2009/08/26

UM ESTRANHO NA CIDADE



Uns diziam que ele havia chegado às seis horas da manhã, com um capotão grosso de lã, chapéu preto de abas largas – parecia até um corvo – dizia Dircinha do Feijó; botas sete léguas e cara de mau, muito mau mesmo.

Já outros – sempre tem “os outros” – diziam que ele chegou de carro – que marca? – e alguém aqui nesse fim de mundo entende de marca de carro?, basta não ter uma mula, cavalo ou burro puxando, que vira carro na língua desse povinho – vermelho, vermelho pecado - olha ai outra vez as expressões que essa gentinha usa – e passou voando pela praça levantando uma poeira danada – como se fosse preciso passar alguma coisa voando prá levantar poeira aqui...

A verdade é que ninguém entendeu o que foi que aconteceu mesmo. Sabe-se somente que um estranho passou pela cidade, se a pé, lombo de burro ou carro, sabe-se que ele passou por aqui. A poeira no ar não prova muita coisa, até galinha ciscando aqui levanta pó da rua.

O estranho, além de um estranho aqui na vila, foi o sujeito estar usando um capote daquele de lã com um calorão desses. Imagine, até as árvores estão se desfolhando por causa da canícula...

Seu Jorginho da Ceição, acha que ele estava carregando uma arma dentro da roupa, e começou a contar pela milionésima vez o único filme (que era de gângster) que ele assistiu na vida num cinema na capital, e lembra até hoje aquela comida branca e salgada que comeu lá. Apostava que era uma “vingester”, nem sabia pronuncia “winchester” e pôs-se a falar, falar e falar até que Ceição o mandou prá dentro lavar as roupas que precisavam ser entregues amanhã. – Esse homem não para de falar nesse filme há trinta e dois anos, trinta e dois anos ouvindo isso – e olhando pros lados disse:

- Vô lhe contar um segredo, tô guardando dinheiro pra levar ele no cinema da capital no Natal, tomara que ele mude o “disco” depois disso.

Na rua em frente ao Bar do Tadeu, o povinho se reunia e acrescentava mais histórias sem sentido nesse acontecimento mundano.

Houve quem dissesse que o eclipse tinha sido culpa do estranho, seu Mundinho Meloso (Raimundo pra patroa quando ele chega bêbado em casa) reclamou que o sujeito tinha roubado a sua aposentadoria quando tudo ficou escuro. Todos riram. O velho Meloso, nunca via a cor da aposentaria, que ia direto pro bolso de Dona Lindoca, e chorava essa velha história na ilusão de convencer alguém a lhe pagar outra birita.

Antes que o senhor se pergunte desse eclipse já lhe respondo. Nada entendo das vontades do “Grande Arquiteto” – li isso nas “Seleções” na barbearia do Astolfo Alemão - se Ele resolveu apagar o dia por uns minutos, Ele deveria ter lá suas razões, fosse por economia de sol, fosse prá assustar seu Mundinho Meloso, tudo que posso afirmar é que realmente houve um eclipse, mas que ninguém, eu posso jurar com a mão sobre a bíblia, que ninguém foi roubado pelo estranho, até porque, verdade seja dita, quem não estava no Bar do Tadeu, correu pra se abrigar na Igreja...

Quando o sol voltou e o céu ficou azul de novo, as galinhas acordaram pela segunda vez nesse dia e começaram a ciscar e cacarejar como se nada tivesse acontecido – como esses bichos tem coisas a nos ensinar! – Aí os sinos tocaram como se anunciassem um novo mundo, as velhas corocas, - com exceção de Dona Marciana, cada dia mais linda, que acordando àquela hora, não se apercebeu de nada e perguntou se tinha se levantado muito cedo para acordar com os sinos da Igreja – correram de volta à rua.

- Como? Acho que não entendi a pergunta de Vossa Autoridade. O que foi que aconteceu com o estranho? Sei não. Foi tanto alvoroço, tanto diz-que-me-diz, que o homem entrou e saiu da cidade sem ninguém saber quem ele era, mas na minha opinião, se é que o eu posso dar a minha opinião, eu acho que o estranho entrou na bifurcação errada, à esquerda, e veio parar nesse fim de mundo por engano... As vezes isso acontece, até me lembro que em mil novecentos e setenta e cinco...

