2009/03/31

Essa imagem vale por mil palavras.


2009/03/27

MANUAL

1. Não me convide para festas:

· De crianças
· Batizados de crianças
· Aniversários de crianças
· Onde haja crianças: Que chorem
Que corram de um lado para outro
Que se lambuzem de doces
Que fiquem pedindo
Que fiquem oferecendo
Que fiquem perto de mim

2. Não me falem de

· Cunhados
· Cunhados vindo me visitar
· Cunhados que se recuperaram de algum mal
· Cunhados que sobreviveram a algum acidente trágico
· De irmãs que vão se casar
· De irmãs de minha mulher que irão se casar

3. Se tiverem filhos e forem obrigados a ficarem sobre o mesmo teto que eu:

· Deixem vossas crias em casa, com um pote de água (fresca) e outro pote com bolachas, docinhos e outros barbitúricos.
· Imaginem que somente os pais amam seus filhos e que não sou, de forma alguma, obrigado a amá-los ou aturá-los.

4. Considerando o pior (que eu tenha sido levado, sob ameaças, ou tranqüilizantes) a algum evento social:

· Tentem falar o mínimo possível comigo
· Cumprimente-me de longe com um leve e discreto aceno (o qual prometo não corresponder)
· Me ignorem e me deixem beber um uísque decente (se por ventura uísque decente houver meu Deus!)

5. Uma vez saindo do dito evento social que fui sob coação:

· No dia seguinte não comente nada a respeito.
· Se, por azar, sacanagem, brincadeira de mau gosto ou mesmo pura maldade, me fotografaram (bebendo, brigando, judiando de alguma criança, envenenando algum bebê), por favor, para o bem de vocês, deletem tal foto.
· Ignorem-me.

6. Se você leu meus livros:

· Se gostou, não precisa me dizer, para mim basta saber que você comprou.
· Se não gostou, ninguém precisa saber. Jogue-o fora!
· Não rabisque para marcar. Afinal nada lá é assim tão importante. Importante sou eu que o escrevi.
· Não o empreste, afinal ainda tenho que pagar a editora. Quem quiser me ler que compre seu exemplar.
· Não faça citações.
· Não faça comentários.

7. Se você chegou até aqui, está provado que:

· Você é um desocupado
· Masoquista
· Leitor de Caras
· Leitor de Paulo Coelho, e tem
· Tremenda baixa auto-estima.

8. Espero que:

· O editor desse exemplar coloque esse Manual no fim do livro
· Que você leitor descubra que literatura é outra coisa
· Que é fácil me entender
· Que é melhor jamais me convidar para coisa alguma
· Que é melhor jamais ter filhos
· Que se os tiver é melhor ficarem longe de mim
· Que batata engorda
· Que o Thiago jamais lerá isso.

9. Quem é o Thiago?

· Não interessa a ninguém
· Não deveria interessar nem a mim mesmo, tudo o quero é que ele fique longe à hora do café
· Que ele seja abduzido e vá servir de adubo em Alfa-Centauri
· Ele não passou da cartilha Caminho Suave


10. Manuais não servem para nada

· Escrevam minhas palavras
· Tenham certeza absoluta sobre isso
· Pelo amor de deus parem de ler isso.
· Fechem o livro e vão assistir televisão.

11. Se eu estiver fumando:

· Porque quero ficar sozinho
· Se eu estiver sozinho é porque eu quero ficar sozinho & fumando
· Ou seja, fumo sozinho, quero ficar sozinho e por favor, não se aproxime
· Faça isso, e adie sua visita ao Criador

2009/03/25

ANIVERSÁRIOS


Está certo eu vou! – respondi contrariado e de má vontade. Detesto, ou melhor, passei a detestar ir a aniversários, aniversários e qualquer outro tipo de comemoração em que eu tenha que ver pessoas que não quero ver. Não suporto quando chegam para mim e dizem:

- Engordou hein? Barba branquinha já hein? Falta muito para aposentar? – e o pior: - Já viu teu cunhado ai? Francamente... Mas como ela insistiu muito, pediu, quase chorou e ameaçou, resolvi ir. Mas eu sabia que não deveria ter aberto esse precedente, eu sabia...

