2008/04/30
2008/04/28
O SEGREDO
O cabelereiro não estava conseguindo,
e para satisfazer sua
vontade,
cavou um buraco, falou
"O Rei Midas tem orelhas de burro!"
dentro deste e cobriu-o de terra.
Porém o junco que cresceu no lugar do
buraco "cantava" a frase sempre que recebia vento,
espalhando
a história pelo reino.
Doente.
Estava de cama, e piorava dia a dia. Começou com uma fraqueza de não conseguir andar muito, de não conseguir carregar uma sacola de compras...
Passou a tossir, ficar amarelo, piorou, e começou a cair os cabelos, sentir frio de bater os dentes.
Por fim caiu de cama.
Médicos não conseguiam diagnosticar o seu mal, apelaram para benzedeiras, nada, chás não faziam qualquer efeito.
Piorava, emagrecia de começar a ficar transparente, só pele e osso!
Com febre alta, ensopava as cobertas e o colchão de suor, delirava, murmurava, mas ninguém entendia o que ele falava.
Ao lado da cama, a mulher e os amigos tentavam puxar conversa, esforçavam-se para entender os seus resmungos, mas nada.
À noite piorava.
A família acordava com seu choro, choro convulsivo, triste, de partir o coração, acorriam à sua volta e perguntavam o que ele tinha, o que queria dizer, mas nesse momento ele se calava e voltava a ficar quieto. Uma falsa calma tomava conta do quarto do doente. Percebia-se que ele estava se segurando, onde arrumava forças para isso ninguém sabia ou entendia.
Quase morto, pele e osso, toda a sua parca energia era usada para morder os lábios que sangravam um sanguezinho ralo e cor de rosa, evitando assim murmurar, chorar ou...
Ou...
Alguma coisa estava muito errada com essa doença. Mas a quem recorrer se nem a medicina, nem benzedeira descobriam o que era?
Via-se que ele não resistiria mais tempo.
Teria ele cometido algum crime e a sua consciência o estava roendo por dentro?
Teria traído a mulher?
Não isso ele nunca faria...
Roubado?
Eram tantas bobagens passando pela cabeça das pessoas...
Quem poderia ajudar nessa situação, quem?
Até que ocorreu a uma vizinha chamar o padre para dar a extrema-unção, quando já no fim da vida, ele se confessaria, aliviando-se assim do que quer que fosse que o estivesse atormentando por dentro. Se não funcionasse, seria só mais uma tentativa frustrada, ente tantas outras. Chamaram o velho padre em casa, puseram-lhe a par do que ocorria ali. Que ele acorresse ao quarto, que rezasse, que orasse, que colocasse uma vela em suas mãos e o preparasse para a última viagem, mas que de qualquer forma, o fizesse confessar o que lhe pesava no peito.
De nada adiantou o velho pároco explicar que, mesmo que o moribundo lhe confessasse algo, não poderia dizer a ninguém, deveria guardar o segredo da confissão, morreria ele com o segredo, mas não contaria a ninguém.
O velho sacerdote sentou-se à beira da cama e murmurou palavras que ninguém ouvia do outro lado da porta, trancada. Passou-se algum tempo e o velho e alquebrado cura saiu. Trazia o rosto transtornado, suava muito, a batina estava colada ao corpo, as mãos velhas e encarquilhadas tremiam a ponto de arrebentar o rosário que trazia entre os dedos. Mal conseguiu beber um gole de água, mais derramou que engoliu, saiu trôpego, amparando-se nas paredes e muros até chegar à sua igreja, de onde nunca mais saiu.
Morreu dois dias depois, magro, seco, febril e murmurando palavras desconexas.
O velho doente recobrou as forças e a saúde poucas horas depois da visita do padre, tão logo pôs-se de pé, fugiu com a mulher e os filhos na calada da noite nunca mais foi visto e nem soube da morte do padre, que morreu renegando a sua fé.
Até hoje ainda se comenta na vila qual seria o segredo do velho...