2009/08/20


CRIAÇÃO



...onde eu estava mesmo quando a campainha tocou? Deixe-me ver nas anotações. Cavalos mortos, tiros, fumaças, gritos, hum..., acho que isso já foi escrito antes em outro conto, vejamos, vamos continuar procurando. Tenho que encontrar minhas anotações, um dia desses vou ter que começar a me tornar metódico..., mas alguém se torna metódico ou já nasce assim? Se for o caso de nascer assim, vou ter que revirar as outras caixas...

Será que eu estava escrevendo sobre pescaria? Joga linha, puxa linha, torna a jogar e torna a puxa, e peixe que é bom mesmo, neca! Não, esse já está escrito! Tabernas mal-assombradas? Anjos, demônios, apocalipses? Hum...

Mas como é possível acontecer uma coisa dessas?

Num momento estou digitando feito um possesso, a história desenvolvendo-se no monitor, uma página, duas, três, toca a campainha, levanto para atender, procuro pela chave, onde larguei a bendita chave, reviro os bolsos da calça, nada, o bolso do blazer, nada, vou à bolsa, nada, então a encontro sobre o fogão. Não, não quero nem imaginar como ela foi para lá, a campainha continua a tocar, abro a porta, desse canto da sala consigo ver o notebook e a tela, nela o texto.

A campainha toca mais uma vez enfim abro aporta, era uma entrega, assino o recibo, pego o pacote, procuro um lugar na sala onde pô-lo, não acho e deixo em cima do fogão lá na cozinha.

Pronto refiz meus passos.

Mas nada de me lembrar onde deixei as anotações, e olhando para o conto na tela, não consigo achar uma solução para ele.

Continuar como? Como terminar?

Terremoto?

Não, muito usado e mal visto, falta de imaginação de um sujeito que se diz escritor.

Incêndio?

Não!

Já usei esse expediente e mesmo assim depois descobri que o vilão da história não só tinha sido o único a sobreviver, como ainda mudou de nome, cultivou um bigode cafajeste e se meteu num outro conto...

Reler.

Reli e acho que o mundo não perdeu grande coisa mesmo, uma história sem sal, sem pé e nem cabeça, creio até que fui salvo pela campainha, agora até me arrependo de não ter dado uma gorjeta decente pro garoto em vez de uns papeizinhos..., papeizinhos..., papeizinhos...

Corro à janela, mas o entregador já está longe demais...

A PESCA



Enrolava a linha em volta da garrafa, molhada e já cheirando a mar, pescava com linhada, que dava mais prazer que vara e carretilha.

Rodou sobre a cabeça a chumbada, deu uma, duas, três voltas no ar e lançou-a ao mar.

Esperou uns minutos, nada dos peixes beliscarem a isca. Tornou a puxar a linhada, enrolar na garrafa e lança de novo n’água.

Assim passou toda a tarde.

Não tinha pressa nenhuma de voltar para casa. Olhou em volta procurando o cachorro, e o viu correndo atrás de gaivotas, latindo feliz da vida, indo e vindo atrás das aves. Só se ouvia o barulho das ondas e o latido do cão. Isso era bom, e sorria pensando no alvoroço que deveria estar em sua casa a essa hora. Gente falando alto, crianças correndo, os velhos gritando para se fazerem ouvir.

Suspirou e jogou a chumbada de volta à água, a linha corria e espalhava água salgada para os lados, nesse momento tocou o celular, viu que era a mulher procurando por ele.

Pensou se deveria atender ou não.

Não atendeu.

- Parou de tocar, - vai ver a mulher cansara de esperar que ele atendesse.

Recolheu a linha mais uma vez, nada de peixe, só água salgada e algumas algas. O cachorro continuava a correr atrás das infelizes gaivotas, estava molhado e sujo de lama, teria que tomar banho quando voltasse para casa.
Sorriu outra vez vendo a imensa alegria do cão. Novamente o celular tocou, sem pensar, quase como um reflexo, jogou o parelho no mar, em segundo depois arrependeu-se, teria que comprar outro agora.

- Mas que diabo a mulher tinha que ligar tanto?

Recolheu a linha, estava mais desanimado ainda com a pescaria. Não estava lá só para pescar, queria mesmo era ficar sozinho com seus pensamentos, os peixes seriam um bônus, mas essa chamada insistente da mulher...

