2008/02/27

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2008/02/26

GENRO X SOGRA


Porta do Banco.

Dia de pagamento, entra e sai contínuo.

O prédio mais parece uma colméia tanto o movimento, na calçada em frente, camelôs vendem de tudo um pouco, lanches, cigarros em maço ou unidade, balas...

Aos pés da escada de granito cinza na calçada numa cadeira de rodas, uma senhora pede esmolas, mendiga uma moeda aos prantos e com voz lamuriosa.

Não convence, as pessoas passam fingindo que não a vêem.


- Uma moeda, uma moeda, por favor, uma moedinha...


Nada. Ela ainda finge que chora, entorta a perna direita, encarquilha a mão esquerda – quase derruba o pratinho com meia dúzia de moedas e uma tampinha de garrafa.

De repente um carro estaciona em frente a ela.

Agora sim ela chora de verdade, soluça e pede aos passantes que não deixem que a tirem dali, tenta segurar as pessoas que passam, causando mais repulsa ainda.

Segurando-se firmemente aos braços da cadeira de roda, ela grita que dali ninguém a tira, mas seus gritos e choro não convencem ninguém...

Do carro sai um homem sorridente, simpático, que cumprimenta todos que saem do Banco e delicadamente pega a velhinha no colo e a coloca no automóvel.

Espanto geral!

Como alguém com um carro desses, sinal de posse, poderia deixar uma velha assim pedir esmola na porta de um Banco?

Percebendo o mal-estar à sua volta ele explica:

_ Ela está senil, foge quando não estamos vendo e vem para cá, isso quando não senta na porta de restaurantes... É uma cruz que tenho que carregar. Pobrezinha... – Vamos para casa, vamos – diz-lhe sorridente, angariando a simpatia de todos.
Com cuidado extremo coloca a velhinha no banco traseiro, prende-a com o cinto de segurança, limpa-lhe o enrugado rosto com um lenço.

Parte sob aplausos.


- Achou que ia fugir de mim? – diz rangendo os dentes.


A velha afunda-se mais ainda no banco de couro, perde a cor, começa a tremer.


- Achou que eu não ia encontrá-la?


Ela tenta abrir a porta. Travada.


- Achou que eu não cumpriria a minha promessa? Olha lá fora. Veja o sol. Está com calor, esta?


A velha está fria, congelada de medo.


- Nem se preocupe com a cadeira de rodas. Tenho coisa melhor para a senhora lá em casa...

Ela entrega os pontos.

Relaxa o corpo, sabe que está perdida...

Chegando em casa, o carro estacionado, ela é levada no colo para dentro, sob o olhar penalizado da vizinhança.


- Pobre homem – comenta a portuguesa que mora em frente – como sofre com a sogra.


- Esse homem vai para o céu – concorda a paraibana que faz faxina na casa da portuguesa - vai pro céu! – e volta a varrer a calçada.


Dentro de casa, o homem joga a velha numa outra cadeira rodas – ele tem uma garagem cheia delas, comprada no atacado, só para se garantir – e empurra a sogra para o quintal.
Deixa-a no meio do jardim bem sob o sol que está a pino, o calor está fazendo murchar as plantas e derreter os brinquedinhos de plásticos do Nenê – o cachorro.

O homem deixa a velha e vai para cozinha tomar uma cerveja. Abre a lata lentamente de modo que o gás saia fazendo barulho. A velha ouve e seus olhos brilham. Ela está com sede, com medo e com raiva.

Com a latinha na mão ele vai até o jardim para que a velha o veja beber, chama Nenê e oferece um pouco da bebida ao cachorro que aceita prontamente. Enquanto bebe, brinca com o cão, joga a bola cada vez mais longe para o animal ir buscar, fazendo com que bata com a cauda nas pernas da velha.

Ela olha com mais ódio ainda para o genro.

O calor aumenta.

É fevereiro...

- Então a senhora tentou fugir outra vez – fala o genro protegido na sombra de uma jaqueira - Achou que esmolando iria conseguir dinheiro para fugir daqui de casa? Nenê! – chama o cachorro que estava indo dormir na sala, sob o ventilador – Vêm brincar coma vovó, vem...

A velha teme o cachorro, quase tanto como teme o genro.

O cachorro vem correndo e babando trazendo à boca outra bolinha, a velha para de respirar. Quem sabe assim o bicho não repara nela?

