2007/11/28

QUEM É O MELHOR?

Drama Relâmpago na Hora do Almoço



Cenário: UMA CAFETERIA DO CENTRO DA CIDADE.


Tempo: HORÁRIO DO ALMOÇO.


Personagens:
1 - Leovaldo Cruz, fã incondicional de Clarice Lispector
2 - Estampido da Silva, fã incondicional de Murilo Rubião
3 - Cirineu do Brejo Jr., estagiário, adolescente e iletrado.
4 – Mocinha do café, que não aparece, não fala, e vê tudo de longe, morrendo medo dos três.




Na cafeteria, os três discutem acaloradamente, incomodando até os outros freqüentadores.

Leovaldo Cruz __Ora sua besta, o que você entende de Clarice Lispector? Sabia você ela ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos? Que ela talvez muito a contragosto costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia? Jamais se deixava ver, evitava ser transparente? - Interrompido.

Estampido da Silva__ Você e essa tara pela Clarice, para mim isso é uma homossexualidade enrustida... – interrompido

Leovaldo Cruz __Você está querendo dizer o quê com isso? – engasga-se com o pão de queijo - Vamos seja claro, o que você está querendo dizer? Você sim é um monstro enrustido, com essa tara mal-resolvida com dragõezinhos... – interrompido.

Estampido da Silva __O que você está dizendo? O que você está dizendo sua besta sem imaginação? Leitor de livros de auto-ajuda feminina...

Leovaldo Cruz __Auto-ajuda de quê? – fala babando-se com o café quente que lhe mancha a camisa e queima-lhe o peito. – Sua besta! Agora queimei meu peito e sujei a camisa!

Estampido da Silva __ Vamos, fale mal de dragões... – ri. Ah! Se a sua musa ao menos chegasse aos pés do Mestre, ouça isso – levanta-se e de pé põe-se a falar: - Ao ler seus contos, qualquer conto, tente “Teleco O Coelhinho”, uma pessoa normal e sensível se deixa levar por uma certa estranheza que vai apoderando-se de nosso espírito e sentimos que ali há algo mais profundo, do que a princípio podíamos supor. Sim o Mestre nos leva a outro mundo, um mundo onírico, maravilho e um quê sorumbático, é verdade, mas um mundo todo próprio, não esse mundinho de “minhas queridas leitoras...” – interrompido com um pão de queijo enfiado na boca.

Leovaldo Cruz __Sua besta metida a mística, criador de coelhinho mágicos, você deveria ter sido incinerado por seus dragões de estimação. – interrompido pelas mãos de outro em seu pescoço.

Estampido da Silva __Ora sua besta criadora de baratas que não morrem seu ignorante perdido em labirintos – chacoalha o desafeto enquanto cospe os pedaços de pão de queijo.

Leovaldo Cruz__ Clarice é fenomenal, fantástica, gigantescamente maravilhosa, engajada nas dores da realidade palpitante de vida... – interrompido com um murro na cara que chega a tirar-lhe sangue da boca.

Estampido da Silva __Murilo é o senhor da ficção, uma ficção arraigada e ancorada nos absurdos dessa vidinha de bosta que vivemos. Quem é funcionário público como eu e já leu “O Ex-mágico da Taberna Minhota" sabe o que ele está dizendo, seu animal - interrompido por um suspiro, justo quando estava prestes a jogar uma cadeira sobre Leovaldo Cruz.

Os dois param de brigar e olham espantados para Cirineu do Brejo Jr. sentado à mesa com eles, que os olha com expressão aparvalhada, como se estivesse testemunhando uma discussão entre dois marcianos.

Estampido da Silva__ Rapaz – fala para Leovaldo Cruz, eu já havia me esquecido dele...

Leovaldo Cruz__ que sacanagem de nossa parte, ele não entende abacate do que estamos discutindo...

Estampido da Silva__ Olha a cara dele.