Colocou o camarão no anzol, girou a chumbada sobre a cabeça e arremessou o mais longe possível, e esperou. Para seu espanto a linha deu um tranco, e ele imediatamente começou puxá-la.
Puxou, puxou e por fim na ponta da linha aparece um peixão, o cachorro parou a sua tola correria e veio ver o que o dono tinha conseguido, sentou-se ao seu lado abanando o rabo, quando o dono coçou-lhe a cabeça e as orelhas.

O sol começa a se pôr, o dono pergunta ao cachorro se deve continuar tentando mais um peixe antes de voltar para casa, em resposta o cachorro sai correndo para se divertir com as gaivotas.

O velho sorrindo começa a enrolar a linha em volta da garrafa...

2009/08/17

CELESTINO
DRAMA RELÂMPAGO E METAFÍSICO



Som de choro, soluços e fungadas de nariz.
A mocinha, vamos chamá-la de Eleonice, ainda esfrega o rosto da última bofetada.

Começa a chorar, quando a porta da sala é aberta de forma brusca e entra Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Eleonice, o que te aconteceu?

Eleonice – O Celestino esteve aqui hoje e... - Empurrando os cabelos louros para trás, chora e gagueja.

Jurandyr Tosco – Celestino? Aqui? Como você pode permitir que ele atravessasse o umbral de nosso lar? – irado, ele grita – eco.

Eleonice tenta falar algo, mas é interrompida por uma outra bofetada violentamente desferida em seu rosto por Jurandyr Tosco, aumentando ainda mais o hematoma sob o olho direito.
Ela cai ao chão e rola até ser amparada pela parede pintada de amarelo canário do quarto de visitas, derrubando pelo caminho a mesinha de centro, vinte e dois bibelôs de cristal, uma ou duas cadeiras de cana da índia e por fim uma replica de o Triunfo da Morte de Bruegel, comprado numa feira de praia...

Jurandyr Tosco, chocado com a destruição dos bibelôs, presente de sua mãe para Eleonice, destrói todos os CDs e DVDs de Celine Dion que Eleonice tocava na hora em que ambos faziam amor. Antes de sair do apartamento, ele dá uma última olhada na mulher caída no chão coberta de cacos de cristal e uma tela atravessada na cabeça.

Jurandyr Tosco – Pobre Bruegel, sempre achei que você merecia sorte melhor. Ele sai e bate a porta.

Som de porta batendo.

O vizinho do terceiro andar reclama do barulho e ameaça começar uma confusão logo resolvida pela violência inerente de Jurandyr Tosco.

Eleonice– Jurandyr, esse teu mau gênio será o nosso fim... – fala chorando

Fim do Primeiro Ato


SEGUNDO ATO




Eleonice – Ainda chorando e maquiando o olho inchado – Pleno Segundo Ato e ninguém faz idéia de meu drama.
Toca o telefone.

Ela dirige-se à mesinha caída no chão e atende o aparelho.

Eleonice - Alô­? Quem fala?

Toca a campanhinha, o fax dá sinal, a televisão liga sozinha, o vizinho do terceiro andar reclama, as flores nos vasos murcham, e a unha do de dedo anular direito quebra.

Eleonice – Minha unha nããããão – terminem esse ato, terminem esse ato, por favor. Uma voz poderosa vinda de todos os lugares responde.

Voz – Não! The Show Must Go On!

Eleonice – chorando - por favor mudem esse roteiro, aqui eu só sofro, choro, apanho, e acabaram de destruir meu cenário no primeiro ato. Por favor, eu sou linda, rainha da laje 2009, eu mereço o melhor, o melhor, o melhor – ri loucamente...

Voz – Luzes... Apaguem!

Som de objetos caindo.

Eleonice – Força Superior, eu te odeio, eu te odeio, entenda bem isso, eu te odeio.
Som de porta sendo chutada.

Entra Jurandyr Tosco mais furioso que o seu normal.

Jurandyr Tosco – Eleonice, responda-me o que eu estou fazendo aqui? Eu estava no aeroporto, quase embarcando no avião e quando dou por mim o que acontece? O que acontece é que me vejo entrando nesse apartamento, nesse maldito apartamento onde você me traiu com o Celestino – Música dramática.

Eleonice – eu nunca o trai com o - interrompida por outra bofetada de Jurandyr Tosco.
Ela cai sobre a mesinha do telefone outra vez , mas em vez de chorar agora ela ri, ri e gargalha histericamente.

