2008/08/27
2008/08/25
A TESE
O Taco de baseball
O Imperialismo Norte-americano.
Ou
De como conseguiram transformar em acessório, quase ícone indispensável, a posse de um taco de baseball para defesa pessoal em caso de invasão de zumbis devoradores de cérebros, invasão extraterrestre ou simples assalto à residência.
- Que nada, ainda estou tonto só com o esforço para bolar o título. Agora não tenho idéia de que direção tomar. Olho para as minhas anotações e perco o fôlego. Veja aqui esse monte de lembretes, notas, rascunhos, recortes de jornais, revistas, cartas que os amigos me enviam... Não sei por onde começar a escrever... Aqui por exemplo, nesse recorte de jornal, veja só, um sujeito, ele destruiu o próprio computador com um taco. Enquanto os familiares tentavam conter sua fúria contra o aparelho, ele gritava que o computador dava-lhe ordens sub-reptícias para matar a mulher e os filhos. E olha que quase conseguiu... Depois a família dele quis acionar a justiça contra a loja que vendeu-lhe o taco. Mas você acha que vou usar isso na minha tese, acha? Outra matéria, e nem me pergunte onde arrumei isso, descreve como um skinhead satisfazia-se sexualmente com o dito taco... Penso que não acertei na minha escolha de defesa de tese... Esses americanos são uns psicopatas... Onde estava com a cabeça quando resolvi defender essa maldita tese? Sabia que há tacos de alumínio?
- Não...
-Pois é nem eu, para mim aquilo era feito de madeira torneada e pronto! Mas não, os “irmãos” do norte tinham que complicar, para eles nada pode ser simples. Eles tinham que complicar... Já não bastava o jogo ser abstruso...
- O quê?
-Abstruso é o mesmo que complicado!
- Ah! Depois são americanos que complicam tudo...
- Não obstante minhas dificuldades, os colegas de classe começaram a enviar perguntas, com se eu fosse um fanático, um expert em baseball. Leia aqui, aqui nesse papel amarelo, veja a pergunta desse sujeito. Deixa que eu leio, já que está na minha mão mesmo: - Como fazer a bola de baseball sair do estádio e conseguir passar por todas as Home Plates, fazendo o famoso Home Run?
- ??
- Pois é. Essa foi minha cara a ler esse papel. Eu que nem sei quantas bolas rolam num campo de futebol, fui me meter nessa encrenca! Tudo que eu queria escrever era sobre o desenvolvimento do objeto criado para o esporte que com o tempo passou a ser usado como arma de defesa e depois em ícone de uma cultura estrangeira invasora. Mas não, todos querem que eu explane sobre o esporte! Sobre o esporte. E eu lá sou homem de esporte? Eu sou um teórico do esporte. Eu não pratico esporte. Eu leio críticas sobre o esporte! Maldita hora que me meti nisso! Sabe o que é pior nesse encrenca toda? Sabe?
- Acho que você vai me contar de qualquer maneira, não vai?
- Pior que a minha solidão intelectual é a indigência de minhas amizades! – suspira. O pior, o que está me levando a desistir dessa tese é esse outro papelzinho aqui. Veja isso! Duvido que você entenda, mas dê uma olhada nisso. Veja se essa indagação ajuda em alguma coisa na defesa da minha tese?
- O que é Força Centrípeta sabendo-se que F = (m*V^2)/R, sendo m=massa, v= velocidade, R= raio da curva?
_ Viu? Desisto dessa tese. – Joga todas as sua anotações pela janela, fazendo uma chuva de papeis picados caírem em direção à rua, deixando as crianças exultantes de alegria. – Desisto. Nunca deveria ter começado essa porcaria de Tese. Tô fora.
- Você nunca vai ser ninguém na vida mesmo! Essa já é o quê? A terceira Tese que você abandona?
-É sim. Mas um dia, eu hei de conseguir desenvolver um assunto que ninguém – diz contorcendo os dedos das mãos, e olhando para cima – ninguém conseguirá interferir, ninguém conseguirá entender, ninguém conseguirá me interromper... E nesse dia, nesse dia...
Toca a campainha e a enfermeira entra para trocar a frauda geriátrica dele.
- Seu Altamir, se continuar com essa agitação vou ser obrigada a sedar o senhor outra vez. O senhor tem que parar com essa mania de viver defendendo tese. Faça como o seu Gervásio que pensa que é Napoleão, arrume uma guerra, vá traçar planos para invadir Marte ou a Polônia, mas pára com essas sua teses. Olha só o estado do seu Carvalho aí ao seu lado. Toda noite nós o pegamos invadindo a biblioteca para pesquisar as bobagens que o senhor fala durante o dia. O seu Carvalho não tem mais idade para ficar escalando as estantes, um dia desses vamos encontrá-lo morto e a culpa será sua, só sua, pense nisso. – Diz isso enquanto acaba de passar talco nas suas nádegas irritadas pelas brotoejas. – Agora tome a sua sopinha e trate de ir para a caminha.
Ela dirige-se à porta do quarto para sair, mas antes vira-se e fala.
- Antes que o senhor resolva sair daqui às escondidas, já vou lhe avisando que achamos e já devolvemos o taco de baseball do seu neto.
Ela sai do quarto, mas ainda é possível escutá-la resmungar:
- Era só o que faltava esse velho gagá fazer, roubar os brinquedos do neto...
2008/08/21
O MONSTRO NA TABERNA
O som dos punhos batendo na mesa ecoava há algum tempo, o taberneiro fingia que não ouvia, assim como os outros gatos-pingados que ali estavam bebendo com a desculpa de fugir da chuva que caia lá fora.
Ao som dos punhos juntou-se o uivo do grande animal sedento e furioso.
