2008/03/12

A BRIGA

Brigaram.

- Aliás, brigavam sempre, todos os dias - diziam os vizinhos.

- Batem boca, quebram copos, arrastam os móveis (para quê? vai-se saber...) xingam-se, mas no dia seguinte voltam às boas.

Mas dessa vez parece que a coisa foi mais séria, segundo testemunho de dos vizinhos a coisa foi além da agressão verbal comum.

Começou assim, alguém gritou:

- Gordo! Você é um gordo relaxado...

Foi quando a coisa ficou feia de vez.

Escutou-se choro seguido de um preocupante silêncio logo dissipado por um:

- Eu vou cortar meus pulsos. Eu vou morrer. É isso que você quer? Então é isso que eu vou fazer. Vou me matar na sua frente. Nunca mais você vai esquecer essa cena. Nem o seu amigo psicanalista vai conseguir te ajudar!

Silêncio mais preocupante.

- Não dizer nada? Você entendeu? Eu vou me matar. Morrer. “Eme” “"O” “Erre” “Erre” “Ê” “Erre”. Morrer!

Segue o barulho de talheres sendo jogados no chão.

Choro agora convulsivo seguido de soluços holliwoodyanos.


-Olhe estou com faca na mão. Vou cortar os pulsos e sangue vai manchar e estragar seu tão precioso tapetinho persa presente do “seu psicanalista”.


Para espanto geral dos vizinhos que já se encontravam de ouvidos colados à porta, uma voz aguda de desespero responde:


- O tapete não! O tapete não!

- Sei bem o amor e atenção que você dispensa a esse pedaço de pano, de pano sujo e velho. Essa lembrancinha do seu amiguinho... – chora e chora e chora...


Os vizinhos riam baixinho.


- Por favor, se você quer mesmo morrer, está decido a dar um fim à sua vida patética e gorda, dê. Mas antes me permita tirar o tapete da sala - diz a voz aguda e metálica desprovida de qualquer sentimento humano.


- Foi nessa hora que percebemos que a coisa era realmente muito séria mesmo – disse Dona Eufrásia Bento, moradora do 331 há trinta e dois anos.


Voltaram a gritar dentro apartamento.


- Eu te odeio, te odeio, te odeio... – chorava o gordo. Odeio você e esse seu tapete persa. Não posso nem morrer em cima dele... – chorava de dar dó.


Só se ouvia a voz do gordo.


- Você vai me deixar morrer? Não vai falar nada? Não vai me dissuadir de cortar os pulsos?


- Não! – respondia a voz aguda e metálica. Fria como um vento de inverno. – Não. Não direi nada. Gordo. Você é gordo, gordo e gordo. Enquanto você não aceitar que é gordo não espere nada de mim. Gordo e untuoso!


Os vizinhos ouviram aquele último “gordo e untuoso” com se fosse um tapa na cara.


- Imagine o que o pobre gordo sentiu então. – Perguntou retoricamente Dona Cinarinha, irmã de Dona Eufrásia, moradora do 331 há trinta anos, que mudou para lá logo depois de ficar viúva. – Como o Gordo chorou, chorou de partir nosso coração.


- Foi então que ouvimos – completou Dona Eufrásia Bento – o barulho!


- Sim, sim, sim – falava eufórica Dona Cinarinha balançando a cabeça – Parece que o Gordo não conseguindo angariar qualquer simpatia quanto a sua férrea decisão de cortar os pulsos, gritou – Adeus!


E todos em uníssono, como que ensaiado à exaustão, falaram:


- Pulou da janela!


- Que crueldade! – soluçava Dona Cinarinha, emocionada - o corpo ainda caía, e o namorado do gordo já telefonava para o psicanalista...

Outra Pérola de meu amigo M.L.

Buzinar para carro de mulher à sua frente, nada mais é do que reduzir a vida útil da sua buzina...

2008/03/10

Frase do dia.

Antes de pensar em suicídio, pense em matar alguém!
frase do meu amigo Marcos Lemos.
(será ele um sábio ou um cínico?)

2008/03/04

SONHOS

Aluguel de sonhos.

Tenho muito espaço, e um cenário muito bacana. Tem um riacho de águas azuis e um jacaré que apareceu não sei de onde – acho que alguém o esqueceu por aqui - ele fica numa das margens e nada de um lado para outro o dia inteiro. Almoça bem, já que o rio é rico em peixes, e sendo um rio de sonho, tem, às vezes, até baleias jubarte para ele caçar.

O terreno é grande, largo e profundo, tem ar puro, grama verde e fresca, céu azul e límpido de dia e tremendamente estrelado todas as noites, exceto quando houver pesadelos, que pesadelos em noites estreladas não funcionam... Não! Para essas ocasiões temos cá, trovões, raios, tremores de terra, uivos, ganidos, correntes sendo arrastadas, gritos histéricos, gritos de terror, gritos de horror, vozes de crianças chamando chorosas, e muito mais.

Basta consultarem nossos cardápio de terrores.

Pode ser colocada qualquer fantasia, delírio, devaneio, mesmo os mais insanos e tresloucados.

Sonhe sem medo e sem limites!

Traga cá seus fetiches oníricos.

O meu fetiche onírico recorrente são pedaços de montanhas flutuantes - como icebergs de cabeça para baixo – sob uma paisagem vermelho vivo, onde pterodátilos voam aos gritos - tenebroso...

Aqui você poderá voar, literalmente. Crie asas, asas angelicais – de alvíssimas penas, asas diabólicas – de couro feito morcego. Seja um rei, um imperador, o rei do mundo, ou melhor, seja o dono do mundo, mande & desmande sem dó nem piedade. Ponha para fora aquele ditadorzinho que existe dentro de você!

Traga para cá seus desejos!

Traga aqui aquela garota linda dos tempos de escola. Sim ela que nunca percebeu a sua abjeta existência, lembra dela? – como poderia esquecê-la não é? - afinal você ainda rola na cama por ela...

Ah! Esses incubos...

Traga para cá seu desejo mais recôndito, aquele ódio, aquela vontade de dar fim no seu chefe, no seu cunhado, em qualquer desafeto. Aqui ninguém o julgará, além de você mesmo e sua consciência – que verdade seja dita, não tem qualquer serventia ou utilidade aqui!

Sonhe sem rédeas!

Venha para cá, venha viajar, atravessar fronteiras sem passaporte, sem vistos de entradas...

Venha, venha...

Nesse terreno vasto, tudo é seu, tudo é possível, tudo é acessível, você “É” o seu limite.

Sonhe em paz, mas cuidado com o jacaré!