Jurandyr Tosco – Com essa gargalhada devo entender que você admite ter me traído com o Celestino?

Eleonice – rindo e corando ao mesmo tempo - não, Jurandyr, rio sim, mas rio de meu destino. Saiba você, Jurandyr Tosco, que há muito mais mistério entre o céu e a terra que pode entender sua vã – interrompida por outra bofetada de Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Quantas vezes já lhe falei para nunca, nunca e nunca me chamar de ignorante! – Dá-lhe outra bofetada e sai do apartamento.

Som da porta batendo e voz do vizinho do terceiro andar reclamando do barulho, seguido de som de porradas.

Eleonice – gritando - Ok, ok, você me provou que existe uma força superior, que você pode mandar no meu destino, destruir minha vida quando bem entender, e daí? Me responda, o que você quer provar? Me diga!

Voz – Eu não me reporto a ninguém, não me explico a ninguém, sou um ser superior, muito superior a você, sua criaturazinha inferior e ridícula.

Som da porta da sala sendo aberta outra vez, e outra vez entra Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – Eleonice, não quero mais te dar porrada, tenho um avião para pegar e nunca mais quero ver a sua cara e esse apartamento onde você me traiu com o Celestino.

Eleonice – Mas é que, Celestino – outra vez interrompida por outra porrada de Jurandyr Tosco.

Jurandyr Tosco – gritando - Nunca mais pronuncie esse nome na minha frente, nunca mais.

Eleonice – Jurandyr, você não está entendendo – interrompida por um chute.

Jurandyr Tosco – furioso – Não me chame de ignorante, não me chame de ignorante, já te pedi, não me chame de ignorante – chuta o que restou da mesinha de centro – som do aparelho telefônico caindo ao chão.

Eleonice – Jurandyr, entenda que somos meros fantoches nas mãos de seres superiores, não somos donos de nosso destino, não temos livre arbítrio nenhum, tem alguém lá em cima – interrompida por outra porrada.

Jurandyr Tosco – Então é lá em cima que o celestino está morando? O sacana mudou-se pro quinto andar? Tá aí um lugar que eu nunca pensaria em procurá-lo – interrompido por Eleonice.

Som de outro chute.

Jurandyr Tosco
– Nunca me interrompa, tenho poucas falas nesse drama e você ainda me interrompe?

Eleonice – É isso mesmo Jurandyr, isso aqui é um drama, um drama escrito por uma entidade muito superior que nós todos, tanto os que estão aqui deste lado como os que estão nos lendo, vendo ou ouvindo agora.

Jurandyr Tosco – nervoso – Pare com essa conversa, mulher, para agora, você está tentando me confundir.

Eleonice – Se é verdade que eu quero te confundir, suba até o quinto andar, procure pelo celestino.. - interrompida por um soco de Jurandyr.

Jurandyr Tosco – eu sabia que se te apertasse bastante você se entregaria. Então é aqui em cima mesmo que mora o tal do Celestino. Pois vou lá agora acabar com esse miserável.
Jurandyr Tosco sai intempestivamente batendo a porta e fazendo o vizinho do terceiro andar reclamar. Logo ele volta, nervoso e chutando a porta, que dessa vez cai definitivamente.

Jurandyr Tosco – Eleonice, nesse prédio não tem quinto andar. Me diga onde mora esse Celestino, me diga logo, eu tenho um avião prá pegar e eu perder esse vôo nem sei do que sou capaz de fazer. Me diga onde eu encontroo Celestino?

FIM DO SEGUNDO ATO




TERCEIRO E DERRADEIRO ATO
Deus ex-machina


Eleonice – Ok Celestino, ok, você provou seu ponto de vista O Jurandyr é a besta que você falou, ele é limitado, irracional e incapaz de compreender algum coisa metafísica, e que eu tenho muita resistência física, mas não vou me dedicar o Box-tailandês.

Jurandyr Tosco – Com quem você esta falando, ficou louca de vez? Para de falar com o teto! Eleonice, com quem você está falando? – Demonstrando medo pela primeira vez nesse drama - Que história é essa de se dedicar ao Box-tailandês?

Eleonice – Agora que você provou que está certo, será que você poderia dizer pro Jurandyr quem é o celestino?

