2008/11/28

O Cafajeste

Já é sabido que a felicidade não dura. Seja qual for o tipo de felicidade ela é finita, acaba, e de uma forma ou de outra ela chega ao fim.

Minha alegria era o Clube Trinta Minutos, nome estranho para uma cafeteria concordo, mas era lá que me encontrava diuturnamente, de segunda à sexta-feira para o meu sacro-santo cafezinho após o almoço. Lá, feito um rei, um ditador ou mesmo um tirano, discutia de tudo, dos rumos que esse pedaço de barro chamado mundo às mais absurdas teorias, quer literárias, que científicas.

Discutia, pensava, teorizava e assim queimava meus trinta minutos de café expresso, preto e quente.

Assim foi por muito tempo.

Mas um dia a serpente, oriunda do Paraíso lá no começo dos tempos, apareceu.

Surgiu risonha, alegre, espalhando felicidade – e quem me conhece sabe o que penso de quem traz felicidade gratuitamente – e com ele a nossa ruína...

Do meu grupo de dois – sim, éramos eu e um querido, companheiro de armas, xícaras e penas, dois quixotescos e felizes palradores -, passamos a três indivíduos sem assunto. Sim o terceiro elemento nessa fórmula de desgraça e infortúnio não falava a nossa língua – digo isso em sentido figurado, pois ele tartamudeava palavras em português, mas não entendíamos qualquer sentido nelas – tão pouco comungava de nossos interesses.

A princípio tentamos ignorá-lo, fingíamos que ele não estava ali, e tanto nos esforçávamos que muitas vezes saíamos sem pagar-lhe o café, oportunidade em que tentávamos em poucos segundos colocar trinta minutos de assunto em dia mas aos poucos, como numa erosão, ele foi minando nossa barreira de desprezo e começou a participar, não, ele passou a participar de nossas conversas, ele passou a nos interromper de tal forma que nossa mesa tornou-se uma espécie de Embaixada de Babel, pois eram três pessoas falando três assuntos totalmente diferentes e conflitantes entre si.

Em várias oportunidades quase fomos à vias de fatos, pois entre tantas conversas desencontradas, nos ofendemos sem querer, pois mesclávamos a conversa de um com a conversa do outro, resultando assim numa fórmula altamente volátil...

As atendentes foram as primeiras a notar as bruscas mudanças em nosso comportamento. De fregueses gentis e atenciosos, passamos a princípio, a fregueses nervosos, exigentes e implicantes. Aludíamos a qualquer defeito, por mínimo que fosse ao nosso café. Ora era a espuma do leite, cor do café, sabor do açúcar, cor da xícara, sujeira na mesa. Depois, simplesmente, deixamos de cumprimentá-las. Sentávamos, e estalando os dedos, ficávamos esperando que as atendentes nos servissem, quanto mais anônimas e indiferentes melhor. Tornamo-nos uns monstros.

Toda a alegria daquela hora esvaiu-se, perdeu-se o encanto, o prazer da conversa, as discussões agora eram quase um convite para um duelo, um crime. Éramos, sem o saber, somente uns autômatos viciados em cafeína e sem alma.

A serpente roubara, aos poucos, nossa alegria de conviver aqueles mil e oitocentos segundos de prazer em conversar, de bebericar nosso cafezinho e até a simpatia das atendentes.

Mas a desgraça maior ainda estava por vir, sim a borrasca estava encobrindo o horizonte e logo ele despencaria sobre nossas cabeças.

Então um dia, era meio-dia - não poderia ser de outra forma – entra a Eva que faltava para esse drama bíblico-paradísiaco.

Ela surgiu na forma de uma moça sentada solitária na mesa ao lado, com elegância desusada, sorvia o conteúdo de sua xícara com prazer de quem sabe saborear um bom café.

Sorria, pensava, quero crer em alguma coisa boa.

Um misto de inveja e ódio assolou a mim e ao meu amigo. Como poderia alguém estar feliz ali, quando eu e ele tínhamos que aturar aquele monturo de estrume em forma de gente ao nosso lado discorrendo sobre suas últimas façanhas sexuais, suas façanhas pantagruélicas...

Sua felicidade anônima que deveria ser um raio de sol tornou-se a nossa ruína definitiva.

Vendo a feliz criatura ali à nossa frente o sátiro, imbuído dos mais baixos instintos levantou-se e foi ter com ela. Qual não foi o nosso alívio naqueles segundo que prenunciavam o nosso fim...