Mas o genro joga a bolinha no colo da sogra. Ela não conseguindo mais segurar, começa a chorar...

- O Nenê não – implora humildemente - o Nenê não...

O cachorrão lambe-lhe o rosto provocando um misto de asco e pavor.

Uma trovoada faz tremer o chão assustando o animal que assustado corre a esconder-se debaixo da mesa da cozinha. A velha olha para o céu, olha para o genro, e começa a sacudir a cabeça apavorada.

-Não... – suplica baixinho – não, outra vez não!

O genro sacode os braços, entra na casa, e após uns poucos minutos, volta com outra lata de cerveja e um guarda-chuva. Pega uma cadeira de praia e senta-se sob a cobertura de lona de faz sombra na lateral do jardim.

Senta-se, estica as pernas e olha o relógio.

- Não dou meia hora para arriar o molho, acho que ainda vai umas três ou quatro cervejas... – ri do pavor da velha.

Muda de horror a velha sogra arregala os olhos e murmura alguma coisa – talvez o nome do falecido marido, que teve, segundo o genro, a sorte grande de ir antes dela.

Outra trovoada, agora mais perto.

Não tarda a chover...

- Eu te avisei velha, eu te avisei – ri enquanto entorna a cerveja – quando eu viesse a tomar conta de vocês eu acertaria todas as nossas diferenças – ri a ponto de engasgar-se.

Outro trovão.

O genro olha o relógio, rir e diz:

- Vai começar a chover bem na hora de seu banho.

Ela sacode a cabeça a ponto de seus brincos de pérolas caírem no chão e perderem-se na grama do jardim. Começa a chuviscar, o genro protege-se indo para dentro da cozinha, diz que agora vai preparar um café, afinal daqui à pouco a esposa vai chegar e vai querer um lanche.

Enfim cai a chuva.

Forte.

Pingos grossos.

Lá fora as lágrimas desesperadas da velha misturam-se à chuva, e antes que possa rogar uma praga para o genro, escuta-lhe a voz que diz, vindo de dentro da cozinha:


- Se comentar alguma coisa com a sua filha, fico com os trocadinhos que a senhora conseguiu no Banco.


Com ódio, sua dentadura trinca.

2008/02/19

OUTROS TEMPOS OU OUTRO MUNDO?


Passava ontem pela rua em que moram meus primos, não digo onde para que ninguém se sinta tentado a ir visitá-los e perguntarem sobre mim, como sou, se sou assim mesmo, se sou bonito ou feio, ou sabe-se lá o que mais.

Caminhava e lembrava como era aquilo lá.

Era uma festa para um moleque como eu ir à casa de meus tios. Morava em cidade onde as ruas eram asfaltadas, tinha grandes casas de alvenaria e já alguns prédios de três ou quatro andares, e lá onde moravam meus tios e primos, as ruas eram de terra e, criança é mesmo besta, ainda tinham valas.

Que alegria a nossa!

Ficávamos a tarde inteira nos sujando na rua, entrando nas valas para catar girinos, puxando sujeiras de dentro d’água.

Quando voltamos para dentro, era hora de tomar café, qual o horror dos nossos pais ao nos verem sujos, com os pés encharcados de lama, e fedendo, fedendo...

Hoje aquilo lá é mais uma rua, uma rua dessas qualquer, de qualquer cidade, sem encanto nenhum, sem nada de deixe qualquer marca de saudade.

Nas ruas daquele tempo, outros tempos, a iluminação pública deixava muito a desejar, mas brincávamos nelas sem perigos outro que cortar um dedo, pisar num prego, cair duma árvore, aliás, alguém tem visto criança subindo em árvores ultimamente?, queimar um dedo fazendo fogueiras nas noites frias de junho e julho, aliás 2, nem frio faz mais no inverno.Sem contar que tínhamos árvores, muitas árvores, goiabeiras, caramboleiras, ameixeiras, jaqueiras...

E hoje?

Arrancam tudo para que as folhas não sujem o chão! Tsc, tsc, tsc...

Já que é para apertar os miolos atrás de velhas lembranças, alguém tem visto pessoas sentadas nas portas de casa conversando com vizinhos? Cumprimentando os passantes?

Não.

Essas ruas não existem mais...

