A sessão já começara, na tela o morto, frio, esperava a chegada da polícia, o corredor escuro, vozes xingavam enquanto o casal passava pedindo “lincença-licença-lincença”, derrubando pipoca e refrigerante.
Conseguiram um lugar nas últimas poltronas, no fundo, mais escuro, sentaram-se.
E começaram a sessão de beijos e não viram ao filme.
2007/10/31
2007/10/23
AS PITONISAS HODIERNAS
Dizem que o dinheiro não traz felicidade, nem compra o amor.
Será verdade?
Senão, vejamos essa propaganda que está colada em todos os postes da cidade, em qualquer bairro, seja ele pobre, miserável (o que mais tem) ou rico.
Parece que independente da classe social do indivíduo, o amor não está fácil.
Quando começamos a precisar de ajuda de cartomantes e outras formas heterodoxas de auxílio para encontrar a cara-metade, o outro pedaço da laranja, acho que a vaca foi para brejo.
Tento imaginar a cara da pessoa entrando no consultório (?)\ barraquinha de lona colorida (?) ou seja lá o que for que a tal vidente do amor use como ponto. Lá está o coração solitário, olhos fundos, pálida\o, mãos tremendo e suadas na mão calejada e cheias de anel de pedras falsas, correntes de ouro, também falso, lenço encardido na cabeça com cabelos tingidos de preto da dita vidente.
Sim a pessoa, tem que estar muito, mas muito desesperada mesmo para se sujeitar a isso.
O houve que com o nosso mundo?
Não me espanto com a propaganda de vidente de amor, videntes que ajudam a ganhar dinheiro (que vontade de tentar...), videntes que enxergam o futuro, nada disso é novidade, elas existem desde que o mundo é mundo.
Mas eu esperava que com o tempo, com a tecnologia, com a facilidade de comunicação, as pessoas se tornassem mais céticas a esse respeito. Só que em vez do ceticismo, tornaram-se cínicas umas, e mais burras outras.
Por favor, não percam tempo com essas falsas pitonisas hodiernas, saiam mais à rua, conversem com seus vizinhos, saiam de seus casulos de egoísmo, e dêem ao próximo a chance de se aproximarem de você.
Quem sabe o amor está ao seu lado e você ainda não percebeu. Aplique o dinheiro que você depositaria nas mãos da velha bruxa em um cinema, uma lanchonete, e quem sabe se tiver sorte, num motel?
Como já cantava o velho George Harrison: O AMOR CHEGA PARA CADA UM.
Pensem nisso.
2007/10/22
2007/10/18
A REVELAÇÃO
Não sei como não percebi antes, devia estar ali na minha frente sempre, eu nunca vi, nunca dei conta, até aquele dia.
Espantei-me, consegui disfarçar bem, mas espantei-me sim, e por pouco não bati o carro.
Sim eu estava dirigindo.
A avenida estava cheia, mais um daqueles engarrafamentos matinais. Todos indo para o trabalho, de má vontade como eu, quero crer.
Mas divago, cada dia divago mais e mais.
Ela estava ao meu lado, escutávamos música no carro, o som estava alto para abafar o barulho dos outros carros na rua, o céu ainda estava clareando, horário de verão...
Foi então, que queimando um sinal vermelho, eu estava muito rápido para poder parar a tempo, ela passou sua mão, esquerda, na minha que displicentemente segurava o volante.
Mão cheia de anéis, pulseiras, unhas pintadas de vermelho (insisto sempre para que ela as pinte dessa cor), e então eu vi aquelas marcas na sua mão, marcas parecidas com sardas, mas que na verdade são marcas de idade, de idade!
Meu Deus!
Nesse momento dei-me conta que ela estava envelhecendo, ficando velha! Nunca havia me incomodado, ou mesmo dado conta dos pés de galinha em volta dos olhos, os cabelos brancos, sempre pintados, a pele continuamente tratada com cremes hidratantes...
Toda a nossa vida em comum passou diante de mim, junto com os outros carros que me fechavam, levando-me quase a chocar-me com um deles. A lividez que ela reparou em mim na hora, creditei ao susto da freada brusca, acho até que cheguei a “cantar pneu” para disfarçar melhor.
Ela tentou passar a mão em meu rosto, mas consegui disfarçar o repúdio colocando a cabeça para fora da janela do carro e xingar o motorista da frente, que não ouviu o meu desaforo.
Completei o percurso até o trabalho praticamente mudo, tinha medo falar qualquer coisa, sim eu sabia que nada que dissesse seria bom, tinha medo de ofendê-la, de acusá-la de ficar velha, de sua falta de consideração comigo.
Sentia-me ofendido e ridículo diante de tal reação.
Enfim cheguei.
Desci do carro, com certa aversão, que disfarcei bem, beijei-a rapidamente, e deixando de lado o elevador subi correndo pelas escadas, tal a ânsia de livrar-me de sua presença, sua lembrança, e chegar ao meu andar. Já em minha sala, liguei o computador e acorri ao banheiro, urgia ver-me ao espelho, tinha urgência disso.