Pensamos, com o peito cheio de esperança – que tolos éramos - que enfim ele iria embora, nos deixaria em paz para todo o sempre ou pelos próximos minutos.

Ele achegou-se nela como uma desgraça que desaba, como um dedo que nos acusa em público e destrói nosso nome e família para todo o sempre. Ele a segunda encarnação de Átila, o Huno, o Flagelo de Deus, sem pedir licença puxou a cadeira e sentou ao lado da pobre e vestal – sim, sei que peguei pesado agora, mas que sirva para ilustrar a situação – e beijou-lhe o rosto, como se conhecera por toda a vida.

Desnecessário descrever o espanto da moça, sua reação, mas cabe esclarecer o nobre leitor o que aconteceu e nos espantou.

Ao ser osculada na face, ao invés de sentir-se ultrajada, ela sorriu, ao invés de esbofetear o sátiro ela pediu à atendente mais uma xícara para ele.

Em nossa mesa, esperando a tragédia que deveria desenrolar-se ali, espantados vimos mais uma vez o cafajeste “dar-se” bem outra vez.

Com os olhos, sem forças ou coragem para articularmos qualquer palavra, perguntávamos que tipo de encanto tinham os cafajestes que exercia tal fascinio sobre as mulheres.

Entre enojados – com o café frio – e desencantados com a vida, fomos embora, afinal já havia chegado a hora de voltarmos ao trabalho.

Pela primeira vez desde que nos reuníamos ali, a hora de irmos nunca tinha demorado tanto a chegar.

Pela tarde chega-me um e-mail – CC para meu amigo de infortúnio - do boçal, no qual ele descrevia com riquezas de detalhes como havia sido sua conversa com a Solange – ufanava-se de ter-lhe perguntado o nome logo que sentara-se à mesa – e dizia quase babando – sim, exagero para que possam sentir o meu repúdio por esse ruminante – que marcara encontro com ela para amanhã “lá no café”.

Olhei pela janela do meu escritório – dez andares - e cogitei pular.

Mas amanhã é outro dia pensei estupidamente.

Minha fé é e sempre será a raiz de minha ruína. Já pedi à Dona Creuza, mais conhecida como a Tia da Faxina, para anotar essa frase e mandar colocá-la em minha lápide.

O dia acabou, mas a imagem da mensagem na tela de meu computador continuou me assombrando durante a noite, e revirando-me na cama me pegava recitando esse mantra: - Aquilo não iria acabar bem, não iria acabar bem, não iria acabar bem...

O novo dia nasceu, sem bons augúrios, devo salientar. Fui trabalhar, e a primeira providência foi telefonar ao meu amigo e confirmar se iríamos ou não ao café naquele dia. Após curto pensar, respondeu-me que não, não deveríamos sequer estar na mesma cidade quanto mais sob o mesmo teto onde aquele asno-priápico estaria imolando mais uma fêmea no altar de seu ego sem tamanho.

Mas como disse anteriormente - linha cinqüenta e quatro - éramos irremediavelmente viciados em cafeína, e alguma coisa em nosso interior ansiava ver no que daria aquela sua mais nova conquista.

Nossa mesa esperava por nós, entramos, as mocinhas nos ignoraram com uma altivez e desprezo só dirigido aos mais execráveis dos leprosos. Uma vez sentados, estalamos os dedos e ficamos aguardando:
1. O café,
2. O animal no cio, ou o que chegasse primeiro.

Ele chegou com o sorriso imbecil e arrogante de sempre, cumprimentou as meninas, que para nosso desgosto eterno, retribuíram com sorrisos, beijinhos e fazendo trejeitos faceiros e simpáticos.

- Responda-me leitor, qual o segredo dos cafajestes? Sigamos.

Mas para a nossa alegria, a única desde que essa assombração surgiu em nosso horário de almoço, ele não se sentou à nossa mesa, e passando por nós, foi sentar-se na mesa da frente, onde no dia anterior Solange havia surgido.

Poucos minutos depois ela chegou sorrindo mais que no dia anterior, reparei nisso, comentei com meu amigo e continuamos esperando pelo café, que depois de nossa mudança de comportamento passou a demorar cada dia mais. Solange dirigiu-se à mesa onde estava o Fauno risonho.

Emudecidos fomos servidos. Meu café que pedi com leite, veio sem; e de meu amigo que pedira cappuccino, recebera um chá de menta, mas já estávamos acostumados a esse tratamento, pois no fundo, involuntariamente, a culpa era nossa.