Não sou um saudosista xiita, mas noutros tempos, tempos de minha infância as coisas eram bem melhores. Perdíamos feio na qualidade tecnológica, mas a qualidade de vida realmente era bem outra. Tive uma infância de criança pobre, mas posso lhes garantir que era uma pobreza muito menos miserável que a que vivemos hoje...
Outros tempos ou outro mundo?

Quando criança, com os meus colegas, fazia planos de no ano 2000 ir á Lua, ir a Marte, e vejam só, não temos nem mais trens, estradas destruídas, aviões caindo...

O futuro daquele tempo era muito melhor. Seriam outros tempos ou eu sou outra pessoa?

Sei lá, até as dúvidas que me assolam hoje são piores...


2008/02/13

A MUDANÇA


- Alô. Alô está me ouvindo?

Silêncio do outro lado da linha.

- Alô! Sei que você está ai, vamos me responda, por favor, fale comigo. Por favor, preciso ouvir a sua voz...

Silêncio. Ela, dolorosamente, percebe que ele desligou o aparelho.

Torna a ligar, ouve o chamado, mas não atendem.

Ela começa a chorar convulsivamente. Torna a ligar paro mesmo número que continua teimosamente a chamar.

Nada.

Ela vai ao banheiro, toma uma ducha e suas lágrimas confundem-se com a água que cai.

Ainda molhada torna ligar, dessa vez ele atende o telefone.

-Alô?

- Oi sou eu, estou te ligando há horas, há dias, mas você não me atende...

- Ah! É você? – diz com certo desconforto, nota-se que se ele soubesse que era ela não teria atendido – Preciso de um identificador de chamadas – murmura quase como que para ela ouvir.

- Por que você não me procurou mais?

Silêncio.

- Não faça isso comigo. Olhe não podemos terminar assim...

Silêncio.

-...eu vou mudar, você vai ver. Nada disso irá se repetir. Te juro. Fale comigo. Juro que vou mudar...

Silêncio.

- Não posso continuar vivendo desse jeito. Fale comigo – grita desesperada.

Ele desliga o telefone.

Ela, ainda molhada, joga-se na cama, chora até pegar no sono.

Acorda com o telefone que toca.

Corre a atender.

Mas era engano.

Engano?

- Eu vou mudar – fala para si mesma – eu vou mudar. Repete esse mantra até voltar a cair no sono.

Acorda horas mais tarde, e vai para rua, precisa andar, precisa espairecer as idéias, precisa de ar, precisa ver-se livre de seus fantasmas e neuroses, precisa encontrá-lo de qualquer jeito.

Seus passos a levam ao shopping, senta-se para um café, só agora percebe que ainda está em jejum. À mesa liga outra vez.

-Alô?

Nada.

Dessa vez ele nem se dá ao trabalho de atender, deve saber que é ela.

Tomado o café sai a andar sem rumo, move-se feito um zumbi, o olhar vazio, murmurando o mantra – Eu vou mudar, eu vou mudar, eu vou mudar...
Quadras à frente resolve fazer uma última ligação para ele. - Já basta de ficar rastejando. –Ao pronunciar tais palavras percebe que realmente está começando a mudar, e pela primeira vez em vários dias, sorri. Procura o celular na bolsa e não o encontra.

Ela esqueceu o aparelho na mesa do Café no shopping. Mas isso não importa mais, ela mudou, sim mudou e percebe que a mudança é benéfica, sorri mais uma vez. Agora ereta, com a cabeça erguida e altaneira segue a passos firmes para uma nova vida, livre da presença dele, da sombra dele, da necessidade de estar com ele. – Livre! - grita para si mesma, assustando as pessoas à sua volta. Ela ri da multidão que a cerca na rua, ela ri das noites mal dormidas, ela ri de suas lágrimas e seu pranto. Ela está livre da mulher que era até a poucas horas atrás.
Mas, lá na frente, quem é que lhe aparece abraçando outra mulher? Sim ele, ele que tem se recusado, não! evitado atender seus telefonemas, ele que a tem desprezado, ele que a tem levado às raias da loucura, ele.

- Mas que é essa mulher? – ela se pergunta enquanto nervosamente arruma os cabelos. Tira os óculos de sol para melhor ver, compreender, entender o que está se passando. Como ele poderia fazer isso com ela? Era por isso que ele já não mais atendia a seus telefonemas...