Do barril de vinho tinto tinto, o taberneiro tirou uma jarra que foi pingando em direção à mesa, deixando no chão um falso rastro de sangue. O sedento animal bebeu o vinho tinto na própria jarra, mais banhando-se nela que saciando-se, ao fim despencou na mesa imunda de resto de comida e dormiu.
O taberneiro com um sinal fez com que os empregados retirassem de lá o monstro e jogassem na rua.
Dois dos empregados correram para cumprir as ordens do patrão, mas a força combinada deles nada conseguia movê-lo, chamaram então mais dois empregados, que nada conseguiram também.
Foi preciso o auxílio dos fregueses para derrubá-lo ao chão e com esforço empurrá-lo à rua.
O que teria comido aquela criatura para pesar tanto assim? - Perguntavam-se os bêbados entre si.
Passado poucos segundos, a porta da taberna abre-se com violência e o monstruoso bêbado torna a entrar gritando que quer mais vinho tinto.
-Mais vinho tinto não há. – Responde o taberneiro pressentindo a tempestade que se abateria sobre a sua taberna.
- Como não tem mais vinho tinto? – Urrou feito um urso o bêbado, estufando o peito como se feito um lobo de história infantil, fosse soprar todos à sua frente.
O taberneiro não se intimidando gritou de trás do balcão que não havia mais vinho tinto e que ele já iria fechar a taberna, pois como todos ali, estava exausto e queria dormir.
O urro do animal foi tremendo e fez até o mais empedernido dos fregueses temer pela própria vida. Mas nem isso fez o taberneiro mudar de opinião. Não serviria mais vinho tinto para ninguém. Ninguém, frisou, conseguindo assim perder a cumplicidade dos outros fregueses que bebiam ali.
Pensava o taberneiro que falando assim, faria com que os bêbados enfurecidos expulsassem o encrenqueiro de vez para a rua.
Outro urro, agora parecido com um rugido o fez repensar sua decisão de não servi-lo mais. Como um urso selvagem o monstruoso bêbado batia com os punhos no peito molhado e gritava que arrebentaria tudo ali se não fosse servido imediatamente.
Os fregueses olhavam para o proprietário implorando para servir logo aquele sujeito. O medo estava estampado nas faces vermelhas e alcoolizadas. Por um longo e interminável segundo o silêncio reinou naquela taberna, logo partido por uma cadeira que voou em direção a um pobre infeliz que bebia sozinho sentado num canto, quebrando-lhe o pescoço e levando-o a morte instantaneamente.
Passando a mão no rosto o pobre taberneiro falou para si mesmo:
- Eis a tempestade, agora não tem mais volta.
Enquanto todos acorriam para ver o morto, o taberneiro numa calma anormal para aquela situação, dirigiu-se para o balcão.
Em volta do cadáver que ainda mantinha preso a mão a caneca de vinho tinto, os homens agora refeitos da bebedeira olhavam com a respiração suspensa para o proprietário. O que ele faria agora? O assassino ignorando o morto, as testemunhas, a situação à sua volta, rosnava:
- Meu vinho tinto ou outra morte?
Ouviu-se o baque do corpo do morto caindo no chão outra vez, agora largado dos braços dos que o socorriam.
- O infeliz praticamente morreu duas vezes no mesmo lugar – lamuriar-se-ia a viúva durante o seu funeral, dias mais tarde...
Os passos do possesso em direção ao balcão fazia o chão tremer, e os homens que a gora queriam fugir do mesmo destino do morto, começaram a bater os dentes por puro terror. Atrás do balcão com as duas mãos espalmadas, o taberneiro olhava para o monstro que vinha em sua direção. Eles se olhavam nos olhos, não piscavam, não tremiam, não demonstravam medo, eram duas estátuas sem qualquer sentimento.
Os passos abafavam qualquer outro som. E que outro som se ouviria ali que não os de corações bombeando sangue? Passos fortes, pesados, furiosos, assassinos, passos de um animal pronto para o bote, passos que levariam o predador à presa.
O morte estava presente e tão faminta de cadáveres como a Besta estava sedenta de vinho tinto. Por fim o monstro chega ao balcão, bate com a mãozarrona no balcão e chegando sua cara ao rosto pálido do taberneiro rosnou?
- Vai me servir o vinho tinto ou não?
O hálito da fera era horrível. De quê se alimentaria esse demônio?, que criaturas ele já deveria ter devorado? Pegando outra cadeira, ele a jogou contra uma janela. O vento úmido de chuva que entrou apagou a maioria das velas, deixando o ambiente ainda mais assustador. Os bêbados tentavam, arrastando-se pelas paredes, chegarem à porta e fugir, mas adivinhando a fuga, o monstruoso bêbado empurrou a mais pesada das mesas com apenas uma das mãos na direção deles, deixando bem claro qual era a sua intenção.
- Ninguém sai daqui até eu mandar – rosnou.
Até o morto, que morto estava, encolheu-se ainda mais, quebrando a caneca que estava em sua mão.
O taberneiro via tudo isso impassível, inabalável, impávido. Era uma demonstração de coragem e virilidade que há muito não se via naquelas redondezas. Um dos bêbados chegou a cochichar que se saísse vivo daquela confusão, indicaria o nome do taberneiro para o alcaide da vila.
Mas com o bater das mãos do mostro no balcão todos voltaram à realidade, realidade que não oferecia nenhuma garantia de vida essa noite.
- Vai me servir o vinho tinto ou não taberneiro? – Gritou dessa vez.
Silêncio, corações disparados, a certeza de morte no ar e o taberneiro imóvel atrás do balcão.
- Vai me servir o vinho tinto ou não homem morto? – falou crispando os dedos e com a as unhas arrancando farpas da madeira do balcão.
