2009/02/25

Uma História de Pele


Fim de tarde andando pela praia, o rapaz é parado por um homem mais velho, que suspeitamente lhe diz:

-... então? Gostou dela? Vi de longe que você estava olhando para ela.

- Sim...

- Viu esse corpo, esses cabelos negros?

- Sim..., mas qual seria a cor dos olhos dela?

- A cor dos olhos? Hoje em dia é a cor que o freguês quiser. Verde, azul, castanho, olhos de gato, branco. Aqui o freguês é que manda! Se quiser, ela pode ficar loira, ruiva, cabelos crespos...

- Bom...

- Então?

- Ainda estou pensando...

- Aposto que você fará muito sucesso com seus amigos... Veja só os seios dela. Como diria o Chico, “peitinhos de pitomba”.

- Foi primeira coisa que reparei nela...

- Então?

- Não sei o que vão dizer lá em casa... Minha família é muito católica, e se minha avó me vir com ela é capaz de morrer, meu pai me põe de casa prá fora...


Começa a escurecer na praia. As pessoas que passeiam por ali olham para ele e para o comerciante, deixando-o ainda mais constrangido com a situação.


- E então vamos fazer negócio? – diz jogando as tranças jamaicanas para trás - Outra linda como essa aqui você não encontrará assim por ai, isso posso te garantir...

Ele pede mais uns segundos para pensar, e enquanto olha para ela ali, quieta, muda, quase assustada, imagina ouvi-la sussurrar-lhe: - “Me leve com você”!

- Então, vai levar? Aproveite que o movimento está fraco hoje e te faço um desconto, a moça aqui não arrumou nada e preciso comprar o leitinho das crianças... – ri da própria piada e acende um baseado.

- Não! – Diz entre decidido e já arrependido.

- Então está certo, até mais. – fingindo pouco caso - Tem certeza que não vai levar a garota pra casa? Pra sua cama? Pro seus amigos te invejarem? Veja bem esses olhos verdes, os peitinhos de pitomba, cabelos negros... Tem certeza? Não é todo dia que se encontra uma obra-prima como essa. – diz cobrindo a imagem com a fumaça do baseado.

O rapaz olha para a figura no papel e responde mais para ela que para ele:

- Não, não posso te levar na minha pele, não posso não...

Mais uma vez, na última hora, desistiu daquela tatuagem.



2009/02/20

A CASA NOVA

Entramos com alegria incontida na casa nova. Casa nova é força de expressão, era a nossa primeira casa.

Linda como toda primeira casa, espaçosa, assim parecia sem os móveis, e arejada, muita luz do sol por todas as janelas o dia inteiro e um pequeno quintal nos fundos para a horta de nossos sonhos. Comida natural, tirada direto da terra e outras bobagens new age...

Contamos para a nossa mudança...

Que chegou numa quinta-feira.

Não chovia, mas o céu anunciava água, muita água. Por isso apertamos os homens para trabalharem o mais rápido possível, e para estimulá-los prometemos uma gorda propina.

Antes da chuva chegar os móveis estavam dentro da casa.

Por apenas uma hora e cinqüenta e sete minutos fomos felizes ali...

Na sala todos com os moveis amontoados, começamos a repensar a idéia da propina, pois os homens largaram tudo na parte de baixo da casa, prometendo - às custas de outra propina – voltarem no dia seguinte para nos ajudarem a subir os móveis de quarto.

Cansados, resolvemos que dormiríamos na sala mesmo, empurraríamos o que pudéssemos para os lados, colocaríamos o colchão no meio e depois, muito depois, pensaríamos o que fazer.

Alguns trovões e relâmpagos depois, cai a energia da rua e descobrimos que não tínhamos uma vela sequer na casa nova...

Com o barulho da chuva, acabamos por dormir...

No dia seguinte acordamos assustados!

A casa em que nos encontrávamos não parecia em nada com a casa do dia anterior, a casa que havíamos comprado com todas as nossas economias, nem a cor das paredes era igual a da véspera. Pensei que ainda estava sonhando, mas voltei à realidade com o grito de minha mulher.

Lógico que duas pessoas não poderiam ter o mesmo sonho, mas descobrimos depois, poderiam compartilhar o mesmo pesadelo.