Sentiu-se traída e inclinada ao homicídio, quando – Mas não poder ser! – diz sorrindo um sorriso histérico, nervoso e psicótico. Ela esconde-se do casal, entra num bar, senta-se numa mesa atrás das grandes janelas de vidro fume e vê a mulher que o acompanha. Ela, primeiro sorri, depois loucamente começa a gargalhar e a gritar. – Eu disse que mudaria, eu disse que mudaria por ele – e chamando a atenção dos garçons e fregueses, começa falar feito uma possessa – Olhem lá, ele está comigo, olhem lá o meu namorado com a nova “Eu”, vejam, vejam! Eu mudei, vejam como eu mudei!

2008/02/12

OS ACASOS DE UM CASO

- Na sua casa ou na minha?

- Na minha não dá, minha mãe está lá, digo, eu moro com ela, e depois do fim do casamento não fica bem eu levar outro homem para lá...

- Pois é, entendo...

- Por que não na sua casa?

- Você está louca? Minha mulher e filha não são motivos suficientes para você?

- Motel então?

- Com que “roupa”? Estou sem um tostão...

- Como vamos fazer então?

- Juro que não sei... Estou tentando pensar...

- Como “tentando” pensar?

- Ereção...

- Hããããã...?

- Deixa pra lá. Já está passando mesmo – diz acabrunhado.

- Deixa pra lá o quê? Eu?

- Você? Não! Nunca? Você...

- Você o quê? Vamos desembucha... Estou vendo que esse nosso caso não tem futuro! – Faz beicinho e finge chorar.

- Não, não chore, não complique mais essa situação...

- Eu estou complicando “nossa situação”? – Faz que chora ainda mais.

- É que estou sem dinheiro, sem cartão de crédito, sem vale refeição, sem...

- Sem vontade e sem coragem! – completa nervosa.

- Você não entende a minha situação...

- A sua situação, os seus problemas, sempre os “seus” os “seus”, e eu?

- Você está me pressionando...

- Agora eu estou te pressionando! Só falta dizer que essa chuva também é culpa minha... – espirra e chora.

- Pronto! Achei a solução! – dá um tapa na testa e ri.

- Qual foi a sua grande idéia agora?

- Vamos para o hospital, você chega com febre e ficamos no mesmo quarto!

- Que febre? Que febre? Quem está com febre?

- Você. É, ficamos mais um pouco nessa chuva e você pega um resfriado, começa a espirrar, tossir e ficar com começo de pneumonia...

- Acabou! – grita – Chega. Fim. Isso não tem mais futuro, se é que já teve algum. Tanto homem no mundo e fui escolher logo você casado, duro e louco.

- Louco por você.

- Não comece com essa cantada barata, você não vai mais me enrolar, enganar. E pare de me abraçar, sei que isso não é carinho, você quer é se esquentar em mim. – espirra e começa a tossir mais forte ainda.

- Olha lá, olha lá, já está começando a piorar. Logo, logo vem a gripe e depois, com sorte uma pneumonia. Vamos ficar mais um pouco aqui na chuva.

Passa um ônibus e ele a leva ao meio-fio, o coletivo passa em alta velocidade e joga a água da rua nela, pois ele esconde-se atrás dela para não se molhar.

- Viu, agora tenho certeza que você vai piorar bastante.

- Não, não você não é louco, não mesmo. Eu é que devo ser uma insana, uma demente, fico aqui discutindo com você e tomando essa água toda na cabeça quando deveria estar em casa debaixo das cobertas. Pelo menos teria um cobertor para me aquecer... Eu sou uma infeliz mesmo. – chora, espirra, tosse e vira as costas para ir embora.

Ele a segura olha profundamente nos seus olhos verdes (lente de contato comprada em três prestações!) e suplicante diz:

- Espere mais um pouco, veja, olhe, olhe lá – aponta para esquina – veja lá vem outro ônibus...

_ Você espera que eu fique aqui para tomar outro banho? Você quer que antes que eu morra de tuberculose pegue uma difteria? Uma febre amarela? Você é completamente louco.

- Louco por você.

- Conquistador barato. Não presta nem para fingir que é um amante latino. – tosse ainda mais forte, espirra tanto que o falso colar de pérolas que ele a presenteou arrebenta e se espalha pela calçada. –Tá contente? Agora acabou de vez. Não tenho mais nada que me prenda a você!

Ele tenta recolher as falsas pérolas, mas nesse momento passa o ônibus que joga água sobre a calçada levando todas as falsas pérolas para o esgoto. Quando se levanta vê que ela está indo embora, corre atrás. Pega-a pelo braço, e sussurra-lhe ao ouvido.