2008/04/25
CONVERSAS ENTRE O TERCEIRO E O PRIMEIRO MUNDO VIA E-MAIL
Conversava via e-mail, ontem, na minha hora do café, com um amigo que mora em Londres. Falava, não, descrevia como funciona minha repartição.
Explicava para ele o (des)funcionamento, pelo menos na minha seção. Há uma senhora, entrada em anos ( e anos e anos) que não faz outra coisa que ficar pendurada ao telefone, da hora em que chega à hora em que sai, fazendo fofocas, reclamando da vida, dos regimes e do marido, necessariamente nessa ordem...
Ele de lá, do outro lado do oceano, e morando no primeiro mundo, não conseguia entender como ela continuava trabalhando aqui. Fiz-lhe ver que ela tem a garantia da estabilidade, não poderia ser mandada embora. Perguntou-me, já espantado se ela não poderia ser mandada para outra seção? Expliquei-lhe que não, não poderia ser enviada para outra seção porque ninguém a queria, já a conheciam e sabiam que ela não gosta de trabalhar e ainda tem a agravante de ser encrenqueira.
Logo ninguém mexe com ela por medo...
Por uns minutos ele não se manifestou do outro lado.
Pensei que havia desligado o computador achando que sou mentiroso. Mas logo depois tornou a escrever, estava incrédulo, e tentando entender essa situação.
Ainda perguntou como funcionava o serviço aqui na repartição.
Professoralmente volto a explicar-lhe o funcionamento (não riam, não riam) da máquina. Digo-lhe então que o que importa à chefia é que o serviço seja feito, não importa por quem/como/de que forma, e dane-se se para isso alguns trabalham mais e outros menos...
Outra vez ele ficou vários minutos sem me responder, aliás, mais tempo ainda.
Voltando, termina nossa conversa assim:
- É por isso que deixei o Brasil e só volto aí para as férias!
Despedimo-nos e voltei a encarar a mesa cheia de papeis, enquanto a madame discutia, ao telefone, um novo regime a base formicida.
Formicida, eu disse?
Não, não, não!
Eu já estava começando a surtar, discretamente saí para fumar, afinal os papeis ainda poderiam esperar mais uns minutos....
- Regime a base de formicida... – fumava e sacudia cabeça repetindo baixinho – regime a base de formicida...
2008/04/23
O SOBRETUDO
pendurado num cabide
ao sabor do vento
que entra pela porta
a cada passagem
a cada entra
a cada sai
com as mangas que
sacodem numa alegria
desmembrada
de fantoche
sem fio
indo
e
vindo
sem sair do lugar
o velho sobretudo
no cabide é porteiro
da casa
da velha amante
de seu velho dono
pendurado num cabide
ao sabor do vento
que entra pela porta
a cada passagem
a cada entra
a cada sai
com as mangas que
sacodem numa alegria
desmembrada
de fantoche
sem fio
indo
e
vindo
sem sair do lugar
o velho sobretudo
no cabide é porteiro
da casa
da velha amante
de seu velho dono
2008/04/18
2008/04/17
2008/04/10
O CARRASCO

Passos fortes e pesados de botas ecoavam pelas escadas de pedra bruta que levava à masmorra, o verdugo deliciava-se com os gemidos e ais que subiam junto com o ar quente fétido lá de baixo.
Enquanto descia ia batendo com o látego nas botas. Esquentando o couro para a seção de tortura diária.
-Ainda me pagam para isso – ria consigo mesmo enquanto futucava a cárie de um dente com um palito e de lá tirava uma lasca de carne.
Com um chute violento abriu a porta de madeira maciça. Não estivessem agrilhoados, teriam pulado até o teto. O som tilintante das correntes agradou ao verdugo, sim ele era pago para isso...
Chicoteou o ar com raiva e prazer, e os condenados uivaram de dor, condicionados que estavam com as torturas brutais e diárias. O carrasco, vaidoso de seu mister, aprimorava-se agora na arte da tortura psicológica. Já nem precisava açoitá-los para que sentissem dor, o simples estalar do chicote no ar já os fazia contorcerem-se de agonia.