Cirineu do Brejo Jr. continua olhando para Estampido da Silva e Leovaldo Cruz aparvalhado e assustado.

Estampido da Silva__ Só há meio de inseri-lo no contexto – cochicha no ouvido de Leovaldo Cruz.

Leovaldo Cruz__ Tem razão, não sei porque teimamos em trazê-lo conosco para tomar café.

Juntos eles perguntam a Cirineu do Brejo Jr:

Estampido da Silva e Leovaldo Cruz__ E aí cara, tem comido alguém ultimamente?



Cai o Pano.

2007/11/26

Me Tira Desse Lugar.


Passava com meu carro por uma rua dessas do subúrbio, quando vi um jovem casal namorando. Estavam sentados em um banco de praça, sim namoravam em um banco de praça, como acontece desde que o mundo é mundo e desde que existem bancos em praças.

Pela janela do carro, numa fração de segundo, vi que o casal estava abraçado, o rapaz, moleque novo, olhava para o nada lá longe e a mocinha ainda mais jovem de cabelos longos, cabisbaixa e triste, com a ponta do sapato cutucava o chão procurava algo, talvez um buraco para se enfiar e lá se esconder para todo o sempre.

Quando vi a triste cena, comecei a imaginar uma conclusão para essa história:

A menina está triste, ela quer ir embora desse lugar, desse fim de mundo que é o subúrbio onde mora.

Ela pede ao namorado:


__Me leva daqui, me tira desse lugar, me roube da casa de meus pais e mas leve daqui! – Começa a soluçar e chorar baixinho, enxugando as lágrimas nos sedosos e negros cabelos.


Ela não tem outro sonho que não seja o de sumir dali, mas o rapaz penso eu, explica que o que ganha no emprego de ajudante, não esclarece para a menina ajudante de quê, não pode nem se sustentar, quanto mais sustentar a eles dois, tenta fazê-la entender, mas...

Acho que cheguei tarde e quando os vi, já haviam dado um fim ao namoro, aos sonhos e ilusões, por isso ele olhava para o nada e ela para o chão.

No olhar desolado dos dois eu parecia ler uma placa dizendo:

Não há futuro no subúrbio! (com ponto de exclamação mesmo)

Mas posso estar somente divagando, afinal passei voando pelo casalzinho a cento e vinte quilômetros por hora. Talvez estivessem só decidindo onde passar o resto do domingo, se num shopping ou passeando de mãos dadas pela praia...

Sei lá o que decidiram, mas eu preciso parar de divagar desse jeito...


2007/11/23

video

2007/11/22

Descobri hoje que tenho um amigo atirado....


2007/11/20

Meu Amigo Roberto


ABRAÇO



Centro da cidade, as pessoas, como no mar, que em ondas vem e vão, vem e vão, entre carros buzinando, motos dando fininhas, fumaça de óleo diesel e camelôs nas calçadas.

Na indiferença dos anônimos, entre pobres velhos desempregados vestidos de placas de “compra-se ouro”, “dentista a preços populares” e outras “ofertas”, um infeliz se destaca na paisagem com um estandarte que diz:


“ME ABRACE”


Esse homem olha dentro dos olhos das pessoas e sorrindo, oferece-se para estreitá-las em seus braços, nada mais pedindo em troca que um outro abraço, forte, quente e sincero.

Mas qual o quê?

Fosse ele um leproso não causaria tão horror, tanta repulsa.

No anonimato suicida e desumano das cidades, as pessoas não têm tempo de, não tem vontade de, não percebem a necessidade de um carinho, de um pouco de afeto, de um simples abraço.

Ao fim do dia, o homem triste vai embora ser ter dado, ou quiçá, ter recebido um único abraço.

E a cidade anoitece ainda mais fria. (que pena)

Divina Dália do Nascimento fala com Luizão Roza-Carmim



Hobbs Nietsch – Boa noite senhores ouvintes

Lindomar Orlando – Boa noite senhoras ouvinte. Essa noite temos como convidada, digo convidado, digo, temos a presença de Luizão Roza-Carmim, conversando com vocês queridas ouvintes ouvindo seus mais profundos segredos e problemas...