- Mais uma chance, só mais uma chance. Eu compro outro colar para você, mas me dê mais uma chance.

- Chance de quê? De me matar debaixo dessa chuva? Chance de me presentear com outra bijuteria sem valor? Chance de perder meu tempo? – olha para o relógio de pulso, presente do ex-marido – Que vida a minha. – lamuria-se - O relógio não era à prova d’água. Mas não dou sorte mesmo com homem... – começa a chorar, mas é interrompida por uma série de espirros e tosses.

- O que eu posso fazer para provar que você é realmente importante para mim? Diga que eu faço qualquer coisa para provar. Diga – implora miseravelmente.

Tossindo, espirrando ela põe a mão na testa e constata que agora está com febre.

- Me leve a um hospital. Meus parabéns – diz sarcástica – Agora estou realmente doente – espirra.

2008/02/11

REDENÇÃO

Um rangido de dobradiças anunciou a entrada de um freguês. O balconista olhou para os fundos da taberna e encostou-se no balcão. De dentro da escuridão que habitava o lugar uma voz avisou:

-Cuidado com os cacos de vidro no chão, não vá se cortar com os pedaços de copos aí!

-Bom dia – disse o recém chegado. - Veja-me um rum.

-Bom dia- respondeu o balconista. – e emendou - Sinto muito senhor, mas ainda não estamos abertos para atendimento, aliás, estou ainda fazendo a faxina. – e mostrou a vassoura e uma pá de lixa nas mãos.

- Mas só um copo de rum não vai lhe dar qualquer trabalho e como ainda não está aberto para atender, que chance há de alguém vê-lo me servindo, não é mesmo?

Concordando, o rapaz o serve de uma generosa quantidade de rum e volta para o centro do salão para continuar a limpeza.

- Veja só essa sujeira, não sei como alguém consegue quebrar quase cem copos de cerveja... Olhe só a bagunça que me sobra...

Balançando a cabeça ele continua a varrer e catar os cacos de vidro.

- Veja isso – diz ele para o sujeito ainda encostado no balão sorvendo o rum. Veja só isso.
O sujeito vai até a mesa e vê alguma coisa desenhada no tampo que o faxineiro insistentemente aponta.

-Parece um desenho de um arpão com uma corda, mas com essa escuridão quase não dá para ver direito – comenta enquanto aperta os olhos para ver se consegue enxergar melhor.

-Não, não! Isso não é um desenho qualquer, preste bem atenção nos traços e na tinta, isso aqui não foi desenhado, me parece ter sido tatuado aqui na madeira...

-Ora! Quem faria uma tatuagem numa mesa de bar? - diz o freguês fazendo um muxoxo.

-O senhor não faz idéia do que acontece nesse bar. Me diga se não está - snif, snif, snif - sentindo um cheiro azedo no ar! Parece que alguém anda fumando ópio por aqui...

- Estou sentindo tantos odores aqui..., mas o mais forte é o cheiro de cerveja azeda, e se não estou enganado, até cheiro de sangue. Mas com esse ar parado..! Abra as janelas deixe o sol entrar junto com o ar fresco da rua...

- Não diga isso! A patroa não colocou janelas na taberna para que ninguém de fora veja o que acontece aqui, e não admite que entre luz ou ar da rua. – interrompe.

- Vejo que o senhor tem um bom olfato. Venha aqui ver isso - diz levando o homem até o centro do bar onde uma mesa está suja de sangue, pedaços de roupas e fios de cabelos.

- Me diga. O que o senhor acha disso? Todas as manhãs quando chego aqui encontro todos os tipos de sujeira, mas restos humanos?!? Isso está começando a ficar estranho até para mim. Tenho medo que um dia a polícia bata aqui e me culpe por algum crime. Só Deus sabe como fujo desse tipo de encrenca... - Vejo que o senhor já esvaziou o copo. Aceita mais um gole de rum?

Os dois voltam para o balcão e ele enche novamente o copo do estranho. Continuam a conversar enquanto o rapaz esvazia o lixo no latão que será posto na rua mais tarde.

- Parece que você não gosta de trabalhar aqui. Então me responda por que continua? Não há nada melhor que você deseje fazer?

