2008/05/30

ESTOU DE FÉRIAS ATÉ 02 DE JULHO!
FUI!

2008/05/29

Em Breve Mais Informações!


2008/05/28

O COLECIONADOR DE DEUSES

A fumaça do incenso deixava o ar da câmara opaco, quase sólido. Semântico ajoelhado orava, murmurando palavras antigas de línguas mortas e já esquecidas...

Suas mãos ainda recendiam ao sangue do sacrifício, e aos pés do altar, animais mortos acumulavam-se. Somente o forte odor dos incensos impedia-o de sentir o pútrido cheiro das carnes decompostas dos animais imolados.

Levantando a cabeça ele sorri, e andando de costas, Semântico deixa a câmara, fechando-a com uma chave lavrada em osso, na verdade o fêmur de Olegário Trípoli, seu mestre e guia espiritual, desaparecido a exatos trinta e dois anos, hoje.

Semântico, tranca a porta e segue pelo escuro corredor em direção a outra câmara, seus passos ecoam, fazendo com que o curto trajeto pareça infindável. Pelas paredes vê-se uma galeria assustadora. Lá estão exposta, para gáudio e satisfação de Semântico, pinturas de Aleister Crowley em posições comprometedoras e assustadoras...

- Thelema, Thelema... – murmura baixinho Semântico, enquanto tira o pó da moldura de seu quadro favorito, quadro esse que mostra um jovem Aleister Crowley vestido em trajes rituais. Quadro esse subtraído de seu velho mentor Olegário Trípoli, que passaremos a chamar de O.T. para poupar trabalho e seguirmos em frente com essa história.

Ao fim do curto trajeto pelo sombrio corredor, Semântico retira outra chave do bolso de sua túnica, essa lavrada no osso parietal de Olegário Trípoli.

- Quantas portas e quantos pedaços de Olegário Trípoli há nessa história?! – Sim leitor, quantas portas e quantos ossos de O.T.? Creio que jamais saberemos nessa vida! Mas sigamos...

Semântico ao abrir essa outra porta, despe-se se sua negra túnica pagã e vestindo um alvo hábito ele entra no recinto. Esse, em contraste com a outra câmara é branco, é claro, é límpido, é arejado e abarrotado de flores. Flores frescas, coloridas e perfumadas, das janelas de vitral uma luz multicor colore o ambiente e remete à paz celestial.

Celebrando uma nova vida, Semântico de joelhos, reverencia outro ídolo ali esculpido. Esse deus, não lhe pede nada de sacrifícios, não lhe exige sangue, nenhuma matança, esse é um bom deus. Contenta-se com adoração, velas e umas poucas orações.



Num ofício rápido, Semântico celebra uma homilia de poucos cantos, muito gesticular de braços e bater de palmas, coisa pouca para um deus pouco exigente e pouco afeito a pedidos excêntricos...

- Um deus prosaico esse! – ri de si para si mesmo, enquanto tranca a sala e retira o alvo hábito, e arrumando os vastos cabelos, ele segue mais fundo ainda no ameaçador corredor tendo por companhia somente o eco de seus passos e o tilintar das chaves de ossos do finado O.T. que ele trazia girando no dedo indicador da mão direita.

Ao final de poucos minutos Semântico chega a mais uma porta.

Essa é feita de ébano, negra, negra como uma noite que prenuncia uma borrasca que causará morte e destruição, negra como a alma de Semântico, negra como uma mancha de sangue coagulado de uma cerimônia pagã.
Antes de pegar a terceira chave, essa esculpida no osso da escápula direita de O.T., ele olha apreensivamente para trás. Ele tem medo, um medo secreto, um medo que ele nega até a si mesmo, um medo que lhe rói por dentro, rói até mais que a aquela velha úlcera tratada por ele com carinho e caldo de galinha.

Certo de estar só no corredor, Semântico abre velozmente a porta e entra, e ao fazê-lo, bate-a com força, fazendo com que o barulho ecoe forte e longamente pelo corredor...

Ele encosta-se na escura madeira e respira fundo.

De cima dum antigo aparador ele pega uma espada não menos antiga, runas de tempos remotos cobrem o couro de sua bainha com maldições e pragas bordadas em fio de ouro.