Hobbs Nietsch – Estamos com as nossa, digo, com a nossa linha liberada. Podem ligar.

Lindomar Orlando – Não se esqueçam esse programa tem o patrocínio exclusivo da Casa do Norte e Pertences para Feijoada “Pepe-Manolo & Hijos”, a “casa que alimenta corpos e espíritos”.

(Toca o telefone)

Hobbs Nietsch - Já temos na linha o primeiro ouvinte

Lindomar Orlando – Ou primeira ouvinte. Alô! Pode falar.

Hobbs Nietsch – Poderia declinar o seu nome?

Divina Dália dos Nascimento – (voz de telefone) - Divina Dália dos Nascimento, essa sua escrava. Ai estou tão emocionada de falar com vocês que até esqueço as minhas misérias...

Luizão Roza-Carmim – (afetada/o) - Ai minha querida não precisa se emocionar tanto assim. Afinal somos apenas meros mortais como todo mundo, assim igualzinhos a você. Não nos vejas como entidades superiores acima de vocês reles mortais. “Come on”. Vamos pode abrir seu coraçãozinho comigo, sou todo, digo toda ouvidos para você, desabafa meu anjo, desabafa....

(BG Música muito triste)

Divina Dália dos Nascimento – (chorosa) – Ai meu Deus por onde começar...?

Luizão Roza-Carmim – (irritada/o) - Do começo minha senhora, do começo facilitará mais a nossa vida, a senhora não acha?

Divina Dália dos Nascimento – (se recompondo) - Tudo começou ontem, foi mais ou menos assim: O meu marido voltou cedo do trabalho, abriu a porta da cozinha e me encontrou de quatro limpando o chão. E eu está vestida apenas com um avental! Quando ele meu viu assim, como dizer, quase nua e me balançando no ritmo da escova de chão ele feito um tresloucado, não tem dúvida, oh! Meu Deus que vergonha eu tenho de ter de dizer isso... ( aumenta a música triste) ele abaixou a calça e me possui ali mesmo! Depois de alguns minutos ele explode num orgasmo (Aumenta ainda mais a música)

Luizão Roza-Carmim ( em off) - Isso é que é homem!

Divina Dália dos Nascimento (chorosa) Mas em seguida, ele me deu uma surra mulher.
Hobbs Nietsch – (indignado) Mas que bruto! Que estúpido! Que animal!

Lindomar Orlando – (chutando a cadeira) – Salafrário! Beócio! Apedeuta de uma figa!

Luizão Roza-Carmim (excitado/a) - Que homem, que homem... Mas o que a senhora falou, como a senhora reagiu??

Divina Dália dos Nascimento (chorosa) - Eu tentei entender o que estava acontecendo, eu me perguntava “mas o que foi? Será que ele estava maluco? Eu fico aqui pronta para satisfazer suas fantasias, me entrego sem falar nada e ele ainda quer me surrar?” (chora copiosamente) (aumenta a música triste)

Luizão Rosa-Carmim (indignado) - Posso perguntar pelo menos porque ele estava lhe surrando daquele jeito?

Divina Dália dos Nascimento (Chorando histérica) Meu marido olhou para mim com ar zangado e respondeu: (pausa dramática) (música de mistério) – (arfando) “ Você nem se virou para ver quem era!” Eu não suporto mais o ciúme dele, não agüento mais isso meu Deus!!! Por favor Boneca me ajude, dê-me seus doutos conselhos para esse pobre coração atormentado.

Hobbs Nietsch – Sim Boneca, digo, Luizão, o que você pode dizer para essa pobre criatura...? Aliás a senhora já foi à Delegacia da Mulher prestar queixa contra esse salafrário?

Divina Adália do Nascimento (brava) O senhor é louco, vou dar queixa de um homem como esse que me ama e demostra isso a toda hora??

