2009/05/28

Crises E Mais Crises



12:00hs

Meia hora em frente ao espelho do banheiro da repartição fazendo maquiagem, outros tantos minutos penteando os cabelos, olha para as unhas, vira de costas e quase quebrando o pescoço, vê como está a sua roupa recém-comprada (modelo exclusivo, disseram a ela!)

Saí e vai à rua almoçar seus legumes e verduras.

Olha-se em todos os reflexos das vitrines por que passa, sempre ajeitando, ora a roupa, ora o cabelo, ora um detalhe qualquer. No restaurante, escolhe a mesa mais bem localizada, de preferência na entrada, para que possa ser vista por quem entra.

Manipula os talheres com graça e leveza, observando as mãos. Tem com elas uma implicância patológica, acha que as sardas traem a sua idade.

- Não fosse esse um país tropical, andaria de luvas o ano inteiro... - reclama baixinho. - Tantos cuidados, tanta vaidade, quanto dinheiro gastos em cremes para o corpo, cremes para os cabelos, esmalte para as unhas, e essas mãos traindo a minha idade...

Terminada a refeição, sai à rua para tomar um pouco de sol antes de voltar para a repartição e amarelar-se até as dezoito horas.

Olha em volta de si enquanto anda, tanta gente jovem e ela ali envelhecendo, enrugando-se, azedando-se cada dia mais.

Execrando o elevador ela sobe a escada nervosa, pensando com seus botões:

- Assim subindo as escadas acabo engrossando as panturrilhas!

Quando chegar em casa à noite, vai socar o filho que a tornou avó!

- Ele não perde por esperar...

18:00hs

Fim do expediente, na rua, o carona de sempre a espera impaciente.

No carro.

Chove fininho, o limpador dos pára-brisas indo de lá para cá. O trânsito, carregado.

Dentro do carro, o casal calado. Olham para frente, esperando uma chance de se deslocarem, saírem do lugar, poucos metros que sejam.

Falta assunto.

A razão? Não vem ao caso e nem nos interessa...

Para quebrar o gelo, o homem, comenta, tentando, quem sabe melhorar o clima:

- Nunca mais essa rádio tocou a nossa música, não é?

No que a mulher entre ríspida (afinal ela está ao volante) e com pouco caso:

- Nossa música? Desde quando nós temos uma música? Você tá viajando? Vê se entende uma coisa de uma vez por todas, isso é só carona, não sou sua mulher, não sou sua namorada e nada sua, além da pessoa que lhe dá carona, compreendeu isso de uma vez por todas?

De repente parece que o engarrafamento nunca mais irá acabar. A chuva engrossa, e o rádio não toca a música “deles”...

E o clima dentro do carro piora.

Ela pensa:

- O vou fazer para o jantar...?

19:35hs
(aqui cabe uma cena dramática)


Cenário: Banheiro cheio de vapor.

Ela sai do banho.

Pega a toalha e começa a enxugar-se lentamente.

Passa a mão no espelho para limpar o vapor e deixa a toalha cair no chão. Mira-se no espelho, vê um cravo.

Aproxima-se um pouco mais no intuito de espremê-lo.

Olha-se profundamente no reflexo, apóia a mão no lavatório.

Soluça e começa a chorar.

- Onde eu errei meu Deus, onde?

O jantar atrasa hoje.

2009/05/21

O HD de meu notebook foi pro vinagre, perdi absolutamente tudo o que eu tinha!

2009/05/18



2009/05/14

A VULGAR





a vulgaridade tem
nome
sobrenome
rg
cpf
(embora sonegue imposto de renda)
endereço
telefone comercial
é gorda fala alto suas
besteiras
asneiras
fuça no prato
desconhece talheres
não é burra
é porca
pouco falta para
de quatro andar
nos mata de vergonha
anula o pior dos piores
destrói o belo
despreza a arte
escurece o dia
vampira
nos suga a força vital
nos seca
nos desespera
faz o tempo parar
entre um tic e o tac
séculos se escorrem
nos congela
na eterna agonia
de não saber o que fazer
vozes interna nos gritam

- Morte, morte, morte...

2009/05/12

OUTRA VEZ NAQUELE BAR

Lembram daquele bar? Pois é, mais uma acontece lá.