- P.C. eu também posso fazer meus milagres e tempestades – ri, sacudindo a espada no ar, mas logo se torna sério outra vez - um frio sobe-lhe pelas costas - esse deus, ao contrário do outro, não perdoa. É cruel e os sacrifícios oferecidos a ele são os mais caros. Onerosos em todos os sentidos...

– Que deus cruel eu sirvo!- lamuria-se.

De dentro da negra escuridão um ruído, parecido com um rugido de dor, fome e parto faz tremer o chão e a alma de Semântico.

Com o susto o molho de ossos cai, e uma das chaves espatifa-se no piso, angustiado ele grita:

-Não! De duzentas e seis chaves por que justamente essa foi quebrar-se? Por quê? – ele chora, e lá do âmago da densa escuridão o pavoroso rugido faz tremer as fundações da velha casa e leva Semântico para mais perto da perdição de sua já há muito hipotecada alma.


-Não! – grita de joelhos no frio piso manchado de sangue de inocentes virgens e pobres crianças rechonchudas como anjinhos barrocos.

– Não! – banhado em amargas lágrimas, Semântico recolhe os cacos do osso do cóccix de O.T. – Não tenho mais salvação, nunca mais serei redimido de meus pecados, nunca mais abrirei a porta do anjo. Perdi para sempre a minha barganha com ele...

Desesperado, Semântico foge da sala que ruge ferozmente, como um animal de outro mundo, um mundo de trevas eternas e sem salvação. Enquanto foge de seus demônios, Semântico recita uma velha oração:

- Paz sobre vós ,anjos servidores ,anjos do Altíssimo, Do supremo rei dos reis , o Santo , bendito é ele, que sua vinda seja em paz ,anjos da paz,anjos do Altíssimo, do supremo rei dos reis, o Santo, bendito é ele, abençoe-me com a paz ,anjos da paz, mensageiros do Altíssimo, do supremo rei dos reis, o Santo, bendito é ele. Que sua partida seja em paz, anjos da paz, anjos do Altíssimo, do supremo rei dos reis, o Santo, bendito é ele.

Mas Semântico não chega ao fim de sua desesperada prece, fugindo pelo corredor escuro com seu coração ateu quase a sair pela boca, tropeça numa pedra. Ele tenta equilibrar-se, e tentando apoiar-se na parede úmida e cheia de musgos, sua mão escorrega.

Seu corpo cai como um boneco de cordas, e as suas mãos desesperadas, como as mãos de um afogado que tenta agarrar-se a qualquer coisa que possa ampará-lo, mas só encontra apoio na moldura do quadro de Aleister Crowley que, como um amargo escárnio, ficava exposta em frente ao quadro com a figura eqüestre de Paulo Coelho sorrindo.

Semântico cai, e na queda é seguido pelo quadro, que se arrebenta no chão. Em doloroso choro Semântico imagina ver, entre a cortina de lágrimas que lhe banha os olhos, a imagem de O.T. que, sorrindo, recolhi os seus ossos, agora espalhados de vez pelo chão...

- Meus deuses, meus deuses – clama Semântico em vão.

O espectro de O.T. agachado apanhando o último osso de seu corpo, o ísquio, diz baixinho ao ouvido de Semântico:

- Já sabias que não deverias servir a dois senhores... Mas resolvestes servir a mais de dois...

Ouvindo o rugido terrível se aproximando, O.T. desfaz-se no ar deixando seu algoz entregue à própria sorte.

2008/05/27

Mais uma tirada do baú.

Albino lê jornal na praça




Sentado no banco da praça Albino lia o jornal, relia a manchete pela terceira vez. Cada vez que lia, mais enfiava o chapéu na cabeça, arrumava o óculos escuros, e levantava o colarinho da jaqueta.

Crianças felizes e despreocupadas corriam de lado para outro, gritando, jogando bola...

Albino olhava para elas e lia o jornal com mais atenção. Sorria. Sabia que amanhã seria manchete de novo.

Mas o que o matava era viver nesse anonimato.

Ou não?
Click na foto para rir mais.

Sem o que escrever, o negócio é revirar o baú e vê o que se encontra lá...