Da rua já ouvia o pagode comendo solto, os gritos, as risadas, e o pior, o que só parecia ser um pagode era na realidade um karaoquê. Quis voltar dali mesmo, mas uma força maior que a minha me segurou belo braço e me puxou para dentro. Entrei no salão como um condenado sobe ao patíbulo. Olhei para os lados, não havia nenhuma outra porta que eu pudesse usar, as janelas eram altas e pequenas para meu tamanho, pensei nesse momento: O primeiro que me chamar de gordo morre aqui e agora.

Dei o primeiro passo em direção a uma mesa, uma no canto, perto das caixas de som. Dirigi-me para lá em passos ligeiros enquanto a mulher ia cumprimentar as irmãs e as sobrinhas. Sentei de costas para o salão, era o único nessa posição e rezei para que ninguém percebesse minha presença.

O sacrifício humano, digo, o karaoquê prosseguiu ainda por muito tempo. Serviram cerveja quente, que recusei; uísque paraguaio, que recusei; empadinha empapadas de gordura, que também recusei, eu me recusava a admitir que estava lá. Será que ninguém percebia isso?

Passado algum tempo, começaram a apagar as luzes para os parabéns, pensei ser essa a chance de sair correndo, empurrar quem quer que estivesse na frente e alcançar a rua. Outra ilusão perdida, pois minha mulher, outra vez ela, me pegou pelo braço e levou-me à mesa.

Cantaram “parabéns prá você” três vezes seguidas, pois a criança assustada não conseguia apagar a velinha e chorava convulsivamente. Discretamente empurrei minha mulher para o lado e fui, de costas, me esfregando à parede na ilusão de conseguir, feito uma barata deslizar para a porta da frente.

Estava com sorte, pensei, pois até agora ninguém deu pela minha presença. Uma vez na porta, corri para a rua e acendi um cigarro. Me pergunto como podem falar mal de um companheiro tão fiel como ele. Enchi o pulmão de fumaça e a expeli com volúpia. Logo, vendo que a coisa seguiria longe ainda, acendi outro e fumei com mais calma e prazer redobrado... Olhei o relógio e me perguntei quanto tempo mais teria de sossego antes que minha mulher viesse me puxar pelo braço para dentro do salão outra vez.

Terminei o cigarro e fiquei vendo os carros passarem na rua, contei os ônibus e calculei em quanto tempo eles completavam o percurso da linha, fiquei vigiando os guardadores de carro, fui até o pipoqueiro, atravessei para o outro lado da rua e acendi outro cigarro. Nesse momento começo a sentir no meu íntimo que estava nos momentos finais de minha alegria. Mal terminei o pensamento e uma voz me chama para dentro da festa.

- Estão servindo o bolo!

Como se eu tivesse saído de casa para comer bolo regado a pagode, bebedeira e gente dançando bêbadas e descalças...

E lá estava eu com um pratinho de plástico azul, um pedaço pequeno de bolo com quilômetros de glacê derretendo, dois brigadeiros quadrados, um beijinho onde haviam economizado no côco e um cajuzinho sem o amendoim na ponta. Olhava em volta procurando um lugar para depositar o prato e toda aquela hecatombe açucarada.

Segui outra vez rastejando pelas paredes, pelas partes escuras e com cortinas do salão até porta. Precisava ir ao bar da esquina tomar uma água mineral.

Ao chegar à porta, agoniado, sinto outra vez minha mulher pegar meu braço, mas para meu alívio Ela me diz:

- Vamos embora, a festa acabou.

Aliviado entro no carro, dou a partida e antes de chegar em casa indignado desabafo com minha mulher.

- É prá isso que me leva nas festas da sua família? Todo mundo me ignorou lá dentro!


Acho que ainda tem mais uns dez aniversários daqui até o fim do ano...

2009/03/24

QUE PENA!