Nada ali dentro era igual à véspera, nada, das mobílias à própria casa. Onde estava o quintal para nossa horta? As grandes janelas por onde entraria sol durante todo o dia? As paredes, o piso, o teto? Teríamos saído de casa durante a noite como dois sonâmbulos? Impossível, acho que qualquer sonâmbulo acordaria com a tempestade de ontem à noite.

Subi as escadas para ver o resto da casa, e qual não foi meu espanto em ver que a parte de cima praticamente não existia.

Onde deviriam haver três quartos com sacadas, dois banheiros, corredores, não havia nada, nada! Somente um grande galpão onde o sol apareceria somente como fotografia numa folhinha. Tudo escuro, úmido, fétido.

O chão estava pegajoso, e pude perceber pelo mal cheio que estava coberto de corpos de pombos mortos. Ainda chocado pus-me a querer entender como pombos deveriam ter entrado ali em vez de tentar entender o que houve com a minha casa.

Desço ao ouvir minha mulher me chamar do que deveria ser o quintal dos fundos.

Lá a encontro tão chocada quanto eu. Onde deveria estar o quintal com terra havia uma caixa quadrada de três por três exatamente no meio do terreno, agora arenoso e sujo (mais pombos mortos).

Por alguns segundo ficamos aparvalhados vendo aquele cubo de madeira sem saber o que fazer.

Voltamos à sala resolvidos a falar com a imobiliária, com a polícia, com dom José, o bispo, amigo da família de minha mulher. Mas, é claro, o telefone “não havia mais” também.

Sumira.

Desesperados corremos para fora, afinal algum vizinho deveria ter visto alguma coisa acontecendo enquanto dormíamos.

Mas qual não foi a nossa surpresa quando deparamos com a rua...

A rua propriamente não existia, era um areal sem fim, cercado de árvores raquíticas, quando não, mortas e secas, com casa hora aqui, hora ali. Casebres na verdade, casebres toscos que só não estavam caídos ao chão por força divinamente pagã.

E estando do lado de fora nos ocorreu olhar para nossa casa e qual não foi nosso espanto em ver no lugar de nosso lar, mais um casebre, mais um miserável e tosco casebre de madeira, podre, sujo e, como seria possível?, sem o segundo andar, aquele segundo andar que minutos antes eu havia visto?

Minha mulher começou a chorar mais intensamente ainda, para acalmá-la levei-a para dentro da casa, digo, casebre.

Agora lá dentro para nossa reserva de espanto, vimos que toda nossa mobília recém comprada havia sido substituída por caixotes de madeira, tão ou mais podres e velhos que a nossa nova casa.

Ela desmaiou chocada.

Consegui ajeitá-la sobre uns panos – que há poucas horas atrás havia sido nosso enxoval – e deixei a ali.

Voltei à rua para fumar - pois encontrei um maço de cigarros já pela metade no bolso de minha calça e acho que cabe aqui uma explicação, eu não fumo – e tentar entender mais esse absurdo.

Fumei dois cigarros, praticamente acendendo um no outro, e tudo o que consegui foi tossir até chorar, prova cabal que eu não sou um tabagista. Voltei para dentro para ver como estava minha mulher.ela estava despertando, e suas primeira palavras foram:

- Você voltou a fumar?

Diante de tudo o que estava nos acontecendo deixei prá lá a explicação de que nunca havia fumado, ela sabia disso pois namoramos por cinco anos e além de tudo, eu tinha bronquite! Mas resolvi relevar...

A levantei do chão, nada respondi quando ela me perguntou pelos edredons, mantas e lençóis, não respondi sobre o desaparecimento dos travesseiros, das roupas, de tudo enfim. Estava decidido a pegar nosso carro e fugirmos dali. Nada lhe falei desse pensamento, pois o carro poderia ter desaparecido também à essas horas...

Ela resolveu voltar ao que deveria ser ou ter sido, sei lá agora, o nosso quintal. A caixa quadrada ainda estava lá, mas agora tinha um adesivo onde se lia para não tocar.

Adivinhem, ela tocou.

Foi quando as sirenes tocaram, as luzes se acenderam, as paredes caíram e um mar de aplausos inundou o ar.

