2007/12/31

Ranzinza Sendo Humano.

À

direita

um

homem

e

seu

cão.





A Menina e o Cachorrinho

Eteleviano acorda alta horas da noite, como todas as noites desde que se descobriu diabético.

__Duas horas da madrugada! - olha o relógio no criado-mudo e levanta-se devagar para não acordar a mulher que tem sono leve. Teve sorte, dessa vez estrado da cama não rangiu - amanhã vou acordar do avesso! – coça a cabeça e como zumbi segue para o banheiro quando ouve um ruído lá embaixo – Quem será? – se pergunta.


Desce na ponta dos pés, tomando cuidado com aquele degrau, quebrado há tantos anos, que um dia, jura, vai consertar de vez.


__Juro que amanhã vou arrumar isso!


Já embaixo, chega à sala e de lá começa a ouvir claramente a voz Alicinha, sua filha de cinco anos, na cozinha.

Ela está falando com o cachorrinho, um pincher miúdo e irritante.


__Você acha certo isso? Acha? – diz apontando o dedinho minúsculo para o não menos minúsculo cachorrinho – Você ouviu o que a mamãe disse? Você vai para a rua, para a rua! Precisava roer as roupas da mamãe? O talão de cheques do papai? – o cachorrinho não entendendo bulhufas, late. – não, não late, psiu! – a menina se arrepia só de pensar no que pode acontecer se a mãe acordar e vê-la lá embaixo. – Quer que a mamãe aumente o meu castigo? Quer?

O pai, ouvindo a bronca da menina no cachorro, morde os lábios para não rir e divertindo-se, esconde-se ainda mais nas sombras para continuar ouvindo a filha fingindo-se de adulta.

Olha só, por sua causa estou de castigo e você dormindo aqui na cozinha. A mamãe falou que vai mandar você embora, ela vai te devolver para a loja, vai te jogar na rua, ameaçou até comer você. Por favor, tome jeito! Olhe só para isso, olhe a casinha que te compramos, o que vamos fazer com ela se mamãe se livrar de você? Posso até usar para brincar com as minhas bonecas, mas e a sua ração? Eu vou ter que comer? Vou? – sem nada entender o cachorrinho continua a latir.

O pai ainda conseguiu segurar o riso, mas dessa vez saiu caro, pois enquanto se mordia para não rir, a calça de seu pijama começa a ficar úmida e quente, deixando no chão uma poça de urina.

__Droga de diabete! – murmura o pai enquanto corre para o banheiro já não se preocupando com o degrau quebrado, que não será consertado amanhã e nem nunca.

2007/12/26

MOMENTO PROPAGANDA!

PAIAÇÃO LENDO
"GRINGA & OUTRAS HISTÓRIAS"


Adquiram logo o seu exemplar.

2007/12/14


COM ESSE POST ENCERRO O ANO DE 2007.

ENTRO DE FÉRIAS APÓS O ALMOÇO, OU SEJA, JÁ COMEÇO EMENDANDO COM O FIM DE SEMANA.

FELIZ NATAL & E UM LUCRATIVO ANO NOVO PARA TODOS.

NOS VEMOS NA SEGUNDA QUINZENA DE JANEIRO DE 2008.

FUI!

Feliz Natal a todos.

Click na foto.



2007/12/13

Sobre Café, Americanos e Dúvidas.

Há duvidas cruéis que me assolam a alma e que me roem o coração, perguntas sem respostas, que por mais que eu pergunte ninguém me responde...

Mas vamos começar do começo, que é sempre o melhor modo de se começar algo!

Vamos a ele.

Diariamente, chova ou faça sol, frio ou calor, nos encontramos na Bolsa Oficial do Café de Santos, somos quase uma fraternidade, um clube fechado de três indivíduos, mais que isso dá encrenca, por que logo pedem, em nome da democracia, o direito de falar e conseqüentemente, discordar.

Três é um bom número!

Lá estávamos hoje tomando nosso sagrado café, sentados em nossa mesa cativa observando o movimento de turistas americanos. Todos já na casa dos sessenta e tantos anos ou mais.

