2008/07/31

Preparem seus corações para:


TRAGÉDIA EM TRÊS ATOS


I

...e num ímpeto louco ele saltou da janela de sua sala interrompendo de forma radical a reunião de diretoria, a primeira do semestre, onde era discutida a participação nos lucros dos acionistas.

Os colegas levaram segundos para entenderem o que havia acontecido. Foi preciso que os últimos cacos de vidro da janela pousassem no chão para que se ouvisse o primeiro grito.

Foi de Dona Silmara, secretária executiva bilíngüe a primazia do primeiro grito, um: -“aimeudeus” – agudo, histérico e levemente afrancesado, que fez com que os colegas conseguissem sair do transe.

Seguindo os gritos de Dona Silmara vieram soluços e desmaios, mas a maioria ainda seguia pregada ao chão, pois não seria um grito que os despertariam para a realidade que os abatia, não seria o vento que vinha da janela arrebentada desmanchando cabelos e espalhando papeis, gráficos e estatísticas que os fariam entender tamanha tragédia.

Eles só se deram conta mesmo do suicídio do colega quando o alarme do carro lá embaixo disparou com o baque do corpo. Ai sim, todos acorreram à janela, e espantados viram o corpo inerme, flácido, destroçado sobre o capô do carro azul.

Dona Silmara, tampando a mão com a boca esquerda, soluçava e balançava a cabeça negativamente e baixinho murmurava – não, não, não...

Ninguém entendeu nada, nenhuma pessoa teve a curiosidade de perguntar-lhe nada, aliás, pouca gente notou ou percebeu a agonia de Dona Silmara, que lentamente dirigia-se em direção à janela. Como um fantasma, vagarosamente, foi se aproximando e quando chegou ao buraco onde deveria estar a janela, reclinou-se para fora e gritou:

- Altemar, é brincadeira, eu não estou grávida!

O alarme do carro azul abafou o suspiro do cadáver. Lá de cima ninguém percebeu o alívio do morto.

Altemar usava uma gravata de listras, também azul, presente de Dona Silmara...


II


Ou

O Diretor espalha papéis sobre a mesa, olha nos olhos de cada um e pausadamente diz:

- Estamos quebrados, falidos, não temos dinheiro para pagar os fornecedores, não temos um tostão para os funcionários, e o pior, meu cunhado, acionista majoritário, jura vir me matar aqui hoje.

Alvoroço, ninguém arruma posição nas poltronas, e o mal-estar instala-se na sala de reuniões.

Dona Silmara, esposa do dito cunhado que jurou matá-lo entra na sala. Assustada, trêmula e gaguejando diz:

- O Ernesto, digo, Dr. Ernesto chegou. Olha para o Diretor e para Altemar – Ele está armado.

E como no começo dessa tragédia, Altemar corre em pânico, tenta fugir a todo custo junto com os outros subdiretores. O Diretor executivo, o cunhado do Ernesto empurra todos à sua frente, e no efeito dominó, Altemar é empurrado contra a janela, que quebra e ele cai, só parando sobre o carro de capô azul, que dispara o alarme, etc, etc, etc...



III


Ou

Altemar está sentado à mesa de reuniões. Espera pelo resultado da pesquisa que dirá o que o público está achando do novo produto posto no mercado.

Que produto? Não interessa, aliás, nem o próprio Altemar lembra qual é. Hoje seu problema é outro, é pessoal, ele está passando por um inferno pessoal de proporções cósmicas, colossais, ele pressente seu próprio apocalipse, ele sente que o fim se aproxima.

Mas como será o seu fim, como será? – ele se pergunta olhando para o teto com o olhar vago e perdido.

Some-se a isso uma insônia de três dias e a mais completa falta de interesse de Dona Silmara por ele.

Um caso começado na sala do café, estendido até o almoxarifado, consumado no motel onde o porteiro do prédio fazia o papel de gerente à noite.

Agora ele se pergunta o que está havendo, olha para o relógio e constata que a reunião está demorando muito para começar, pelo telefone pede um cafezinho para Dona Silmara e volta a divagar.

Divaga tão profundamente que dorme.

Quando chega o cafezinho, Dona Silmara pega Altemar pendurado ao batente da janela.

Antes de gritar a bandeja de café cai, o barulho desperta Altemar do sonho já recorrente, e enquanto o negro líquido mancha o carpete, ele olha para Dona Silmara e vê uma mulher de cinqüenta e três anos, gorda, com seios tamanho cinqüenta e quatro, pernas cambaias e cheias de varizes, um canino de ouro, lenço colorido segurando os cabelos crespos e brancos, que de boca aberta pergunta-lhe o que ele está tentando fazer.

Altemar olha para Dona Silmara, e ainda tonto, tentando entender o que lhe passa pergunta-lhe o nome.

- Ô Seu Altemar, o senhor voltou a tomar aquele remédio de novo, né? Meu nome é Nívea, Dona Nívea do café, tá “alembrado” de mim agora?

Altemar, olhando em volta, encarando Dona Nívea, ou seria Dona Silmara, olha para a janela e salta para o espaço.

