Quando chegou em casa às oito e trinta e sete da noite, eu já havia levado o Toby para passear na rua, chovia, estava na TPM, torcido o pé num buraco cheio d’água e dolorida, ele me pegou arrumando as suas (na verdade minhas, minhas!!) malas dele. Tirei tudo dos armários que joguei sem nenhum cuidado nas ditas malas.

Confesso que chorava...

Com os olhos embaçados vejo o miserável sair do banho totalmente careca.

Antes que ele proferisse qualquer palavra eu o desarmei dizendo que não acreditaria em mais uma mentira sobre sua revelação espiritual. – Sim, a cada briga e separação ele se descobria numa nova fé, e prometia que tudo seria diferente, numa dessas ele “doou” meu carro a uma igreja dessas neopentecostal...

Mas sabe qual foi a resposta ele? Qual?

- "Vamos jantar fora?".

Por um segundo, um mísero segundo eu perdi as estribeira e gritei:

- Toby! – nosso (ele arrumou e logo se tornou “nosso”) poodle aparece balançando o toquinho de rabo. Eu o peguei pelo pescoço, e numa calma assassina, levei-o à janela e perguntei se nessa nova religião, ele levaria o cachorro para passear na rua, pois nas outras quem fazia isso era, assim como era eu quem enchia a geladeira, assim como era eu quem comprava malas, trazia dinheiro e tudo mais (entenda como quiser esse tudo mais).

Ele, coçando a cabeça recém-raspada me olhava atônito. Ele olhava para mim, e olhava para o Toby quando fiz menção de soltar o pobre animal ele correu para as malas, colocou-as sob o braço e disparou para fora do MEU apartamento.

Sabe, eu sempre soube que sofro de uma tendência, um radar interno totalmente involuntário, de atrair os loucos - especialmente aqueles que ainda não sabem que são loucos. Mas isso foi muito além do esperado, talvez ele esteja querendo amalucar-me...

Mas...

...se esse era o seu desejo, ah!, ele foi realizado, pois por poucos segundos ele não foi atingido pelo vaso que joguei pela janela no lugar do pobre Toby, que agora, assustado comigo, não há quem o tire debaixo da cama, ainda por cima, do lado dele!

Mundo injusto esse em que vivo...

Minha vingança, se é que se pode configurar com tal, é a lembrança de uma conversa muito esquisita que tivemos no começo de nosso relacionamento, juro que ainda escrevo a respeito um dia...

Estávamos sentados juntinhos (no começo tudo são flores mesmo) comendo pipoquinha, cobertos com uma mantinha quando ele faz o seguinte comentário:

- Sabe querida (no começo era querida, queridinha, minha flor etc, etc, mas isso não durou seis meses) sempre que vejo musicais, me lembro de uma implicância de meu pai. Ele me proibiu na minha juventude de ser dançarino de axé, ele achava que eu viraria homossexual... Não posso deixar de pensar que se não fosse por ele hoje eu poderia estar com um homão desses ai do filme...

Até hoje essa conversa me deixa inquieta.

O telefone toca.

Atendo.

Chamada a cobrar.

Desligo

Hoje volto ao crochê!

2014/01/30

FUMAÇAS - OU UM DIÁLOGO IMPOSSÍVEL

- Não estou fumando não mãe, é um dragão debaixo da cama!
- Não minta menino, teu avô matou o último deles a chineladas quando eu tinha a sua idade.

PALAVRAS

Semeei palavras
Papagaios as comeram
Hoje falam sem parar

2014/01/29

2014/01/21

SILÊNCIO


No silêncio
De seus olhares
Naquela sequência
De reticências
Palavras amargas
Envenenavam seus fígados.



2013/10/07

NO ANTIQUÁRIO À HORA DO ALMOÇO


Caminhando sob a chuva
Fina
O velho  Comandante reclama
Queixa-se de aflições
Tantas, ele as enumera
Conta e suspira seus ais
Rezinga e maldiz seus dias finais
(que se arrastam e demoram a chegar ao dia derradeiro)
A barriga grande
Os cabelos já brancos
Os pés chatos
(até mais chatos que ele mesmo, confessa-me)
Ao passar por um velho antiquário
Entra para refugiar-se da pluviosidade
E uma vez lá dentro
Viaja a um passado alheio
Ignoto, que não é seu
Vislumbra móveis e quinquilharias pretéritas
Respira fundo o cheiro de tempos outros
Toca com cuidado religioso as relíquias à venda
Seus olhos rasos de lágrimas
Vasculham preços e datas
E então
Num relâmpago
Como que sob uma iluminação
Quase religiosa
Ele vê
Ele se encanta
Ele é tomado pelos fantasmas do passado
E senta-se a uma vetusta cadeira
Vermelha
E em transe
Fecha os olhos
Entrega-se a uma viagem espiritual
Desce aos infernos do velho antiquário
Imóvel deixa sua alma vaguear pelo éter...
Passando alguns minutos
O velho Caronte o devolve
E impulsionado como por uma mola
Invisível
Ele arrebatado grita:
- Vou comprar.
(paga com cartão – débito)
E tornando à rua ainda
Chuvosa
Ele segue com a encarnada cadeira
Sobre a vetusta cabeça encanecida
E aos passantes ele, de olhos arregalados clama:
- Ela é o meu remédio!
Da porta da loja
Velhos fantasmas lhe acenam adeus...



2013/09/27

ABSURDO, MAS ÚTIL




Fevereiro, meio-dia, sol  a pino, sem uma sombra nas ruas, Josélio fechou as cortinas e declarou:
- Boa noite! - ele abriu o gás.
O silêncio caiu, e todos dormiram felizes para sempre...


2013/09/23

ANDORINHAS



Já conheço os segredos das andorinhas
Eu as ouço chilrear todas as manhãs
Na caixa do ar-condicionado de meu quarto


2013/09/04

Cigarros


A quantidade de bitucas no cinzeiro testemunhavam a sua insônia, as manchas amarelas nos dedos, seu vício.