Do nada, pelo menos assim me lembro, um homem sorridente, com mais dentes na boca que toda uma geração de jacarés, apareceu à nossa frente.
Esticou o braço, me cumprimentou, abraçou minha mulher, e dirigindo-se à uma câmera, que surgiu do nada como ele, disse:

- Uma pena senhoras e senhores, uma pena. Eu tinha certeza que essa senhorita não ia tocar na caixa, tinha certeza. – e dirigindo-se a nós completou:

- Vocês acabaram de perder dois milhões de reais, dois milhões de reais.

- Foi nesse momento que ela pulou no pescoço de apresentador, depois disso, tudo é um borrão doutor!

2009/02/16

Basicamente acabou assim


...e então às cinco e meia da manhã do dia vinte e cinco de dezembro, natal, tia Tulipa saiu de fininho com o motorista da família, colocando um ponto final nessa festa dos infernos, da qual, tinha certeza, era a sua última com esse bando de abutres.

Foi-se, levando o que pode poucas roupas, uns pedaços de peru, dois figos, um punhado de cerejas, um engradado de cerveja e todo o dinheiro que conseguiu roubar dos bolsos e bolsas dos parentes.

Enquanto Tia Tulipa fazia a pilhagem, num suspeito fusca azul estacionado na rua de trás, que dava para os fundos da casa, Celinha, que se despedia do namorado traficante, tonta e alucinada, vomitava toda a comida consumida na noite anterior. O que, para sua sorte, a salvou de um envenenamento por cianureto, haja vista o prato que lhe foi servido, por engano, era destinado à Tia Tulipa, que naquele momento encontrava-se ao telefone recebendo votos natalinos de felicidades e bom ano novo.

Tio Zezinho, ao acordar, para seu desgosto - com a justiça divina, afinal sempre se sentiu perseguido pela má sorte, um fantoche do destino! - desgraçadamente percebe que ainda está casado e não viúvo, mas abandonado e trocado por um motorista semi-analfabeto. Maldita má sorte – pragueja para si mesmo...

Amaldiçoou Deus, a indústria farmacêutica, e os sobrinhos-netos, aqueles drogados inúteis, incapazes de uma simples troca de pratos. Em silêncio felino revirou a casa à cata de algo de valor, mas amargurado, constata que Tulipa não deixara nada de grande valor que valesse roubar.

Ouvindo passos no andar de cima Zezinho, silenciosamente voltou ao seu quarto e fingiu dormir, mas ficou de ouvidos atentos.

As crianças dormiam o sono dos justos e inocentes enquanto esse drama se desenrolava.

Os passos ouvidos eram dos donos da casa, Aurélio e Sarita que acordavam para contabilizar os estragos da noite anterior, velho hábito de família que passava de geração a geração. Todos os anos eles acordavam cedo, contabilizavam o que havia sido quebrado, estragado, roubado, e durante o café da manhã, cobravam dos parentes e convidados.

Com grande espanto, mesmo para essa família constataram que os estragos desse ano haviam passado da conta. Pois além dos eternos roubos de talheres, quadros, copos de cristal esse ano houve roubo de carteiras, relógios, jóias em geral!

Um abuso de confiança, mesmo para uma família como aquela!

Acusaram-se mutuamente por terem, mais vez, resolvidos comemorar outro Natal em família.

Aurélio depois de discutir com Sarita trancou-se em seu quarto – pois dormiam em quartos separados, segredo esse guardado à sete chaves - e telefonou para o amante.

Ela, chorando, com as mãos cheias de tranqüilizante, acorreu à garagem procurando consolo nos braços de Jeremias, e lá chegando, descobre um bilhete deste, explicando sua fuga com Tia Tulipa e pedindo desculpas pelo roubo do carro. Em choque Sarita deixa suas pílulas caírem de suas mãos e rolarem pelo chão, desesperada joga-se ao solo, e rastejando começa a catá-las uma a uma, sem prestar atenção à gritaria no quarto das crianças.

Pois elas ao acordarem, sorrateiramente vão ao quarto destinado à velha tia, e lá em vez de encontrarem o corpo duro, morto e envenenado da parenta, encontram isso sim, outro bilhete, na raiva cega de ex-herdeiros, e como de hábito nessa família, passam a brigar entre si e se acusarem mutuamente, e no calor da discussão rasgam o bilhete sem ler.

E a missiva assim ao ser picada e jogada fora, priva essa história de uma boa dose de drama e conspiração.

Nem mesmo a competentíssima polícia, mais tarde, tomará conhecimento dessa peça de grande interesse literário e policialesco.