O taberneiro olhando profundamente nos olhos do monstro, encarando cada freguês ali assustado, pigarreou, cuspiu no chão e chegando bem perto do ouvido direito daquela monstruosidade disse:
- O vinho tinto acabou, o senhor aceita branco?
Ao som dos punhos juntou-se o uivo do grande animal sedento e furioso.
Do barril de vinho tinto tinto, o taberneiro tirou uma jarra que foi pingando em direção à mesa, deixando no chão um falso rastro de sangue. O sedento animal bebeu o vinho tinto na própria jarra, mais banhando-se nela que saciando-se, ao fim despencou na mesa imunda de resto de comida e dormiu.
O taberneiro com um sinal fez com que os empregados retirassem de lá o monstro e jogassem na rua.
Dois dos empregados correram para cumprir as ordens do patrão, mas a força combinada deles nada conseguia movê-lo, chamaram então mais dois empregados, que nada conseguiram também.
Foi preciso o auxílio dos fregueses para derrubá-lo ao chão e com esforço empurrá-lo à rua.
O que teria comido aquela criatura para pesar tanto assim? - Perguntavam-se os bêbados entre si.
Passado poucos segundos, a porta da taberna abre-se com violência e o monstruoso bêbado torna a entrar gritando que quer mais vinho tinto.
-Mais vinho tinto não há. – Responde o taberneiro pressentindo a tempestade que se abateria sobre a sua taberna.
- Como não tem mais vinho tinto? – Urrou feito um urso o bêbado, estufando o peito como se feito um lobo de história infantil, fosse soprar todos à sua frente.
O taberneiro não se intimidando gritou de trás do balcão que não havia mais vinho tinto e que ele já iria fechar a taberna, pois como todos ali, estava exausto e queria dormir.
O urro do animal foi tremendo e fez até o mais empedernido dos fregueses temer pela própria vida. Mas nem isso fez o taberneiro mudar de opinião. Não serviria mais vinho tinto para ninguém. Ninguém, frisou, conseguindo assim perder a cumplicidade dos outros fregueses que bebiam ali.
Pensava o taberneiro que falando assim, faria com que os bêbados enfurecidos expulsassem o encrenqueiro de vez para a rua.
Outro urro, agora parecido com um rugido o fez repensar sua decisão de não servi-lo mais. Como um urso selvagem o monstruoso bêbado batia com os punhos no peito molhado e gritava que arrebentaria tudo ali se não fosse servido imediatamente.
Os fregueses olhavam para o proprietário implorando para servir logo aquele sujeito. O medo estava estampado nas faces vermelhas e alcoolizadas. Por um longo e interminável segundo o silêncio reinou naquela taberna, logo partido por uma cadeira que voou em direção a um pobre infeliz que bebia sozinho sentado num canto, quebrando-lhe o pescoço e levando-o a morte instantaneamente.
Passando a mão no rosto o pobre taberneiro falou para si mesmo:
- Eis a tempestade, agora não tem mais volta.
Enquanto todos acorriam para ver o morto, o taberneiro numa calma anormal para aquela situação, dirigiu-se para o balcão.
Em volta do cadáver que ainda mantinha preso a mão a caneca de vinho tinto, os homens agora refeitos da bebedeira olhavam com a respiração suspensa para o proprietário. O que ele faria agora? O assassino ignorando o morto, as testemunhas, a situação à sua volta, rosnava:
- Meu vinho tinto ou outra morte?
Ouviu-se o baque do corpo do morto caindo no chão outra vez, agora largado dos braços dos que o socorriam.
- O infeliz praticamente morreu duas vezes no mesmo lugar – lamuriar-se-ia a viúva durante o seu funeral, dias mais tarde...
Os passos do possesso em direção ao balcão fazia o chão tremer, e os homens que a gora queriam fugir do mesmo destino do morto, começaram a bater os dentes por puro terror. Atrás do balcão com as duas mãos espalmadas, o taberneiro olhava para o monstro que vinha em sua direção. Eles se olhavam nos olhos, não piscavam, não tremiam, não demonstravam medo, eram duas estátuas sem qualquer sentimento.
Os passos abafavam qualquer outro som. E que outro som se ouviria ali que não os de corações bombeando sangue? Passos fortes, pesados, furiosos, assassinos, passos de um animal pronto para o bote, passos que levariam o predador à presa.
O morte estava presente e tão faminta de cadáveres como a Besta estava sedenta de vinho tinto. Por fim o monstro chega ao balcão, bate com a mãozarrona no balcão e chegando sua cara ao rosto pálido do taberneiro rosnou?
- Vai me servir o vinho tinto ou não?
O hálito da fera era horrível. De quê se alimentaria esse demônio?, que criaturas ele já deveria ter devorado? Pegando outra cadeira, ele a jogou contra uma janela. O vento úmido de chuva que entrou apagou a maioria das velas, deixando o ambiente ainda mais assustador. Os bêbados tentavam, arrastando-se pelas paredes, chegarem à porta e fugir, mas adivinhando a fuga, o monstruoso bêbado empurrou a mais pesada das mesas com apenas uma das mãos na direção deles, deixando bem claro qual era a sua intenção.
- Ninguém sai daqui até eu mandar – rosnou.
Até o morto, que morto estava, encolheu-se ainda mais, quebrando a caneca que estava em sua mão.
O taberneiro via tudo isso impassível, inabalável, impávido. Era uma demonstração de coragem e virilidade que há muito não se via naquelas redondezas. Um dos bêbados chegou a cochichar que se saísse vivo daquela confusão, indicaria o nome do taberneiro para o alcaide da vila.