- Realmente eu detesto isso aqui, mas é isso que eu mereço. Me propus a acabar meus dias fazendo o que não gosto, tenho que sofrer senhor, tenho que sofrer muito e muito... – diz isso e cobre o rosto com as mãos, ocultando uma lágrima. Serve mais rum para o homem no balcão e serve-se de um gole de aguardente. Toma de uma só vez e volta a levantar a cabeça cheirando o ar.

- Alguém está decididamente fumando ópio... O senhor não sente o cheiro? Com a vassoura em punho ele volta a varrer o salão.

- Malditos pombos – pragueja. – Veja só a sujeira que eles fazem, os mágicos não poderiam fazer seus truques com outros bichos...? A platéia aplaude e eu limpo as penas e as fezes...

- Eu vi um cartaz colado ali fora. Ontem foi a última apresentação de um mágico. Como foi o espetáculo? Você assistiu?

- Não senhor, aqui na taberna só entram os convidados da patroa, gente esquisita. Nunca fui autorizado nem convidado a vir aqui à noite, não que um dia eu quisesse... A patroa sempre deixou bem claro que eu nunca deveria vir aqui sem sua ordem e – olhando para os fundos da taverna – nem deixar que ninguém entrasse aqui fora de hora sem sua autorização expressa. – responde o faxineiro tirando com uma espátula as fezes dos pombos coladas no chão e em algumas mesas.

- Mas você me deixou entrar. – comenta o entranho.

- É verdade, mas acho que o senhor veio na hora certa, hoje estava precisado de falar com alguém...

-Já que é assim, então comece me dizendo a razão de você continuar trabalhando aqui, já que detesta esse lugar...
- Estou me punindo. Fiz muita besteira nessa vida e tenho que compensar de alguma forma, e o jeito que arrumei foi fazer os trabalhos mais desprezíveis, mais nojentos e execráveis – e sem conseguir segurar, começa a chorar.

- Mas o que você fez assim de tão terrível? Que crime você cometeu afinal?

Encosta-se no balcão, serve mais uma dose de rum ao freguês e outra aguardente a si mesmo.

- Sabe senhor, sou órfão de pai e mãe. Uns dizem que meus pais morreram logo depois que nasci, já outros que eles sabendo que eu não daria para nada que prestasse, me jogaram na porta de uma velha parteira. Seja como for, fui criado pela velha que me tratou como filho, trabalhando feito uma escrava para me sustentar, educar e fazer de mim um homem de bem, mas... – suspira. Olhe só no que deu. Bebe mais da aguardente. Um dia já adulto, cheio de vícios e cercados de falsos amigos fui roubar a velha, o senhor acredita, fui roubar a velha que me criava como um filho! Ela tentou me explicar que só tinha dinheiro para a comida, que se tivesse mais algum tostão sobrando me daria... Mas nem deixei a velha falar, e tomado pela ira, pela necessidade de meus vícios, dei-lhe um tapa no rosto. Não foi forte, ela nem chegou a virar a cabeça.., mas ficou ali com as mãos sobre o rosto vermelho, e começou a chorar... Vendo aquilo, enraiveci ainda mais, peguei tudo o que pude na casa e saí para rua. O dinheiro que arranjei com aquilo dividi com os amigos, e só voltei para casa dois dias depois.

Sem graça pelas lágrimas que ainda corriam pelo seus rosto, o rapaz volta a varrer o chão. Silêncio. Um suspiro, dolorido e profundo

- Então? Não vai me contar o resto? Vai ficar se escondendo atrás dessa vassoura?

- Quando voltei para casa ela estava na mesma posição, com as mãos ainda cobrindo a face, morta. A coitada morreu de tanto chorar... Parecia uma estátua. Dura. Triste. Nesse dia saí de casa e cai no mundo. Desde então estou purgando esse pecado... O senhor não sabe pelo que já passei... Mas nada do que fiz até agora apagou a minha culpa. Veja onde vim parar...

- Venha me servir outra dose, já está na hora de ir e não quero sair com a garganta seca.

Deixando a vassoura encostada numa mesa próxima ao palco o rapaz volta ao balcão e enche o copo do estranho, quando ouve um guincho agudo vindo dos fundos do estabelecimento. Ele treme e sua de nervoso.

- Acho mesmo que o senhor deveria ir embora. A patroa está chegando e tenho certeza de que ela não gostará de ver o senhor aqui, e pode ainda me despedir ou coisa pior... Aquela mesa suja de sangue me dá arrepios!