-Muito bom assim – gritava. Poupam-me de gastar o couro no sangue sujo de vocês. – O ar era açoitado sob gargalhadas e gritos de dor. Gritem, gritem. Quero ouvir vocês pedindo mais, peçam mais, vamos peçam mais...
Mas em meio a tanto berreiro um voz se fazia ouvir debilmente, uma voz chorosa, fraca e submissa:
- Sim. É assim que eu gosto - e unindo voz a ação passou a vergastar as costas do pobre infeliz. – Vamos peçam mais, peçam mais. Tenho lambada para todos, vamos peçam mais, quero ver todo mundo dançar...
Só parou a tortura quando o suor empapou-lhe o capuz negro de couro. Tomou de uma caneca de vinho que estava sobre um catre vazio, e entornou-se de uma só vez. Limpou a boca com as costas da mão e alisando o chicote começou a ponderar com os pobres coitados que lá estavam:
- Parece-me que vocês passaram a gostar da tortura. Há quanto tempo torturo vocês? Há quanto tempo?
Outra vez aquele débil miserável levanta o dedo indicador da mão esquerda – toda a mão direita já havia sido decepada e cauterizada com uma tocha que iluminava a masmorra – e tenta falar com um fio de voz:
-Senhor...- tosse num murmuro mais fraco ainda – senhor...
Seguido de uma violentada chicotada que arranca-lhe a orelha, o carnífice fala:
- A pergunta foi retórica, retórica – e com outra vergastada arranca-lhe a orelha direita agora. - Mais alguém quer falar alguma coisa?
Um silêncio covarde encheu a sala, só quebrado pela gargalhada selvagem do algoz que agora chicoteava de verdade e com vontade os prisioneiros acorrentados nas paredes verdes de musgo e umidade. Pouco ainda tinham forças para gritar ou mesmo chorar. Muitos já haviam padecido tanto que estavam imunes a dor, já não sentiam nem mais as articulações, eram pele, osso e apatia.
Por que estavam lá? Não mais se lembravam...
Quais crimes cometeram? Crimes? Fossem quais fossem os crimes, à essa altura já estavam todos redimidos, todas as culpas espiadas.
Para desgosto do verdugo já estavam acostumados à dor, à humilhação, aos maus tratos. Não sabiam os governantes que a maior tortura impetrada contra eles era justamente a falta da tortura. Nada era pior para eles que o domingo, dia em que o inimigo-irmão descansava. Um dia perdido, um dia sem utilidade, um dia em que “o dia não passava”, um dia perdido.
Tortura maior não era a tortura, mas a falta dela!
- Vamos confessem, confessem alguma coisa – mais que gritar, implorava o biltre torturador – me dêem mais razão para fazê-los sofrer. Vamos não me façam chicoteá-los à toa, me dêem motivo. Preciso de motivação, estou farto de ser chamado de sádico...
O maldito bárbaro não percebia que suas ameaças eram vazias, ele lidava com mortos-vivos, cujo único prazer agora era o sofrimento, a dor, a humilhação, a vergonha de tamanha fraqueza, e vontade de viverem mais um dia, para ter a garantia da dor de amanhã.
-Ainda vou acabar matando um de vocês qualquer hora dessas, vamos me digam alguma coisa!
E outra vez, aquele fiozinho de voz, impotente, quase sobrenatural, fez-se ouvir:
-Senhor –tosse – senhor...
-Sim infeliz, parece-me que só você está disposto a falar hoje. Fale logo antes que lhe corte a língua com outra vergastada.
Tremulo de felicidade por ter conseguido a atenção de seu carrasco, e olhando com superioridade para os colegas presos nas paredes diz com indisfarçável regozijo:
- Senhor – tosse - senhor...
Impaciente e temeroso que a confissão do infeliz acabasse com o seu prazer profissional, ele arranca-lhe a língua com uma certeira chibatada.
- Se alguém comentar que eu fiz isso eu peço as contas. Vocês querem isso?
