QUEM É O MELHOR?
Drama Relâmpago na Hora do Almoço
Cenário: UMA CAFETERIA DO CENTRO DA CIDADE.
Tempo: HORÁRIO DO ALMOÇO.
Personagens:
2 - Estampido da Silva, fã incondicional de Murilo Rubião
3 - Cirineu do Brejo Jr., estagiário, adolescente e iletrado.
4 – Mocinha do café, que não aparece, não fala, e vê tudo de longe, morrendo medo dos três.
Na cafeteria, os três discutem acaloradamente, incomodando até os outros freqüentadores.
Leovaldo Cruz __Ora sua besta, o que você entende de Clarice Lispector? Sabia você ela ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos? Que ela talvez muito a contragosto costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia? Jamais se deixava ver, evitava ser transparente? - Interrompido.
Estampido da Silva__ Você e essa tara pela Clarice, para mim isso é uma homossexualidade enrustida... – interrompido
Leovaldo Cruz __Você está querendo dizer o quê com isso? – engasga-se com o pão de queijo - Vamos seja claro, o que você está querendo dizer? Você sim é um monstro enrustido, com essa tara mal-resolvida com dragõezinhos... – interrompido.
Estampido da Silva __O que você está dizendo? O que você está dizendo sua besta sem imaginação? Leitor de livros de auto-ajuda feminina...
Leovaldo Cruz __Auto-ajuda de quê? – fala babando-se com o café quente que lhe mancha a camisa e queima-lhe o peito. – Sua besta! Agora queimei meu peito e sujei a camisa!
Estampido da Silva __ Vamos, fale mal de dragões... – ri. Ah! Se a sua musa ao menos chegasse aos pés do Mestre, ouça isso – levanta-se e de pé põe-se a falar: - Ao ler seus contos, qualquer conto, tente “Teleco O Coelhinho”, uma pessoa normal e sensível se deixa levar por uma certa estranheza que vai apoderando-se de nosso espírito e sentimos que ali há algo mais profundo, do que a princípio podíamos supor. Sim o Mestre nos leva a outro mundo, um mundo onírico, maravilho e um quê sorumbático, é verdade, mas um mundo todo próprio, não esse mundinho de “minhas queridas leitoras...” – interrompido com um pão de queijo enfiado na boca.
Leovaldo Cruz __Sua besta metida a mística, criador de coelhinho mágicos, você deveria ter sido incinerado por seus dragões de estimação. – interrompido pelas mãos de outro em seu pescoço.
Estampido da Silva __Ora sua besta criadora de baratas que não morrem seu ignorante perdido em labirintos – chacoalha o desafeto enquanto cospe os pedaços de pão de queijo.
Leovaldo Cruz__ Clarice é fenomenal, fantástica, gigantescamente maravilhosa, engajada nas dores da realidade palpitante de vida... – interrompido com um murro na cara que chega a tirar-lhe sangue da boca.
Estampido da Silva __Murilo é o senhor da ficção, uma ficção arraigada e ancorada nos absurdos dessa vidinha de bosta que vivemos. Quem é funcionário público como eu e já leu “O Ex-mágico da Taberna Minhota" sabe o que ele está dizendo, seu animal - interrompido por um suspiro, justo quando estava prestes a jogar uma cadeira sobre Leovaldo Cruz.
Os dois param de brigar e olham espantados para Cirineu do Brejo Jr. sentado à mesa com eles, que os olha com expressão aparvalhada, como se estivesse testemunhando uma discussão entre dois marcianos.
Estampido da Silva__ Rapaz – fala para Leovaldo Cruz, eu já havia me esquecido dele...
Leovaldo Cruz__ que sacanagem de nossa parte, ele não entende abacate do que estamos discutindo...
Estampido da Silva__ Olha a cara dele.
Cirineu do Brejo Jr. continua olhando para Estampido da Silva e Leovaldo Cruz aparvalhado e assustado.
Estampido da Silva__ Só há meio de inseri-lo no contexto – cochicha no ouvido de Leovaldo Cruz.
Leovaldo Cruz__ Tem razão, não sei porque teimamos em trazê-lo conosco para tomar café.
Juntos eles perguntam a Cirineu do Brejo Jr:
Estampido da Silva e Leovaldo Cruz__ E aí cara, tem comido alguém ultimamente?
Cai o Pano.