Americanos típicos, grandões e rosados com suas indefectíveis máquinas fotográficas penduradas no pescoço. Falando alto, rindo e para profunda irritação das meninas do atendimento, pedindo café descafeinado!

Só eles mesmos...

Comentava a ironia da situação, o único lugar para se tomar um café decente é na Bolsa, lá o café “É” de verdade, tipo exportação e esses americanos apressados em vez de esperarem o café chegar lá na terrinha deles, vem bebê-lo aqui.

Enquanto eles penduravam-se em volta das mesas, continuávamos com nossa conversa fiada para passar o tempo até termos que voltar ao trabalho, quando entra um que nos chamou ainda mais a atenção.

Vestido de safári, chapéu de lona verde camuflado parecendo um caçador onde só lhe faltava um facão na cintura e um rifle às costas, usando óculos ray-ban, trazendo à tira-colo a esposa, uma velhinha magra com cara de missionária triste e submissa...

A guia turística deveria tê-lo informado que o Brasil não é mais uma selva, pelo menos não totalmente e que ele não precisava vir travestido de “Jim das Selvas” em plena savana africana,.Só faltava aquela telinha de tule, para protegê-lo dos mosquitos e moscas tsé-tsé.

O homem dava a impressão de ter vindo aqui não para tomar café, mas sim para caçar leões, tigres, sabe Deus o que mais, menos tomar um café!

E olhando para os americanos ali expus a supracitada dúvida para o colega ao lado:

__Como é possível que eles dominem o mundo?

Pensando ainda em Jim das Selvas, imaginei aquele americano sendo devorado por plantas carnívoras...

Preciso parar com tanto café!

2007/12/12

UMA QUASE EPIFANIA


Quando andamos pelas ruas, devemos estar atentos, de olhos bem abertos para os sinais que a vida nos envia. Sempre há alguma coisa no cenário urbano (ou rural, dependendo de onde mora o leitor), que destoa de modo bem sutil.

Ora é um cavalo que coça a orelha, já viram um fazendo isso? Ora uma evangélica pregando para uma puta na porta do puteiro.

A palavra puta ofendeu os olhos do leitor?

Desculpe.

Mas quando se ouve uma música chamada Mulher Que Se Disputa, temos que estar preparados para tudo, mas não é disso que quero falar, digo, escrever.

Mas sigamos para eu não me perder em elucubrações outras...

Ontem aconteceu a segunda opção. Estava indo embora para casa quando passo em frente a um dos muitos puteiros que há aqui no centro da cidade, quando vejo uma senhora de coque, saia preta sobre os tornozelos, com uma cara resignada de “Ó Senhor! O que faço em teu nome e por um terreno no paraíso”, entregava um folheto de sua igreja e tentava, creio eu, convencer a moça, (hahahahahaha, sim divago) a largar aquela vida de pecado e devassidão.

Olhei para a cara da profissional do amor e balancei a cabeça com um riso sardônico na cara, que me foi retribuído no mesmo tom jocoso.

Segui em frente e atravessei a avenida, ainda com o riso na cara, quando do nada me surge um senhor baixinho, gordo, careca, quase uma réplica de Buda, não fossem os óculos quadrado na cara e uma pastinha 007 na mão esquerda.


__Eu também era um paviu-curto, briguento e encrenqueiro, até o dia que me disseram que eu não era um sujeito belicoso, era só por demais orgulhoso. Isso mudou a minha vida.


Olhei para o lado, pesando que ele estivesse falando com outra pessoa que não eu, afinal não sou de conversar com estranhos na rua, ou em qualquer outro lugar, quem me conhece sabe bem disso.

Ele continuou com a arenga até que resolvi cortar o assunto com minha peculiar delicadeza:
__Pois saiba o senhor que não sou belicoso nem orgulhoso, sou apenas muito, muito nervoso!

Pois não é que o sujeito sumiu, não posso afirmar que ele sumiu no ar, haja vista ele não ter demonstrado, à primeira vista, ter a capacidade de voar, mas sumiu tão rápido que pensei ter sido uma alucinação.

Seria um aviso?

Se for, aviso de quê?