E em uníssono, como que uma coreografia ensaiada à exaustão, todos, dançando presos às paredes, responderam:
- Não, não, não, não...
As palavras ecoaram para fora da masmorra, chegando ao ouvido do rei, que satisfeito comenta com um de seus ministros:
-Esse carrasco é bom!
Enquanto descia ia batendo com o látego nas botas. Esquentando o couro para a seção de tortura diária.
-Ainda me pagam para isso – ria consigo mesmo enquanto futucava a cárie de um dente com um palito e de lá tirava uma lasca de carne.
Com um chute violento abriu a porta de madeira maciça. Não estivessem agrilhoados, teriam pulado até o teto. O som tilintante das correntes agradou ao verdugo, sim ele era pago para isso...
Chicoteou o ar com raiva e prazer, e os condenados uivaram de dor, condicionados que estavam com as torturas brutais e diárias. O carrasco, vaidoso de seu mister, aprimorava-se agora na arte da tortura psicológica. Já nem precisava açoitá-los para que sentissem dor, o simples estalar do chicote no ar já os fazia contorcerem-se de agonia.
-Muito bom assim – gritava. Poupam-me de gastar o couro no sangue sujo de vocês. – O ar era açoitado sob gargalhadas e gritos de dor. Gritem, gritem. Quero ouvir vocês pedindo mais, peçam mais, vamos peçam mais...
Mas em meio a tanto berreiro um voz se fazia ouvir debilmente, uma voz chorosa, fraca e submissa:
- Sim. É assim que eu gosto - e unindo voz a ação passou a vergastar as costas do pobre infeliz. – Vamos peçam mais, peçam mais. Tenho lambada para todos, vamos peçam mais, quero ver todo mundo dançar...
Só parou a tortura quando o suor empapou-lhe o capuz negro de couro. Tomou de uma caneca de vinho que estava sobre um catre vazio, e entornou-se de uma só vez. Limpou a boca com as costas da mão e alisando o chicote começou a ponderar com os pobres coitados que lá estavam:
- Parece-me que vocês passaram a gostar da tortura. Há quanto tempo torturo vocês? Há quanto tempo?
Outra vez aquele débil miserável levanta o dedo indicador da mão esquerda – toda a mão direita já havia sido decepada e cauterizada com uma tocha que iluminava a masmorra – e tenta falar com um fio de voz:
-Senhor...- tosse num murmuro mais fraco ainda – senhor...
Seguido de uma violentada chicotada que arranca-lhe a orelha, o carnífice fala:
- A pergunta foi retórica, retórica – e com outra vergastada arranca-lhe a orelha direita agora. - Mais alguém quer falar alguma coisa?
Um silêncio covarde encheu a sala, só quebrado pela gargalhada selvagem do algoz que agora chicoteava de verdade e com vontade os prisioneiros acorrentados nas paredes verdes de musgo e umidade. Pouco ainda tinham forças para gritar ou mesmo chorar. Muitos já haviam padecido tanto que estavam imunes a dor, já não sentiam nem mais as articulações, eram pele, osso e apatia.
Por que estavam lá? Não mais se lembravam...
Quais crimes cometeram? Crimes? Fossem quais fossem os crimes, à essa altura já estavam todos redimidos, todas as culpas espiadas.
Para desgosto do verdugo já estavam acostumados à dor, à humilhação, aos maus tratos. Não sabiam os governantes que a maior tortura impetrada contra eles era justamente a falta da tortura. Nada era pior para eles que o domingo, dia em que o inimigo-irmão descansava. Um dia perdido, um dia sem utilidade, um dia em que “o dia não passava”, um dia perdido.
Tortura maior não era a tortura, mas a falta dela!
- Vamos confessem, confessem alguma coisa – mais que gritar, implorava o biltre torturador – me dêem mais razão para fazê-los sofrer. Vamos não me façam chicoteá-los à toa, me dêem motivo. Preciso de motivação, estou farto de ser chamado de sádico...