Enquanto as mocinhas recolhiam nossas bebidas erradas entrou no Café um homem estranho, estranho até para os padrões das pessoas que conhecíamos. Ele parou na porta, esperou que seus olhos se acostumassem à pouca iluminação, piscou, uma, duas vezes, e com passos firmes e decididos dirigiu-se à mesa do casalzinho de ocasião.

Não pudemos ouvir o que ele falou, mas pelo gesticular das mãos a coisa não estava boa, vimos nosso Sátiro tornar-se um gatinho assustado, vimos com baboso júbilo o “predador” olhar para os lados procurando uma saída, uma fuga. Com prazer – que encontrou um paralelo junto com a chegada de nossos pedidos, agora corretos – vimos o homenzarrão agarrar o falastrão pelo colarinho da camisa e levá-lo de encontro à sua cara grande, ornada de um não menos grande óculos quadrado, onde de sua boca voavam perdigotos furiosos.

Meu amigo olhou para mim, eu li seus pensamentos, e antes que ele articulasse qualquer palavra, sílaba ou sentença, respondi-lhe em alto e bom som:

- Não vamos apartar nada! Que vença o melhor!

Enquanto sorvíamos o café, assistíamos aquele espetáculo que prometia muito mais que simples ameaças, que nos prometia sangue, muito sangue e quem sabe, morte! Crime passional. Morte!

Engasguei-me na segunda vez que pensei na morte e manchei a minha camisa marrom. Sorrindo comentei com meu amigo que essa mancha seria uma espécie de medalha, um marco a ser comemorado todos os dias, e uma vez por ano como o Dia em ele Morreu!

Fizemos tim-tim com as xícaras vazias e pedimos uma garrafa de água com gás para celebrar.

Esperávamos com mórbido prazer o desfecho – sangrento quero salientar - desse drama, o sujeito deveria dar logo o golpe fatal, logo mesmo, não deveria deixar de forma alguma que o celerado abrisse a boca, ele deveria ser abatido enquanto estava na posição de presa, pois se lhe fosse dada a oportunidade de argumentar, tudo estaria perdido.

Enquanto bebíamos a gasosa água, nossos olhos brilhavam de satisfação ante o fim derradeiro daquele ruminante, cuja sua segunda língua era o português, ele, ele, ele...

- Não! – gritamos em uníssono.

Enquanto o gigante míope tomava ar para continuar a espinafração, aquele macaco no meio-caminho evolutivo começou a falar.

Jogamos a água fora, pagamos a conta e fomos embora.

Tudo estava perdido, amanhã seria outro dia igual ao de hoje, novas bravatas seriam despejadas em nossos ouvidos, mais um dia de tortura, trinta minutos de agonia, trinta minutos de cafés errados, trinta minutos de cafés frios, trinta minutos que levariam uma eternidade para passar...

2008/11/25

Sobre Gaviões e Bem-te-vis


Enquanto tomo banho olho pela janela e vejo no prédio em frente, no telhado, um casal – suponho que seja uma casal, nada me confirma, nem aliança nas garras ou mesmo um crachá - de gaviões que devoram filhotes de bem-te-vi que todo verão chocam seus ovos ali.

Divirto-me vendo como esses pequenos pássaros são tão bravos na defesa de suas crias. É impressionante a coragem deles batendo nos gaviões, voando, furiosos, como se fossem pilotos Kamikazes jogando-se suicidas ora sobre as costas, ora sob suas asas, fazendo com que a ave fuja “com o rabo entre as pernas” para longe de seus ninhos.

Mas assim como há o dia da caça, o que vi de minha janela foi o dia do caçador (terei invertido o antigo dito popular?).

Enquanto me demorava no banho, para preocupação e desgosto dos que se preocupam com as reservas de água do planeta, via o lauto banquete dos falconiformes (vide mais na Wikipédia), a cada bicada era uma pena que voava.

Lá embaixo, na rua a vida seguia tranqüilamente, as pessoas indo e vindo com suas vidas enquanto três andares acima – o drama - toda uma geração de bem-te-vis era devorada.

De toda essa desgraça só sobraram as carcaças, que logo seriam devoradas pelos urubus, os eternos lixeiros da natureza, e umas poucas penas, que espalhadas pelo vento, acabaram presas em galhos de árvores e espalhadas pelas ruas...

Não sofri pelo genocídio que testemunhei– suporá o leitor que não tenho coração, mas afirmo que estará enganado em tal suposição - afinal nesse mundo de Deus, há mais bem-te-vis que gaviões...