2007/12/11

Ah! O Natal...


RP gastando por conta dos direitos autorais de Gringa & Outras Histórias














NA TABERNA ”A PORCA QUE RI”




Um marinheiro musculoso de camiseta azul marinho, ruivos cabelos desgrenhados e olhos vermelhos injetados completamente bêbado, estava sentado à mesa esperando pelo centésimo copo de cerveja. À sua esquerda uma viúva chorava e ria enquanto entornava copos e copos de uísque; a sua volta seus parentes mais próximos a acompanhavam bebendo cervejas enquanto uma ou outra lançava olhares lúbricos para ele que, a cada gole olhava aflito para a porta de entrada da taberna. Parecia esperar alguém. Alguém que pela quantidade copos, estava muito atrasado.

Sobre o balcão, na falta de um palco, um mágico dava espetáculo, anunciando que seria esse o ultimo de sua carreira, já que completava nesse dia seu ducentésimo aniversário e se encontrava cansado demais, prometendo a todos que após o espetáculo aposentar-se-ia e sumiria junto com a sua jovem assistente, uma dinamarquesa de vinte e cinco anos de idade. Jovem sim, embora aparentasse setenta e dois anos, dez meses, vinte e dois dias, dezessete horas e quinze segundos...

A dona da taverna, uma senhora gorda, rosada, simpática, rotunda e levemente assemelhada a um suíno, mais guinchava que ria. Um riso agudo e estridente enquanto atendia a freguesia.

Mas assim como o marinheiro, ela também não tirava os olhos da porta de entrada que se encontrava fechada por causa da chuva fina e fria que assolava a rua.

Duas gêmeas cobrindo a boca, escondiam os dentes encavalados e sujos. Riam das piadas que o mágico contava entre um truque e outro, mas na verdade esperavam pelo fim do espetáculo, onde ele iria presentear a assistência com os coelhos que sairiam da velha cartola.

O ar estava turvo de fumaça de cigarros, charutos e do cachimbo de espuma que o velho lobo-do-mar pitava entre um gole e outro de cerveja.

As parentes da velha viúva que não tiravam os olhos de cima do marujo cutucavam-se umas às outras entre risinhos débeis, comentando que poderia ser impressão delas, mas a medida que o marinheiro bebia as tatuagens moviam-se em seus braços.

Os arpões atacavam os dragões, o coração de mãe já não sangrava mais, mas juravam que ele estava soluçando e chorando. Enquanto isso a loira tatuada no braço esquerdo tirava a roupa.

- Uma pouca vergonha! - dizia a mais velha de todas, bebendo mais um cálice de absinto.

Os aplausos para o mágico espantaram os pombos que, saídos anteriormente de seus punhos e pousados sobre os caibros, voaram assustados sobre os fregueses. As gêmeas, numa demonstração de inconcebível agilidade felina pegaram dois deles no ar, arrancando suas cabeças e rindo histericamente, comendo-os como se fossem duas gárgulas famintas.

No canto mais escuro da taberna, sob uma escada, um chinês amarelo e enrugado pelo tempo e pelo vício, fumava ópio e mendigava um copo de bebida.

Lenços coloridos. A assistente serrada ao meio que, diga-se de passagem, não voltou mais ao palco, foi substituída por outra mocinha: uma árabe ruiva que recendia a camelo. Cartas de baralho encardidas, dobrões espanhóis que apareciam atrás das orelhas de velhinhas bêbadas e outros truques baratos, entretinham os solitários freqüentadores da taberna.

As gêmeas olhavam para o relógio e se perguntavam quando os coelhos sairiam da cartola, visto que elas só estavam lá por causa deles.

O marinheiro chegara ao ducentésimo copo de cerveja e começara a ficar tonto. Suas tatuagens enjoadas de tanto álcool saiam de sua pele em direção à porta dos fundos, alcançando a rua e respirarando um pouco de ar puro, correndo o risco de serem apagadas pela chuva.

A fumaça de seu cachimbo misturava-se à do cachimbo do chinês, formando imagens de feras e criaturas fantásticas digladiando-se entre si.