Mas com o bater das mãos do mostro no balcão todos voltaram à realidade, realidade que não oferecia nenhuma garantia de vida essa noite.
- Vai me servir o vinho tinto ou não taberneiro? – Gritou dessa vez.
Silêncio, corações disparados, a certeza de morte no ar e o taberneiro imóvel atrás do balcão.
- Vai me servir o vinho tinto ou não homem morto? – falou crispando os dedos e com a as unhas arrancando farpas da madeira do balcão.
O taberneiro olhando profundamente nos olhos do monstro, encarando cada freguês ali assustado, pigarreou, cuspiu no chão e chegando bem perto do ouvido direito daquela monstruosidade disse:
- O vinho tinto acabou, o senhor aceita branco?
2008/08/20
PROFETA

- Sobre destruição? Ora, ela é a única saída, a verdadeira saída, a honrosa saída. Explicar? Ok vamos lá. De que adianta reformar, disfarçar a fachada, trocar a cor das tintas, mudar os móveis de lugar? De que adianta fazer parecer que é, se não dá mais para enganar, disfarçar, mentir. Fazer que é, não fazer “para inglês ver”, fazer de conta que é... Mas sabemos que não é mais possível isso. Não, não é! Devemos então, destruir, arrasar, por abaixo, transformar em pó e depois varrer para longe, eu disse para longe, não para debaixo do tapete ou atrás da porta. Destruição, caos, bomba atômica/hidrogênio, fim. Fim, esse é o verdadeiro começo, o primeiro parágrafo, sem dois dedos. Temos que transformar tudo isso em terra arrasada, um monte de entulho, monturo de nada útil, para só depois, realmente começarmos a começar. Começar do zero absoluto, do nada, sem parâmetro outro que não aquilo que pusemos abaixo. Tudo novo, não de novo ou outra vez: do zero, com gente nova, com mentalidade nova, com vontade nova e útil, honesta e clara. Matarmos todos os velhos: velhos de idéias, velhos de manias, velhos de caráter, os velhos corruptos, os velhos malversadores do bem público. Acabar com tudo e todos para que sirva de lição para que, se não educar, assustar, se não for para respeitar ao menos para temer, temer muito. Destruição é o começo. Do pó ao pó. Aos homem o que é do homem, fim. Somente no fim, no fim mesmo, encontraremos o começo. Do ponto final ao travessão, parágrafo! Do Big Bum final ao Big Bang inicial! Que os mortos descansem de acordo com seus crimes, que o inferno se encha de pecadores e o céu aproveite e encere o chão para os novos-puros, se novos puros surgirem no novo começo. Sejamos implacáveis com o crime, penalizemos o culpado, premiemos os justos, não o contrário. Viva o fim! Bem-vindo seja o fim, te aguardo de braços abertos e mãos armadas, bendito seja aquele que apertar o botão vermelho do apocalipse. Toda honra e toda glória aos arautos do fim, o fim redentor, o fim de tudo que abrirá as portas do “segundo tempo” dessa existência estéril e fútil nesse vale de lágrimas. Bem alimentado estejam os cavalos dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse! Que sob seus cascos tudo sucumba! Quero ser o último a partir, mesmo que doa a dor mil, um milhão, um bilhão de dores, quero ser o último a partir, pois quero ouvir os ais e os ranger de dentes, quero molhar meus pés nas lágrimas amargas de arrependimento dos injustos, dos impuros, dos ladrões, dos vendilhões, dos corruptos, dos desonestos, dos que matam, dos que mandam matar, dos que morrem por pouco, dos que mentem para ter, dos que mentem para manter, quero ser o último a ir, pois quero subir na fumaça das últimas cidades, dos últimos impérios, e quero lá do alto ver as pilhas de ossos dos barões, dos falsos nobres, dos reis, dos presidentes, dos poderosos e seus lacaios, quero ver suas viúvas chorando pela perda de seus filhos, de seus bens, de suas jóias, de sua beleza, quero então ver a terra arrasada, calcinada, destruída, reduzida às suas devidas proporções e então, só então – ah! - nesse momento, sermos todos iguais. Iguais nas perdas e na agonia, sufocados no pó, no último e derradeiro fim. Deus, dê-me somente uma graça: a graça suprema de rir por último. Isso é tudo o que te peço.
- Garçom, mais uma cerveja antes que comece o fim.
Amém!
2008/08/19
2008/08/18
2008/08/12
A pedidos, lá vai
QUEM É O MELHOR?
Drama Relâmpago na Hora do Almoço
Cenário: UMA CAFETERIA DO CENTRO DA CIDADE.
Tempo: HORÁRIO DO ALMOÇO.
Personagens: 1 - Leovaldo Cruz, fã incondicional de Clarice Lispector
2 - Estampido da Silva, fã incondicional de Murilo Rubião
3 - Cirineu do Brejo Jr., estagiário, adolescente e iletrado.
4 – Mocinha do café, que não aparece, não fala, e vê tudo de longe, morrendo medo dos três.
Na cafeteria, os três discutem acaloradamente, incomodando até os outros freqüentadores.
Leovaldo Cruz __Ora sua besta, o que você entende de Clarice Lispector? Sabia você ela ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos? Que ela talvez muito a contragosto costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia? Jamais se deixava ver, evitava ser transparente? - Interrompido.
Estampido da Silva__ Você e essa tara pela Clarice, para mim isso é uma homossexualidade enrustida... – interrompido
Leovaldo Cruz __Você está querendo dizer o quê com isso? – engasga-se com o pão de queijo - Vamos seja claro, o que você está querendo dizer? Você sim é um monstro enrustido, com essa tara mal-resolvida com dragõezinhos... – interrompido.