-Se for um sonho eu acordo, se não for, não perco nada.

Lá embaixo, um carro azul acaba de estacionar.

CONCLUSÃO.

Ontem, com o Sr. Alexandre Costa, na Bolsa do Café, meditando sobre umas bobagens, besteiras e outras tantas tolices, cheguei à conclusão que sou um Asmático Literário, tenho fôlego curto para escrever textos longos...

2008/07/29

O Sr. Alexandre Costa colaborou mais uma vez.


2008/07/28

Click aqui

2008/07/24


2008/07/22

FINAL DO FILME


A música romântica já estava tocando, um pôr-do-sol sob medida estava iluminando o horizonte. As ondas do mar estavam com um prateado recém-polido.
Um vento suave balançava delicadamente as folhas das palmeiras, que lindas e brilhantes, refletiam os raios do sol...
Ela trazia nas mãos um pacote de pipoca com manteiga derretida. Na bolsa um dropes de hortelã.
Tudo perfeito, ou quase.
O filme já estava acabando e ele não havia chegado ainda...
Enquanto na tela o casal se abraça e se beija, sozinha, sentada no escuro, ela chora baixinho.
Sozinha ela sai do cinema, e na tela os créditos começam a correr tela acima, até chegar ao:



FIM

2008/07/21




2008/07/18

Sem comentários... (ou não!)


2008/07/17

Ah! A Bela Arte de Sacanear o Sr. Alexandre Costa!




2008/07/10

A PARTIR DE HOJE O Sr. ALEXANDRE COSTA PASSA A COLABORAR AQUI.


!

2008/07/08


2008/07/06



Na foto acima meu amigo de priscas eras, Vadinho.
Visitem o blog dele.

2008/07/04

As Ondas

O Senhor Alexandre Costa deu o mote, e aí vai a história.



As ondas estavam fortes, sob a influencia da Sizígia, o barulho das águas arrebentando na praia, dava impressão de ser o fim do mundo. O Céu cinza não ajudava muito para tirar essa má impressão.

Os barcos mal e mal estavam amarrados, e batiam-se uns contra os outros. Se o mar não os levasse, eles dariam fim a si próprio, arrebentando-se em pedaços...

As gaivotas, as que teimosamente persistiam em voar atrás de algum peixe, eram levadas para longe, e sumiam levadas pelo vento. Certamente amanhã o mar estaria coalhado com os corpos dessas aves.

Nas casas as janelas, opacas pelo sal das espumas, batiam sem parar, e o vento uivava pelas frestas, fazendo os tapetes voarem como se fossem tapetes mágicos dos contos de Aladim. Ninguém sairia hoje para pescar, nem sairiam para coisa alguma. Trancados, ficariam a beber cachaça e jogar conversa fora, esperando que amanhã o dia seja melhor.

Os mais velhos, para assustarem as crianças, contam histórias de grandes desastres, naufrágios, mortes e peixes gigantes, de homens que nunca mais voltaram para casa...

De quando em quando um troar de meter medo explode no ar e por segundos os homens de calam, e as mulheres, segurando as contas dos terços, se entregam ainda mais às suas ladainhas.

Anoitece e a escuridão agora é cortada por raios que cortam os céus e fervem as águas do mar. Os pescadores já começam a calcular o prejuízo dos barcos que se arrebentaram, das redes que o vento estraçalhou, dos peixes que não pescaram, da fome ancestral que os rói por dentro.

As vagas que vem e vão, levam e trazem, levam e trazem uma garrafa, que por fim parte-se nas pedras e deixa que a mensagem de seu interior seja tragada pelas águas salgadas, dissolvida e esquecida para sempre...

Amanhã saberemos que o prejuízo da tempestade foi bem maior que a perda de uns barcos, umas redes de pescas e umas tantas gaivotas...

Mas assim é a vida.

2008/07/02

Como vocês já puderam notar, eu VOLTEI!!!!

E voltei sacaneando o Sr. Alexandre Costa!





DUAS PARTES


Estou aqui, tarde da noite, sentado em frente ao computador, tendo por companheiros a noite fria, um charuto e uma xícara de café.

Na cabeça fantasmas de histórias que teimam em me assombrar e que se recusam a vir para os teclados...

Antes de vir para cá, fiquei virando na cama, tentando dormir, soquei o travesseiro, virei de um lado para outro, e dentro da minha cabeça as palavras se formavam, as histórias aconteciam, os personagens nasciam.

Sonado vim para cá e nada me ocorre, nada me vem, fui abandonado pelos personagens, e me esqueci das histórias a serem contadas.

Fico aqui a teclar a espera que algo surja, mas pelo andar dos ponteiros do relógio, acho que a madrugada já está perdida, e vou curtir a insônia vendo TV...

Preciso arrumar uma forma de me livrar dessas assombrações que me perseguem todas as noites. Por que, quando deitado, quase dormindo, as histórias se formam de um jeito claro? As personagens aparecem tão sólidas, críveis, palpáveis e verossímeis? E quando, desperto, saio debaixo das cobertas tão quentinhas e venho encarar esse monitor, tudo se esvai com um sonho?