Lindomar Orlando (em off) - Já começou... Estava demorando... Ninguém em seu juízo perfeito liga pára nós?

Luizão Roza-Carmim _ Querida Divina Dália do Nascimento, o que eu posso dizer para uma mulher que é tão amada, tão desejada, que mesmo suada, suja de poeira, com os cabelos desgrenhados, os pé sujos e calcanhares rachados, com brotos de samambaia nascendo nas gretas, e que mesmo assim ainda é desejada pelo marido que chega cansado do trabalho, que passou o dia cercado por mulheres lindíssima e cheirosas, e ainda assim nesse estado é desejada e amada?? (se alterando) Francamente minha senhora, em vez de perder seu tempo e o meu, telefonando para cá, vá cozinhar para esse santo, vá a uma salão de beleza lixar esses pés de chacareiro, tome um banho e faça juz ao bom marido que tem. (gritando) ...e quer saber mais?, a senhora apanha é pouco, se fosse comigo a senhora ia ver só...

Hobbs Nietsch (interrompendo) - Técnica, técnica, um copo d’água com açúcar aqui para a boneca. Ela se descontrolou, rápido técnica...

Luizão Roza-Carmim (histérica) – Me segura, me segura que eu vou ter um troço.... Chama o Fausto Hecatombe para me socorrer.... Ai que vou enfartar...

Lindomar Orlando - (rindo) - Interrompemos momentaneamente as nossas transmissões, voltaremos logo que resolvermos esse problema técnico.

(baixa a música riste)

(estática)

Este e outros textos, foram escritos por mim e o Sr. Alexandre Costa para um programa de rádio que jamais foi realizado.

2007/11/14

O MORTO.


Estavam todos chorando.

No velório o cheiro dos círios com perfume de alfazema das velhas empestava o ar.

Uns choravam discretamente, outros dando espetáculo, lá no bar o cunhado fazendo truques de mágica para entreter as crianças e bebendo o morto.


__Velha tradição de nossa família. - dizia entre um copo e outro seguido de uma cusparada no chão.


Lá no caixãozinho humilde, o cadáver descansa, talvez contando os minutos para o enterro, na plena certeza de nunca mais ouvir choros, lamurias, adeuses. Mas o incomodava mesmo era o: __ “Oh! por que aconteceu isso comigo meu Deus?” – gritado pela viúva, uma senhora de seus cento e tantos quilos. – quando o morto ali era ele.

Deitadinho, duro, com algodões nas narinas e gaze segurando a boca, como se ele ainda fosse falar mais alguma coisa com alguém nessa vida.

Pensava com os botões do terno de seu casamento que já ia tarde.

Quarenta anos de casamento com Dona Mocréia, suas duas irmãs viúvas e um cunhado ex-vendedor de enciclopédia e bicheiro, elas sempre vestidas de preto como dois urubus, ele vestido de fraque e cartola, comprado num brechó e o papagaio da família, herança da avó deles.

Estava morto e estava muito feliz, tão feliz que se pudesse iria sozinho para o cemitério, cavaria a própria cova e lá deitaria, esperando ansioso pelos vermes que lhe dariam o fim definitivo!

Mas a cada minuto, mais choros, mais lágrimas, mais ranger de dentes. No velório ao lado não havia quase ninguém, o pobre do falecido estava lá abandonado, com as moscas voando em volta de seu nariz, feliz da vida, enquanto ele não tinha sossego nem no próprio velório...

Ele queria dormir em paz o seu último sono, será que ninguém compreendia isso?

Dona Mocréia, esse não era o nome da viúva, sim o apelido que ela carrega desde, desde, desde quando mesmo?, ele já nem recorda mais, estava sendo consolada pelas “Filhas de Maria” de sua igreja, pelas senhoras tão viúvas e velhas e gordas como ela, e a cada abraço mais lágrimas, mais “aisporquemeudeus”.

