2013/08/02

FRAUDE

                                                                                    

Seu grande sonho, desde a mais tenra idade, era ser caçador.

- Maldito Jim das Selvas! – ele sempre repetia isso quando ficava de mal humor.

Ele tem em sua sala de estar trinta e três baratas empalhadas em três potinhos de maionese light, cento e dois tipos de borboletas, sendo que nenhuma é azul, em molduras espalhadas pelas paredes – ele nunca se apaixonou de verdade; quatro ratazanas albinas, duas lagartixas - uma malhada; dois gatos, sendo um siamês, um cavalo – que ele não conta a ninguém, mas já o achou morto numa rua, todos empalhados também, e na parede uma foto de Ernest Hemingway. Na mesa de carvalho um cinzeiro nunca usado e uma caixa de charutos nunca aberta.
Todo o dia ao acordar abre as janelas do quarto suspira fundo e reclama baixinho:

-Sou uma fraude!

Veste seu roupão e desce para o café...

***

Então um dia, entre uma taça de conhaque e outra, desabafou:

-Sempre, sempre odiei o Alberto, sempre. Ele sempre foi o mais bonito da classe, o mais elegante, o mais bem vestido, mais bem penteado, sempre com aquele porte de Apolo de subúrbio, sempre sorrindo, sendo o primeiro da classe, sempre o primeiro a responder, sempre simpático comigo e com todos, sempre pagando a primeira rodada de café, aposto que quando ele peidava, soltava perfume de rosas... Mas agora estou feliz, soube que ele está com problema de próstata! E pensar que devo meu diploma a ele...

Esvaziou mais três taças de conhaque, amarrando o roupão foi ao terraço, de lá olhando para seu jardim resmungou:

- Morro velho e não conhecerei os prazeres de se caçar na África...

Voltando-se para dentro da casa gritou com o primeiro serviçal que passou pela sua frente.

***

Numa madrugada dessas, encharcado de suor ele acorda aos gritos de:

- Coelhos não miam, coelhos não miam, coelhos brancos não miam, coelhos pretos não miam, coelhos malhados ou albinos não miam!

De manhã não tomou café e trancou-se na sala de troféus.
Gervino, o serviçal, receoso do humor do patrão, nem lhe entregou o exemplar do Diário Oficial da União, recém-entregue, e da porta da sala eu ouvi o patrão arengar:

- Coelhos não miam, coelhos não miam, coelhos brancos não miam, coelhos pretos não miam, coelhos malhados ou albinos não miam!

O dia prometia ser horrível...

***

10 na cabeça!


3 comentários:

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Gervino acertou no bicho!!!!!!!!!!!

Ranzinza disse...

Ou não!

Anônimo disse...

Agora vc está perdido... adicionado no meu feeds já que não me escreve mais por email...