Um zumbi que pensa que pensa




Cá estou, outra vez diante dessa maldita tela em branco. Tanto tenho a dizer... Mas a minha cabeça anda a mil, num estrada esburacada, cheia de curvas, mal iluminada e sem placas.

Não estou concatenando as idéias, as vezes penso em coçar a cabeça e acabo coçando o saco, dando a má impressão que não estou fazendo nada, diante de tanto que tenho a fazer.

__É a vida - dirão vocês.

Já acho que vida é outra coisa, bem diferente disso aqui.

Cada dia que passo aqui, mas me pergunto o quê estou fazendo aqui. Não descubro a resposta, e nem vejo uma saída.

Das minhas elucubrações, a que me vem mais amiúde, é:

__O que virá primeiro, a aposentadoria ou o infarto?

Já não me consola mais a idéia de pular do terceiro andar, não!

Saí para (não) almoçar (o regime, lembram-se) e voltei logo para o escritório, no afã de escrever, ou ao menos tentar.

Nem a solidão da hora do almoço me é mais possível. Ponho os fones de ouvidos, deixo Chet Baker tocar o seu trompete no máximo volume. Antes isso me consolava, agora nem isso...

Quer esquecer o que são maravilhas, sonhos, uma VIDA? (com letras maiúsculas), entrem para uma repartição pública, morram em vida.

Sou um zumbi.

2008/05/19

O ESCRITOR E O BUSTO DO EDGAR


As contas não param de chegar. Sobre a mesa acumula-se uma pilha de cobranças.

Um busto de Poe é usado como peso de papel.

Por baixo da porta entra mais um envelope, agora é conta de luz, a de água deste mês já está com o autor do Corvo.

Falta de tudo na casa.

E sentado na poltrona da sala o homem arranca os cabelos (metaforicamente falando, é claro), a mulher tenta convencê-lo a não se entregar ao desespero, debalde.

O sujeito se diz escritor, se acha escritor, ficcionista. Já enviou seus escritos para várias editoras, grandes jornais, jornais de bairro, jornais de sindicato, jornais de supermercados, e nenhuma resposta até agora.

Ela tenta consolá-lo dizendo que uma hora ele será descoberto...

Mas no desespero ele fica surdo, e entrega-se à depressão, e deprimido ele escreve ainda mais e mais e mais...

E não consegue publicar.

Ele olha para o busto de Poe e se pergunta o que fazer. Nenhuma resposta vem do torso do escritor.


- Nunca mais, nunca mais – grita feito um corvo – escreverei coisa alguma pelo resto da minha vida!


Só não atirou a estátua pela janela por medo que o vento espalhasse as contas acumuladas, afinal ele usava o verso dos envelopes como rascunhos para seus contos. O papel já estava no fim e não havia dinheiro para comprar mais. Era muita miséria para uma pessoa só. Sua vida de escritor está ficando igual a dos personagens de contos russos, só faltava nevar, sua espiral descendente de autocomiseração só foi interrompida pelo grito da mulher:


- Benhê! A geladeira queimou!

- Pronto! Minhas preocupações com neve acabaram.

Olhou com ódio para o velho Edgar.

Num último suspiro de razão que ainda lhe restava no fundo da alma, tentou pensar que ele mesmo fazia parte de um conto de Poe, sim, só poderia ser isso, ou então não restaria alternativa para ele do que... ( Oh! Deus, isso é pior que ver um gato preto emparedado)...prestar concurso e virar servidor público onde poderia ser pago para escrever, nem que fossem ofícios, memorandos, cartas sem fim...

Outra vez ele olhou para o busto do velho Edgar que por poucos segundos ganhou vida e lhe disse:


- Isso não! Serviço público, não!

2008/05/14




A tipinha entra na livraria



Longos cabelos, tingidos; óculos fashion; roupa da moda - roxa; bolsa com frigobar; equilibrando-se num salto alto, aleatoriamente pega um livro.

Folheia-o como um alienígena fazendo necropsia num outro ser mais alienígena ainda (entenda estranhamento).

Quando atendida, fazendo-se de importante, com o dedo indicador direito no lábio, comenta:

- Livro pesado...