E em coro todas respondiam:

__Foi a vontade de DEUS!

Ele se ria todo por dentro...

Quatro horas da tarde, enfim, chegam os funcionários que o levarão para o cemitério. Enquanto levantam o caixão, Dona Mocréia desmaia e suas irmãs a abanam com leques espanhóis cheirando a mofo, o que complica um pouco mais a situação.

O esquife é posto no carro e segue.

E quando o caixão desce à terra, o defunto dá pela falta do anel de ouro de formatura, seu único bem.


__Meu cunhado! – ele pensava enquanto a terra era jogada sobre o ataúde.

2007/11/13

Em breve mais informações.


2007/11/06

Cafézinho após o almoço....


VOCÊ VAI MORRER!



Em meus delírios recordo a voz que diz:

__Você vai morrer, vai morrer sim e com muita dor e febre...- dizia o turco para o meu amigo, enquanto ele lavava meus pés com cachaça, na falta de remédio melhor. – onde já se viu pisar em cima do mesmo bagre duas vezes?

Meu amigo olhava para mim com os olhos baço de álcool.

Era a terceira vez que nós voltávamos ao seu bar para fazer curativos em mim, a primeira foi quando, depois alugarmos seu barco para pescar, erramos o uso da pedra que ele, o turco, usava a guisa de âncora, e ficamos girando em volta do próprio eixo até virarmos o estômago e vomitarmos n’água, estragando a pescaria.

A muito custo puxamos de volta a “âncora” de volta ao barco e fracos e tontos, nos deixamos levar pela maré alta...

Mas isso é outra história, voltemos ao bar e aos meus machucados...

Cansados da pescaria no mar e ainda meio verdes de enjôo, resolvemos então pescar em cima do trapiche (como odeio essa palavra!) que ficava de frente ao bar do turco, o que facilitava consideravelmente o consumo de cervejas e caipirinhas.

Estávamos sentados, preparando os anzóis, as carretilhas e de quando em quando passando cachaça nas minhas pernas arranhadas pelas cracas do trapiche (ah! essa palavra!) de onde eu cai enquanto amarrava o barco, mas isso ainda é outra história.

A perna estava uma beleza, lanhada, sangrando e pior, doendo pra burro.

Como dizia quando comecei a divagar, agora íamos pescar em terra, que me parece ser mais seguro, para pessoas que nasceram com essa inclinação para esportes marítimos....

E lá estávamos rindo e jogando o anzol, e bebendo, e jogando o anzol e bebendo, até que por fim uma beliscada na linha!

Puxamos, rindo de alegria:

__Um peixe, um peixe!

Puxamos a linha e qual não foi a nossa decepção, um mísero bagre, um mísero e acanhado bagre...

__Peixe é peixe!

Colocamos o infeliz num saco com água e voltamos à carga com as cervejas e caipirinhas.

O dia passava bestamente. Nada mais de beliscadas, nada mais de fisgadas, os peixes nem passavam perto de nossas iscas. Bate o desassossego. O sol estalando em nossas cabeças...

Já que nada vinha para o anzol, nem bota como em filmes de hollywood, resolvemos ir ao bar do turco. Então enquanto me levanto mais tonto ainda agora com a canícula, piso no saco d’água e o bagre prende-se firmemente em meio calcanhar.

Que dor, que dor, eu pulava e o peixe se sacudia preso ao pé erguido. Pulando fomos ao bar, meu amigo ia à frente aos gritos de:

__Olha o ridículo novo dele agora....

Colegas de pescaria, humpf!

O turco veio apressado, apressado até onde suas pernas tortas assim o permitiam, me socorrer.

__O menino já pensou em parar de pescar? Se continuar assim, você ainda vai morrer – dizia isso balançando a cabeça enquanto jogava aguardente no meu calcanhar esquerdo. Uma boa parte da garrafa já havia sido despejada nas pernas, e agora outra boa parte nos pés.

__Um desperdício, um desperdício... – chorava meu companheiro de pescaria enquanto virava uma lata de cerveja goela abaixo.