Terminado o longo banho, saí para rua e acabei esquecendo tudo isso, afinal cada um trava a sua batalha pessoal a cada dia, ora ganhando, ora...

2008/11/11

Maldita entressafra!

CONVERSA DE BAR E SUAS IMPLICAÇÕES



Na terceira mesa à esquerda de quem entra no bar do portuga, num canto sujo e infecto, sob uma lâmpada de quarenta watts, seis amigos, já altos, conversam, riem alto e bebem outra rodada de chope.
A peroração continua, até que de repente Zé Carlos, o fuinha, batendo a mão com força na mesa a ponto de jogar os amendoins ao chão grita com fúria nunca vista antes:

__Pelo menos eu não sou corno!

O silêncio cai sobre a mesa fazendo mais estrago que um container sobre um fusca. Todos se olham, baixam a cabeça e deixando os copos cheios, as rodelas de lingüiça com cebola e os amendoins no chão. Lentamente, colocam as mãos nos bolsos, tiram de lá uns trocados que deixam sobre a mesa e vão-se. Nunca mais se encontram.

Ou.

Todos se olham, dois pegam o Fuinha pelo colarinho e começam a sacudi-lo, Andrézinho, cobre o rosto com as mãos calejadas e começa a soluçar, num segundo pula sobre Fuinha e ameaça cortar sua garganta com uma tulipa de chope. Os outros dois que estavam ao seu lado ficam espantados com:

1. A violência de Andrézinho, e
2. Saber que ele é corno.

___Logo o Andrézinho o mais bacana de todos ali na mesa, que injustiça!

Os fregueses acorrem para apartar a briga, os garçons correm para cobrar a conta e o português puxa o bigode preocupado com os prejuízos.
O pau corre solto.
Após a briga nunca mais se falam, e dias depois lêem no jornal que Andrézinho foi preso por agressão, mas a mulher passa bem no hospital

Ou.

Entra o pessoal do “deixa disso”, pedem outra rodada de chope e mais amendoim salgado. Fuinha, explica que não sabe o que deu nele para falar uma coisa dessas, bebe três tulipas de chope de uma só vez, engasga, tosse e começa a chorar. Todos se olham sem graça.

__Será que ele é o corno? - Perguntam-se.

O garçom chega com os amendoins e quebra o gelo.
No balcão toca o telefone que o português atende com rápida presteza. Ele grita:


__Telefone “prú” Fuinha, ó Fuinha! É a Dona Emília.


Os amigos param de beber e com os copos a meio caminho entre a mesa e a boca, se perguntam:

__Quem é dona Emília?

Fuinha, calmamente acaba seu chopinho, enche a mão com os amendoins e levanta-se para ir balcão atender ao telefone.
O garçom traz outra rodada de chope.
A noite vai ser longa para explicar essa história...

Ou.

2008/11/03

Eis ai um Drama a ser encenado.

Entrevista com “ JOÃO POETA – O MÚSICO!”



Hobbs Nietsch – Hoje teremos a grata satisfação de receber em nossa estação o grande poeta e compositor...

Lindomar Orlando - ...João Poeta

Hobbs Nietsch- Isso mesmo João Poeta! (falando com o Lindomar Orlando) Mas não me interrompa de novo, ok?

Lindomar Orlando – Desculpe, não farei isso de novo, mas é que fui movido pela emoção de ficar tão frente-à-frente deste ícone, deste monumento, deste ídolo, deste...

Hobbs Nietsch – (interrompendo) Tá bom, tá bom já entendemos a sua bichice, digo sua emoção. Mas vamos ao nosso convidado João Poeta e seu eterno acompanhante Cotinho Silva com seu afinadíssimo violão!

(Aplausos)


Lindomar Orlando - Com vocês, João Poeta, mais aplausos (Batendo palmas) Lindos lindos... (assobiando)

(Aplausos)

Hobbs Nietsch – (Interrompendo) Pare com isso, chega de tanto aplausos!

(Sons de passos e cadeiras sendo arrumadas, violão sendo afinado e copos sendo cheios)

Hobbs Nietsch – Por favor, poeta, queira desculpar meu destempero, mas é que o meu companheiro aqui, parece que se descontrolou um pouco...

João Poeta – Que é isso? Não vejo motivo para o senhor se desculpar dessa forma... Eu sei o que é ter um parceiro... (Bebendo)

Cotinho Silva – (Pigarreia e afina o violão)

Hobbs Nietsch – Mas diga lá Poeta, quais as novidades, o que lhe trazem à nossa tão aprazível cidade?