E lá estava eu, refletido no cristal, um velho de cabelos ralos e brancos, um rosto carcomido pelas rugas e infeliz, tão desgraçada e miseravelmente infeliz que no meu peito o coração parecia querer parar de bater...
Então encostei minha cabeça no vidro frio e comecei a chorar.
Desesperei-me ainda mais ao ver que chorava sozinho, pois minha imagem no espelho limitava-se a me olhar com reprovação e asco.
2007/10/17
O Amor No Escritório
Dado o:__”bomdia” de sempre, senta-se à sua mesa e começa a...
Sonhar com o chefe. E em seus delírios, vêem-se deitados nas quentes areias das praias do nordeste, passando óleo bronzeador nas costa de Farias, o chefe do Departamento De Pessoal. Lambuza a mão e generosamente espalha a loção.
O mar verde, verde de inveja, vem molhar os pés dos dois.
O sorriso de satisfação enche-lhe o rosto. Nem ouve quando toca o telefone de sua mesa, é preciso que o contínuo que passa carregado de papel da xérox lhe acorde e lhe traga de volta à realidade cotidiana do trabalho.
Era o Farias querendo um documento qualquer.
__Mas não precisa vir aqui pessoalmente, mande o contínuo trazer aqui para mim, ok?
Farias faz de tudo para se preservar, não dá a entender a esse povinho o caso de amor deles, pensa, enquanto chama o contínuo para levar a pilha de documentos.
Distraindo-se, volta à praia, onde agora se entregam ao prazer capital da gula, juntos devoram uma lagosta e devoram-se com os olhos. Farias está lindo com o bronzeado conseguido de manhã. Ah! Se não fossem suas mãozinhas a passar o óleo bronzeador, e suspira tão profundamente que os colegas ao lado se assustam.
Riam de mim, nojentos, invejosos, riam, um dia eu e o Farias colocaremos todos vocês na linha...
Toca o telefone.
__É o Farias - grita a Tia do café, temporariamente no papel de telefonista – ele avisou que vai fazer uma reunião hoje, antes do fim do expediente. Pra ninguém sair sem falar com ele.
Pronto – pensa - hoje ele vai mostrar a essa gente quem vai mandar aqui de agora em diante, hoje ele vai declarar a todo o escritório o nosso amor. É capaz até que ele me peça em noivado. Corre ao banheiro, passa o fio dental, escova os dentes, penteia os cabelos pintados de loiro, retoca o perfume o francês (Lulu). Arfando de excitação volta à sua mesa, olha o relógio e chega à conclusão que hoje demorará mais para o dia chegar ao fim.
Abra a gaveta, finge que trabalha, revolve tudo que há dentro, faz barulho para dar a impressão que está procurando alguma coisa, seguido de - Ah! Achei – olha para os lados para ter certeza que todos viram o seu showzinho. Na verdade achou foi a foto de Farias numa revista de futilidades em que representava a empresa, não era grande coisa, mas o fotógrafo pegou-o em um bom ângulo.
__Aquele furinho no queixo.....
...
Hora do almoço, todos saem.
Em sua mesa, espalhando papeis de um lado para outro, faz hora esperando Farias sair de sua sala e ouvir o convite:
__Vamos sair para comer?
Mas Farias não sai, o convite não feito e o horário de almoço é perdido.
__Melhor – pensa - assim esse corpinho vai ficar mais delgado para ele...
Mas a fome aperta e sobra para o contínuo buscar, na rua, um sanduíche natural de frango com catupiri e uma coca diet, e ainda recomenda.
__Vem chacoalhando para tirar o gás, assim evito as estrias...!
Tudo pelo amor...
Passa a tarde, chega a reunião. Nada de novo, só metas e mais metas, nada de declaração, nada de pedido de noivado, nada de nada.
Jean Batist, (afrancesou o nome só para agradá-lo!) vai embora para casa, cabisbaixo, triste, com fome e coração partido.
2007/10/16
Leiam esse artigo.
2007/10/11
Minha Amiga Agdinha da 5ªB enviou-me esse e-mail pela manhã, e como achei bem pertinente, vou dividi-lo com vocês.
Hoje é o dia da Honestidade!
Aproveitemos para praticar, mesmo sendo um valor tão fora de moda! Mas não se esqueçam que para ser honesto não precisamos magoar as pessoas, dizendo tudo que pensamos mesmo sabendo que podemos perder um amigo.
A honestidade vai além das palavras.
Está nas atitudes. Dá prá ser honesto ficando calado.
A isso se dá o nome de inteligência!
Agda (tentando ser honesta, tentando ser inteligente)
Hoje é o dia da Honestidade!
Aproveitemos para praticar, mesmo sendo um valor tão fora de moda! Mas não se esqueçam que para ser honesto não precisamos magoar as pessoas, dizendo tudo que pensamos mesmo sabendo que podemos perder um amigo.
A honestidade vai além das palavras.