O maldito bárbaro não percebia que suas ameaças eram vazias, ele lidava com mortos-vivos, cujo único prazer agora era o sofrimento, a dor, a humilhação, a vergonha de tamanha fraqueza, e vontade de viverem mais um dia, para ter a garantia da dor de amanhã.
-Ainda vou acabar matando um de vocês qualquer hora dessas, vamos me digam alguma coisa!
E outra vez, aquele fiozinho de voz, impotente, quase sobrenatural, fez-se ouvir:
-Senhor –tosse – senhor...
-Sim infeliz, parece-me que só você está disposto a falar hoje. Fale logo antes que lhe corte a língua com outra vergastada.
Tremulo de felicidade por ter conseguido a atenção de seu carrasco, e olhando com superioridade para os colegas presos nas paredes diz com indisfarçável regozijo:
- Senhor – tosse - senhor...
Impaciente e temeroso que a confissão do infeliz acabasse com o seu prazer profissional, ele arranca-lhe a língua com uma certeira chibatada.
- Se alguém comentar que eu fiz isso eu peço as contas. Vocês querem isso?
E em uníssono, como que uma coreografia ensaiada à exaustão, todos, dançando presos às paredes, responderam:
- Não, não, não, não...
As palavras ecoaram para fora da masmorra, chegando ao ouvido do rei, que satisfeito comenta com um de seus ministros:
-Esse carrasco é bom!
2008/04/07
2008/04/03
CAOS
“All I need's a HolocaustTo make my day complete”
Alice Cooper in My Stars
Em forma de impostos extorsivos, cobranças abusivas, falta de garantias e crimes mil, a população há muito tempo era penalizada. Para cada imposto uma explicação descarada e sem sentido, a justiça ausente e venal, o crime presente e a descrença crescente.
As pessoas por fim chegaram ao seu limite de humanidade e regrediram a mais baixa e violenta barbárie, cortando todo e qualquer vínculo com civilidade.
Passaram a viver no mais pétreo egoísmo e insensibilidade.
Matavam e se matavam.
Saíam às ruas como cães raivosos atacando e destruindo tudo o que lhes aparecesse pela frente.
Nas ruas imundas pululavam as mais terríveis doenças, a peste arrebanhava multidões para a morte.
Mortes e mais mortes a cada dia tornavam as pessoas menos humanas e expunham suas mais torpes características animais.
O sinal que tudo estava perdido foi sentido pelos banqueiros. Eles foram os primeiros a abandonar as cidades na calada da noite. Fecharam suas agências e como ladrões fugiram com os depósitos dos clientes. Grandes redes e distribuidoras de alimentos que por anos e anos haviam explorado a população sumiram como que por encanto deixando prédios vazios, ou quase, pois os ratos continuaram por lá, recolhendo cada farelo, cada grão, cada pedaço de comida que tivesse sobrado durante a fuga.
Nada sobrou para os humanos.
Sem dinheiro e sem comida, sem segurança, pois sem bancos e grandes empresas para protegerem, a justiça foi-se também, largando todos à própria sorte, e largados à própria sorte, regrediram ao estado mais animalesco.
Inimigos de si mesmos, inimigos de seus vizinhos, vomitando a verde bílis da raiva há muito fermentada no coração, declararam guerra ao que restou de civilidade.
Na sanha cega, estúpida, atracavam-se mutuamente. Desrespeitavam com júbilo e prazer baboso tudo o que pudesse ser Lei ou Ordem.
Começaram com as leis de trânsito parando em qualquer lugar, de preferência vagas de idosos e deficientes, depois em cima das calçadas passando em seguida a atropelar os transeuntes que corriam pelas ruas carregando os saques feitos nas lojas e supermercados abandonados. E assim, descobriram por acidente, uma forma de descarregar seus ódios e frustrações e ainda arrumarem um pouco mais alimento.
Pura matemática: menos pessoas vivas igual mais comida.
Nas ruas ouvia-se uma cacofonia de gritos e choros.