Obstinadamente voltamos ao trapiche. Lança isca, espera e o sol na cabeça, mosquito picando, latinhas de cerveja sendo esvaziadas e nada de peixe. Coçando a cabeça chegamos à conclusão que é melhor pararmos com essa tradição de “Pescaria de Primeiro de Ano”.

__Isso não dá mais certo.

Enquanto concordamos, sentimos uma beliscada na linha, puxamos e o quê vemos?

__Caraca! Outro bagre?

__Peixe é peixe! – e o peixe foi para o saco junto com o outro.

Bate o desânimo, a vontade de ir embora impera, as pernas arranhadas doem e o pé esquerdo inflamado, e só dois míseros peixes no saco...
De comum acordo resolvemos dar o fora de lá.

__Chega!

Recolhemos o material, limpamos o trapiche, meu Deus que palavra, que palavra, e vamos nos levantar do chão para ir tomar a última cerveja quando piso no outro bagre, o fresquinho, recém-pescado.

Segue aquele mesmo grito doloroso, e largando tudo, corremos para o bar do turco com o meu pé sangrando, agora o direito.

__Você vai morrer, agora tenho certeza que você vai morrer – dizia o turco com os olhos marejados de piedade por mim...

Deliro...




2007/11/01

MEU ALMOÇO COM O Sr. AC

Essa não é mentira, podem perguntar ao Sr. Alexandre Costa.

Marcamos de almoçar no, não, recuso-me a fazer propaganda gratuita desse lugar, ao meio-dia. Lá nos encontramos à porta, e fomos arrumar uma mesa. Sentamos, e começamos o suplício de implorar a atenção de um garçom. Uma vez atendido, até que não demorou tanto assim, fizemos os nossos pedidos. O Sr. Alexandre pediu dois pastéis de carne, nada mais óbvio, nada mais simples, nada mais primário, “pastel em uma pastelaria”. O outro colega, um hambúrguer, e eu, que tinha que complicar tudo, pedi dois míseros bolinhos de bacalhau.

Vieram as cocas geladas, mas em copos curtos e pequenos, os dois pastéis do Sr. Alexandre, o hambúrguer do colega, e nada de meus bolinhos.

Começo a gesticular tentando chamar a atenção do garçom, delicadamente levanto o dedo indicador, olho nos olhos dele, e nada, começo então a balançar o braço discretamente, quando ameaço levantar e pegá-lo pelo pescoço ele aproxima-se de nós e diz:

__O bacalhau já está saindo!

Pensei inocentemente, que “os bolinhos” então já deveriam chegar logo, sentia a água na boca. Mas pela demora, o bacalhau “estava saindo” mesmo, pegando o ônibus ali na praça e...

Mandei suspender o pedido e me trazer um sanduíche de peito de peru. Na mesa os dois já haviam terminado os seus lanches e pediam mais pasteis.

Passa mais um tempo e chamo o garçom e pergunto pelo meu sanduíche de peito de peru, ele me responde:

__Já está saindo.

Juro que vi “a ave galiforme do gênero meleagris” batendo as asas e indo encontrar-se com o bacalhau alhures. Desesperado vejo o outro garçom servindo na mesa ao lado um prato com três sanduíches de rosbife, peguei o garçom que nos atendia e disse:

__Desisti do peru e me trás aquele sanduíche, deve ter um pronto lá balcão. –Acho que já estava com os olhos mareados, meus colegas de mesa começavam a rir e dizer que o problema era comigo, essa minha cara de antipático ou era a cor da camisa vermelho vivo que estava usando.

Passou mais um tempo.

Nada de sanduíche.

Era já era hora de voltar ao trabalho, saímos de lá e fomos tomar o nosso sagrado cafezinho pós-almoço – que almoço?

Ainda me pergunto...

Enquanto escrevo essas linhas, penso no que vou devorar ao chegar em casa hoje à noite.