O atendente se prepara para o pior, afinal o livro tem pouquíssimas páginas. A madame continua:

- ...parece-me que o autor está num luto profundo sofrendo uma dor, dor de grande perda...

O atendente, coitado, tenta explicar:

- Mas esse é um livro de humor. Acho que a senhora não entendeu o que ele quis dizer.

Ela empurra os longos cabelos para trás e retruca:

- Pois para mim esse livro traduz toda a dor excruciante de uma imensa perda!

Não sei como terminou essa conversa sem sentido, pois peguei meu livro e fui embora imaginando essa tipinha comprando um quilo de filé num açougue e discutindo com o boi em questão foi morto!

2008/05/13

No Cinema

A sessão já começara, na tela o morto, frio, esperava a chegada da polícia, o corredor escuro, vozes xingavam enquanto o casal passava pedindo “lincença-licença-lincença”, derrubando pipoca e refrigerante.
Conseguiram um lugar nas últimas poltronas, no fundo, mais escuro, sentaram-se.
E começaram a sessão de beijos.
... não viram ao filme.

Dona Leocádia - Micro-narrativa

De galocha, capa impermeável, sombrinha, lencinho em volta do pescoço, protegendo-se da chuva, Dona Leocádia vai atravessando a rua. Olha para um lado, olha para outro. Nenhum carro que vá atropelá-la ou molhá-la. Segue cuidadosamente, procurando não pisar em nenhum buraco.De repente, vindo do nada, melhor vindo do céu, um raio.
De Dona Leocádia somente um punhado de cinzas.Do outro lado da rua, seu Hermínio, balbuciava essas palavras:
__Só pode ter sido o dente de ouro, só pode ter sido o dente de ouro...

Veja o que vocês perderam.

click na foto


"A FÁBRICA FECHOU"


Ninguém (ou quase isso), apenas um leitor ficou sabendo que o blog Fábrica de Histórias fechou as portas.
Talvez isso mesmo mostre o motivo que levou seu proprietário a pendurar o teclado e o mouse.
Depois de um ano e 1 mês de muitas histórias, poemas, contos, crônicas e microcontos, além do design gráfico que ilustrava suas narrativas a fábrica parou.
Foi um ano de altos e baixos, mais baixos que altos. Talvez tivesse valido a pena.
Quem sabe?
Nessa luta inglória, a blogosfera não sentirá falta infelizmente.

Alexandre Costa

2008/05/12

Micro-narrativas.



Lubricidade e propaganda, essa é a onda!

Quanto afundamos...



__Caros amigos, a coisa vai mal.” Não ficou um na sala.

O melhor do espetáculo, era o canapé.
Mas não bisou!
A lua prateada refletiu em seu dente de ouro.
Que sorriso!

DISCUSSÕES FILÓSOFICAS



- O que você entende? O Que você entende? – pergunta raivosa a moça loira para a morena sentada ao seu lado.

- Ora essa você pega um livrinho desses e já começa a bancar a professora para o meu lado, me responda você o que entendeu da mensagem do autor, vamos, vamos...

Os gritos ecoam pela escadaria, só parando quando as duas fazem:

- Psiu, psiu, psiu...

- Hei! Hei!

Passado dois segundos, começam a bater boca outra vez.

- Descartes, por vezes chamado de "o fundador da filosofia moderna" e o "pai da matemática moderna", é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Inspirou contemporâneos e várias gerações de filósofos posteriores; boa parte da filosofia escrita a partir de então foi uma reação às suas obras ou a autores supostamente influenciados por ele... – ta aqui na quarta capa. Vê! – aponta o livro para amorena de tranças aplicadas e levemente loiras.

- Sim, já li, mas o que ele deixou para a posteridade? –desdenha.

- Muitos especialistas afirmam que a partir de Descartes inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna.

- Sim, mas e daí? O que é um René Descartes diante do meu dinamarquês loiro e lindo do Soren Kierkegaard...

- Racista – grita a loira – Você só se liga no Soren por que ele é dinamarquês. Pensa que todo marinheiro loiro é escandinavo. Sua besta existencialista...

Quando a morena ia retrucar, já com as unhas prontas para rasgar o rosto maquiado da loira, interrompem a discussão outra vez para:

- Psiu! Psiu!