- Então cara eu falei de você prá ela.

- E?

- Caiu de quatro, diz que já está te amando de paixão, já morre de saudades de você.

- Me explica isso.

- Pois falei de você, contei das tuas paixões, que você é escritor, omiti é claro, que nunca publicou, mas acho que isso era uma informação desnecessária, nunca via aquela criatura com um livro na mãos. Falei que você pratica esporte, omitindo é claro sua posição de goleiro, adora crianças – empanadas – hahahaha, afinal ela tem dois filhos e você tem mostrar ser uma certa figura paterna...

- Isso não está me cheirando bem...

- Que é isso, ela está no papo!

- Mas quem te falou que eu estou atrás de alguém? Tudo o que eu quero de mulher agora é distância, dis-tân-cia-a, quero longura delas...

- Relaxa, ela é um pitelzaõ!

- Pitalzão? Eu conheço pitel, pitelzão porque ela deve ser uma jubarte...

- Ora o que são uns quilinhos a mais...

- Quilinhos... Quantos quilinhos a mais?

- Sei lá uns noventa e cinco...

- Noventa e cinco!! Faz trinta e oito anos que eu não saio dos sessenta e você quer me apresenta uma fulana de noventa e cinco quilos? Garçom, outro chope com estanhager.

- Calma, ela também tem lá sua qualidades...

- Quais?

- ...

- Quais?

-...

- Vamos lá quais as qualidades dessa criatura. Separada, dois filhos, gorda...

- Escandalosa...

- O que???

- Escandalosa...., pelo menos é o que dizem as más línguas.

- Mas para que você quer me apresentar para essa mulher?

- Não agüentamos mais ver você nessa solidão, nessa tristeza, nesse mau-humor, amargura.

- Chega, eu conheço minha qualidades e limitações, e não preciso que você as descreva nesse bar para mim. Garçom, outro estanhaguer com estanhaguer, sem chope.

- Mas mulher é mulher, mas só te dou um conselho, não use camisinha, arrume algum outro contraceptivo...

- Acha que vou sair com uma mamífera como essa, copular - me recuso a dizer transar – e sem nenhuma proteção? Você está é louco, -falando alto – louco – gritando - louco...

O garçom trás mais uma tulipa de estanhaguer.

- Calma, calma, não grita, calma...

- Calma, o mais você tem a me dizer para eu ter que ficar calmo?

- Eu falei prá ela que você é rico, fiscal da receita...

- Garçom, garçom, pare de rir e me traga a conta!

Saiu bravo, e parece que não foi encontrar a fulana.

2009/05/11

A RECEITA




- Vamos ver o que é preciso para preparar um Crepe de Banana e canela, abaixa esse som menina, não agüento mais ouvir essas músicas de emo; Rendimento, doze porções, quem é que vem mesmo aqui? – Ô Janina, quem é que vem pro jantar da Tia Joaninha?

- E eu que sei? – responde a filha que continua ouvindo música ainda mais alto.
- Bom, vou ter que ariscar. O tio e a tia do João, dois, meus vizinhos aqui do quinto andar, abaixa essa porcaria de música menina, assim não consigo calcular a receita do doce, são seis ou sete, já deu nove, eu, a Janina e o João, são doze... Ô meu Deus vou ter que dobrar a receita... Ingredientes: - duzentas e cinqüenta gramas de farinha de trigo, uma colher de chá de fermento em pó, duas colheres de chá de canela em pó e um pouco mais para servir, canela em pó..., ô deusmeu, quem é que alérgico a canela em pó?, é melhor descascar a canela...

- Descartar mãe, descartar – grita a filha da sala, ainda ouvindo musica em altíssimo volume.

- Dois ovos batidos, cento e vinte mililitros de leite, será que pode ser leite de soja?, o menino da vizinha tem alergia a lactose..., seis bananas grandes e maduras, será que devo usar essas que estão aqui já passadas? – Janina, vai na quitanda buscar banana pro doce?

Janina, agora finge que não escuta e continua dançando na sala.

- Vai com essa banana mesmo, duas colheres de sopa de açúcar cristal, cristal acabou, vai essa comum mesmo, uma pitada de sal, melhor não por sal, o João anda com a pressão muito alta, óleo vegetal, açúcar de confeiteiro para servir, besteira açúcar de confeiteiro, isso coisa de gente besta, suco de limão para servir. – Janina, ainda tem limão?