Os outros convidados que ainda dormiam foram acordados pelos gritos, que agora, vinham de todos os cantos da casa. Aurélio, ao telefone num misto de choro, desespero e palavrões – pronunciados em alemão com forte sotaque da Bavária - gritava com o amante, não querendo conselhos, ou palavra de apoio, queria vingança, sair daquela hoje mesmo, queria ser feliz, tudo dito entre soluços, socos nas paredes, chutes em Estácio III, seu poodle cor-de-rosa, que nervoso com tantos gritos, latia histericamente; Sarita, na garagem, gritava pela perda de Jeremias, das pílulas, pela vergonha de, agora, todos saberem que seu marido tinha um amante, e pela receita de seus calmantes que estavam no porta luva do carro; as crianças continuavam brigando, e lutando rolavam escada abaixo, derrubando os vasos chineses, os quadros das paredes, e derrubando os resto de comida da mesa no tapete.

Aproveitando-se da confusão, Tio Zezinho tenta empreender fuga, levando consigo um quadro de Picasso, de sua fase azul, mas quando abre a porta da frente, Celinha entra correndo, aos vômitos, amparada por seu namorado chapado, que fugia da polícia...


EPÍLOGO
Agora Dramaticamente Resumido





Tia Tulipa só foi feliz até uma parada na estrada para um café, quando foi abandonada no toalete, e Jeremias fugiu com todas as sacolas do saque da velha senhora.

Tio Zezinho, acusado pelos sobrinhos-netos - em troca de redução de pena - foi preso por tentativa de assassinato por envenenamento, sedução de menores – eles mentiram para a polícia, dizendo que eram molestados pelo velho safado – e, por fim, tentativa de roubo. (aqui um pequeno adendo - Tanto o velho quanto os policias, não souberam reconhecer a falsidade do quadro, que havia sido trocado pelo verdadeiro por Aurélio que presenteou o amante com o original).

Sarita, histérica em último grau foi internada num sanatório, e logo esquecida pelos filhos.

Celinha, posteriormente descobriu que vomitava tanto por estar grávida. Hoje se dedica de corpo e alma a uma seita neo-pentecostal. Largou o antigo namorado-fornecedor, e também as drogas sintéticas.

As crianças foram enviadas para um colégio interno, onde dois dias depois, encontraram o ex-namorado de Celinha e passaram a traficar em portas de escolas. Esse cronista crê não durarão muito!

Aurélio hoje mora com o marido – casaram-se em Londres – mas ainda é infeliz, desconfia que é traído, toma calmantes cinco vezes por dia e corre o risco de ficar impotente.

E Jeremias com o dinheiro roubado de Tia Tulipa, criou uma Igreja Neo-Pentecostal para ex-drogados...

2009/02/12


Sinceramente esperava que a situação se revertesse...

click na foto
...mas o fim chegou mesmo

A VIRGEM VITORIANA


O velho sátiro entrou no quarto da mocinha, ela estava estendida na cama, lânguida e ofegante.
Na verdade a mocinha era uma fada, de asas tão diáfanas que pareciam com as de libélulas. Magra, fina, frágil e branca feito uma porcelana chinesa, ela tremeu ao ver a figura priápica, perdeu o fôlego e sorriu.
Seu sorriso excitou ainda mais a monstruosa figura que avançou e baixou lentamente seus cascos eqüinos, evitando assim qualquer barulho que chamasse a atenção dos guardas que ficavam do outro lado da porta.
Sua respiração fazia vibrar o ar à sua vota.
A fada agitava suas frágeis asinhas e também arfava fazendo com que as chamas das velas tremeluzissem e produzissem sombras fantasmagóricas.
A besta lentamente achegou-se aos pés do leito da donzela...”


Abanando-se com as folhas manuscritas, a virgem vitoriana, afogada em uma desconhecida agonia, dirige-se à janela de sua casa de grossas paredes de pedras. Na velha lareira uma acha de lenha estala assustando-a. Ela se vira para trás e pensa ver a sombra do velho sátiro, encosta-se na parte mais escura da sala, e entre amedrontada e ansiosa pede a Deus que sua criatura tenha conseguido fugir do reino da fantasia e venha resgatá-la dessa vida insossa e sem cor. Mas outro estalo da lenha levanta uma minúscula faísca, que mesmo assim produz uma luz fugaz o suficiente para iluminar a sala e fazê-la sentir-se uma idiota.