Por mais que eu mastigue
Torne a mastigar
A mitigar a má notícia
Ela não me desce a garganta
Ela entala
Pára no meio
Tira-me o ar
Penso onde errei
Penso quem acusar
Penso quem condenar
Mas só vejo uma vítima
(pobre criatura!)
A própria criminosa
Que se torna, por fim
(e por escolha própria)
Seu juiz
Júri e executor.
Terá que pagar
Essa pena
De velar pela sua vida
E pela outra
(que trazes no ventre)
Pelo resto de tua mocidade!

Espero que mantenhas ainda teus sonhos
Alguma coisa, uma pitada talvez, de ilusão
Que não desperdices o resto de sua vida
(outra vez)
Nos descaminhos
Espero que a vida, lhe ensine algo
Alguma coisa, que em palavras
Os seus não lhe passaram
Suas dores
(saiba)
Não serão só suas
Você não sofrerá sozinha
Tua dor
Doerá em todos nós
Mas a tua solidão
E aprendizado
Serão só teus!
Espero que isso sirva para que evites
Outros erros iguais.

Saibas que sangro e morro um pouco enquanto escrevo essas linhas

2009/03/20

Divina Dália do Nascimento fala com Luizão Roza-Carmim




Hobbs Nietsch – Boa noite senhores ouvintes

Lindomar Orlando – Boa noite senhoras ouvinte. Essa noite temos como convidada, digo convidado, digo, temos a presença de Luizão Roza-Carmim, conversando com vocês queridas ouvintes ouvindo seus mais profundos segredos e problemas...

Hobbs Nietsch – Estamos com as nossa, digo, com a nossa linha liberada. Podem ligar.

Lindomar Orlando – Não se esqueçam esse programa tem o patrocínio exclusivo da Casa do Norte e Pertences para Feijoada “Pepe-Manolo & Hijos”, a “casa que alimenta corpos e espíritos”.

(Toca o telefone)

Hobbs Nietsch - Já temos na linha o primeiro ouvinte

Lindomar Orlando – Ou primeira ouvinte. Alô! Pode falar.

Hobbs Nietsch – Poderia declinar o seu nome?

Divina Dália dos Nascimento – (voz de telefone) - Divina Dália dos Nascimento, essa sua escrava. Ai estou tão emocionada de falar com vocês que até esqueço as minhas misérias...

Luizão Roza-Carmim – (afetada/o) - Ai minha querida não precisa se emocionar tanto assim. Afinal somos apenas meros mortais como todo mundo, assim igualzinhos a você. Não nos vejas como entidades superiores acima de vocês reles mortais. “Come on”. Vamos pode abrir seu coraçãozinho comigo, sou todo, digo toda ouvidos para você, desabafa meu anjo, desabafa....

(BG Música muito triste)

Divina Dália dos Nascimento – (chorosa) – Ai meu Deus por onde começar...?

Luizão Roza-Carmim – (irritada/o) - Do começo minha senhora, do começo facilitará mais a nossa vida, a senhora não acha?

Divina Dália dos Nascimento – (se recompondo) - Tudo começou ontem, foi mais ou menos assim: O meu marido voltou cedo do trabalho, abriu a porta da cozinha e me encontrou de quatro limpando o chão. E eu está vestida apenas com um avental! Quando ele meu viu assim, como dizer, quase nua e me balançando no ritmo da escova de chão ele feito um tresloucado, não tem dúvida, oh! Meu Deus que vergonha eu tenho de ter de dizer isso... ( aumenta a música triste) ele abaixou a calça e me possui ali mesmo! Depois de alguns minutos ele explode num orgasmo (Aumenta ainda mais a música)

Luizão Roza-Carmim ( em off) - Isso é que é homem!

Divina Dália dos Nascimento (chorosa) Mas em seguida, ele me deu uma surra mulher.
Hobbs Nietsch – (indignado) Mas que bruto! Que estúpido! Que animal!

Lindomar Orlando – (chutando a cadeira) – Salafrário! Beócio! Apedeuta de uma figa!

Luizão Roza-Carmim (excitado/a) - Que homem, que homem... Mas o que a senhora falou, como a senhora reagiu??

