2008/10/23

A Missiva


Meticulosamente escreveu a carta, e enquanto o fazia, rejubilava-se por ainda dominar a arte da escrita.
Era uma missivista desde tenra idade, herdara do velho avô o gosto pelas cartas.
Escolheu as palavras, meditou sobre cada uma delas, nenhuma palavra sobrava em seu texto. Era claro, sucinto, sem ser seco, dizia somente o que deveria ser dito, evitava a redundância, expôs de forma clara a sua decepção, sua frustração, seu ódio. Despejou toda a sua amargura com palavras rebuscadas e esvaziou a sua alma naquelas folhas brancas, que pouco a pouco ele escureceu com o negro de sua tinta...
Ao término, respirou fundo, aliviado, esvaziado de todos os sentimentos.
Pegou o envelope, fechou, selou, postou.
No minuto seguinte arrepende-se.
Outra carta, agora pedindo desculpas...

2008/10/13

Na falta de um texto novo, vai esse velho mesmo

“Eu te leio, tu me lês”




Pergunto-me sempre e sempre, qual a razão se continuar a escrever. Não encontrando uma resposta continuo na labuta.

Aborreço-me, e muito, com tal mister.

Quem escreve, ou pinta, compõe, ou produz qualquer tipo de arte, o faz para mostrar, levar a publico, à luz, não para ser ignorado.

Afinal se nos expomos assim á para sermos visto!

Como dói sermos ignorados...

Perpetro meus textos nesse blog, envio postagem aos amigos (?) aos conhecidos, aos desafetos e nada, nada, nada.

Aos poucos que ainda procuro e indago a respeito da postagem enviada ouço sempre que:

1. Texto muito grande
2. Não gosto de ler
3. Falta-me (a colocação correta do pronome foi por minha conta) paciência de ler
4. Não entendo o que você quer dizer
5. Como não tinha foto de mulher pelada nem me dei ao trabalho de ver o resto.

É triste, muito triste.

Escrevo para outros que como eu teimam em escrever, e lemo-nos mutuamente como se fossemos uma sociedade secreta.

É triste.

Fosse mais jovem me dedicaria ao futebol, ao pagode ou ao crime...

2008/10/02

DUAS AMIGAS NO BAR


Estava sentado na mesa de um bar outro dia, e sem querer comecei a ouvir uma conversa entre duas mulheres. Devo confessar que esse é um hábito que cultivo, pois costumo usar esses dramas da vida real em meus contos, afinal a realidade é muito mais interessante que a ficção. Vamos lá.

- Você sabe que dia é hoje?
- Ai meu Deus!, outra de suas datas...
- Não começa.
- Não começa você. Olha aí. Já começou a chorar. O dia de hoje te lembra o quê?
- O quê?, não! Quem! Me lembra quem!
- Tá certo, tá certo. Te lembra quem?
- O Célio, me lembra o Célio. Se estivéssemos juntos hoje comemoraríamos quinze anos de casados Quinze anos...
- Mas ontem você estava falando do Jorginho...
- Ah! O Jorginho seria - se estivéssemos juntos ontem - treze anos de namoro, treze anos.
- Mas como você consegue guardar tantas datas?
- Sou uma romântica incurável...
- Só por isso você vive relembrando todos os seus relacionamentos?
- É muito amor nesse coraçãozinho...
- Você tem que beber mais. – Estala o dedo, chama o garçom e pede mais dois martinis e outra porção de pistache.
- Quinze anos, quinze anos e tudo o que me resta são bolachas dos chopes que bebemos...
- Como você pode pensar ainda num cara que te levou tudo?
- Tudo não!
- Certo. Tudo não! Ele te deixou as bolachas dos chopes que vocês bebiam... Como você consegue achar esses mondrongas?
- Eles não são mondrongas. São pessoas que não foram bem-amadas, que não tiveram o carinho necessário...
- E o Márcio, aquele cafajeste?
- Ah! O Marcinho..., ele sabia fazer uns ovos mexidos...
- Ovos mexidos? Como alguém pode se apaixonar por um homem que sabe fazer ovos mexidos?
- Sábado passado faríamos doze anos de casados se...
- Ele não tivesse te largado na Oscar Freire...
- Não foi na Oscar Freire, foi na Ladeira Porto Geral, e não fique envenenando o Marcinho desse jeito.
- José Paulino, Porto geral, o que interessa é que você foi a-ban-do-na-da. Abre os olhos mulher! Procure alguém que preste, que te dê alguma coisa concreta, qualquer coisa, menos lembranças e mais lembranças e marcas nas folhinhas- Você não me entende mesmo! – Esvazia o copo de Martini e fica jogando o caroço da azeitona de um lado para o outro na boca.
- E pare com esse cacoete nervoso!
- Que cacoete?
- Esse de ficar chupando caroço de azeitona. Admita, você não sabe escolher homem! Você é incapaz de reconhecer um homem decente e honesto. Olhe à sua volta.

Ela olha e dá com o olhar do garçom que lhe sorri. Ela sorri de volta e dá-lhe uma piscadela.

- Não adianta mesmo. Você nunca vai aprender nada.
- Agora você vai implicar com o garçom só porque ele é um humilde trabalhador? Ele não pode merecer nosso respeito, nosso amor, um pouco de carinho?
- Sua burra! Tudo o que ele quer é que você beba mais. Ele só quer te encher de martinis. Esse humilde trabalhar carente de “seu amor, seu respeito e um pouco do seu carinho”, vive dos dez por cento do que vender aos clientes, ou seja, ele é quase um cafetão!
- Mas, mas...
- Engole esse choro que o garçom está vindo aí, engole esse choro.

O garçom chega e anota mais um pedido de Martini e pistaches. Antes de ir embora olha para a moça de olhos vermelhos e percebendo que ela está chorando, oferece-lhe um lenço.

- Obrigada. – Sorri e devolve-lhe o lenço.
- Você viu que cavalheiro ele é? Você viu?
- Vi, e vi como você é burra sua tonta. Olhe embaixo da mesa.
- O quê tem embaixo da mesa?
- Só te matando. É nessa hora que agradeço a Deus minha mãe ter me dado uma educação religiosa.
- O que tem a ver uma coisa com outra?
- Na minha fé creio na reencarnação! Assim eu te mato, espero você voltar e te mato outra vez. Quem sabe renascendo uma terceira vez, você volte menos burra! Sua tonta, quando ele te passou o lenço, junto veio um bilhetinho, que caiu debaixo da mesa enquanto você assuava o nariz. Estou começando a achar que você tem muita sorte de acabar seus relacionamentos sem ficar só com a roupa do corpo!
- Você me ofende falando assim...
- Ora, como você pode dizer que eu te ofendo? Olha só que você faz consigo mesma, olhe! – Diz apontando para o garçom que vem trazendo outra rodada de martini.
– Olhe só o sorriso de sátiro no cio, olhe.

A amiga olha, sorri, pisca e fala:

- E pensar que logo-logo esse aí vai estar marcado na folhinha...
- Ah! Quer saber? Você não tem jeito mesmo! – Toma o martini num só gole, levanta-se e vai embora do bar.

Eu que já havia acabado o quinto chopinho, paguei a conta e fui embora também. Não queria ver como ia começar aquele novo drama.