- Não mãe, mas pode usa vinagre, dá o mesmo efeito! – responde gritando sala, onde dança e pula em cima do sofá e dá piruetas no ar.

- Modo de preparo: Numa vasilha grande - Janina onde tá a bacia de ferver roupa?

- Tá com a Dona Chiquinha, emprestei hoje de manhã

- Peneire a farinha, o fermento e a canela - canela não - vou por noz-moscada, faça uma cova no centro e adicione os ovos, eu sabia que estava faltando alguma coisa!

- Janina, minha filha corre na Dona Chiquinha e pede uns “ovo” prá ela.

Janina sai correndo, deixa o som e alto e retorna trazendo os ovos. Volta à sala, aumenta ainda mais o volume do som e põe-se a pular cada vez mais alto do sofá para o chão aprimorando suas piruetas com saltos mortais.

- Bata a metade do leite até obter uma massa homogênea, adicione o leite restante e mexa bem – lê rebolando enquanto briga com a massa - amasse as bananas com o açúcar “comum” de cristal, e o sal, sal não, e junte-as à massa. Salpique um pedaço de papel-manteiga com o açúcar de confeiteiro, de confeiteiro não tem, vai esse mesmo...

Toca o telefone.

- Ô Janina minha filha atende esse telefone enquanto eu esquento óleo.

Janina não responde, o telefone continua a tocar.

- Aqueça um pouco de óleo numa frigideira, eliminando o excesso, e despeje nela massa suficiente para fazer um crepe de 12-18 cm de diâmetro, onde vou arrumar uma régua prá “midi” esse diabo de doce? – Janina atende esse telefone, eu já tô me perdendo toda nessa receita... – Ô Janina, você lembra quem é que tem alergia por canela? Atende esse telefone e diminui esse som menina..., salpique, afinal isso é doce ou salgado, não vou salpicar nada, o sal faz mal prá saúde do João, os crepes com um pouco mais de açúcar de confeiteiro, uma pitada de canela em pó e um pouco de suco de limão. Dobre cada crepe, mas que frescura de receita açúcar de confeito é tão doce como açúcar de dona de casa, oxente Janina, atende esse telefone que eu to ficando louca com tanto barulho!

O telefone não para de tocar, o som continua alto e “Janaina” só não responde por que caiu pela janela num de seus saltos mortais.

A festa foi cancelada, e o doce ia sair uma porcaria mesmo...

2009/05/04

DONA ALZIRA E DONA LOLA


(Drama Geriátrico-relâmpago)

(Sons De Tosse, Pigarrro, Espirros,
Lamentações)




Dona Lola - Quer um cafézinho?
Dona Alzira - Não! Prefiro um chá.
Dona Lola - Erva-doce?
Dona Alzira - Não. Mate com lima.
Dona Lola - Quente?
Dona Alzira - Não. Frio.
Dona Lola - Bolachinha?
Dona Alzira - Pão.
Dona Lola - Com manteiga?
Dona Alzira - Geléia.
Dona Lola - De ameixa?
Dona Alzira - Goiaba.
Dona Lola - Que dia é hoje?
Dona Alzira - Terça- feira...
Dona Lola - Não é quarta não?
Dona Alzira - Não, terça. Tá aqui na folhinha, veja.
Dona Lola - Mas essa folhinha é de 1964.
Dona Alzira - E que diferença faz prá você o ano? Todos os nossos dias são iguais...
Dona Lola - Humpf! Quase me engasgo com a dentadura.


(pausa silenciosa)



Dona Alzira – É o Gardel cantando?
Dona Lola - Gardel morreu ontem... Encontraram ele com as perninhas prá cima durinho, durinho...