Divina Dália dos Nascimento (chorosa) - Eu tentei entender o que estava acontecendo, eu me perguntava “mas o que foi? Será que ele estava maluco? Eu fico aqui pronta para satisfazer suas fantasias, me entrego sem falar nada e ele ainda quer me surrar?” (chora copiosamente) (aumenta a música triste)

Luizão Rosa-Carmim (indignado) - Posso perguntar pelo menos porque ele estava lhe surrando daquele jeito?

Divina Dália dos Nascimento (Chorando histérica) Meu marido olhou para mim com ar zangado e respondeu: (pausa dramática) (música de mistério) – (arfando) “ Você nem se virou para ver quem era!” Eu não suporto mais o ciúme dele, não agüento mais isso meu Deus!!! Por favor Boneca me ajude, dê-me seus doutos conselhos para esse pobre coração atormentado.

Hobbs Nietsch – Sim Boneca, digo, Luizão, o que você pode dizer para essa pobre criatura...? Aliás a senhora já foi à Delegacia da Mulher prestar queixa contra esse salafrário?

Divina Adália do Nascimento (brava) O senhor é louco, vou dar queixa de um homem como esse que me ama e demostra isso a toda hora??

Lindomar Orlando (em off) - Já começou... Estava demorando... Ninguém em seu juízo perfeito liga para nós?

Luizão Roza-Carmim _ Querida Divina Dália do Nascimento, o que eu posso dizer para uma mulher que é tão amada, tão desejada, que mesmo suada, suja de poeira, com os cabelos desgrenhados, os pé sujos e calcanhares rachados, com brotos de samambaia nascendo nas gretas, e que mesmo assim ainda é desejada pelo marido que chega cansado do trabalho, que passou o dia cercado por mulheres lindíssima e cheirosas, e ainda assim nesse estado é desejada e amada?? (se alterando) Francamente minha senhora, em vez de perder seu tempo e o meu, telefonando para cá, vá cozinhar para esse santo, vá a uma salão de beleza lixar esses pés de chacareiro, tome um banho e faça juz ao bom marido que tem. (gritando) ...e quer saber mais?, a senhora apanha é pouco, se fosse comigo a senhora ia ver só...

Hobbs Nietsch (interrompendo) - Técnica, técnica, um copo d’água com açúcar aqui para a boneca. Ela se descontrolou, rápido técnica...

Luizão Roza-Carmim (histérica) – Me segura, me segura que eu vou ter um troço.... Chama o Fausto Hecatombe para me socorrer.... Ai que vou enfartar...

Lindomar Orlando - (rindo) - Interrompemos momentaneamente as nossas transmissões, voltaremos logo que resolvermos esse problema técnico.

(baixa a música triste)

(estática)

2009/03/16

Enquanto ela segue em frente


No balanço
Pendular
Do ir e
Vir
De lá
Prá cá
Graciosa
Macia
Deliciosa
Branca
Alva
Clara
Discreta e
Secreta
Ela para
Anda
Senta
Levanta
Segue balançando
Rebolando!

A PESCA


Enrolava a linha em volta da garrafa, molhada e já cheirando a mar, pescava com linhada, que dava mais prazer que vara e carretilha.

Rodou sobre a cabeça a chumbada, deu uma, duas, três voltas no ar e lançou-a ao mar.

Esperou uns minutos, nada dos peixes beliscarem a isca. Tornou a puxar a linhada, enrolar na garrafa e lança de novo n’água.

Assim passou toda a tarde.

Não tinha pressa nenhuma de voltar para casa. Olhou em volta procurando o cachorro, e o viu correndo atrás de gaivotas, latindo feliz da vida, indo e vindo atrás das aves. Só se ouvia o barulho das ondas e o latido do cão. Isso era bom, e sorria pensando no alvoroço que deveria estar em sua casa a essa hora. Gente falando alto, crianças correndo, os velhos gritando para se fazerem ouvir.

Suspirou e jogou a chumbada de volta à água, a linha corria e espalhava água salgada para os lados, nesse momento tocou o celular, viu que era a mulher procurando por ele.

Pensou se deveria atender ou não.

Não atendeu.