Mas a contenda não foi longe, pois o bater de asas dos pombos assustados pelo rufar dos tambores chamando a atenção dos fregueses para o número final do mágico, as espalhou no ar.

Rindo e salivando, as gêmeas esfregavam as mãos encarquilhadas esperando pelos coelhos que finalmente saíram da cartola. Já nem prestavam mais atenção aos columbinos que passaram em frente à mesa.

Ao fim do rufar dos tambores, todas as luzes se apagaram e um espote de luz vermelha focou o mágico. Ele repetiu que este seria seu último show e que, uma vez aposentado, se retiraria da vida artística, casaria com sua assistente e dedicar-se-ia a escrever suas vastas memórias.

Então tomou da cartola e dramaticamente olhou nos olhos de cada pessoa, em cada uma das mesas. Procurou pelo marinheiro e o viu em sua mesa totalmente bêbado, agora sem nenhuma tatuagem. Olhou nos olhos da viúva que agora nem ria nem chorava, parecendo aliviada de todas as dores. Olhou em direção as suas parentes que antes choravam como carpideiras e que, agora mesmo alcoolizadas, pareciam mais sóbrias que antes. Olhou as gêmeas e vislumbrou a fome que as devorava. Olhou para a dona da taberna cada hora mais e mais rotunda, risonha e rosada. E como já sentindo saudades, olhou com nostalgia para seus pombos que voavam tentando fugir tanto de dentro da taberna como da fome das gêmeas.

O mágico suspirou, pediu silêncio, olhou para dentro da cartola, mostrou à audiência que ela estava vazia, virou-a de um lado para outro, colocou-a no chão, subiu em uma cadeira que havia pedido a uma das gêmeas e, para espanto geral, pulou dentro dela e desapareceu para todo sempre!

Epílogo.

Num átimo, as pombas que ainda revoavam dentro da taverna arremessaram-se para dentro da cartola seguindo seu mestre. As gêmeas furibundas e famintas entredevoraram-se aos gritos e maldições recíprocas. A viúva chorando clamava pelo falecido, que voltando dos mortos levá-a consigo para o além. O marinheiro acorda com os gritos, resmunga e grita impropérios.

Nesse exato momento a porta da taberna se abre e da rua surge uma sereia molhada de chuva. Vendo isso o marinheiro diz:

- Isso lá são horas de você aparecer? olhe isso! – diz apontando para os braços sem tatuagens. - as outras se cansaram de esperar e foram embora.

Com dificuldade levanta-se da mesa derrubando as mais de duas centenas de copos no chão. De tão bêbado tropeça nas próprias pernas e cai junto com os copos.

- Não sei por que ele bebe tanto! – desculpa-se a pobre sereia que, arrastando-se com dificuldade carrega-o de volta ao seu navio ancorado não muito longe dali.

O chinês lá no fundo ri de tudo acendendo outra vez o cachimbo de ópio...

2007/12/06

O ZEN-BUDISMO RESOLVE?


Oito e cinqüenta e cinco.

O tempo passa e logo ela chegará.

Estou aperfeiçoando minha técnica zen-budista de concentração e de desligamento da realidade à minha volta. O meu mestre é severo e cobra caro, mas parece que sou um bom aprendiz, pois às vezes consigo realmente me desligar do mundo, só voltando quando sufoco. Essa é a parte ruim do negócio, me desligo tanto que me esqueço de respirar. Mas logo vou superar essa fase.

Nove horas.

A qualquer momento ela entrará...

Chegou.