Minha história deveria começar com a narrativa do personagem principal:


- Senti uma pontada no peito... - achei que estava enfartando, pus a mão com força sobre a camisa pressionando o coração, achei que fosse desfalecer tão aguda era a dor. Mas para meu estranhamento percebi que foi um corte. Alívio! Não era enfarto, de alguma forma havia me arranhado com alguma coisa e só agora estava sentindo a dor... Na primeira oportunidade fui ao banheiro para ver o tamanho do machucado. Diante do espelho tirei o paletó, a camisa, a camiseta regata e vejo para meu espanto o tal machucado em meu tórax... Por mais que eu imaginasse o pior – sou um pessimista fatalista – nada até aquele momento havia me preparado para aquilo. Não havia ali uma picada de inseto, um arranhão ou mesmo um corte – que por si só já seria um tanto complicado de se explicar e entender - o que eu via ali era uma, uma, uma..., uma rachadura! Sim uma rachadura, uma trinca, como dessas que vemos nas paredes de casa velhas e abandonadas. Ela, a trinca, vinha da altura da clavícula e descia quase três dedos abaixo do mamilo esquerdo. Fiquei ali, boquiaberto, vendo a “rachadura” em meu peito, tentando entender como aquilo poderia estar acontecendo... Já não doía. Aliás, nem posso chamar, agora, a pontada que senti como uma dor. Foi mais como um beliscão. A imagem daquela greta no peito me deixava anestesiado para qualquer coisa. Tudo o que queria agora, era ir embora para casa. Mas o que dizer ao chefe? Simplesmente dizer a ele que meu peito “rachou” e que precisava ir embora para remendar e passar uma massa corrida não ia pegar bem... Resolvi, então, sair sem avisar ninguém, de casa, quando chegasse daria uma desculpar qualquer, “mataria” alguém de família, ou sei lá o quê eu conseguisse improvisar...

Entrei em casa correndo e fui direto ao banheiro, precisava rever o meu peito, no caminho tive a impressão que as canetas que trazia no bolso da camisa estavam entrando na rachadura. – Absurdo! – gritei para mim mesmo, chamando sem querer a atenção dos outros passageiros no ônibus. No banheiro, arranquei as roupas, quase rasgando, botões voando e ricocheteando nos ladrilhos e quicando no chão.

- Não! – meu grito deveria ter sido algo assustador, medonho, gutural, um grito vindo das estranhas do homem de Neanderthal que carregamos dentro de nós. Mas o que saiu de minha garganta foi um soluço. O que vi refletido no maldito espelho me tirou o fôlego antes de gritar. A rachadura agora descia até a minha cintura, e logo chegaria à minha pélvis. E sim, agora tive a certeza, que as minhas canetas estavam mesmo entrando no buraco do peito. O horror que olhava para o meu peito era tanto que me fazia ignorar a falta de uma dor lancinante que tal machucado deveria me causar a perda de sangue que já deveria ter me matado... Mas o horror, o horror me paralisava e me desligava desses detalhes. O que me impediu de passar o resto de meus dias boquiaberto diante do espelho foi o ruído seco, baixo e discreto que vinha de meu peito. Era como uma barata roendo papel, um roc-roc-roc grave baixo, que logo percebi se tratar do som de meu corpo dividindo-se ao meio. Aparvalhado via o corte crescendo e descendo, dividindo-me em dois lentamente...

Logo nada de mim restaria... Nada? Permitam-me corrigir isso. Logo duas partes de mim - muito mal-cortadas, diga-se de passagem – seria encontrada no banheiro de meu apartamento. O que a polícia pensaria? O que seria noticiado nos jornais? Como explicariam o mistério de um corpo rasgado ao meio sem nenhuma gota de sangue próxima do cadáver? Homem solteiro encontrado cortado ao meio! Sim, delirava tamanho o absurdo de minha situação. Empurrando os cabelos para trás lamentava a minha situação e solidão... Será que se Márcia estivesse aqui ela tomaria pulso de minha absurda condição e conseguira juntar os meus – dois – pedaços? Por um momento rio, penso se ela ao chegar e me ver já em duas partes, vai reclamar sua parte “nesse latifúndio”, e como fez com tudo o que eu tinha quando foi embora, “pegar a sua metade de direito”? Será que ela seria capaz de fazer isso? – sinto uma fisgada no peito, não metafórica, mas sim literal que me responde essa pergunta. – Sim, ela pegaria a sua parte.
Olho para espelho e estou preso a minha outra metade por um fio – entendam isso como quiserem... Mais uns segundos e serei duas partes da mesma coisa, a mesma coisa que sempre fui só que agora em duas partes.

- Duas partes de nada! – rosno. Duas partes que viverão (?) num apartamento que já está dividido, e que agora é meio-apartamento, numa meia-vida, numa meia-existência...

Antes de desfalecer, me pergunto que parte de mim Márcia escolherá?