__Parou de tocar, - vai ver a mulher cansara de esperar que ele atendesse.

Recolheu a linha mais uma vez, nada de peixe, só água salgada e algumas algas. O cachorro continuava a correr atrás das infelizes gaivotas, estava molhado e sujo de lama, teria que tomar banho quando voltasse para casa.
Sorriu outra vez vendo a imensa alegria do cão. Novamente o celular tocou, sem pensar, quase como um reflexo, jogou o parelho no mar, em segundo depois arrependeu-se, teria que comprar outro agora.

__Mas que diabo a mulher tinha que ligar tanto?

Recolheu a linha, estava mais desanimado ainda com a pescaria. Não estava lá só para pescar, queria mesmo era ficar sozinho com seus pensamentos, os peixes seriam um bônus, mas essa chamada insistente da mulher...

Colocou o camarão no anzol, girou a chumbada sobre a cabeça e arremessou o mais longe possível, e esperou. Para seu espanto a linha deu um tranco, e ele imediatamente começou puxá-la.
Puxou, puxou e por fim na ponta da linha aparece um peixão, o cachorro parou a sua tola correria e veio ver o que o dono tinha conseguido, sentou-se ao seu lado abanando o rabo, quando o dono coçou-lhe a cabeça e as orelhas.

O sol começa a se pôr, o dono pergunta ao cachorro se deve continuar tentando mais um peixe antes de voltar para casa, em resposta o cachorro sai correndo para se divertir com as gaivotas.

O velho sorrindo começa a enrolar a linha em volta da garrafa...

2009/03/10


2009/03/05

O ASSASSINO TÍMIDO


Duas facadas nas costa, não mais que isso, somente duas, duas muito bem dadas, foi fundo até o cabo, até sujei as mãos, enfiei, virei lá dentro das costas e depois enfiei outra vez, como eu disse só duas facadas e não mais que isso, afinal, duas já mata e mais que isso ele poderia gritar, gritar meu nome e o senhor sabe o que penso sobre gritarem ou mesmo só falarem meu nome, eu morro de vergonha.

Posso ser um bandido, ladrão até mesmo assassino, mas sou antes de tudo um tímido, tão tímido que se flama meu nome comigo por perto fico vermelho, a cara esquenta, acho que até mesmo os cabelos e arrepiam.

Então, por causa dessa minha timidez desenvolvi uma forma rápida de matar o desinfeliz, duas bem dadas nas costas, pegando o pulmão, ou seja, lá o nome que dão praquele órgão que sangra feito porco, tuf-tuf, e pronto, ta o corpo estendido no chão.

Não dou nem tempo pro cadáver olhar pra mim, aliás, para o meu próprio bem, já pensou se, imagine só, ele sangrando, tonto, tudo se apagando prá ele e de repente ele olha prá mim, ponha-se no meu lugar, tímido como sou, sou capaz de desmaiar...

Não senhor, sou um cabra muito macho, mas fazer o quê se tímido?

Por isso não vou prá guerra, as armas até que são boas, tem bastante potência, dá prá matar um bocado de gente, mas ai, ai mora o perigo...

Muita gente em volta de mim, muita gente na minha frente, muita gente atrás, não dava não, não dava não, eu ia morrer ali mesmo, antes de dar o primeiro tiro, nem unzinho...

Pois é por isso doutor, por causa dessa minha maldita timidez, que estou aqui prestando esse depoimento pro senhor com as luzes apagadas, não é por vergonha do que fiz não, não tenho vergonha nem arrependimento, é só por causa dessa meu acanhamento mesmo, imagine o doutor que eu não tenho carteira de identidade por causa dos fotógrafos, não há quem me coloque de frente pro sujeito e praquela máquina, veja doutor, nem penteio os cabelos, morro de vergonha de olhar prá minha cara num espelho...

Quando eu ia imaginar que quando gritaram - Severino!- estava chamando o pedreiro da obra e não eu? Pois quando ouvi meu nome, pelo menos eu pensei que fosse o meu nome, fiquei ali paralisado, suando frio, com o carão vermelho de vergonha, nesse minuto tão curto, foi que me prenderam.

Não sei mais o que faço com tanto acanhamento...

2009/03/03