O estranho toma seu rum e pede a conta.

- Não precisa pagar, fica por minha conta, há muito tempo que não falava com alguém, já nem lembrava a minha voz, assim ficamos empatados. Pode ir em paz, mas nunca comente com ninguém que o senhor entrou aqui, nunca! – recomenda com firmeza na voz.

- Está certo, esse será o nosso segredo. Você me acompanharia até a porta? Aqui é tão escuro que sou capaz de me perder e não achar a porta, ainda mais com todo esse rum na cabeça – ri um riso meio forçado.

O rapaz o acompanha até a porta, que quando se abre deixa entrar uma forte claridade que até ofusca, e desviando os olhos para o chão ele vê espantado e assustado, a sombra do estranho. Ela começa a transformar-se deixando a forma humana e tomando contorno angelical...

- Quem é o senhor? – gagueja quase em pânico.

O estranho oferece-lhe a mão e diz:

- Venha comigo, seu tempo aqui acabou. Alguém lá em cima intercedeu por você. Não tema mais nada...

Um vento quente bate a porta da taberna e da rua ouve-se o guincho estridente de uma porca furiosa...

2008/02/06

JÚLIA ROBERTS


Voltava para casa outro dia, dia chuvoso, escutando uma musiquinha em meu pen-drive e fumando um charutinho. Desci do ônibus um ponto antes, não por prazer, ou vontade de andar - não!Deus me livre da vontade de caminhar! - Mas com o ônibus cheio e eu perto da porta, acabei sendo empurrado para afora do coletivo antes de meu ponto.

Chovia fininho e mesmo assim acendi o meu charuto e fui indo e me deixando levar pela música que me trazia estranhas lembranças...

Não sei qual a razão que me levou a lembrar de um tio, falecido há muito, muito tempo. Lembrei que ele também fumava, e como eu, também tinha um estomago problemático, problemático a ponte de levá-lo à morte.

Senti até uma comichão na barriga ao lembrar isso, e me desviei do carrinho de pastel que estava à minha frente.

Creio que a lembrança se deveu também à proximidade da casa de meus primos, que moram perto de mim, mas que nunca me visitaram, nem sequer me convidaram para visitá-los quando passo pela porta deles, que teimosamente insisto em cumprimentar, mas vivo sem eles, e vivo bem, só me espantei foi com a imagem desse tio, de seu charuto e da minha dor de estômago.

Acho que comecei já tergiversando, afinal eu queria falar de outra coisa, falar do Júlia Roberts, não, não errei o artigo, não é A Júlia, e sim O Júlia, senão, sigamos em frente para que possam compreender o que digo.

O Júlia Roberts, é o meu galo de especial estimação, um pobre coitado.

A sua desgraça começou logo no seu nascedouro, confundido com uma franga (que é capaz de saber o sexo de um pintinho, recém saído do ovo?), acabou batizado com esse nome; crescido, já um galo, numa briga perdeu o olho direito. Caolho feito um pirata, levava a sua vidinha de galo, cisca aqui, cisca ali, um bichinho aqui outro ali, até que outro galo, um mau-caráter, furou-lhe o outro olho, deixando o pobrezinho cego de vez.

Está lá na área de serviço de meu apartamento, dividindo o espaço com os meus dois cachorros - Sim, eles coexistem em perfeita harmonia!

Comida agora só na boquinha, digo, no biquinho, mas o infeliz, quando sozinho, fica a ciscar o piso frio do chão à procura de comida, dá pena...

Mas o gostoso mesmo é quando, como peito de tenor italiano, ele manda aquele co-co-co-ri-cóóóóóó e bate as asas de satisfação.

Acordo com ele cacarejando pela manhã, uma maravilha que muitos nas cidades não sabem que estão perdendo, pobres vítimas desse mundo moderno que obriga as pessoas a acordarem com despertadores eletrônicos, telefones pré-programados...

Eu sorrio de satisfação e penso nos meus vizinhos, será que eles sabem que o galo que canta está assim tão próximo deles? Eles ouvem o galo cantar, mas não sabem onde...

Julia, depois de muita papinha no bico já está recuperando o seu peso, o viço das penas, a força do canto, e orgulhoso ele mostra aquele papo cheio e satisfeito.

Nesse fim de semana ele volta para a chácara, gordinho e com saúde para cantar seus dós de peito para alegria das galinhas da área e de seu orgulhoso dono, eu!