(chove)


Dona Alzira - Cadê o meu café?
Dona Lola - Mas você pediu chá mate.
Dona Alzira - Demorou tanto que agora café.
Dona Lola - Preto?
Dona Alzira - Com leite.
Dona Lola - Frio?
Dona Alzira - Não, condensado.
Dona Lola - Ainda vai querer pão?
Dona Alzira - Não, agora quero brioche...
Dona Lola - Que dia será hoje? Será que é já é quarta-feira?
Dona Alzira - Não, hoje ainda é terça-feira.
Dona Lola - Mas como você pode afirmar isso?
Dona Alzira - Você está esperando alguém?
(toca uma campainha ao longe)


(som de cadeiras sendo arrumadas, empurradas, caindo)




Dona Lola – Quem, eu? Não. Não espero mais ninguém faz tempo. É que eu gosto de saber os dias da semana...
Dona Alzira - Prá que? Prá fazer docinho prás visitas?
Dona Lola - Mas que visitas...?
Dona Alzira - Aquelas que você vive esperando nas quartas-feiras...
Dona Lola - Quartas-feiras, quintas-feiras, sextas-feiras.... Todos os meus dias são iguais...
Dona Alzira - E o chá, vem ou não?
Dona Lola - Mas o que você quer? Chá ou café?


(pausa silenciosa)




Dona Alzira - O que vier primeiro... Ainda vai demorar?
Dona Lola - Cada dia que passa, mais entendo porque a sua família deixou você aqui...
Dona Alzira (alterada, nervosa)- Só a minha me deixou aqui, só a minha? E a sua filha?
Dona Lola (nervosa e alterada) - E o seu filho então?
Dona Alzira - Era você quem vivia reclamando dos seus netos.
Dona Lola - Mas era você quem trocava o açúcar pelo sal e deixava as crianças doentes...
Dona Alzira - Mas nunca ameacei jogar nenhum dos meus netos pelas janelas.
Dona Lola - Mas isso nunca me passou pela cabeça, sua jararaca maldosa.
Dona Alzira - Jararaca é a sua filha que nos colocou aqui.
Dona Lola - Café ou chá?

(pausa silenciosa)



Dona Alzira - Formicida prá nós duas.
Dona Lola – Não é melhor guardar para quando nossos filhos vierem nos visitar?
Dona Alzira - Besteira! O dia que eles vierem aqui, o veneno já perdeu a validade...
Dona Lola - Que dia é hoje?
Dona Alzira - Terça-feira ainda.
Dona Lola - Quer um café?

(pausa silenciosa)




Dona Alzira - Não. Prefiro um chá.
Dona Lola - Erva-doce?
Dona Alzira - Não. Mate com limão.



(fade out)



Dona Lola – Tem certeza que hoje não é quarta-feira...?
Dona Alzira – Já falei, terça-feira, terça-feira, terça-feira.
Dona Lola – Café ou chá?
Dona Alzira – Licor de Jenipapo...
Dona Lola – Copo ou taça?

VASCONCELA 1ª


Esse seria o nome do barco, Vasconcela 1ª, coisa muito triste, isso significa, ou implica em Vasconcelas 2ªs, 3ªs, 4ªs, mas acho que os mares grandes como são podem agüentar isso também. Mas o diabo era de onde tinha vindo essa idéia de rato (do mar?), de ter um barco? Onde?

Vamos começar do princípio, vamos à gênese desse drama.

Estava no banho, lavava os cabelos (um começo bem feminino para agradar as leitoras) e olhava pela janela quando do nada, vindo do éter ou do Tártaro veio-me à - ensaboada - cabeça, a palavra Vasconcela 1ª.

Sabem os leitores o que é estar tomando banho e surgir-lhe uma Vasconcela 1ª? Dando asas à imaginação e tentando tirar o xampu (sem sal, estava escrito nas costas do tubo!) dos olhos fui tentando imaginar de que me serviria esse nome exótico – quis escrever horrível, mas nunca sei quem vai me ler –, e assim do nada, me veio tal alcunha, me veio o que fazer com ele. Será o nome de um barco!

Mas a numeração me deixou angustiado, o que eu faria com uma frota de Vasconcelas? Sendo os números infinitos, seriam também infinitas as Vasconcelas?

Pela primeira vez nessa minha vida de duro não consegui enxergar uma forma de fazer dinheiro com as Vasconcelas. Como eu poderia “prostituí-las” a ponto de me tirar dessa pobreza franciscana?

Com Vasconcela no cais seria fácil arrumar alguns trocados, “alguma plata”, se Vasconcela tivesse pernas e andasse em vez de possuir proa-popa-quilha e navegasse.