Estampido da Silva __O que você está dizendo? O que você está dizendo sua besta sem imaginação? Leitor de livros de auto-ajuda feminina...
Leovaldo Cruz __Auto-ajuda de quê? – fala babando-se com o café quente que lhe mancha a camisa e queima-lhe o peito. – Sua besta! Agora queimei meu peito e sujei a camisa!
Estampido da Silva __ Vamos, fale mal de dragões... – ri. Ah! Se a sua musa ao menos chegasse aos pés do Mestre, ouça isso – levanta-se e de pé põe-se a falar: - Ao ler seus contos, qualquer conto, tente “Teleco O Coelhinho”, uma pessoa normal e sensível se deixa levar por uma certa estranheza que vai apoderando-se de nosso espírito e sentimos que ali há algo mais profundo, do que a princípio podíamos supor. Sim o Mestre nos leva a outro mundo, um mundo onírico, maravilho e um quê sorumbático, é verdade, mas um mundo todo próprio, não esse mundinho de “minhas queridas leitoras...” – interrompido com um pão de queijo enfiado na boca.
Leovaldo Cruz __Sua besta metida a mística, criador de coelhinho mágicos, você deveria ter sido incinerado por seus dragões de estimação. – interrompido pelas mãos de outro em seu pescoço.
Estampido da Silva __Ora sua besta criadora de baratas que não morrem seu ignorante perdido em labirintos – chacoalha o desafeto enquanto cospe os pedaços de pão de queijo.
Leovaldo Cruz__ Clarice é fenomenal, fantástica, gigantescamente maravilhosa, engajada nas dores da realidade palpitante de vida... – interrompido com um murro na cara que chega a tirar-lhe sangue da boca.
Estampido da Silva __Murilo é o senhor da ficção, uma ficção arraigada e ancorada nos absurdos dessa vidinha de bosta que vivemos. Quem é funcionário público como eu e já leu “O Ex-mágico da Taberna Minhota" sabe o que ele está dizendo, seu animal - interrompido por um suspiro, justo quando estava prestes a jogar uma cadeira sobre Leovaldo Cruz.
Os dois param de brigar e olham espantados para Cirineu do Brejo Jr. sentado à mesa com eles, que os olha com expressão aparvalhada, como se estivesse testemunhando uma discussão entre dois marcianos.
Estampido da Silva__ Rapaz – fala para Leovaldo Cruz, eu já havia me esquecido dele...
Leovaldo Cruz__ que sacanagem de nossa parte, ele não entende abacate do que estamos discutindo...
Estampido da Silva__ Olha a cara dele.
Cirineu do Brejo Jr. continua olhando para Estampido da Silva e Leovaldo Cruz aparvalhado e assustado.
Estampido da Silva__ Só há meio de inseri-lo no contexto – cochicha no ouvido de Leovaldo Cruz.
Leovaldo Cruz__ Tem razão, não sei porque teimamos em trazê-lo conosco para tomar café.
Juntos eles perguntam a Cirineu do Brejo Jr:
Estampido da Silva e Leovaldo Cruz__ E aí cara, tem comido alguém ultimamente?
Cai o Pano.
2008/08/11
2008/08/08
O PERSONAGEM RENITENTE
Sol.
O sol brilhava no céu azul, nada havia no mundo que pudesse estragar esse dia tão formidavelmente maravilho.
Nada.
Um vento suave entrava pela janela balançando as cortinas, desenhando sombras etéreas no chão recém encerado.
O doce perfume das flores do jardim docemente invadia o ambiente.
Aquilo era uma pintura de pura perfeição.
Então delicadamente, ele puxou a arma e disparou um único e fatal projétil contra a cabeça.
Então aquele fio vermelho desenha um contraste nesse quadro.
Não!
Não era isso que eu queria escrever.
Vamos tentar outra vez.
Praia.
Verão quente, gente bronzeando-se na areia, vendedores de sorvetes, crianças jogando bola e correndo para a água, correndo da água, fugindo dos pais, procurando os pais.
O caos do verão.
Sentado em sua cadeira, empastelado de protetor solar, boné, óculos escuros, ele tenta sem sucesso ler o jornal.
Tem a seus pés um copo de caipirinha, uma raquete de frescobol e o aparelho celular desligado.
Vindo da calçada, uma loira fenomenal passa por ele, que finge que não vê ou não vê mesmo, pois ainda continua absorto lendo o jornal. Todos à sua volta param o que estão fazendo para ver a deusa seminua que desfila em direção a água.
Uma bola chutada por uma criança arrebata-lhe o jornal das mãos.
Enfurecido ele olha para o lado de onde veio a bola, levanta-se e sacando uma arma que mais tarde as testemunhas dirão "sabe-se lá de onde saiu", dispara um único e fatal tiro na cabeça.
Não!
Não era para sair assim!
Vamos tentar outra vez.
No Restaurante.
O restaurante está cheio, são nove horas da noite, os casais estão jantando, outros namorando, não há mais nenhuma mesa vazia.
Ele está sozinho, olha para o relógio.
Helena está quarenta e sete minutos atrasada. Helena nunca chega na hora, ela é uma retardatária convicta e crônica.
Ele já está na segunda garrafa de vinho, um espumante italiano, tinto.
Ele tem certo receio de vinhos tintos, eles sempre acabam por manchar alguma peça de sua roupa.
O garçom, já sem graça, pergunta pela terceira vez se ele quer fazer o pedido, já sabendo que a resposta será não.
- Não. - ele responde, mas como está escrito na linha de cima, o garçom já esperava essa resposta.
Ele bebe o vinho do copo num gole só, e serve-se mais uma vez, esvaziando a garrafa. Faz sinal ao garçom pedindo outra, olha para o relógio e irrita-se.