__Oluizhumbertovaimorrerelevaimorrerjáestouatévendoquandochegaremcasaànoitevouencontraeleestiradonochãodacozinhaqueueacabeidetrocaropisoeaindaestoupagandoelavaiestarmortomortomasnãopenselelequeporcausadamortedelevoudeixardefazerminhaviagemhanãovoumesmovocêbemsabequejáestoupagandoaviagemfazseismeseseeuaviseiqueseelenãosecuidasseemorresseeulargavaelemortonochãodacozinhamesmoeuatéjáfaleiparaamianhafilhaqueseelemorrernochãodacozinhaeeulargoelelámesmoevouviajar(ela pega o telefone, começa discar e continua falando)vouviajareelequesedanenãosouempregadadelesousouaesposaesposaalôfilhaestouteligandoparadizerqueoluizhumbertoquermorrerevaimorreestouvendoahoraquevouchegaremcasaeencontarelemortonochãodacozinhaagoraqueueacabeidetrocaropisosimaquelepisoclaroquevocêgostoutantolembrapoiséelevaimorrereeuvouviajardequalqqueformaestouteavisandoparadepoisnãodizeremqueeusouissoeaquiloelevaimorrerelenãoquertomarremédionãoquersetratarnãoquercaminharcomigonapraiaelevaimorrereeunãovoudeixardeviajarporcausadeleporfalarnissoprecisoligarparaacostureiraevercomoestáomeuvestidodenoitequeuemandeelafazerparaobaileànoitenonavioeleévermelhocomdetalhesemamarelorosalindolindoigualzinhoovesitodaeduardinhaelaestáai?euquerodarumapalavrinahcomelaafinalelapreicsasaberqueoavôdelavaimorrervaimorrerlánacozinhaqueeutroqueiospioporessesdiashaporqueelefazissocomigomedigaafianalvocêconseguiuaqueleempregoquemestáfalandoorameninaeuestavafalandocomasuamãedizendoqueseuavovaimorrerparedechoraremechameasuamãeentãoestavafalandodovestidovermelhoentãomeninavocêprecisaverquelindoeleémeudeuseuaqiperdendomeutempocomvocêeassimacaboesquendodeligarparaacostureira...

Não sei como acabou a história, lembram-se daquele meu problema com a concentração zen-budista?

Desmaiei e fui retirado da sala, voltando a mim lá na cozinha sob abanos dos colegas, que preocupados teciam comentários sobre minha pressão arterial, taxa de glicose, se teria ou não tomado café antes de sair de casa, se não seria aquele maldito cigarro que eu nunca tirava da boca...

Tudo isso me aconteceu às nove e quinze da manhã e o meu expediente termina às dezessete horas.




Então, munidos de uma calculadora, vejam quantas vezes ainda desmaiarei hoje...




ISSO É O MAR!