Tenho certeza de que quando surgir uma idéia do que fazer com ela, um tornado as levará para alto mar.

Vasconcela 2ª...

Como arrumar alguma grana com elas? Da janela vejo montanhas... Creio ter omitido um detalhe de ínfima importância, quase uma bobagenzinha de pouca monta, a saber: Sou mineiro, e a única vez que vi o mar foi numa foto de jornal.

Vasconcela 3ª...


Todo meu conhecimento de portos vem de Robert Louis Stevenson e de cais de Plínio Marcos, ou seja, sou um teórico de mares e outras ondas.

Vasconcela 4ª...

De olhos fechados penso na minha pequena frota e travo minha batalha para tirar o xampu dos mesmos, que estão ardendo.

Saio do banho, troco de roupa e vou para o trabalho, em vez de ondas subindo e descendo, lutarei com ladeiras, mas acho que essa noite ao chegar em casa, não vou contar carneirinhos para dormir...

Vasconcela 6ª...


CATEDRAL


Entro em uma igreja velha - e não antiga - no centro da cidade estilo Gótico Tardio, comprida, longilínea, com torres em forma de pontas agudíssimas, quase um cenário para um filme de terror. Atravesso seu umbral e para meu desgosto, por obra de algum modernista inimigo da fé de meus amigos católicos, a vejo totalmente pintada de branco, suas longas paredes, seu teto abobadado, de um branco que quase ofusca aquele que, desavisado e despreparado, ali entra.

Naquele mesmo momento deu-me vontade de sair correndo. Meu espanto só fez aumentar quando percebi que os vitrais também haviam sido substituídos por vidros brancos e foscos, fazendo-me afundar numa brancura opressiva e agonizante. Nenhuma imagem se via lá dentro.

Onde fui à procura de paz, uma solução, um refúgio, só encontrei desespero...

Explico-vos.

Numa igreja, principalmente uma Gótica, tardia ou não, procuro a grandeza, seja de um Deus, um Universo sem fim, tão grande (os dois) que quero ver na minha pequenez uma porta que sirva de saída de minhas angústias, desespero...

De que me adianta achar-me igual a Deus ou o Universo, se não consigo resolver meros problemas cotidianos?

Afinal procuro por algo mais que possa me auxiliar nessa hora de necessidade.

Mas, mesmo desiludido e frustrado, resolvi ficar por ali mais uns instantes...

Perdi totalmente a vontade (ou a coragem?) de orar e clamar por ajuda, e me deixei vagar à procura de entendimento para aquilo. Quem teria a idéia de pintar a igreja de branco por dentro, não deixando um canto sequer no escuro?

Não havia mais o lugar para as velas (há em mim um clamor por fogos, tochas e velas, eco talvez da Idade Média...), e sim caixinhas com pequenas lâmpadas que são acesas com o “simples” depositar de moedinhas! Teria o autor de tal concepção a idéia de que em cantos escuros escondem-se demônios? Ou será que ele acha-se em “pé de igualdade” com o Criador e o Universo? Passou-lhe pela cabeça que nessa “obra”(?) ele estaria “olhando nos olhos dos “Gigantes” como um igual?

Respeito a arrogância, mas nunca o mal gosto!

Deixando essas divagações de lado, levanto-me para ir embora, mais triste do que quando entrei...

Procurei ali uma luz no “céu”, mas tudo o que vi foi um prédio, pintado de branco, me afastando da ilusão de ter “saído” do mundo real, da dureza do dia-a-dia, ali estava eu em mais um edifício ordinário, como se fosse um prédio de apartamentos, um conjunto de escritórios, ou seja, mais um prédio comercial como outro qualquer...

Quando entrei ali queria sentir-me pequeno, minúsculo, a ponto de achar que meus problemas eram ainda menores que eu diante de toda a criação, mas vi que eu era do mesmo tamanho, talvez só pouca coisa maior que o verme que concebeu a idéia de fazer aquilo ali dentro...

Não pensem que sou religioso, não sou, sou um ateu espiritualizado (ironia de minha parte?) que às vezes procura abrigo e que dessa vez não encontrou.

Uma vez lá fora, percebi que o sol era menos ofuscante que a pintura da igreja...

