2009/07/31

HISTÓRIA TRISTE ENVIADA POR CARTA




(Estática)

(Música triste)


Hobbs Nietsch– Hoje queridos ouvintes vamos trazer aos senhores uma história verídica, verdadeira.

Lindomar Orlando - Enviada aos nossos estúdios por uma ouvinte anônima, que se apresenta apenas como:

Hobbs Nietsch– Flor da Beira da Estrada.

Lindomar Orlando – Aqui estão os personagens desse drama real e verdadeiro.

Hobbs Nietsch­– Personagens.

Lindomar Orlando - Dr. Cascudo Cardoso – Advogado

Hobbs Nietsch- James Capacho – Motorista, Mordomo e capacho e um Caipira.


(Música incidental)


(Som de motor de carro)


(Rádio tocando música brega)



Dr. Cascudo Cardoso – James o que é aquilo no meio do mato?

James Capacho – São pobres Excelentíssimo Dr. Milord. Tem muito disso por essa estrada.

Dr. Cascudo Cardoso – Ah! Então é assim que ele são, eu esperava outra coisa...

James Capacho – O que Vossa Excelência esperava ver Milord Dr.?

Dr. Cascudo Cardoso – James eu não estava falando com você... Não se intrometa mais com as minhas elucubrações.

James Capacho – Desculpe Milord Dr. E excelentíssimo!

Dr. Cascudo Cardoso – James, reduza a velocidade, você fez o meu copo de bourbon chacoalhar e se cair uma gota em meu terno você terá que trabalhar mais vinte e cinco anos para poder pagar a lavagem à seco dele, e pare para eu ver esses, esses, como se chamam mesmo essas criaturas?

James Capacho – Pobres, Excelentíssimo Senhor Milord! Pobres. O Senhor tem certeza que quer parar para vê-los??

Dr. Cascudo Cardoso – Sim tenho certeza! Aliás eu sempre tenho certeza de tudo, lembre-se sou um doutor. Nunca erro.

James Capacho – Perdão Excelentíssimo Senhor Milord Dr. Devo abrir as janelas para que o Senhor possa ver através do insulfilme? Devo também pegar o tambor de oxigênio para que Vossa Luminescência não tenha que respirar esse ar poluído?

Dr. Cascudo Cardoso – Sim abra as janelas e me traga a máscara cirúrgica, acho que não vou precisar de oxigênio....

James Capacho – Vossa Magnificência sempre sabe o que faz.


(Som de motor sendo desligado)


(desliga o rádio com a música brega)


James Capacho – Pronto Milord Dr. Devo realmente abrir as janelas?

Dr. Cascudo Cardoso – James se você não quer ser despedido e perder a chance de poder pagar pela sua alforria, não me questione mais... e trate de aumentar os adjetivos ao se dirigir a mim.

James Capacho – Sim Vossa Magnificência... ( interrompido )

Dr. Cascudo Cardoso – (ríspido) Você já usou essa!

James Capacho – Vossa eminência... (interrompido)

Dr. Cascudo Cardoso – (dengoso) – Sim “Vossa Eminência”, sou bem. Afinal sou tão sábio e poderoso quanto um Papa. Gostei James, salvou seu emprego por hoje. Mas não abuse da sorte, ela não vai durar para sempre...

James Capacho – Sois magnânimo Vossa Eminência.

Dr. Cascudo Cardoso – Sim, sou mesmo, mas deixe de bajulação e me chame um desses (cospe) pobres para vir falar comigo.

James Capacho – Yes Milord e Dr. Magnificente.


(Som de porta abrindo)

Caipira 1- Ô dôto quer falar com nóis??

Dr. Cascudo Cardoso – (furioso) James seus imbecil!! Aperte a tecla SAP, eu não entendo a língua que esses (cospe) pobres estão falando. Se eles são assim (cospe) pobres, como é eles estudaram uma língua estrangeira???

James Capacho – Desculpe Vossa Excrescência, mas eles não estão falando uma língua estrangeira, na verdade eles não estão falando nem o português...

Dr. Cascudo Cardoso – (nervoso) Então agora você é bilingüe, trilingüe, poliglota??? Para de me desafiar James, ou eu usarei de todas a dureza da Lei contra você. Dura Lex Sed Lex James, Dura Lex Sede Lex. Cuidado! Cuidado!