Está nas atitudes. Dá prá ser honesto ficando calado.
A isso se dá o nome de inteligência!
Agda (tentando ser honesta, tentando ser inteligente)
2007/10/09
Fé
(Acompanha bem, como fundo musical, um Cantochão)
De cócoras, depois de joelhos, arrastando-se pelo altar da velha igreja, com os olhos fundos, marejados, o peito apertado e pesaroso, entre soluços, se perguntava:
__Onde perdi a minha fé? Onde?
Lá do alto os anjos barrocos se olhavam embaraçados.
Cevando
Ceva
Alimenta
Nutre
e mede e pesa
torna a cevar
e alimentar
telefona de vez em quando
manda flores
e bombons
às vezes
românticos cartões
ceva
ceva
ceva...
mas não
come
Nada a Declarar
Ah! Deus!
Cada dia mais e mais
Sou assolado pela deficiência
De assunto, do quê falar
Nem pergunto o porquê
Sei a resposta
Sim, eu sei
É esse fastio em que (dês) vivo
Já não me satisfaz mais percorrer
Zanzar, deixar os pés me levarem
Circular, peregrinar a esmo
Me deixar perder pelas ruas
Me indago:
“Quem estará mais vazio:
Eu? A cidade a minha volta,
Ou os chãos que (re) piso?”
Vos engano, iludo, ludibrio, tapeio
Tomo de vocês tamanho tempo,
Tão precioso, me lendo
Buscando entender o que tento dizer
Entendam, coisa nenhuma vos digo, nada,
Sim, confesso, sou um embalagem vazia
Um palco abandonado
Sou a folha de jornal que o vento leva
De volta pelas mesmas ruas
Avenidas, alamedas, becos
Que há tão pouco tempo,
Perdido em pensamentos, passei
2007/10/05
Mariska Voivodina Porumbescu, sua neta e o Fantasma
Festas nas ruas, fogos no céu, bandeiras nas janelas e risos no ar é primeiro de dezembro e celebra-se a união da Transilvânia com o Reino da Romênia, ocorrido em 1928, e ato fundador da Romênia moderna, mas na casa de Mariska Voivodina Porumbescu, nascida no Condado de Ilfov, cigana, taróloga, parteira e punguista, as coisas não pareciam assim tão bem.
Senão, vejamos..
Mariska Voivodina Porumbescu estava polindo sua bola de cristal (na verdade feita de vidro reciclável dos mais ordinários), quando um arrepio subiu-lhe pelas pernas, atravessou todo o robusto e hirsuto tronco e foi terminar alto da cabeça, arrepiando-lhe todos os fios de cabelo.
__ Nu înţeleg, nu înţeleg – (não entendo) – Nu, nu (não, não) - e balançando a cabeça para arrumar os cabelos desgrenhados, Mariska Voivodina Porumbescu olha para a bola de cristal para entender o que está lhe acontecendo.
Mariska Voivodina Porumbescu senta-se à sua mesa coberta de veludos vermelho e amarelo, fecha os olhos, começa a recitar uma ladainha e por fim entra em transe.
__Salut – olá) - diz a voz que sai da bola de cristal.
__ Salutare (olá) - responde Mariska Voivodina Porumbescu, tremendo de medo, afinal essa era primeira vez em sua vida que ela falava com algum espírito de verdade.
__ Vorbiţi portugheza? – (você fala português?) – pergunta o espírito com forte sotaque.
__ Nu! (não) – responde Mariska Voivodina Porumbescu, sentindo seus cabelos rejeitarem os cinqüenta e cinco anos de tinturas e começando a embranquecer de pânico.... - De unde sunteţi? (de onde você é?) – indaga, gaguejando e já prestes a desmaiar.
__ Unde e toaleta? – (onde é o banheiro?) - Responde a voz com um tom fortemente angustiado.
Mariska Voivodina Porumbescu, antes de desmaiar, bater a já agora, encanecida cabeça na quina da mesa (e acordar trinta e sete dias depois, vesga e gaga), ela aponta para um canto da casa.
__ Mulţumesc – (obrigado) e Pa!- (tchau).
Silêncio, e então...
...um vento forte abre a porta da frente do casebre, joga a bola de cristal no chão, faz trinta e sete embaixadas, e joga contra a parede, à guisa de gol, estilhaça-a em milhares de fragmentos, vindo a cortar o pezinho de sua neta Constantina Eminescu Vlahuţă, que infeccionando, fará com ela manqueje para o resto de sua miserável vida.
Numa cela fétida, cheia de baratas, Constantina Eminescu Vlahuţă cumprirá pena pelo seu crime hediondo: - Empurrar a entrevada e louca Mariska Voivodina Porumbescu em cadeira de rodas para a frente de um trem de carga.
Constantina Eminescu Vlahuţă morrerá em vinte e nove de julho, e em seu último suspiro, amaldiçoará sua avó, sua bola de cristal e o espírito do brasileiro que causou-lhe tudo isso.
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