O QUE EU DISSE QUANDO CHEGOU MINHA VEZ DE PRONUNCIAR-ME

Depois de ouvir por horas dos cinco irmãos e cinco cunhados as mais lagrimosas desculpas, razões, motivos, “porque sins”, “porque nãos”, gritos, acusações, ofensas, ameaças, ranger de dentes, o mais velho dos filhos disse que agora era a minha vez [1]de expor minha opinião sobre o que fazer com os velhos. E quem me conhece, sabe que essa sempre foi “a minha praia...” O que faltou em apupos sobrou em silêncio e aversão por mim, mas sigamos.

Levantei-me dramaticamente devagar, aliás, os presentes não esperariam outra coisa de mim. Apoiei minhas mãos no tampo da mesa, olhei nos olhos de cada um à minha volta, pigarreei, tomei um gole de água, que bebi lentamente (quase gargarejando) e ao pousar o copo – coisa de segundos - bati fortemente com o punho na mesa fazendo, agora, por vontade própria, uma cena realmente dramática.

Pularam de suas poltronas, arregalaram os olhos, uns mais sensíveis (culpados talvez?) perderam o fôlego e os principais interessados demonstraram medo, medo de verdade. Me alegrei, pois como podem ver, comecei bem.


- Vocês querem a minha opinião, pois aqui vai ela. Sou francamente a favor da internação imediata dos dois. Olhei para o velho casal, eles tiveram um calafrio, discreto, mas eu percebi.

– Vocês! – disse apontando o dedo indicador de forma dramática (detesto quando percebo que, contra minha vontade, agrado determinadas platéias), deveriam ser internados numa clínica imediatamente, para posteriormente serem transferidos para uma casa de repouso. Uma vez lá, deverão ficar em quartos separados e em alas separadas, nunca mais se encontrando, nem em corredores ou jardins – quando forem levados para tomarem sol –, nem durante as refeições. Deverão permanecer assim até que se esqueçam um do outro. Mas – lá vou eu ser dramático outra vez! –, não pensem que faço isso por maldade. Não! – devo confessar que não fui muito convincente, mas os olhos marejados dos velhos já me bastavam no momento –. Digo isso para o bem de vocês dois. Lá, os velhos – ai pronunciei os “velhos” olhando para os filhos, ignorando totalmente os interessados como se eles já não estivessem mais lá – terão atendimento médico, enfermeiras treinadas, visitas de católicas piedosas, apoio psicológico e principalmente, nenhum motivos para se queixarem de nada! Juro que nesse momento senti a primeira praga da velha nas minhas costas.

- Mais ainda.Vocês terão pessoas para conversarem, para desaguarem esse mar de fel que os corrói por dentro. Para a Dona Celinha vai ser como aquelas férias que ela sempre quis e o velho lhe negou. Lá será casa, comida, roupa lavada e gente para conversar à vontade, não terá que pôr e tirar mesa, lavar louça, eles cuidarão de lembrá-los dos horários dos remédios, e quem sabe, visita dos filhos e netos saudosos (tá certo peguei pesado aqui) aos domingos...

Fiz uma pausa para mais um gole de água que bebi o mais lentamente possível. Na verdade essa pausa era uma provocação, sabia que a qualquer momento um dos filhos ou filhas pulariam em meu pescoço. Os importunava sim, mas é importante que os nobres leitores tenham em mente que eu nunca quis participar dessa reunião, mas o filho mais velho usou argumentos tão convincentes[2] que não o houve como eu recusar[3] e acabei vindo aqui. Sinto que vim aqui não como mais um genro, mas como um artista que dá show em conferências e palestras, só para distrair os presentes, sem influenciar em qualquer resultado – e cá estava eu fazendo o que faço melhor, drama e palhaçada! Sorvido o último gole de água, voltei à carga.

- Agora vejam bem – apontei com esse dedo indicador que ainda haverá de ser item de colecionador no futuro para o velho.