Abana-se com mais força, fazendo com que as folhas se espalhem pelo chão, mas ela não pensa em recolhê-las de imediato. Antes de tudo o mais precisa respirar, precisa urgentemente respirar e chamar uma aia para libertá-la do espartilho, soltar-lhe os cabelos, trazer-lhe uma jarra de água – água, não – uma jarra de vinho tinto – vermelho cor de sangue – sente que precisa recuperar a cor.

Da janela a virgem vitoriana olha para a vila lá embaixo no vale. Mas pouco poder ser visto a essa hora da noite, pois é noite de lua nova e uma névoa muito espessa cobre tudo. Ela fecha a janela a tempo de evitar que um morcego entre em sua casa.

- Um morcego! – ela murmura – um morcego iria muito bem à minha história. Volta à escrita, relê, toma da pena de ganso – que cria exclusivamente para isso – e volta escrever.


"A criatura meio-homem, meio-bode estica sua gigantesca mão em direção à virgem. Ela sofre de angústia, desejo, escrava de um desejo até então desconhecido. Seria o forte odor caprino do mitológico ser que a enfeitiçava? Seriam seus olhos negros feito carvão? "


Outro estalo da lenha a fez jogar a pena de ganso para o alto, e quase cair da cadeira, onde sentava-se na beirada, vítima, ela também, do encanto de sua história.
E com o susto, ela acaba por esquecer de introduzir o morcego na história.

A virgem vitoriana resolve, enfim, chamar a sua empregada, e pedir uma jarra de água e outra de vinho tinto. Com uma mataria a sede e aproveitaria para limpar o suor que lhe brotava na testa, com a de vinho, recuperaria a cor e a coragem para seguir em frente com a história.

Somente bebendo ela poderia imaginar a consumação do ato de amor entre a Besta e a Virgem. Enquanto esperava a velha serviçal chegar ela aproveitou para acender mais velas, a criada não deveria pegar jamais uma dama vitoriana como ela sozinha com uma história contendo sátiros príapicos, alcova e virgens prestes a deixar de sê-lo. Ela era uma mulher vitoriana ciente de seus deveres sociais.

Passados poucos minutos, ela torna à sua pena de ganso (outra, pois aquela outra só seria achada anos depois do...- bem isso é outra história e eu não vou contar nada aqui) e à escrita. Como que possuída por mil demônios, escreve e bebe, escreve e bebe e de quando em quando, sacudindo a cabeça, ri.

Descreve com impressionante riqueza de detalhes as preliminares (que ela descrevia da lembrança de uma noite em que, procurando a chave das adegas, pegou sem querer sua serviçal namorando com o chacareiro, protegidos pelas sombras dos corredores da velha mansão), trinta e três páginas depois, ela finalmente chega ao momento da consumação, e...

Para.

Estaca.

Petrifica-se, pois não sabe como continuar a partir daí, afinal, desgraçadamente, ela é uma virgem vitoriana, velha e feia.

Por exaustivos minutos, ela escreve, rabisca, rasga as folhas e nada consegue produzir. Olha para o chão agora coberto de folhas amassadas e chora.

Chora frustrada, pois:

1. Desconhece as delícias do sexo, e;

2. Precisa chamar a aia para, (que humilhação!) perguntar-lhe o que acontece depois das preliminares.

Gemendo, amaldiçoa ser uma virgem vitoriana....

2009/02/11



Hoje Acordei Sedento De Sangue


Acordei, estranhamente, sedento de sangue.

Fui à cozinha, bebi um copo d’água, que imediatamente cuspi, não consegui engoli-la. Realmente a sede era de sangue. Descobri que sou uma vitima do sentido figurado.

Sedento de sangue, estou com sede de sangue...

Como resolver isso?

O sol nasceu, abri as cortinas preocupado, trêmulo, medroso - e se o sol me queimasse?

Claro que ele não me queimou, afinal não sou um vampiro - daqui vejo meu reflexo no espelho! -, sou só uma pessoa normal que, sabe-se lá por que, hoje acordou sedento de sangue.

O dia prometia ser quente, e na TV anunciava chuva para o fim da tarde.

Troquei-me, e saí a trabalhar ainda sedento de sangue e em jejum, nem mesmo a geléia de goiaba me atraiu....