…azul, umas vezes claro, noutras escuro, outras ainda chega até a ficar cinza anunciando a tempestade. Então os barcos balançam jogados de um lado para outro, ondas gigantes lavam-lhes o convés, outros, os mais frágeis, afundam, levando suas cargas e seus tripulantes para o fundo, aonde irão se juntar a outros tantos náufragos. Mas o mar não é só tragédia. Não, ele é alimento. É dele que vivemos, é ele que nos alimenta e alimentou também os que vieram antes de você, antes de mim, antes até mesmo do seu bisavô. Quantas maravilhas ele nos proporcionou... As baleias? Sim há baleias sim. Sim, claro que já vi baleias. Enormes... Um pecado sim. Sim caçamos muitas baleias, eu e seu bisavô caçamos muito, mas eu me afastei desse mundo. Sal? Sim, ainda sinto muito a falta do sal.... Como você sabe disso? Do sal? Sim. Sinto muito falta do sal, da areia, das areias finas, das grossas, das que faziam flof-flof-flof quando andávamos nela... flof-flof-flof... Há quanto tempo não pensava mais nisso... flof-flof-flof agora isso não irá sair assim tão cedo de minha cabeça... Se falta muito? Sim ainda falta, fique sossegado, assim você estará muito cansado quando chegarmos lá. Isso fiquei quietinho aí no banco. Prenda bem o sinto de segurança, afinal não queremos um acidente, não é mesmo? O que você perguntou? O barulho do motor e flof-flof-flof na minha cabeça me distraíram. Sim, faz muito anos que não volto para lá, aliás, se não fosse pela sua curiosidade acho que nunca mais voltaria. Essa estrada...! Já nem me lembrava mais dela, nem dela nem do caminho... Pensei que nunca mais voltaria a passar por aqui. Olhe aquela curva, pena que esteja escuro ainda, se fosse um pouco mais tarde você já poderia ver alguma coisa, mas abra, abra a janela, respire fundo, bem fundo e me diga o que cheiro você sente. Como nada? Tente de novo, ponha a cabeça na janela, não precisa ter medo, vou reduzir a velocidade. Nada? Vai ver que ainda está muito longe para você, ou são as minhas lembranças que ainda continuam muito próximas de mim. Na minha idade vá se saber... Olhe aquelas árvores. Bonitas, não? Nome? Manacá da Serra, muito comum por aqui, mas nem por isso menos bonita. O que é isso aqui no painel do carro? Menino você nunca viu uma dessas? Como você foi criado? Isso aqui é uma concha do mar. Sim, elas assim mesmo, duras, para se protegerem dos predadores. Sim, o mar é cheio delas, há de vários tipos, formas e tamanhos... Peixes? É o que mais há no mar. Mas é claro que comeremos peixes... Qual você prefere? Não! Não, se come baleia menino, mas que idéia... Devem ser os genes do seu bisavô se manifestando, hahahaha... Não sei o que é genes e muito menos explicar isso para você. Mas é claro que eu não sei tudo! Mas que idéia menino...! Sim eu sou mais velho, mas só isso, mais velho! Olha a curva, se segura! Muito bem, muito bem. Sim agora já estamos quase chegando. Onde você achou isso? Sim isso na sua mão. Essa é a foto da sua avó. Sim faz tempo que ela morreu... Como? Quem te falou isso? Essa educação moderna... Ela não foi fazer longa viagem coisa nenhuma, ela morreu. Morreu. Todo mundo morre, até eu vou morrer... Onde ela morreu? Bem, isso é meio doloroso para mim... Como? Menino experto! Isso mesmo. Foi por isso que eu saí de lá. Foi numa noite de chuva, lua cheia e maré alta... Olha outra curva, se segura. Agora estamos chegando, mais duas curvas e vamos chegar junto com o amanhecer. Você não está com sonho? Estamos viajando há tantas horas e você aí firme e forte como uma rocha. O que foi que você disse?, hahahahaha... Não é assim que se pronuncia. O certo é genes e não “germes do meu bisavô”. Segura firme olha a outra curva. Muito chegamos. Agora você vai cobrir os olhos com as mãos e só vai abrir os olhos quando eu mandar, ok? Muito bem então. Me dê a sua mão, e ande devagarzinho para não tropeçar em nada. Vamos lá, é um, é dois e lá se vão os três. Pode abrir os olhos agora.


__Menino, isso é o mar!

2007/12/05

AH! O NATAL


Dezembro.

A droga do Natal está chegando com suas luzes, suas músicas, seus sininhos, seus corais, crianças sorrindo angelicalmente feito bobas e fingindo terem sido boazinhas, mães alucinadas fazendo compras, pais alucinados pagando as mesmas...

Lojas com vitrines abarrotadas de ofertas, brinquedos e outras desnecessidades que podem ser pagas em trinta e seis meses...

As ruas enfeitadas, as árvores iluminadas, papais-noéis de plástico ornamentando prédios e casas, falsas neves de algodão cobrindo portas e janelas, homens gordos vestidos de vermelhos usando botas falsas até o joelho que como embriagados, gritam ho-ho-hos, assustando gatos e cachorros...

E o comportamento das pessoas?

Sorrisos amarelos, boa vontade de má vontade, abraços frios, apertos de mãos fracos e úmidos, cartões que nunca deveriam ter sido escritos, presentes que serão trocados, tamanhos errados, cores bizarras, telefonemas burocráticos, visitas indesejáveis, parentes que só vemos nessas épocas, lembrar de amigos que pensamos mortos ou que queríamos esquecer de vez...

Natal?

Bah!

Maldito Natal, que nos faz gastar o dinheiro que dolorosamente economizamos o ano inteiro para trocar o carro ou a TV.

E os presentes que ganharemos?

Gravatas que não usamos, camisas que jamais usaremos, chinelo que detestaremos assim que rasgarmos o embrulho, aquele suspeito vinho argentino da “25 de março”, presente daquele cunhado, e que de tão ruim, não serve nem para lavar chão de bordel, e tem a sogra que veio do interior e que vai querer assistir ao especial do “Rei” gritando com as crianças que fazem barulho correndo pela sala, e sim o velho sogro que dorme estirado no sofá roncando e segurando um pratinho de alguma deixado pela metade e que o cachorro sorrateiramente acabará roubando...