Voltam.

- Eu não sei a razão de ainda sentar ao teu lado. Você não me compreende. – resmunga a morena, agora lixando as unhas. – Vou embora daqui, não vou mais perder meu tempo discutindo com uma cartesiana de terceira...

Pega bolsinha e começa a subir a escadaria, quando ouve a loira:

- Ei, psiu! Ei mocinho bonito, vamos fazer um nenê?

- Não sei como ainda trabalho nesse hotelzinho. – reclama a morena, que fecha o livro “O Conceito De Ironia Constantemente Referido A Sócrates” – e ameaça jogar o volume no auxiliar de pedreiro que sobe as escadas de mãos dadas com a loira, que contando os trocadinhos, faz um muxoxo para morena e fala-lhe baixinho:

- Sou cartesiana sim, mas me dou melhor que você sua existencialista de beira de cais!

A morena faz menção de usar a lixa de unha como estilete, mas na rua passa outro possível freguês, ela desce as escadas correndo e fazendo:

- Psiu, ei psiu...

Envergonhado Kierkegaard, fica corado na quarta capa do livro....

2008/05/09

Eis aí algo que eu não esperava ver.

É o fim.
Maldito esse órgão que bate no teu peito meu amigo!
Esperaremos pela sua volta.
Até lá.

2008/05/07


O VELHO BILL, AS FLORES E EU


01 - Só para começar, quero deixar bem claro que eu não queria ir ao tal encontro. Alguma coisa me dizia para eu não ir. Não foi só a minha quiromante particular, ou as cartas, as imagens na bola de cristal. Não, era alguma coisa dentro do meu peito que dizia: - Não vá!
Mas no convite estava escrito: BOCA LIVRE.

02 - Cheguei duas horas depois de começado o encontro dos Amigos da Turma de 19..., umas múmias do século passado! O salão estava cheio, aliás, o que eu deveria esperar de um encontro daquele pessoal? E ainda era “Boca Livre”! Eles nunca perderiam essa oportunidade, nunca!

03 – Me “camuflei” no meio da massa e pus-me a procurar o meu velho amigo Bill. Quem é o meu velho amigo Bill? Respondo-vos. O bom velho Willian Grant, o uísque! Só assim para agüentar o porre que seria ver todos aqueles Zé-Manés da minha juventude.

04 – Acho que eu reconheci o Valete do estacionamento... Bem, nesses encontros nós nunca sabemos ou recordamos mesmo quem estamos vendo... Mas acho que o careca gordinho que pegou as chaves do meu carro era o Tomzinho... Naquela época era o Antonio, técnico em contabilidade, malhado de tanto esporte, o “Deus Greco”, sim, Greco, o intelectual de músculos salientes não sabia falar grego... (entendam como quiser isso). Se for mesmo ele, o cara está acabado. E eu, que não praticava nenhum esporte, estou aqui inteirão!

05 – Enfim avisto o garçom. Vou matar as saudades do amigo Bill. Vou atrás do garçom, mas ele segue em frente ou foge de mim! Sigo-o em meio à multidão. Mas quem será aquele sujeito ali no meio...?

06 – Ora, ora, ora, se não é o Alexander Von Brumm, vulgo Scorpion... Ah! A juventude e sua mania de apelidos americanizados. Vou ver de perto se é ele mesmo. Mas no meio do caminho havia um garçom com uma bandeja e sobre a dita bandeja um copo de uísque. Deixo para ver o Scorpion depois, primeiro o prazer, depois o depois...

07 - O miserável desapareceu como por encanto outra vez. Começo a perceber que o garçom é o meu antípoda, está sempre do lado extremamente oposto ao meu. Quando volto a avistá-lo e começo a segui-lo, vejo surgir à minha frente, graças a Deus distraído, o V.V.. Faço meia-volta e sumo de vista. Acho que era isso aquela sensação que me avisava para não vir hoje...