James Capacho – Perdão Excelência Eminência Paciência Anuência, mas eles além de pobres são caipiras, pobres do campo, e não falam o português correto, se for de seu interesse eu posso ajuda-lo, digo isso sem querer ofende-lo, a entender o ele dizem...

( falando com o caipira 1)

James Capacho – ‘Dia seu! O meu patrão quer saber doceis aí, o quê que oceis tão fazeno andando de quatro aí no meio do mato?

Caipira 1 - Nóis tá comeno mato, purque num tem mais comida em casa prá cumê.

James Capacho (falando com o patrão) Sua Excelência, essas pobres criaturas que estão aqui desfrutando, ociosamente, da sombra que vosso Excelentíssimo carro importado projeta sobre eles, estão me contando que estão de quatro sobre o solo, na vã tentativa de virem a se alimentar dessa exígua grama, haja vista que em suas casas acabou completamente a comida e suas famílias estão passando fome na mais negra miséria.

Dr. Cascudo Cardoso – (chocado)Meu Deus esses pobres coitados estão comendo essa graminha seca e mirrada... (falando com James Capacho) James mande esse (cospe) pobre entrar no porta-malas do carro. Vamos dar um jeito nisso, eu tenho uma forma de ajudar essa (cospe) pobre criatura.

James Capacho – Perdão Vossa Magnificência Real e Absoluta, mas Vossa Real Senhoria falou em ajudar essa (som de Dr. Cascudo Cardoso cuspindo) pobre criatura?
Dr. Cascudo Cardoso – Sim James, coloque-o no porta-malas, vamos ande, o ar-condicionado está ligado e não quero perder combustível com esses (cospe) pobres.
James Capacho – Vamos lá meu sinhô. Meu patrão mandô o sinhô entra nu carro dele e ir lá prá casa dele que ele tem arguma coisa prá ajudar ôce.
Caipira 1 – Ói eu té que queria ir mas num vou prá lugar ninhum sem minha famia e sem meu companhero aqui á...
James Capacho Senhor meu Patrão Amo e Senhor, Ser Perfeito e Maravilhoso, tenho a dizer-vos que esses (som de Dr. Cascudo Cardoso cuspindo) podre ingratos se recusam a sair daqui sem suas respectivas famílias, e um se recua a deixar o outro. O que devo dizer a esses ingratos?
Dr. Cascudo Cardoso – Veja só isso James, mais um vez sou uma vítima desse coração de ouro... Mas como você me lembra, sou Magnânimo! Mande que todos entrem no porta-malas com sua famílias. A partir de hoje, ninguém mais vai passar fome...
(barulho de vozes)

(todos se apertando)

Dr. Cascudo Cardoso - James, sou um bom homem, mas ainda estou um pouquinho longe da santidade. Desligue o ar-condicionado do porta-malas e abaixe o som, não quero que eles fiquem mal acostumados. Esses (cospe repetidas vezes) pobres vagabundos...
James Capacho – A propósito Meu Real Rei-Sol. Seria possível que Vossa Escarrecência cuspisse para fora ao invés de faze-lo no carpete do carro.
Dr. Cascudo Cardoso - (som de Dr. Cascudo Cardoso cuspindo) James, responda-me, quem limpa o carro?
James Capacho – (humilde) Sou eu Milord.
Dr. Cascudo Cardoso – Nunca mais esqueça isso James.
James Capacho – Nunca mais vou esquecer Alteza Real e Absoluta. (pigarreando) Desculpe incomoda-lo Mui Ilustríssimo Sr. Dr. mas como pretende a Vossa Senhoria alimentar esses (som de Dr. Cascudo Cardoso cuspindo) pobres?
Dr. Cascudo Cardoso – Muito simples James, com esses (som de cuspidas) pobres, vou economizar dinheiro no meu sítio, lembre-se que a grama lá está com mais de um metro e meio de altura, assim eles nunca mais passarão fome...
James Capacho - Como sempre digo a Deus em minhas orações, sois o homem mais caridoso que já caminhou por essa terra. Deus o abençoe Milord!
(som de carro sendo acelerado)
Dr. Cascudo Cardoso – (som de gelo num copo) É verdade James, é verdade. Aumenta o som!!
(Música brega)
Hobbs Nietsch - Que história triste minha gente...
Lindomar Orlando – Nem me fale! O Seu Pepe-Manolo está inconsolável chorando sobre a carne-seca lá no balcão.