Lindomar Orlando – O senhor pretende tocar alguma coisa para nós aqui na rádio?

Cotinho Silva – (Começando a tocar alguma coisa no violão)

João Poeta – (Interrompendo) Só um instantinho Cotinho Silva, só um instantinho, sim?

(Bebendo)


Cotinho Silva – (Pigarreando) Certo Poeta, certo. Quando você achar melhor. Certo, certo.

João Poeta – (Falando com Hobbs Nietsch) E é você que estava reclamando do seu parceiro, eu carrego essa cruz à vinte anos, se não fosse pelo violão... (Bebendo)

Cotinho Silva e Lindomar Orlando - (pigarreando )

Hobbs Nietsch – Vamos aos nossos intervalos comerciais e já voltamos o grande João Poeta e Cotinho Silva.

(Aplausos)

(Intervalo comercial)

Hobbs Nietsch - O programa de hoje é um oferecimento de Hábeas-corpus, o primeiro laxante a base de hexobipantamenol acetílico permanato, próprio para o trato da flora e da fauna intestinal. Hábeas-corpus deixa seu intestino muito mais solto.

Lindomar Orlando - Tome Hábeas-corpus e sinta-se livre para fazer e comer o que quiser.

(Aplausos)

Lindomar Orlando – Posso falar agora?

Hobbs Nietsch – Claro que pode e por favor, queira continuar a nossa programação.

Lindomar Orlando – Com vocês o grande Poe...

Hobbs Nietsch – (Interrompendo) Ora vamos logo com isso os nossos ouvintes sabem quem estamos recebendo aqui hoje...

João Poeta – (em off) Ai ai ai meu Deus, pelo menos não sou o único a sofrer assim. (Bebendo)

Hobbs Nietsch – Poeta, não posso deixar de reparar que o senhor está muito bem, parece que rejuvenesceu nessas suas férias pela Europa. O senhor pode nos dizer qual é o seu segredo?

Cotinho Silva - (afinando o violão ao fundo)

João Poeta – Viajei sozinho, dessa vez deixei o Cotinho da Silva aqui no Brasil. (Bebendo) Vocês não fazem idéia de como é bom ficar sem ouvir esse violão...

Cotinho Silva - (pigarreando e parando com o violão)


Lindomar Orlando – Onde o senhor irá se apresentar aqui em nossa cidade? Soube que sua curtíssima temporada tem um único patrocinador...

Hobbs Nietsch – O senhor poderia declinar o nome desse patrocinador?

(Mistura de tango com forró)

João Poeta – (constrangido) (Bebendo) Estou aqui graças à Casa do Norte e Pertences para Feijoada Pepe-Manolo e hijos!

Cotinho Silva – (começando a tocar o violão)

João Poeta – (interrompendo irritado) Nem comece, pelo amor de Deus, nem comece...

(Bebendo)

Hobbs Nietsch – O senhor pode nos dizer alguma coisa do seu novo CD?

Lindomar Orlando – Segundo os críticos especializados...

João Poeta - (Bebendo) Desculpe mas você falou em críticos especializados, especializados em quê, só se for em mecânica de autos?

Hobbs Nietsch – (em off) Mas você não dá uma a dentro, olha só o estado do homem...

Lindomar Orlando – Desculpe, mas as pessoas que já ouviram o seu novo trabalho, comentam que pela primeira vez o senhor está usando teclados e deixando de lado o violão. Por que essa opção essa mudança? O senhor não teme desagradar os seus fãs mais antigos??

Cotinho Silva - ( Tocando o violão)

João Poeta - (Bebendo) (chutando o banquinho onde Cotinho está sentado) Pelo amor de Deus, à vinte anos que eu carrego essa cruz, eu não suporto mais isso, é esse maldito violão tocando ao lado à vinte anos, todos os dias, em todos lugares, e a qualquer hora, eu estou enlouquecendo....

(Bebendo)

Cotinho Silva – (gaguejando) Mas poetinha... (começando a tocar o violão)

João Poeta – (interrompendo irritado) Nem comece, pelo amor de Deus nem comece...

(Bebendo)

Hobbs Nietsch – Lamentamos informar que motivos técnicos teremos que interromper a nossa programação.

Lindomar Orlando – (em off) Acho que o Cotinho não vai tocar violão tão cedo, olha lá o Poetinha arrebentando o violão nas mãos dele...

(estática)

Dedicado aos amigos:

Vadinho (O Memorioso)

Alexandre Costa (magrão)