08 - Que burburinho enjoado! Mas é bom ficar calado por enquanto, senão vão dizer que estou mais chato que antes... Resolvo procurar o Scorpion. Como ele tem dois metros e quinze de altura, é fácil encontrá-lo. É só procurar um gigante de careca brilhante. Lá esta ele.
09 – Aproximo-me dele carregando uma cadeira de plástico. Detesto festas com cadeiras de plástico... Lá estou eu reclamando outra vez... As pessoas à minha volta pensam que vou arrumar confusão. Elas não me conhecem... Ou será que sim? Como não reconheço noventa e nove por cento dos que estão aqui, é bem capaz que me conheçam... Sigo com a cadeira às costas e a deposito nas costas do Scorpion.

10 – Com as pessoas estupefatas à minha volta, subo na cadeira, e cutuco Scorpion. Silêncio! – O pau vai comer! Quase consigo ouvir o pensamento das pessoas ao lado. Scorpion vira, num misto de espanto e surpresa. Ao me ver me dá um abraço e grita: - Beto!

11 - Aí começou a estragar a minha noite. Se tem uma coisa que detesto mais que meu nome, é o meu apelido. Detesto Beto, Betinho, Betão! Meu nome é Felizberto, com Z em vez de S. Aliás, o único Felizberto mal-humorado que a turma conhecia. Como se houvesse outro Felizberto com Z que eles conhecessem...

12 – Já no meu estado normal, fechei a cara e disse para o Scorpion quem era o Beto. Mas com aquele tamanho ele não se preocupa com meu mau-humor ou o de qualquer outra pessoa... Tapinhas nas costas. Como-vai-a-vida-o-que-tem-feito e por aí vai. Claro que não poderia faltar aquela maldita pergunta.

13 – -Como vai a sua esposa? A..., a..., esqueci o nome dela... – Margarida. Menti, o nome dela era Faustina. Onde uma mãe arruma um nome desses? Isso mesmo, como anda a Margarida? Mudou-se. Agora vive na Europa. Europa?? Como foi isso? Separaram-se? Sim. Faz uns dez anos. Mas o que ela faz na Europa? Aliás, em que país ela está? Deixa adivinhar... Portugal. Vocês sempre quiseram viajar para lá, não é? Não! Na verdade ela está vivendo na Romênia. Na Romênia? Mas como ela foi para lá? Está estudando? Bolsa de estudos, não é? Não!- respondi prontamente. Ela fugiu com um cigano e agora aquela desgraçada deve estar seqüestrando crianças, batendo carteira e lendo mãos...

14 – Com isso a minha noite azedou de vez. Quem me conhece, os amigos recentes, sabem que não falo de casamento. Assunto tabu. Proibido. Casamento, futebol, religião, política, estanhager. Não se comenta isso perto de mim! Que droga! Eu sabia que não deveria ter vindo. Mas de vingança perguntei quem era o rapazinho bonitinho de vinte e poucos anos que estava com ele. Já adivinhava a resposta. – Meu sobrinho. Desde nossa juventude era sempre essa a resposta. Imaginem de onde vem o apelido Scorpion?

15 – Cadê o Bill? Cadê o Bill? Lá está o garçom. Como uma nau em um mar revolto e tempestuoso, estico meu braço direito e vou singrando naquele mar de gente. Aproximo-me do garçom, estico meu braço, que deve ter um metro e pouco, estico meus dedos longos de poeta & cronista mundano e, faltando milímetros/segundos, uma mão fria e pegajosa puxa meus dedos de poeta & cronista mundano, junto com meu antebraço, braço e resto desse corpo sedento de uísque. Mentalmente disse: - Até logo Bill. Assim que der, eu volto. Bye-bye...

16 – Viro sobre os calcanhares, torcendo e pedindo ao meu Padroeiro São Peregrino Laziosi que não fosse V.V., que não fosse V.V. E abrindo os olhos lentamente vejo o gordinho careca que pegou a chave de meu carro. Veio explicar que havia um risco na porta da frente que ia até o porta-malas, dava volta e voltava até o capô, fazendo um estranho e bizarro zig-zag. As suas mãos tremiam, e jurava-me que nada tinha a ver com isso... Pelo tremor das suas mãos reconheci o velho, e como estava velho!, Tomzinho de minha juventude. Apazigüei-o explicando que eu comprei o carro com aquele arranhão mesmo; que ele, o arranhão, emprestava-lhe um certo charme pós-moderno sem desdenhar um certo apelo, um certo chamado à arte de meu Mestre Hieronimus Bosch. Os olhos do pobre coitado quase saltaram das órbitas.