Hoje Helena passou das contas.
Tamborila com os dedos no tampo da mesa.
O garçom chega, enche-lhe o copo, que ele sorve de uma vez só deixando os outros fregueses constrangidos, e bate com o copo com tanta força na mesa, que ele parte-se em pedaços.
E enquanto os casais, os garçons e a menina da chapelaria tentavam entender o que estava acontecendo, ele saca do bolso do paletó uma pistola, e num átimo, dispara um único tiro na fronte, morrendo imediatamente, estragando a noite de todos os que lá estavam, deixando particularmente preocupado o garçom, que perdera um ótimo freguês e a caixinha da noite, e intuindo que passaria longas horas prestando depoimento na delegacia.
Não!
Mas que diabo!
Esse sujeito me larga no meio da história?
Vamos tentar mais uma vez....
Teatro.
Terminado o espetáculo, as pessoas saem felizes do teatro.
A peça, uma comédia ligeira, servira para desanuviar a cabeças das preocupações por duas horas.
Duas horas em que tudo que precisaram fazer foi rir, rir sem preocupações, rir das situações e apuros dos personagens no palco, pois sabiam que antes do fim do espetáculo, tudo ficaria bem. Todos seriam felizes para sempre, com cortina descendo e orquestra tocando.
Da platéia veio o aplauso, flores foram jogadas aos atores principais. Fim.
Abraçados os casais saem em direção às suas casas, a restaurantes, a andar na praça e rir.
Mas ele, ele foi o último a deixar o prédio, sai meditabundo, cabisbaixo, parece não ter se divertido com a comédia, mais parece ter saído de um velório.
Saiu em passos lentos, com as mãos nos bolso e o olhar triste.
No que pensava ele?
Que tristes lembranças assolavam essa pobre alma?
Antes de atravessar a rua, tirou um cigarro do maço que trazia no bolso do blazer, acendeu, deu uma baforada para o alto, talvez com a intenção de, com a fumaça, cobrir as estrelas que brilhavam no céu.
Tossiu e tornou a por a mão no bolso e...
...antes que esse miserável resolva matar-se outra vez, escrevo:
F I M
O sol brilhava no céu azul, nada havia no mundo que pudesse estragar esse dia tão formidavelmente maravilho.
Nada.
Um vento suave entrava pela janela balançando as cortinas, desenhando sombras etéreas no chão recém encerado.
O doce perfume das flores do jardim docemente invadia o ambiente.
Aquilo era uma pintura de pura perfeição.
Então delicadamente, ele puxou a arma e disparou um único e fatal projétil contra a cabeça.
Então aquele fio vermelho desenha um contraste nesse quadro.
Não!
Não era isso que eu queria escrever.
Vamos tentar outra vez.
Praia.
Verão quente, gente bronzeando-se na areia, vendedores de sorvetes, crianças jogando bola e correndo para a água, correndo da água, fugindo dos pais, procurando os pais.
O caos do verão.
Sentado em sua cadeira, empastelado de protetor solar, boné, óculos escuros, ele tenta sem sucesso ler o jornal.
Tem a seus pés um copo de caipirinha, uma raquete de frescobol e o aparelho celular desligado.
Vindo da calçada, uma loira fenomenal passa por ele, que finge que não vê ou não vê mesmo, pois ainda continua absorto lendo o jornal. Todos à sua volta param o que estão fazendo para ver a deusa seminua que desfila em direção a água.
Uma bola chutada por uma criança arrebata-lhe o jornal das mãos.
Enfurecido ele olha para o lado de onde veio a bola, levanta-se e sacando uma arma que mais tarde as testemunhas dirão "sabe-se lá de onde saiu", dispara um único e fatal tiro na cabeça.
Não!
Não era para sair assim!
Vamos tentar outra vez.
No Restaurante.
O restaurante está cheio, são nove horas da noite, os casais estão jantando, outros namorando, não há mais nenhuma mesa vazia.
Ele está sozinho, olha para o relógio.
Helena está quarenta e sete minutos atrasada. Helena nunca chega na hora, ela é uma retardatária convicta e crônica.
Ele já está na segunda garrafa de vinho, um espumante italiano, tinto.
Ele tem certo receio de vinhos tintos, eles sempre acabam por manchar alguma peça de sua roupa.
O garçom, já sem graça, pergunta pela terceira vez se ele quer fazer o pedido, já sabendo que a resposta será não.
- Não. - ele responde, mas como está escrito na linha de cima, o garçom já esperava essa resposta.
Ele bebe o vinho do copo num gole só, e serve-se mais uma vez, esvaziando a garrafa. Faz sinal ao garçom pedindo outra, olha para o relógio e irrita-se.
Hoje Helena passou das contas.
Tamborila com os dedos no tampo da mesa.
O garçom chega, enche-lhe o copo, que ele sorve de uma vez só deixando os outros fregueses constrangidos, e bate com o copo com tanta força na mesa, que ele parte-se em pedaços.
E enquanto os casais, os garçons e a menina da chapelaria tentavam entender o que estava acontecendo, ele saca do bolso do paletó uma pistola, e num átimo, dispara um único tiro na fronte, morrendo imediatamente, estragando a noite de todos os que lá estavam, deixando particularmente preocupado o garçom, que perdera um ótimo freguês e a caixinha da noite, e intuindo que passaria longas horas prestando depoimento na delegacia.
Não!
Mas que diabo!
Esse sujeito me larga no meio da história?
Vamos tentar mais uma vez....
Teatro.
Terminado o espetáculo, as pessoas saem felizes do teatro.
A peça, uma comédia ligeira, servira para desanuviar a cabeças das preocupações por duas horas.