(Estática)





2009/07/28

video

2009/07/24

DIÁLOGO SOBRE TERNOS, CASAMENTOS E PREVISÕES


Quando cheguei ao ponto de ônibus a conversa já ia assim:


- Não admitirei que fales mal do casal. Afinal eles esperam que eu pagasse a ultima prestação do meu terno para se separarem.

-Tens razão. Doze meses já é até bastante tempo...

- Que doze meses? Ta pensando que eu sou o quê? Um miserável? Um pobre-coitado? Paguei o terno em três vezes, sem juros!

- Então o casamento só durou três meses...?

- Sim, nem abriram a caixa do fogão.

- Quem deu o fogão? Você?

- E meu nome é Vadinho prá presentear noivos com fogões? Expliquei que estava sem dinheiro e depois daria a eles o que estivesse faltando... Não falha! Quando vejo que um casamento não tem futuro faço isso. Prometo o presente para mais tarde. Imagine se gasto dinheiro assim. O terno ainda tem alguma utilidade, afinal na nossa idade tem sempre alguém morrendo...

- Que pessimismo mais mórbido!

- Mórbido? Estou é sendo pragmático. Veja o Garcia com aquela úlcera feia que ele tem. Quanto tempo você que vai levar para ela evoluir para coisa pior e morte?

- Jesus Cristo! Agora você está gorando o Garcia? Sei que você não ia muito com a cara dele, até compreendo depois daquela experiência com a Rutinha, mas daí a ficar esperando a morte dele...

- Não estou gorando ninguém, estou só exemplificando...

Chega meu ônibus.

Faço sinal, entro, vou embora pensando na sabedoria do interlocutor. Já gastei muito dinheiro em roupas para casamentos que duraram menos as prestações. Mas o que me intrigava mesmo na volta para casa era a história entre o sujeito, o tal do Garcia e a Rutinha... Essa minha pressa, deveria ter ficado mais tempo no ponto, afinal percebi que o outro sujeito estava se deleitando com a fumaça de meu cigarro...


Textos Antigos Para o Fim de Semana Não Passar em Branco

Ameaça


Qual Quixote desvairado
Em meu cavalo branco
Corro atrás não de moinhos
Mas de dedicados leitores
E ai de vós que eu veja
Sentado, distraído
Que num átimo
Coisa de segundos
Vos encho de meus papeis
E vos forço a me ler
Temei ó desocupados
Porque lereis

- Ah! Lereis até morte

Nada Hoje

(Crônica, ainda mais besta)


Cá estou no exercício, cerebral, diário de escrever, transcrever para um papel/tela, alguma coisa, alguma idéia, e suprema pretensão, algum conceito.

Gasto as teclas e a ponta dos dedos, gasto energia elétrica, tempo, queimo os meus neurônios, coço a cabeça, e vejo preso nas unhas, uns fios de cabelos, brancos, brancos!

...e caindo!

Que decadência, o próximo passo só pode ser a demência.

O tempo passa (vejo os tic-tacs escorrendo do relógio da parede e fazendo poças no chão) e nenhuma idéia sensacional surge.

Já estou resignado com qualquer idéia de jerico que me surja. Santo Deus! Estou cada vez mais indulgente e menos exigente comigo mesmo.

Seria uma falha de caráter?

Deus! Que inferno!

Nada sai daqui, não adianta mais pensar em nada.

Definitivamente o dia de hoje está perdido, o que me consola, é que não ganho para isso...

O que pensando bem é uma pena.

Peço perdão a você leitor, que perdeu sua cota de tempo lendo-me.

A Que Essa Repartição Está Me Levando!

(croniqueta besta)

Tem vezes que tenho vontade de explodir.

Não explodir gritando, quebrando (uns ossos no meu caso em particular) tudo que vier pela frente.

Tenho vontade de explodir feito uma bomba de hidrogênio (que segundo a minha ignorância em física, é mais destruidora que a atômica, por favor corrijam-me se estiver enganado) e levar tudo ao meu redor, por quilômetros e quilômetros, para o meio do inferno.

Explodir de fazer aquele “cogumelo” brilhante que se eleva aos céus...

Mas, maldito “mas”, tudo o que consigo é dar uns berros e uns socos em paredes, que me levam fatalmente a um Pronto Socorro para engessar algum osso...

O que só aumenta a minha vontade de explodir.

- Ô círculo vicioso esse.

Mas um dia, um dia...

Questão:

QUEM VAI AGUAR O VEGETAL AGORA??