Voz – Jurandyr – que corre a se esconder sob o que sobrou do sofá – Jurandyr Tosco, eu só fiz uma aposta com a Eleocine, que você irracional como é nunca compreenderia um drama metafísico como esse. Você foi uma falha na minha produção, mas antes de descartar-te resolvi provar que você realmente não tinha solução, e assim sendo, decido que vou apagá-lo desse texto, a partir de agora você não existe mais.

Toca a campainha e Eleonice, desligando a televisão, levanta-se para atender.


FIM

2009/08/12

Essa é dos tempos do Contos & Cultos



"... é desconcertante rever um grande amor"

Vou começar parafraseando um trecho da música "Anos Dourados" do Chico Buarque e Tom Jobim: "... é disconcertante rever um grande amor". Isso é para ilustrar uma situação ocorrida com um conhecido, que como sabemos, não declinarei seu nome. Só para acrescentar um toque de mistério devo dizer que essa situação não aconteceu com o meu amigo a BestaCinzenta". Sigamos. Coisa de alguns anos, poucos anos para dizer a verdade, bem poucos, via internet ele se encantou com uma dona, uma senhora casada e consequentemente proibida para ele. Bem, nem tanto proibida assim, haja vista que ambos estavam "enamorados",(que palavra), um pelo outro. Os afastavam de maiores encrencas, a enorme distância que os separavam. O dito cujo morava aqui no litoral, a moça, no interior.Conversavam freqüentemente por e-mail, (nosso cupido moderno), trocavam juras de amor, faziam planos, marcavam encontros (que não compareciam por causa de suas vidas atribuladas, os respectivos cônjuges, filhos, quer nas escolas, quer nas reuniões de pais e mestres), sabe Deus por quê, nunca tiveram a chance de se encontrarem, se beijarem e, quem sabe, consumarem a paixão. Sim porque paixão havia... Sim senhor! Esse namoro durou mais que muito namoros "ao vivo", durou porque escapavam de se encontrarem cansados, de mau-humor, suados, de má vontade...Mas uma paixão tem que necessariamente ser consumida. Não bastava fazer juras de amor, planos de fugirem juntos, troca de carícias (?) on line. Tinha que haver um encontro de terceiro grau, tinham que se tocar, se sentirem, enfim. Mas com tempo a coisa acabou esfriando. Culpavam-se um ao outro pela dificuldade de consumarem o amor. Enfim brigaram. Ficaram muito tempo sem se falar, excluíram seus nomes, respectivamente, de suas listas de contato. Nunca mais se falariam...Esse era o desejo de ambas as partes. Mas...Até que um dia, muito tempo depois, por engano, acabaram se encontrando na web. Conversaram como bons amigos. Sem clima, sem rancor. Saudades? Sim dos planos, da loucura, da volta fugaz de uma juventude que achavam perdida para sempre. Ela separou-se. Ele se ajeitou com a sua família. Parece que ambos estão felizes. Para sempre? Quem sabe dizer?

2009/08/07

Sincronicidade


Sincronicidade é isso ai.

Essa é para os poucos (só eu sei quão poucos são) que já leram as citações que faço de meu amigo e parceiro de infortúnios Vadinho.
Pois hoje um raro leitor, o Silvio, outro outsider, enviou-me um e-mail que me fez lembrar das aventuras gastro-etilicas-teatrais de antanho junto com o supra-citado Vadinho.
Pois vejam o que esse viking, esse neanderthal, esse supra-man é capaz de consumir sem se deixar se consumido.
É por isso que sempre digo, Vadinho é eterno!



A Sacola de Dinheiro


Sim havia aquele dinheiro não contabilizado. Caixa dois. Tinha que explicar-se, cedo ou tarde para alguém, alguma autoridade.
Meu Deus!

Virava na cama, de um lado para outro. Socava o travesseiro, chutava a mulher. Chorava, rangia os dentes. Caia da cama. Insônia. Medo. Desespero.

Aquele dinheiro. Aquele maldito dinheiro. Hoje a sacola estava escondida debaixo do guarda-roupa, amassada, comprimida.

As crianças viviam perguntando sobre a sacola, a empregada olhava desconfiada. Todos os dias ele espremia os miolos procurando um esconderijo novo. Até no freezer já escondera. Mas pegou mal, psicologicamente falando. O dinheiro já era frio, guardado no freezer então...