Duas horas em que tudo que precisaram fazer foi rir, rir sem preocupações, rir das situações e apuros dos personagens no palco, pois sabiam que antes do fim do espetáculo, tudo ficaria bem. Todos seriam felizes para sempre, com cortina descendo e orquestra tocando.
Da platéia veio o aplauso, flores foram jogadas aos atores principais. Fim.
Abraçados os casais saem em direção às suas casas, a restaurantes, a andar na praça e rir.
Mas ele, ele foi o último a deixar o prédio, sai meditabundo, cabisbaixo, parece não ter se divertido com a comédia, mais parece ter saído de um velório.
Saiu em passos lentos, com as mãos nos bolso e o olhar triste.
No que pensava ele?
Que tristes lembranças assolavam essa pobre alma?
Antes de atravessar a rua, tirou um cigarro do maço que trazia no bolso do blazer, acendeu, deu uma baforada para o alto, talvez com a intenção de, com a fumaça, cobrir as estrelas que brilhavam no céu.
Tossiu e tornou a por a mão no bolso e...
...antes que esse miserável resolva matar-se outra vez, escrevo:
F I M
2008/08/07
Um Conto para os dias que se seguem
O CANDIDATO CHEGOU
As ruas estão sujas, alias, são sujas sempre.
O calor ainda faz com que o vento levante a areia que entra nas casas, entra nos olhos das gentes que moram naquele bairro.
Pelas ruas, nas esquinas, meninas, jovens ainda distribuem”santinhos” de candidatos. Estão agitadas, comentam que um deles vem fazer uma visita no bairro hoje. A comunidade está quase em júbilo.
- O candidato vem aqui, o candidato vem aqui. O padre da velha igreja exulta e convence a paróquia a varrer a rua, limpar algumas calçadas. Coloca as mais prendadas na cozinha para começarem a preparar o banquete, e os jovens colocam bandeirinhas nos postes.
- O candidato vem aqui, o candidato vem aqui... Até o fim do dia o bairro está “apresentável”. O líder da comunidade exorta as pessoas a comportarem-se bem, causar boa impressão. Manda que as mães dêem banhos nos filhos, prendam seus cachorros. O bebuns incorrigíveis são encerrados em casa.
-Temos que causar boa impressão, senão nenhum outro candidato aparecerá aqui – grita do alto do palanque o líder comunitário.
- O candidato vem aqui, o candidato vem aqui... A noite torna-se um martírio, ninguém consegue conciliar o sono, viram de um lado para o outro na cama.
Enfim amanhece, o dia claro promete bons auspícios. As ruas, milagrosamente, continuam limpas, sem cachorros correndo, latindo ou derrubando latas atrás de comida. Os bares, vazios, não fazem arruaça, não há brigas, nem músicas barulhentas.
Lá de longe, uma voz grita:
- O candidato está chegando, o candidato está chegando, o candidato está chegando!
Começam a soltar fogos, o padre arrebatado começa aos gritos de - o candidato chegou, o candidato chegou! – soltar os pombos que cria no campanário da igreja. As crianças do coral, em coro (é claro) gritam afinadas: - o candidato chegou, o candidato chegou!
E em carro aberto, acenando e soltando beijos para o público quase histérico, o candidato vestido de branco, sorri. Sente-se eleito pela comunidade. Estava feito!
Olha com desprezo, sente um misto de nojo, náusea, uma repulsa como nunca antes sentira em toda a sua parasitária vida de político popularesco.
Desceu do carro sob os apupos da comunidade, beijou criancinhas, apertou mãos, osculou a mão enrugada e encarquilhada do velho cura.O sino rachado da igreja tocou uma, duas, três vezes... Então tudo se tornou um borrão.
O candidato foi levado pela onda humana, entre "vivas" e "salve o candidato". O padre, espumando, gritava ordens às cozinheiras:
- O candidato está chegando, o candidato está chegando!
As portas da igreja foram abertas de par em par, e o populacho entrou cantando e dançando tendo em seus braços o candidato, os cabos-eleitorais e seus distribuidores de santinhos.
Todos sorriam de júbilo!
- Estou eleito! Ria baixinho o candidato enquanto levantava os braços fazendo o sinal da vitória.
Em poucos segundos o candidato, os cabos-eleitorais e seus distribuidores de santinhos foram esquartejados, tendo os membros e órgãos separados por tamanho, quantidade de carne, cumprimento dos ossos e foram preparados e temperados pelas cozinheiras da igreja.
A noite foi de festa, todos foram dormir de barriga cheia, satisfeitos com o candidato e esperando os outros de outros partidos que viriam visitá-los ao longo da campanha eleitoral. Numa das casas mais humildes, uma criança pergunta à mãe:
- Mamãe, por que não podemos comer candidatos todos os dias?
- Por que, meu filho, esse país não presta nem para ter bons candidatos!
A noite desce sobre comunidade, a brisa balança as bandeirinhas, os cachorros agora tem o que procurar nas latas de lixo e os bêbados podem voltar a beber em paz nos bares.
2008/08/06
2008/08/05
2008/08/04
“STAPLAFT”
OU COMO DUROU POUCO A MINHA CARREIRA DE LIDER MILTAR
Não vou me demorar no relato de minha triste história.
Ela começou assim numa quinta-feira de céu azul claro que mais parecia uma pintura, um dia tão lindo que só serve para aumentar ainda mais a ironia de tudo isso.
Estávamos em guerra e os inimigos se aproximavam de nossa cidade. Todas as pessoas importantes estavam reunidas na sala principal da prefeitura onde eu pedira a palavra. E ai começa a minha desdita...
- Isso não pode continuar assim, as hordas inimigas já estão nas nossas barbas – gritei e bati com mão espalmada no tampo da mesa.