Ao chegar ao escritório deparo com minha mesa cheia de papéis, espanto-me e fico indignado, pois ao sair ontem ela estava limpa.

Alguém fez serão e deixou o resto para mim!

Estou sedento de sangue quente e espesso e alguém me confunde com um abutre comedor de carniça!

Sento-me à mesa, meço a quantidade de papéis sobre ela, meus dentes rangem e, juro, sinto meus caninos crescerem...

Acordei sedento de sangue e estou começando a gostar disso.

Toca o interfone, e pelo calafrio na espinha, é a Dona Regina, minha chefe, chamando-me à sua sala. Sinto a sede aumentar seguida de um antegozo sobrenatural e uma saciedade pronta a realizar-se.

Levanto-me, olho o reflexo de meu rosto no cromado do grampeador e, sorrindo, percebo que meus caninos cresceram mesmo. Sigo em direção à sala da Dona Regina, faço toc-toc só de sacanagem, pois ela detesta isso, gosta de ser anunciada pela sua estagiária. Abro a porta antes que ela responda, encosto-me no batente e digo:

-Hoje acordei sedento de sangue...



2009/02/10

Vejam esse Ranzinza num momento de raro relaxamento.





2009/02/09

Vejam isso.
Onde você foi parar para ver isso?
Aqui!

2009/02/06




2009/02/05




PERSONAGENS



Esses miseráveis andam me assombrando, querem por que querem entrar num conto, numa história, nem que seja só numa citação. Insistem, murmuram em meus ouvidos, entram em meus sonhos, resumindo, não me dão sossego.

Então lá vai.

Não tenho a menor idéia do que vai sair disso. Por enquanto vou mostrar os personagens, o que daí resultará...

Aqui estão os meus algozes:


Thomaz Lauriano. Tão macho - segundo ele mesmo, que nasceu sem os mamilos. Barbeia-se com navalha, não usa desodorante ou qualquer tipo de produto que possa privar o mundo de seu perfume natural, mora com a mãe, avó, duas tias e uma gata angorá, chamada Alice, mas não conta isso para ninguém. Trabalha à noite. Sua profissão? Uma incógnita.


Ana Christina dos Anjos. Eterna lutadora. Luta contra o quê? Injustiças? Crimes? Exploração sexual? Marcianos? Não! A pobre infeliz luta contra o peso e as balanças. E como costuma dizer: - Vivo à uma azeitona de ser gorda! Entendam como quiserem.


Serena Luna. Entrada em anos, muitos anos, solteira, à procura de um amor sincero, um homem íntegro, lindo, honesto, lindo, rico, lindo, forte e lindo, musculoso e lindo, jovem e lindo, que acredite em amor eterno, seja fiel e lindo, que a ame incondicionalmente, que ame incondicionalmente sua velha mãe, ame incondicionalmente suas irmãs mais velhas, ame incondicionalmente seus cachorros, ame incondicionalmente seu padrasto alcoólatra e desempregado, que seja lindo. Em troca disso, se ele for lindo mesmo, entregará a ele sua virgindade.


Loseli Lala. Loira falsa, de lentes de contato verde. Tem língua presa e troca o R pelo L, daí todos trocarem seu nome verdadeiro, Roseli Lara. Casada pela sexta vez – como? Desculpem-me leitores, enquanto digitava essas linhas me avisaram que ela acabou de casar pela sétima vez. Seu objetivo nessa vida e encontrar o Homem perfeito antes de Serena Luna, mas enquanto isso não acontece, ela vai tentando passar o tempo com o que aparece. Nessa sua busca incessante pelo amor verdadeiro já conseguiu três apartamentos, seis pensões alimentícias, quatro carros e conseguiu deixar os filhos com os respectivos pais. Quando não está casando, está viajando. Conhece dois terços da Europa e toda America do Sul. Detestas as argentinas, italianas, francesas, inglesas e ama ardorosamente o gênero masculino de todas as nacionalidades supracitadas. Seu sonho é encontrar um homem que não tenha R nem L no nome. Pede pouco essa criatura...


Sandrinha Lindinha (apelido, é claro) inocente sonhadora, fã de Amy Winehouse, não entende lhufas de inglês, o que explica ser fã de quem é. Vive perdida nesse mundo, tanto que nem sabe o porquê de aparece nessa lista. Um dia há de acordar. Que seja logo, afinal a fila anda.