Natal?


E enfim, quando pensamos que somente uma hecatombe nuclear seria uma solução, olhamos o relógio e vemos aterrorizados que falta um segundo para a meia-noite, desesperado, suando frio, olhamos para os lados e constatamos que já é muito, muito tarde e que não há escapatória, não há uma porta ou janela ou buraco no chão da sala para nos jogarmos dentro e que rindo e cantando e balançando os braços feito zumbis radiativos foragidos de um filme B, os parentes da sua mulher, feito uma avalanche catastrófica (já agora um filme-desastre C), vem nos abraçar e desejar Feliz Natal, dando-nos tapinhas nas costas, beijos melados e, pode ser paranóia, mas você sente que seu cunhado tentou bater sua carteira, e em meio a balburdia, o sogro, que estava “anestesiado”, começa a xingar todo mundo, porque atrapalharam o sono dele.

Na rua começam os fogos e o cachorro em pânico, corre para debaixo da mesa, puxando a toalha, que dizem ser da avó de sua sogra, derrubando a comida no chão...

Mas isso ainda não acabou...

Em uma semana, sentiremos que o Natal foi só o começo da tortura, sim, isso mesmo, em uma semana, vem o Ano Novo!

Então uma furtiva lágrima corre pelo seu rosto e você resignado acaba aceitando uma taça daquele vinho que seu cunhado lhe presenteou...

2007/12/04

JEREMIAS




Dezenove horas, está escuro e Jeremias, encostado no muro de sua casa mira o mar, que por já estar perto do inverno, está bravo. O barulho das ondas enche o ar, e gosto do sal chega à sua boca. Jeremias fuma, e solta uma longa baforada azul, deixando uma névoa bem particular à sua volta.

Estrelas brilham no céu azul e frio, alguns vaga-lumes renitentes ainda voam tontamente, talvez despedindo-se uns dos outros e comprometendo-se a se verem no próximo verão, ri e pensa Jeremias envolto em uma nova baforada.

De repente Jeremias fixa o olhar lá longe no mar (o que vê Jeremias?).

Ele coça a cabeça, pigarreia, dá outra baforada e força ainda mais o olhar, tentando ver a forma ainda sem definição no mar.

Ele pensa ser uma gaivota perdida de seu bando, - o som não é de gaivota – diz para si mesmo Jeremias.

Enquanto pensa nisso, Jeremias dá mais uma baforada, longa, bem longa e solta a fumaça lentamente, e outra névoa levemente azulada se forma ao seu lado.

Uma mancha branca aproxima-se dele voando, e como um raio, raspa-lhe a cabeça e quase arranca-lhe as tranças rastafari e grita:


__Abunda-me de ti,ó Senhor!


Jeremias, assustado sente a terra tremer sob seus pés descalços, ao olhar para cima procurando pela gaivota ele vê as estrelas tremeluzirem e começarem a se apagar, os vaga-lumes como num arco-íris em espiral sobem para o breu celeste e desaparecem também, aterrorizado com toda essa escuridão, Jeremias expira toda a fumaça de seu peito, joga fora o seu cigarro e pensa enquanto é envolvido pela azulada névoa:

__Preciso parar de fumar essa droga! - jogando o cigarrinho fora ele corre para a praia.


Entra n’água até a altura dos joelhos, olha para trás assustado procurando pela ave e mergulha. Enquanto o corpo afundava n’água ainda ouve a gaivota gritar outra vez:

__ Abunda-me de ti,ó Senhor! – e dava outra rasante desenhando um risco n’água a procura de Jeremias.

Jeremias ficou no mar até o amanhecer quando o bando de gaivotas voltou com seus gritos anárquicos e estridentes, mergulhando no mar a procura de peixes, abafando assim os gritos da gaivota catequista que voando em círculos, ainda gritava:

__ Abunda-me de ti,ó Senhor!