Não podia sair de casa com ela, já fora um sufoco entrar sem dar na vista, imagine arriscar a sair com ela agora?

A casa fedia a mofo. Não abria as cortinas, proibira abrirem também as janelas. Visitas não eram bem vindas. Pararam de pedir pizzas, para não terem que abrir a porta pra o entregador.
Dinheiro não contabilizado...

Como fora entrar numa roubada dessas?

Dívidas? Quem não as tinha?

Favores? Quem não devia um favorzinho para alguém?

- Que roubada!

Batem na porta.

Silêncio absoluto. Mandara o poodle para a casa da sogra, já imaginando essa situação. Ontem mesmo abriu a porta da gaiola e soltou o curió que criava a quinze anos. O bichinho ficou voando em círculos por várias horas até que o gato do segundo andar conseguiu pega-lo.
Mas isso é outra história.

Tocam a campainha.

Chutam a porta.

Desistem e vão embora.

- Mas vão voltar! (cochicha para a mulher)

Quantos milhões teria dentro da sacola? Tanto dinheiro, e nenhum tostão era seu. Tinha vontade pegar tudo e fugir para o Argentina. Criar gado.

Poderiam acha-lo. Mata-lo, e à sua família.

Olha para a cara da mulher. Valeria à pena viver por ela? As crianças, uns fedelhos mal-educados e mimados pela avó...

Por um segundo viu-se nos Pampas com o seu gado. Aquela vastidão verde... Tomando mate, comendo uma parrilhada...

Dez dias preso no apartamento. Sem telefone, televisão, rádio, mentindo para as crianças e para a empregada.

Lá fora, na rua, todos eram suspeitos. Alguém o estava vigiando. Seria a polícia, a outra quadrilha, os companheiros querendo saber se ele ia fugir com a grana?

A cada segundo a Argentina lhe parecia mais próxima.

- Ah! Calle Florida de meus sonhos... (suspira)

De repente, sem trocar uma sílaba com a mulher ou os filhos, corre ao eu quarto, pega sacola de dinheiro e sai correndo do apartamento. Nem espera pelo elevador, desce mesmo pelas escadas.

A mulher espantada, achando que o marido enfim surtou, abraça os filhos e começa a chorar convulsivamente. A empregada, ainda tem o sangue-frio de correr até a janela a tempo de ver o patrão entrar num taxi.

2009/08/06

Á Véspera da Histeria


Não que andar sem rumo pelas ruas seja ruim, não, não é - Oi Zé tudo certinho? – o chato que é ficarmos encontrando pessoas - Fala Carlinhos! – por todos os lados. Moro numa ilha – E ai tudo certinho? – e isso implica – Não estou falando com você, lembra disso ainda? Porco-obeso! – que encontramos gente demais ao longo do - Opa! Depois te ligo. – dia.

Saí para o almoço – Cara você engordou hein? Não, não me fale em regime, alface e verduras. Vou encarar um filé, depois nos falamos. – e encontro todo o tipo de gente, das que eu gosto e evito às que fujo e vivo trombando.

Entro no restaurante e já vejo dois que se eu soubesse que estavam lá teria preferido pular no mar, mas - Então vocês estão freqüentando aqui agora? – cumprimento-os e finjo que atendo o celular, falando, gesticulando a mão e o braço direito, discretamente deixo o recinto.

Espero que se engasguem com a comida.

Volto à rua e encaro o vento noroeste que além de despentear meus poucos cabelos, espalha lixo e areia.

Com esse calor perco o apetite e o resto do humor – uso poucos gramas por dia - resolvo voltar ao escritório e descansar com o ar-condicionado.

Venho pela sombra, procuro árvores, passo lentamente pela porta de bancos e lojas para aproveitar o ar fresco de vem de lá.

Acendo um cigarro, penso que hoje pode se o último que fumarei um paz, amanhã começará a perseguição definitiva e fanática, as ovelhas[1] repetirão em coro que “fumar faz mal” e outras palavras de ordem com que serão programadas via televisão e outras mídias.

Já ouvi falar que vai haver a delação premiada a quem entregar um fumante, pensando nisso e dou uma baforada gostosa e azul e logo noroeste a leva para longe, uma pena...

Não bastando minhas preocupações ainda mais essa! E pensar que o que me separava dos chatos era o cigarro...

[1] Leiam A revolução dos Bichos de George Orwell

Parece complicado?