Esperava que o som fosse algo parecido com um trovão, que derrubasse os copos e as canetas, mas o som que produzi saiu mais parecido com um “staplaft”. Um som parecido com alguma coisa chata, plana, fina e inexpressiva caindo n’água. Um efeito bem pouco másculo, sem dúvida!
Ao redor da mesa as pessoas me olharam mais com piedade do que com medo ou respeito. "Comecei mal, comecei bem mal." - pensei com meus botões. Mas à essa hora já havia perdido o fio da meada e seja lá qual fosse a crise, com aquela batida de mão na mesa eu já tinha demonstrado ser incapaz de resolve-la.
Ninguém seguiria a liderança de um homem que bate na mesa e faz “staplaft”, ninguém em sã consciência me seguiria... Que tipo de líder faz “staplaft” numa hora de crise? Só eu! Esse líder de quinta categoria.
Por parcos segundos pensei ser Gêngis Kan, Aníbal, César, Napoleão, um general, um líder de homens, mas o “staplaft” acabou com a minha vida, minha liderança virou fumaça e fiquei ali, feito um fantasma, deixado de existir.
Por mim, a crise poderia ter aumentado tanto naquela hora que o mundo poderia ter se acabado, os inimigos poderiam ter nos invadido, matados a todos e a terra ter me engolido.
Mas nada disso aconteceu. O céu continuou ali, azul, e as pessoas em volta da mesa me olhando. Sai de lá humilhado e olhando para minha mão, me perguntava como uma mão máscula, grande, de longos dedos, com um grosso anel de ouro, poderia ter produzido tal “staplaft”?
Uma vez na rua amaldiçoando minha mão, o céu, meu país, a guerra e os miseráveis na sala, que talvez agora estivessem rindo de mim, decidi:
- Nunca mais me meto a ser o salvador da pátria, ser aquele que sabe, ser aquele que dá o primeiro passo. Não, nunca mais!
Agora só espero o fim dessa guerra, a vitória dos inimigos e o fuzilamento de todos os que estavam naquela sala comigo, pois só assim terei coragem para sair à rua outra vez.
Acompanho dia-a-dia, os noticiários do avanço do exército inimigo, em poucos dias, pelos meus cálculos, eles entrarão na cidade. Já estou tomando as devidas providências para recebê-los.
A primeira será um belo discurso de rendição ao exército vitorioso e libertador, e a segunda, a mais complicada por hora, é arrumar uma mesa que não faça “staplaft” quando eu bater com a mão no tampo dela!
Agora é tudo uma questão de tempo, tudo uma questão de tempo...
Não vou me demorar no relato de minha triste história.
Ela começou assim numa quinta-feira de céu azul claro que mais parecia uma pintura, um dia tão lindo que só serve para aumentar ainda mais a ironia de tudo isso.
Estávamos em guerra e os inimigos se aproximavam de nossa cidade. Todas as pessoas importantes estavam reunidas na sala principal da prefeitura onde eu pedira a palavra. E ai começa a minha desdita...
- Isso não pode continuar assim, as hordas inimigas já estão nas nossas barbas – gritei e bati com mão espalmada no tampo da mesa.
Esperava que o som fosse algo parecido com um trovão, que derrubasse os copos e as canetas, mas o som que produzi saiu mais parecido com um “staplaft”. Um som parecido com alguma coisa chata, plana, fina e inexpressiva caindo n’água. Um efeito bem pouco másculo, sem dúvida!
Ao redor da mesa as pessoas me olharam mais com piedade do que com medo ou respeito. "Comecei mal, comecei bem mal." - pensei com meus botões. Mas à essa hora já havia perdido o fio da meada e seja lá qual fosse a crise, com aquela batida de mão na mesa eu já tinha demonstrado ser incapaz de resolve-la.
Ninguém seguiria a liderança de um homem que bate na mesa e faz “staplaft”, ninguém em sã consciência me seguiria... Que tipo de líder faz “staplaft” numa hora de crise? Só eu! Esse líder de quinta categoria.
Por parcos segundos pensei ser Gêngis Kan, Aníbal, César, Napoleão, um general, um líder de homens, mas o “staplaft” acabou com a minha vida, minha liderança virou fumaça e fiquei ali, feito um fantasma, deixado de existir.
Por mim, a crise poderia ter aumentado tanto naquela hora que o mundo poderia ter se acabado, os inimigos poderiam ter nos invadido, matados a todos e a terra ter me engolido.
Mas nada disso aconteceu. O céu continuou ali, azul, e as pessoas em volta da mesa me olhando. Sai de lá humilhado e olhando para minha mão, me perguntava como uma mão máscula, grande, de longos dedos, com um grosso anel de ouro, poderia ter produzido tal “staplaft”?
Uma vez na rua amaldiçoando minha mão, o céu, meu país, a guerra e os miseráveis na sala, que talvez agora estivessem rindo de mim, decidi:
- Nunca mais me meto a ser o salvador da pátria, ser aquele que sabe, ser aquele que dá o primeiro passo. Não, nunca mais!
Agora só espero o fim dessa guerra, a vitória dos inimigos e o fuzilamento de todos os que estavam naquela sala comigo, pois só assim terei coragem para sair à rua outra vez.
Acompanho dia-a-dia, os noticiários do avanço do exército inimigo, em poucos dias, pelos meus cálculos, eles entrarão na cidade. Já estou tomando as devidas providências para recebê-los.
A primeira será um belo discurso de rendição ao exército vitorioso e libertador, e a segunda, a mais complicada por hora, é arrumar uma mesa que não faça “staplaft” quando eu bater com a mão no tampo dela!
Agora é tudo uma questão de tempo, tudo uma questão de tempo...
2008/08/01
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