Passados os dias, a estado das coisas degringolava ainda mais e a insanidade alcançava novos patamares.
A loucura grassava.
Aposentados, depois de longas manifestações para aumento de suas parcas aposentadorias, começaram a suicidarem-se. Uns matavam-se na porta de hospitais, em frente de repartições públicas, outros se matavam em casa mesmo, visto já não terem dinheiro nem para locomoverem-se.
Viúvas e viúvos cresciam exponencialmente. Asilos tornaram-se abatedouros, onde os mortos eram depositados uns sobre os outros e deixados para se decomporem, pois já não havia que deles se preocupassem...
Depois de massacrarem-se a torto e a direito, passaram a matar-se. Matavam-se com requintes de cruel e desumana perversidade. Imaginavam formas de matarem-se levando consigo o maior número possível de pessoas.
Roubavam caminhões e com eles arrojavam-se sobre as multidões que brigavam por um pedaço de pão, por um resto de comida, por um rato gordo. Tomavam velocidade e iam em frente, imaginavam-se bolas de boliche tentando fazer um strike.
Em meio a toda essa demência vê-se, sobre a murada de um canal de esgoto, um homem velho e sujo de barba branca, com o corpo magro envolvido em um cartaz de propaganda política, arrancada de um poste de luz, e como que saído do Velho Testamento, clamava aos céus.
Feito um eremita possesso, gesticulava os braços arengando aos girinos seu sermão apocalíptico. Essa confrangedora peroração só foi interrompida quando um automóvel, cantando pneu entrou na contramão estatelando-se contra um velho galpão abandonado.
A patuléia ignara e famélica acorreu desesperada e sedenta para cima do infeliz motorista e de seus acompanhantes feridos, que agonizavam nos escombros.
A pregação apocalíptica do senil profeta tomou um aspecto ainda maior diante de tão dantesca imagem. E rindo seu riso sem dentes descrevia, alucinado, os detalhes da escabrosa cena aos girinos:
- Vejam meus filhos, quando vocês voltarem a essa terra, voltem melhor que isso! Por favor, voltem melhor que isso! – e de braços abertos em cruz, rindo, ofereceu-se em holocausto à multidão onde foi consumido no violento torvelinho...
Um chão manchado de encarnado foi o que sobrou dele.
O caos, num crescendo, oprimia a cidade decadente...
Desesperançadas, as pessoas pulavam das janelas, jogavam-se sob trens desgovernados, carros batiam-se e se chocavam propositalmente com outros carros, como num demoníaco parque de diversões, corpos mutilados espalhavam-se pelas ruas e os urubus cobriam os céus como negras nuvens de tempestade.
A abóbada celeste já era um negrume só de tantos abutres e o ar pestilento disputava com os homicida-suicidas quem matava mais.
- Empate técnico! – comentavam entre si os primeiros girinos ao saírem da água...
As pessoas por fim chegaram ao seu limite de humanidade e regrediram a mais baixa e violenta barbárie, cortando todo e qualquer vínculo com civilidade.
Passaram a viver no mais pétreo egoísmo e insensibilidade.
Matavam e se matavam.
Saíam às ruas como cães raivosos atacando e destruindo tudo o que lhes aparecesse pela frente.
Nas ruas imundas pululavam as mais terríveis doenças, a peste arrebanhava multidões para a morte.
Mortes e mais mortes a cada dia tornavam as pessoas menos humanas e expunham suas mais torpes características animais.
O sinal que tudo estava perdido foi sentido pelos banqueiros. Eles foram os primeiros a abandonar as cidades na calada da noite. Fecharam suas agências e como ladrões fugiram com os depósitos dos clientes. Grandes redes e distribuidoras de alimentos que por anos e anos haviam explorado a população sumiram como que por encanto deixando prédios vazios, ou quase, pois os ratos continuaram por lá, recolhendo cada farelo, cada grão, cada pedaço de comida que tivesse sobrado durante a fuga.
Nada sobrou para os humanos.