- Seu Bentinho, o senhor poderá se ver livre das tiranias da Dona Celinha, nunca mais comerá a gororoba ora insossa, ora salgada que ela lhe serve, poderá ler seu jornalzinho – esse momento foi meu ponto alto, por dentro, chorei por não estar sendo filmado – pois juro diante dos presentes que faço-lhe, de todo o coração, uma assinatura do Diário Oficial da União para que o senhor tenha o que ler pelo restos de seus dias. Pense nas enfermeiras que o atenderão, todas bonitonas, de uniformes brancos e justos, todas elas sempre sorrindo, sei que a princípio o senhor estranhará esse hábito das pessoas mostrarem-lhe os dentes todas as vezes que lhe virem, mas creia em mim, todas as pessoas, fora os dessa casa, fazem isso corriqueiramente. Logo logo o senhor se acostumará com isso. Imagine acordar e ver um dia claro, luminoso e, não se assuste, pois aquela grande bola de fogo no céu é o sol. Não me olhe assim tão espantado – não verdade ele estava era ficando apopléctico –. E ao ser levado aos jardins pelas enfermeiras o senhor sentirá como é bom tomar solzinho da manhã. E logo irá sentir-se tão bem que perceberá como foi estúpido economizar tanto dinheiro por tanto tempo, que num átimo, pulará de sua cadeira de rodas – impagável a cara dele com os olhos quase soltando das órbitas – e saíra andando, andando não senhor, correndo...

Olhei para os lados enquanto o filho mais velho dava um calmante para o pai, e olhando para a velha vislumbrei, satisfeito, que ela, com ódio desse escriba, tinha trincado o cabo da bengala.

Olhei para meu relógio e conferi as horas com o velho cuco na parede, dei a entender que tinha que ir embora e voltei ao pequeno e improvisado discurso.

- Não quero, e faço questão de deixar isso bem claro para os presentes, que não desejo nenhum mal aos seus pais, mas somente o melhor para eles agora que o fim se apresenta cada vez mais próximo e em cada esquina – “o fim se apresenta cada vez mais próximo e em cada esquina” -. Meu Deus, que momento de rara inspiração!

Os filhos olharam-se entre si, os velhos – pela primeira vez em muitos e muitos anos – fitaram-se nos olhos e procuraram por Deus naquela sala, mas posso afirmar-lhes, Deus não estava lá! E tremendo em suas bases perceberam que todas as suas maldades, suas maquinações e manipulações tinham cobrado um preço, muito alto, e EU estava lá cobrando...

- Quero, como já frisei anteriormente, unicamente o bem deles, um bem que jamais poderá ser encontrado aqui nessa casa, pois nenhum de vocês tem qualquer tipo de treinamento médico, com exceção é claro do Fred - marido da filha mais velha, veterinário com licença cassada –, então pelos motivos fartamente citados e expostos, voto por mandá-los imediatamente à uma casa de repouso, e nesse momento tiro de minha pasta 007 setenta e dois folhetos de clínicas de repouso e asilos, sendo que sessenta e nove estão localizados em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre. De olhos marejados, jurei que era a melhor, bastava pesquisar na internet, outros em Maranhão, Rio Grande do Norte e dois ou três nas Guianas[4].

- Para terminar tão longa e cansativa peroração, quero ratificar os meus melhores votos ao Seu Betinho e Dona Celinha, e desejo do fundo de meu (raso) coração todo o bem e toda a felicidade a vocês e que seja feita somente a vontade do Bom Deus! Então abaixei minha cabeça em uma muda oração que confrangeria o coração de qualquer um com um mínimo de fé na humanidade.

Terminando de falar esperei que alguém entusiasmado deixasse de lado certas antipatias por mim e aplaudisse meu discurso, mas que nada, somente o silêncio temperado por um enorme e amargo desprezo me acompanhou até fora da sala. Saí dela sem que o filho mais velho me pagasse a velha dívida prometida. Mas, uma vez na rua, praguejei sacudindo meus punhos para o céu: - Espero que todos vocês morram quinze minutos depois de encontrarem a felicidade![5]
Esperei que um raio seguido de um estrondo cortasse o céu como se fosse uma confirmação do registro da minha praga, mas...


[1] O sexto cunhado.
[2] Ele me devia dinheiro. Estava, secretamente, quebrado, pois perdeu tudo o que tinha em jogos.
[3] Eu precisava daquele dinheiro!
[4] Omiti a que havia em Maceió, muito sol e praia, que nunca desfrutariam.
[5] Vide a cena em que Scarlett O’Hara jura nunca mais sentir fome em “...E O Vento Levou”