2009/07/22

mais burra que a opinião pública
mas come chocolate com uma inocência de anjo barroco
passos miudinhos
parece uma chinesa com dor de barriga
olha para o céu
mas não procura chuva
pássaros
ou
príncipe encantado
assoviando uma música antiga
busca por discos voadores
limpa os dedos na calça
cata o restinho do doce nas unhas
ri
e
comove quem a vê

Sob a Maldição de R.C.

Esse fim de semana, reuni-me com alguns amigos (aquela eterna meia-dúzia de sempre).

Amigos esses que lêem meu blog (bem menos de meia-dúzia, bem menos) fizeram alguns comentários, comentários esses pertinentes, elogiosos, simpáticos, edificantes, essas coisas que nos enchem o peito de orgulho.

Mas, sim tem um “mas” nessa história.

Imaginem vocês queridos amigos leitores, existe gente nesse mundo que não só gosta de (argh!) Richard Clayderman, como (o mundo acabou de vez) coleciona os petardos que ele (minha vontade é escrever “it”) grava.

Lamentável!

Somos amigos a muito tempo, e jamais imaginei esse desvio de conduta (minha vontade é dizer “tara”) deles.

Francamente!

Mas a vida continua, nunca mais será a mesma, nunca mais...

EVOLUÇÃO

Parte 1ª

Sons de trovoada, raios, terremoto, deslizamento, um caos total.
Sons de chuva
Água correndo

Voz de embargada – Mas que lama é essa? Cadê meus pés? Onde estou? Por que me sinto assim tão estranho? Preciso de um espelho... – som de alguma coisa rastejando – Acho que não acharei nenhum espelho por aqui, vou ter que me contentar com uma poça d’água. – MÚSICA DRAMÁTICA – Não, não, não... Cheguei nesse mundo na hora errada! Ainda sou um verme rastejante, levarei milhões de anos para me tornar um macaco, outros tantos bilhões para me torna rum homem... – CHORO CONVULSIVO – Não...

Som de uma ave de rapina

- Era só o que me faltava, vou ser devorado com menos de um minuto de vida. Espero que na próxima... – interrompido pela ave que o come.

Som em fade-out da ave se afastando



2ª Parte

Voz – Não acredito, acabei de ser devorado por uma ave e voltei como filhote dela. Acho que minha reencarnação foi rápida porque não tem ninguém na fila. Terei que pagar meus pecados. Mas que pecados se ainda não tive a oportunidade de errar? ...

- Mas o que é isso? Uma outra ave maior ainda que a primeira? Socor...


[interrompido pela ave que o come]
[som em fade-out da ave se afastando]


3ª Parte

[um milhão de anos depois]

Voz – Aqui está tudo muito escuro e sossegado para o meu gosto (som de campainha) Ok, ok, eu sei que ainda não tive tempo para desenvolver meu gosto, mas sei quando algo está errado. Nessa escuridão não consigo nem me imaginar como sou, nem sei se já ando ou se ainda rastejo. (sou de algo rastejando) diabos, ainda não nasci com pernas... Maldita evolução que atrapalha as minhas vindas... Vamos lá (som de mãos tateando uma parede) vamos lá, parece que estou conseguindo, onde esse corredor me levará? (som de mãos tateando uma parede) vamos láááááááááá (eco)

(som de algo estatelando no chão)

Voz – Fui vítima do primeiro eclipse solar de minha vida!


4ª Parte

(muito tempos depois na Idade Média, no quintal da casa de Brueghel)
[som de flecha atingindo alguma coisa]


Voz – Arrgghhh! Puxa vida, fui nascer exatamente agora, no meio de uma competição de tiro ao alvo com arco e flecha. Mas que dor é essa? Algo me atingiu no exato momento em que abria os olhos para ver onde estava. A dor é intensa, sinto que não vou agüentar muito tempo. Quem é esse cara aí embaixo? Será que sou eu? E se sou eu, então quer dizer que morri com a flechada e minha alma está deixando meu corpo agora. Espere, estou começando a enxergar alguma coisa, minha visão está ficando mais clara.

[grito]

- Nããããoooooooo!!! Eu sou o verme da maçã!