Cliquem da foto

Porrinha no Bar Ricão



Hobbs Nietsch – Boa noite senhores ouvinte. Começamos agora mais uma transmissão.

Lindomar Orlando – Boa noite queridas ouvintes. Saudações carinhosas às senhoras que cuidam de seu lar com carinho e desvelo ouvindo-nos com tanta atenção sem se descuidar de seus afazeres domésticos.

Hobbs Nietsch – Vamos à nossa Ronda de Notícias com o nosso repórter Fausto Hecatombe, o Homem Certo no Lugar Certo e na Hora Certa.

Lindomar Orlando – Fala Fausto! (eco).

(estática)
(barulho de vozes, copos e música ao fundo)

Fausto Hecatombe – (voz de rádio) – Queridas ouvintes, caros ouvintes, hoje estou devagar, aliás estou a vagar com nossa unidade móvel pelas ruas da cidade. No momento estou tomando um cafezinho no Bar Ricão, onde estou testemunhando uma acirrada disputa de porrinha.

(estática)

Hobbs Nietsch – Onde fica esse Bar Ricão?

(estática)
(barulho de vozes, copos e música ao fundo)

Fausto Hecatombe – (voz de rádio) Francamente não diga que você não o glorioso Bar Ricão??? É aqui ponto focal de todos os acontecimentos social no “Pé Vermelho”, desde festas de casamentos, velórios e batizados até ferrenhas disputa de porrinha, digo palitinhos...
(estática)

Lindomar Orlando – (em off) Não sei como o Fausto pode encontrar esses buracos...

Hobbs Nietsch – (em off) Não me venha com ciúmes de novo, tudo é motivo para você implicar com o Fausto Hecatombe, conforme-se, ele casou-se com a filha do Seu Pepe-Manolo e você não, ponto!

(estática)

(barulho de vozes, copos e música ao fundo)

Fausto Hecatombe- (voz de rádio) Enquanto vocês discutiam a minha vida privada pelas ondas hertzianas, a disputa começou. Temos agora só quatro participantes, com o total de doze palitinhos em jogo. (barulho de vozes) Um, dois e três, e eles abrem suas mãos. Luizão Macero abre a sua mão com dois palitos, Claudião Sem-Dentes abre a sua com um palito, Manecuzinho do Tonhão tem três e Tonhão da Noca abre com lona. (barulho de vozes) Ninguém acertou. (barulho de vozes) De novo. Um, dois e três. Agora é a vez de Claudião Sem-Dentes com três; Manecuzinho do Tonhão com lona; Tonhão da Noca com lona e Luizão Macero lona. (barulho de vozes) De novo ninguém acertou. Isso já está começando a criar um certo mau estar. (barulho de vozes) Um, dois, três. Começa com Manecuzinho do Tonhão com lona; seguido de Tonhão da Noca com lona; Luizão Macero com lona e Claudião Sem-Dentes com um. (barulho de vozes e garrafas sendo quebradas) Agora o bicho pegou, o Claudião Sem-Dentes, “cantou” lona e abre a mão com um palito na mão... Não é possível! Como pode ser tão burro meu Deus? (Silêncio)

(estática)

(Música incidental)

(Silêncio)

(Música incidental)

Hobbs Nietsch – Fausto. Alô Fausto Hecatombe. Parece que caiu a transmissão! Fausto.

Lindomar Orlando – (em off) Sei não depois, desse ( repete a voz de Fausto Hecatombe falando: Não é possível! Como pode ser tão burro meu Deus?) quem caiu foi ele.

Hobbs Nietsch - Periga, man, periga!!!

(Estática)

2009/08/05

DIA SETE SERÁ O DIA DA VITÓRIA DA HIPOCRISIA.

ÀS "OVELHINHAS" DEIXO UM PENSAMENTO DE EÇA DE QUIRÓZ:



“Pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento”

2009/08/04

A FESTA NO MATO


JA estava ali há horas.

A bebida já havia acabado, a conversa esfriava, os mais cansados já iam embora, e nós os mais renitentes, ou sem donos, como nos chamavam, continuávamos por ali na esperança de que alguma coisa ainda aparecesse, quer sólida e quente, quer líquida e de grande graduação alcoólica antes que o sol nascesse.