17 – Agora eram seus lábios que tremiam. Ele balbuciou, sim balbuciou... Sempre escrevi balbuciou, mas nunca antes alguém havia balbuciado na minha frente. Estou grato a ele por isso. Não lhe falei isso, não! Aquele miserável mercenário seria capaz de me cobrar por isso. Agora foi a minha vez de perguntar: - E aí, Tomzinho, como vai a, a, a... Essa também foi a minha vez de esquecer o nome da mulher dele. Detesto essas festas, já falei isso antes? Ah! Velho Bill, o que não faço para estar com você...

18 – Tomzinho tremeu outra vez. Comecei a temer pela sua saúde. Será que além de gordo e careca estava com a doença de São Guido? Passou as mãos pela cabeça, talvez esperando encontrar algum cabelo por ali ainda. Ou talvez fosse só cacoete! Respirou fundo, e tremendo ainda mais (sim, ele deve estar doente mesmo) me explicou que largou a mulher. Foi traído! Traído! Gritou. Outra vez as pessoas olham para mim. Devem estar confirmando a má impressão que elas têm a meu respeito. Sou mesmo um arruaceiro.

19 – Com as mais baixas intenções convidei-o a tomar um uísque comigo, assim quem sabe o garçom não me serviria um também. Debalde! Nenhum de nós dois foi servido e as outras pessoas agora se afastavam de mim, talvez me considerando um arruaceiro e socialista. Haja vista que Tomzinho, como Valete, não fora convidado. Vejam a minha situação, mal visto e mal servido. Mas voltemos à desgraça dele. Explicou que depois de três anos de casado e dois filhos descobriu que a mulher o traia... Um dia chegou em casa mais cedo e... – já via aí o velho clichê, ela na cama com outro, o outro sai correndo, pula janela, etc,etc,etc – vê a mulher no banheiro – oba, mudou o cenário, mas continua o clichê – tingindo os cabelos – que anticlímax! Tremia agora convulsivamente. - Tingindo o cabelo, Beto! – pronto! o maldito apelido a me assombrar outra vez. – Você se lembra que só me casei com ela por ser loira, por ser loira... – de que adiantava agora dizer-lhe que todos nós sabíamos que Marta era loira oxigenada? Só faria o pobre diabo sofrer mais. Mas a natureza humana é mesmo mesquinha. – Tomzinho, todo mundo sabia que a Marta era loira-falsa. Até “os peixinhos a nadar no mar” da música do teu xará (Tom Jobim, caso ainda paire alguma dúvida no ar) sabiam...

20 – Saindo em disparada para a rua, ele passa pelo garçom e rouba o copo de uísque que, tenho certeza, vinha em minha direção. Desgraçado! – gritei a pleno pulmão. E olhando para as pessoas que já não tiravam mais os olhos de cima, gritei ainda mais alto: - Você vai pagar pelo arranhão na lataria do meu carro. Vai pagar. Enfiei as mãos no bolso da calça e voltei para o meio da massa humana, camuflado; ainda conseguiria pegar o maldito copo de uísque, nem que tivesse que matar a metade daquelas pessoas. Vi o garçom, fui atrás dele, segurei-o pelo colarinho do fraque e o sacudi, sacudi, sacudi até que o Scorpion apareceu para me apartar. Não sabia que o garçom já tinha sido “sobrinho” dele. Quase apanho daquela monstruosidade.

21 – Pensei em ir embora quando, quando, quando – até me arrepia lembrar dessa parte – vi o espectro de Júlia. Mais branca do que me lembrava, pálida, translúcida, olhos fundos como um precipício, cabelos negros e longos como uma noite sem fim... – apelei, sei que apelei, fui longe na descrição! Mas ela estava acabada. Via-se que o casamento também não lhe fez bem. Aproximei-me dela sorrindo, era o primeiro sorriso da noite, eu estava guardando para uma boa ocasião, talvez quando eu encontrasse o Velho Bill, mas deveria improvisar, era por uma boa causa. Júlia... Ah! Júlia.... – suspirei tão fundo que ela acabou falando comigo antes que eu falasse com ela. – Beto! – falou sorrindo, fechei a cara. – Você ainda continua implicando com isso depois de mais de trinta anos! Você continua tão implicante quanto antes! Fechou a cara também. Estou vendo que tenho uma inclinação que é quase um dom divino de estragar qualquer encontro.