5ª Parte

[24 horas depois]


Voz – Não é possível! Escuro outra vez? Terei nascido cego dessa vez? Cego mas com membros desenvolvidos para compensar? Pernas, braços, cabeça sobre um pescoço flexível, dedos, dedos nas mãos, dedos nos pés, que a bem da verdade não seu para o que serve... Mas que barulho é esse? Ótimo! Não nasci surdo! (som de algo líquido se mexendo) mas que diabos é isso afinal? Se ao menos pudesse entender como vim parar aqui... Tudo o que me lembro é de uma flecha vindo em minha direção, um grito – o meu grito – e essa maldita escuridão outra vez. (som de algo líquido se mexendo) Oh! Não, não nããããããão (eco) Como isso pode estar acontecendo comigo? Alguém comeu aquela maçã, e a mação foi digerida comigo dentro, e agora, agora, agora, sou parte da flora intestinal! Não, agora eu vejo uma luz se aproximando... Nãããããão

(som de algo líquido se mexendo)


6ª Parte

[24 segundos depois] – [choro de criança]

Voz - Nasci, nasci...puxa vida, mas que pesadelo essa tal de evolução! Quem são esses caras? Que roupas engraçadas. Quem é essa aí? Não sei por que, mas gostei dela. Puxa como está quentinho aqui. O que é isso? Huuummmm...delícia esse líquido branco e quente. Agora sim, parece que desta vez estou no topo da cadeia alimentar. Finalmente posso começar a minha missão.


7ª Parte

[31 anos depois]

Voz – Blahhhhhg! Cá estou eu de volta a esse globinho azul cheio de água, lama e frio. Na minha última encarnação achei que já voltaria como homem, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que tinha vindo como lactobacilo vivo... E pensar que já estava todo entusiasmado com aquele pessoal vestido de branco, aquele líquido branco e quente, que descobri ser leite de vaca... Terminei minha vida poucas horas após ter me transformado em iogurte. E agora aqui estou guardado nesse tubo de ensaio esperando para ser inseminado em algum útero. Mas não me desespero, não, não. Nunca estive tão próximo de me tornar um ser humano. Estou louco para saber qual é a sensação de ter braços e pernas... Aliás, tão logo nasça e cresça vou procurar um psiquiatra e estudar profundamente essa minha obsessão por esses membros. (Som de porta metálica abrindo) Opa! Opa, opa! Estão me retirando do freezer, estão me retirando do laboratório, vou ser inseminado, agora chegou a minha vez. Vida ai vou eu!!!

(Som de vidro caindo no chão)



8ª Parte

Quatro horas, quinze minutos e trinta décimos depois.

Voz – Tenho certeza que sou um cara azarado. Peraí, cara ou mina? Nem nasci ainda, como vou saber?
Lá vou eu pra fila de novo, pelo menos agora me prometeram nascer com mãos e pés. Mas a fila tá tão grande. Deixa eu ver meu número...puta merda eu sou o número 126.276.344.987 da fila. Quanto tempo será que vai levar para que eu reencarne?
Enquanto isso vou ficar por aqui, lendo um livro, jogando conversa fora, fazendo alguma coisa pra matar o tempo.

[som de tempo passando]

Puxa vida, ainda faltam 154.123.003.438. Será que não tem um jeito mais rápido de reencarnar? Passar na frente de alguém? Vou fazer uma ligação para uns conhecidos.

[som de telefone]

Então, será que você não consegue me colocar nessa outra fila? Eu tenho urgência, não agüento esperar mais...


9ª Parte


[a pressa é inimiga da perfeição]


Voz - (com eco distante)– Ok, ok, ok, eu tentei exercer minha paciência... Só Deus sabe o que tenho passado nesses últimos milênios para vir prá esse globinho lamacento, complicado e cheio de má-vontade, mas chega! Ou volto agora ou não volto mais, não vou ficar flutuando nesse éter esperando chegar a minha vez de encarnar. (telefone sendo discado) – Alô! É da concorrência? Pois é sou eu... Sim ainda estou aqui... Depois de um curto pensar resolvi aceitar a sua proposta... Ótimo. Não vou precisar esperar na fila? Então está combinado... (gargalhada satânica) consegui vender minha pro diabo, e pro diabo com fila. Vida ai vou eu! Dessa vez é prá valer...

(gargalhada satânica em fade out)



10ª Parte

[som de crianças chorando]

Voz – Meu Deus, mas que vida é essa que eu estou levando? Que diabo de vida é essa? Mas é claro, só podia ser assim mesmo, é o que dá querer levar vantagem, agora tenho que pagar os pecados que nunca cometi.