Madame Percilina Restos Mortais de Catarina. Trambiqueira, ganha a vida lendo mãos, forjando a sorte dos incautos e moçoilas iludidas com seus encantamentos e formulas mágicas para encontrar o amor. As figuras femininas desta lista são suas freguesas, mas acho que isso vocês já devem ter desconfiado, não é mesmo?


Demétrius do Himeneu Precioso. Amigo de Tomaz Lauriano. Ex-detento, na verdade foragido, pois fugiu para ver a mãe no Natal, e nunca mais voltou. Divorciado, viciado em jogos, chantagista, agiota e proxeneta. Vive assediando Serena Luna. Descubra a razão, pistas já foram dadas!

Ai estão eles.


Agora, que se virem, avancem pelo word, criem suas próprias histórias e sejam felizes, afinal dei-lhes mais do que deveria.


Como bom pai, deixo-os agora entregues à própria sorte.

2009/02/04











RUYZINHO


How a little baby boy bring the people so much joy
“Christmas Must Be
Tonight”
By The Band


Dulce, espero que você não tenha rasgado esta antes de ler.

Sei que jurei nunca mais entrar em contato depois da separação, mas nesses últimos dias tenho sido assombrado com imagens do Ruyzinho.

Me diga como está, ele já está na escola? Espero que não – não rasgue a carta, não rasgue!

Sei que no fundo de sua alma você sabe que tenho razão.

Como está o menino, posso perguntar dele?

Não sei por que insisto em perguntar, sabendo desde já que você não irá me responder...

Dulce, não te peço desculpas, perdão, nem me passa pela cabeça tentar uma reconciliação, já arrumei minha vida aqui, trabalho como zelador de uma capelinha aqui na cidade, e espero que você tenha acomodado a sua por ai (desculpe, disse isso só por delicadeza, não me passa pela cabeça te magoar de forma alguma).

Sei que pode te passar pela cabeça que te escrevo por causa de alguma necessidade, mas não te escrevo esta por nenhum outro motivo que saber do Ruy, meu pequeno e único filho (depois dele fiz vasectomia, decidi nunca mais ter filhos) quero tê-lo como único em minha vida.

Minha doce Dulce (espero que isso não te de ganas de rasgar o papel) tento imaginar como você está, as marcas que a vida e as preocupações deixaram em seu rosto...

Em mim as marcas são as olheiras profundas que trago, fruto das noites insones, dos pesadelos que me fazem acordar aos gritos e molhado de suor...

A pobre da Rute, coitada, ainda não se acostumou com isso, mesmo passado tantos anos.

A foto do Ruy, que trago na carteira, está tão amarrotada, cheia de vincos, manchada, que a criança está quase irreconhecível.

Dulce, se você ainda não rasgou essa carta, deve estar se perguntado por que estou dando tantas voltas e não dizendo nada, afinal, a última pessoa de quem você quer noticias é de mim e da Rute, aliás, me desculpe dizer o nome dela tantas vezes.

Dulce o que quero saber é se você está mesmo decidida a mandar o Ruy para escola. (juro que espero uma resposta sua, mesmo na forma de um telegrama, só com a palavra “não”, mas alguma coisa no fundo do meu peito...)

Você sabe que não deve fazer, e não digo por isso por causa da pensão e do acordo de pagar pela assistência médica e educação do menino (que eu sonhava em ser doutor, doutor de qualquer coisa, mesmo que fosse doutor advogado), mas veja bem (estou sendo vítima dessa “força de expressão), não será bom para ele, não será bom para você, nem para ninguém, sem contar que se você fizer realmente isso, eu nunca mais dormirei, e a Rute (juro que essa será última vez que escreverei o nome dela) não suportará mais ser acordada aos gritos pelo resto de suas noites.

Pobre criatura...

Dulce abra os olhos, e ponha na sua cabeça de uma vez por todas, o Ruyzinho não é uma criança normal, embora seja fisicamente um Apolo tropical e hirsuto, o Ruyzinho, meu único filhinho querido, é um lobisomem...


Com carinho,
O sempre preocupado pai
Amaro.

2009/02/03

A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.
5
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Esse Ranzinza entre dois amores, o chope e a neta!

2009/02/02