22 - Como que para me provocar, perguntou: Como vai a, a, a, a... Esqueci o nome da sua segunda esposa – sim, só ela sabia do meu segundo casamento, muito embora ignore o terceiro –, acho que esqueci. Hermelinda (meu segundo dom é arrumar mulher com nome de gerúndio!), digo, Violeta! Ah! Isso mesmo, a Violeta... Como ela está? De cara amarrada respondi que não sabia. Me separei! Sinto muito – disse assim muito sem graça. Que chato dar um fora desses, não é? Não poderia ser pior. Como poderia ser pior? – vi que ela corou um pouco – o V.V. poderia me perguntar a mesma coisa. O que é que o V.V. tem a ver com isso? – Com uma calma anormal em mim expliquei que ele fugiu com a Hermelinda, digo, Violeta. Foram para Buenos-Aires... – menti, sempre achei que deveríamos fazer alguma coisa contra os argentinos, nada poderia ser pior que mandar aquele sátiro-priápico-egocêntrico e a minha ex-mulher para lá.

23 - Como um fantasma Júlia sumiu e me deixou falando sozinho – ótimo- falei com meus botões. Estiquei o braço direito e voltei à luta. Gritei: À carga! – todos olharam para mim outra vez, estava começando a me divertir com isso, e sou inimigo de me divertir, e saí singrando aquele mar de gente atrás do Velho Bill. Passei perto de V.V., senti um impulso de perguntar por Hermelinda, digo, Violeta. E, como sempre, cedi aos meus impulsos.

24 – Grande V.V.! – disse quase gritando e chamando, dessa vez por vontade própria, a atenção daquela raça. Como vai essa bizarria? O sorriso amarelo dele valeu todos os anos que passei remoendo uma vingança. – Como vai a sua esposa, a, a, a, a, cara, acho que esqueci o nome dela. Os seus lacaios... – ele vive cercado de lacaios, V.V. era o único vivente bem-nascido da nossa rua, e vivia esfregando isso em nossa cara. Com o tempo passou a comprar amigos, seguidores e por fim descobriu que é mais barato comprar lacaios. Ele os tem aos montes. Capitalista dos infernos. Mas voltando ao assunto, os seus lacaios iam me cobrir de porrada, quando, magnânimo, V.V. disse bem alto para que todos ouvissem. – O nome da minha esposa é Violeta, digo, Hermelinda. Como você pôde esquecer o nome da sua ex-mulher? – Do alto de minha indignação respondi-lhe que não entendia de hortifrutigranjeiro. Virei as costas e fui embora a tempo de escapar de ser socado até morte. Mas, por Deus! O que vejo lá na frente?

25 – O garçom estava, outra vez, do outro lado do salão. Só nesse momento me dei conta de que o miserável do organizador só havia contratado um garçom para servir nessa reunião. Isso estava me cheirando a vingancinha do Scorpion. Aposto que ele estava fazendo isso só para humilhar o seu penúltimo “sobrinho”. Ele sacaneia o garçom e eu fico sem beber... A vida é mesmo muito engraçada.

26 - Olho o relógio. Já deve estar na hora de ir embora. Pelos cálculos que fiz antes de chegar aqui, a essa hora já deveria estar caindo de bêbado, brigado com todo mundo e sido chutado para a rua, mantendo o velho padrão autodestrutivo de sempre. Mas que nada, aqui estou sóbrio, mas coerentemente arrumando encrenca, assim, logo-logo, sou chutado para a rua. Eu sabia que isso aqui não ia prestar... Só quero ver aquele arranhão que o Tomzinho falou.

27 – Amanhã, quando eu acordar, vou escrever tudo isso. Ah! Eu vou dar nome aos bois! Essa história vai me dar dinheiro para pagar o divórcio da Almerinda, digo, Rosa.

2008/05/06

Dica para O dia das Mães.


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