Sem dinheiro e sem comida, sem segurança, pois sem bancos e grandes empresas para protegerem, a justiça foi-se também, largando todos à própria sorte, e largados à própria sorte, regrediram ao estado mais animalesco.
Inimigos de si mesmos, inimigos de seus vizinhos, vomitando a verde bílis da raiva há muito fermentada no coração, declararam guerra ao que restou de civilidade.
Na sanha cega, estúpida, atracavam-se mutuamente. Desrespeitavam com júbilo e prazer baboso tudo o que pudesse ser Lei ou Ordem.
Começaram com as leis de trânsito parando em qualquer lugar, de preferência vagas de idosos e deficientes, depois em cima das calçadas passando em seguida a atropelar os transeuntes que corriam pelas ruas carregando os saques feitos nas lojas e supermercados abandonados. E assim, descobriram por acidente, uma forma de descarregar seus ódios e frustrações e ainda arrumarem um pouco mais alimento.
Pura matemática: menos pessoas vivas igual mais comida.
Nas ruas ouvia-se uma cacofonia de gritos e choros.
Passados os dias, a estado das coisas degringolava ainda mais e a insanidade alcançava novos patamares.
A loucura grassava.
Aposentados, depois de longas manifestações para aumento de suas parcas aposentadorias, começaram a suicidarem-se. Uns matavam-se na porta de hospitais, em frente de repartições públicas, outros se matavam em casa mesmo, visto já não terem dinheiro nem para locomoverem-se.
Viúvas e viúvos cresciam exponencialmente. Asilos tornaram-se abatedouros, onde os mortos eram depositados uns sobre os outros e deixados para se decomporem, pois já não havia que deles se preocupassem...
Depois de massacrarem-se a torto e a direito, passaram a matar-se. Matavam-se com requintes de cruel e desumana perversidade. Imaginavam formas de matarem-se levando consigo o maior número possível de pessoas.
Roubavam caminhões e com eles arrojavam-se sobre as multidões que brigavam por um pedaço de pão, por um resto de comida, por um rato gordo. Tomavam velocidade e iam em frente, imaginavam-se bolas de boliche tentando fazer um strike.
Em meio a toda essa demência vê-se, sobre a murada de um canal de esgoto, um homem velho e sujo de barba branca, com o corpo magro envolvido em um cartaz de propaganda política, arrancada de um poste de luz, e como que saído do Velho Testamento, clamava aos céus.
Feito um eremita possesso, gesticulava os braços arengando aos girinos seu sermão apocalíptico. Essa confrangedora peroração só foi interrompida quando um automóvel, cantando pneu entrou na contramão estatelando-se contra um velho galpão abandonado.
A patuléia ignara e famélica acorreu desesperada e sedenta para cima do infeliz motorista e de seus acompanhantes feridos, que agonizavam nos escombros.
A pregação apocalíptica do senil profeta tomou um aspecto ainda maior diante de tão dantesca imagem. E rindo seu riso sem dentes descrevia, alucinado, os detalhes da escabrosa cena aos girinos:
- Vejam meus filhos, quando vocês voltarem a essa terra, voltem melhor que isso! Por favor, voltem melhor que isso! – e de braços abertos em cruz, rindo, ofereceu-se em holocausto à multidão onde foi consumido no violento torvelinho...
Um chão manchado de encarnado foi o que sobrou dele.
O caos, num crescendo, oprimia a cidade decadente...
Desesperançadas, as pessoas pulavam das janelas, jogavam-se sob trens desgovernados, carros batiam-se e se chocavam propositalmente com outros carros, como num demoníaco parque de diversões, corpos mutilados espalhavam-se pelas ruas e os urubus cobriam os céus como negras nuvens de tempestade.
A abóbada celeste já era um negrume só de tantos abutres e o ar pestilento disputava com os homicida-suicidas quem matava mais.
- Empate técnico! – comentavam entre si os primeiros girinos ao saírem da água...
2008/04/02
CONVITE
É de GRAÇA, porque é engraçado e porque não se paga pra assistir...
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