[som de crianças chorando ainda]

Uesleison, Ferdinandison, Glaucélio, Berecilde, Gilmarlândia, Uótison, Oscarcélio, Acioneide, Marcelândia, parem já de chorar. Não agüento mais essa vida de pobre. Aí como eu me arrependo de furar a fila. Socorroooooooooo!!!



FIM


(gargalhada satânica)

50% meu X 50% Alexandre Costa

2009/07/14

MAIS FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS

CURITIBA, NÃO, RIO DE JANEIRO!


...e depois de bebermos a noite toda esperando o ônibus para Curitiba acordamos na avenida Brasil, com direito a banda e desfile patriótico, afinal era o sete de setembro.

Acordamos nas poltronas ao som de clarins, bumbos e espanto. Afinal não íamos a Curitiba?

Pois é o álcool...

Aos pouco nossa mente foi clareando e começamos a nos lembrar do que aconteceu na noite anterior.

Ficamos pelo centro da cidade, bebendo, e fazendo hora, pois o ônibus soa sairia à meia-noite, chegada a hora fomos ao guichê. Entramos na fila, e quando faltava apenas uma pessoa à nossa frente, eis que ela, a madame começa a bater boca e fazer escândalo, ato contínuo, nos dirigimos ao guichê mais sossegado, compramos a passagem, entramos, nos sentamos e “morremos” só acordando na segunda linha desse texto.

Descemos na rodoviária e logo pegamos um barco para Paquetá, já que não íamos mais nos encontrar com o Cláudio (o amigo que nos esperaria por muito tempo lá em Curitiba) seguimos para conhecer a Pedra da Moreninha... (nunca fui muito fã do Zé de Alencar, depois disso fiquei menos ainda)

Desembarcamos assim, eu aterrorizado com os passageiros, - quem me conhece sabe a que estou me referindo, - e o Vadinho com fome. Andamos pela Ilha por quase uma hora. Nada vi por lá que me comovesse. Resolvemos voltar para o Rio, mas não naquele barco – de jeito nenhum eu voltaria a por meus pés e o resto de desse corpo simpático naquele barco!

Voltamos numa espécie de lancha de alta velocidade, que me lembrava o desenho animado Jonny Quest - cujo nome e tipo se apagaram com o passar do tempo, e ponham tempo nisso...

No meio do caminho, olhando para o céu vejo um cidadão de braços abertos e o Vadinho diz:

- Aquele é o Redentor!

E lá fomos nós para lá conhecer o Cristo Redentor.

(a fome já nos comia pelas beiradas)

Aos trancos e barrancos chegamos ao Cosme Velho...

Aos pés do Redentor nos informaram que para subir deveríamos “lotar” um fusca, mas há algo mais fácil de fazer que lotar um fusca? Se você leitor estivesse lá naquela época (depois confirmarei a data com o “Memorioso”) descobriria que os motoristas de lá dão um novo conceito à palavra “lotar um fusca”.

Depois de um curto pensar, resolvemos não ir, e fomos à procura da Rua Nascimento e Silva 107. Mas como sair de um lugar que não conhecíamos? Fácil, usando de minha lógica.

Vi numa placa o nome da rua em que nos encontrávamos – Avenida Pinheiro Machado, então lhe disse do alto de tanto saber!

- Amigo Vadinho, Pinheiro Machado é Canal Hum, e Canal Hum dá na praia, sigamos!

Fomos para na Praia Vermelha. Quanto a Rua Nascimento e Silva 107? Não encontramos. E ficamos devendo mais uma visita...

Resolvemos almoçar, afinal estávamos ainda com as cervejas da noite anterior e um cafezinho de uma padaria carioca. À essa altura dos acontecimentos minha velha gastrite, batizada carinhosamente pelo Vadinho de “Irene” manifestara-se na forma de estomatite, e minha boca e garganta eram só aftas, que doíam, até a saliva causava dores.

Entramos num restaurante de frutos do mar, pedimos filé de pescada e caipirinha, a “Irene” surtou de alegria, cada porção da comida era uma dor só “anestesiada” pela caipirinha, de vodca, é bom frisar.

Esqueci de comentar uma bobagenzinha bem besta, chovia desde a hora que pusemos nossos pés na “Cidade Maravilhosa”

Cansados revolvemos voltar.

Chegamos à cidade e estado errado às oito horas da manhã, e voltamos de lá às quatro horas da tarde

Ô vidinha mais besta!

2009/07/06

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