Eu estava sentado num toco, mais dormente que acordado, esperava para ver quem se levantaria e iria embora na mesma direção que eu, enquanto ninguém aparecesse com tais intenções eu me deixava ficar por ali pitando meu cachimbo e bebendo com uma pena miserável o resto de cana que estava no fundo do meu copo.

O sono foi se somando à tristeza do fim da bebida e a quase certeza de que não iriam servir mais comida para ninguém, quando um sujeito muito esquisito sentou-se ao meu lado e começou a puxar assunto.

Não sou de muita conversa com os amigos, imagine então com os desconhecidos.
Minha primeira impressão foi que ele se aproximou de mim por causa do resto de bebida no meu copo, então mais que depressa, engoli todo o resto de um gole só. Me engasguei, tossi, chorei de derramar água dos olhos, ainda bem que ninguém viu isso.

O sujeito deu-me uns tapas nas costas gritando: - "sãobrás, sãobrás, sãobrás", se ele tinha a intenção de beber do meu copo com aquela boa ação, se deu mal, pois quando consegui voltar a falar, o copo já estava vazio e caído no chão.

- Bem feito! - Pensei. Daqui ele não leva nada.

- Melhorou? - Ele me perguntou, parecendo muito preocupado comigo. Disse que sim, tudo bem, obrigado, e tudo mais de gentileza que consegui me lembrar, mas sempre com o olhar desconfiado.

Ele sentou-se no chão ao me lado e começou a falar, falar e falar enquanto eu procurava alguém que estivesse se levantando para ir embora, assim tinha uma desculpa para deixar aquele sujeito falando sozinho. Mas parecia que ninguém queria ir embora, todo mundo continuava ali, uns sentados, outros encostados nas árvores, outros já caídos no mato. A fogueira já estava apagando, só um ou outro tronco ainda queimava e o resto já era brasa. Os grilos cansados já paravam de cantar esperando pelos cocoricós dos galos.

Não demorava a amanhecer...

Enquanto olhava para os lados pensando em tudo isso, o estranho continuava a matraquear sem parar, e sem lhe dar atenção comecei a encher meu cachimbo.

Enchi o fornilho, apertei bem com meu dedão, risquei o fósforo, dei a primeira baforada e soltei uma fumaça azul linda e cheirosa, na segunda baforada pensei que despacharia o indivíduo, mas que nada, ele falava sem parar. Cheguei até a pensar que ele não percebia que eu estava ali ao seu lado, achava até que eu poderia me levantar e ir embora que ele ficaria ali assim de blá-blá-blá com a escuridão.

Pensando assim, me levantei sem cerimônia, bati as mãos nas calças para tirar a sujeira do trono e quando dei as costas pro cidadão, ele, como se enfim tivesse dado conta que eu ia embora, perguntou:

- O senhor acredita em fantasmas?

Espantado com a pergunta feita assim à queima-roupa, respondi-lhe, soltando a fumaça do cachimbo:

- Ora, mas é claro que eu não acredito em fantasma. Onde já se viu um homem desse tamanho importunar um cristão no meio de uma festa para fazer uma pergunta dessas. Respondi e dei uma cusparada no chão. O cachimbo tinha azedado minha boca e estava arrependido de ter tomado o último gole de uma vez só. Agora não tinha nada para limpar a boca. Não tem nada pior nessa vida que um cachimbo azedando a boca da gente.

Estava saindo e ele falou comigo outra vez.

- Então o que senhor está fazendo aqui hoje?

- Ora essa, vim aqui a convite de uns amigos. - Respondi já invocado. (e todo mundo sabe como é perigoso me deixar invocado).

- E sabe o amigo qual a razão dessa festa? - Perguntou me olhando com os olhinhos apertadinhos.

- Sei não, sei não. Eu vou onde tem comida e bebida. Sem tem os dois nada pergunto e nada mais me interessa. - Falei bravo. (quase rosnando, ah eu sou um perigo quando rosno)

- Pois saiba o amigo, que hoje estão comemorando o aniversario de minha morte.



Nem sei o que mais ele falou porque nessa hora vi um pessoal se levantando
e indo embora. Tá certo que era para o lado contrário que eu ia, mas sai
correndo e alcancei aquele povo. Nada falei sobre o fantasma, mas reclamei o
tempo todo da falta de bebida. Onde já se viu fazer festa com bebida
contada?

Pouco depois os galos começaram a cantar...