2007/09/25

Horário de almoço


Sentou-se à mesa. Cruzou as pernas, com muita classe, mesmo quando percebeu que a farpa da mesa puxou-lhe o fio da meia. Virou-se de um lado para outro, quase derrubou o copo de cerveja, conseguiu disfarçar e cobrir o fio puxado com a outra perna.

Olhou à sua volta, o bar estava cheio. Mais gente entrava. Era hora de almoço.

__Não devia estar bebendo à essa hora! - Ri e toma outro gole.

Pela enésima vez olha para o cardápio. Nada lhe apetece. Pede outra cerveja. Depois outra.

Resolve que não quer almoçar mais. Levanta-se e sai do restaurante.

Anda pelas ruas olhando as vitrines, comparando as liquidações, os modelos de roupas. Nos reflexos aproveita para arrumar os cabelos, passar um batonzinho básico, ver se a roupas está bonitinha.

Olha para o relógio, ainda tem tempo para rodar mais um pouco. Em frente a uma agência de viagem vê um pôster de pirâmides, areias e um camelo ao fundo. Sonha com as mil e uma noites, fica com vontade de comer uma esfiha, rir da vontade besta... Segue em frente, mas dá uma última olhada para trás, para o camelo, as areias e a pirâmide.

__Ahhhh! Levar essa minha vidinha árida para o deserto.... - Começa a rir de novo - Essa cerveja fora de hora...

Discretamente olha para os lados, medo que a achem louca, louca e bêbada. Sente o estômago começar a se queixar de fome. Procura um lugar para comer uma esfiha, olha as lanchonetes e em nenhuma delas tem esfiha.

__Droga de pôster das arábias. Além de minhocas na cabeça, vontade de esfiha. - Ri baixinho - Ê cervejinha!

Passa alguns minutos procurando comida árabe. Nada. Resolve olhar o relógio.

__Droga! Hora de voltar. Meio bêbada e com fome.

Chega ao escritório roendo um espetinho de filé-miau.

__Só tive tempo de comer um churrasquinho, isso é vida? - Reclama quando chega ao escritório.

ODE AOS OITENTA


Enfim os oitenta
Me vejo no espelho e nada me contenta
Olho para os pés e vejo que mijei neles
Outra vez

Fecho o zíper da calça e prendo o saco
Mordo os lábio para não gritar
E constato que ia sair sem a dentadura
Outra vez

Lá embaixo pessoas me esperam
Já nem lembro para quê
E nem lembro mais quem são
Outra vez

Há! São os meu filhos, ou creio que sejam!
Minhas mão mãos tremem, mas não de emoção...
Pela cara esqueci os comprimidos.
Outra vez

Procuro pelos óculos e rezo
Espero que não tenha dado a descarga neles
Outra vez

E eles querem comemorar
O quê?

Meus Deus quando acaba essa entressafra?

DE POMBOS

…passado o calor da batalha, que batalha me perguntam? Qualquer uma de qualquer guerra, guerras as temos de mãos cheias, então escolham uma, abram um mapa e de olhos fechados estiquem o dedo indicador e pousem sobre ele, com certeza ali há de haver uma guerra.Corpos espalhados pelos campos, fumaça, o cheiro acre de pólvora, abutres voando em círculo no céu nublado. Sim, nublado o céu fica melhor nesse texto, aliás, vamos colocar um chuvisco fino e um frio chegando junto com o entardecer.(Ótimo, agora o quadro ficou digno de Brueghel.)Aproximando um pouco a nossa câmera, veremos entre os mortos uns poucos sobreviventes que gemem, choram e soluçam. Acho bárbaro ver um soldado moribundo chorando e soluçando, seria melhor ainda se um deles tivesse à mão uma foto. Seja lá a foto da mãe, da filha, da namorada, ainda virgem (desculpem a minha licença poética, não resisti a uma namorada virgem!) ou quem sabe a foto do cachorro... (nada mais comovente que a foto do fiel totó penso ouvir um suspira na platéia)Vemos então que um dos soldados, arrastando-se na lama, não falei antes que havia muita lama? Desculpem, mas há muita lama, uma lamaçal dos infernos (?). Voltemos ao soldado que empastelado de lodo, sujo e com as lágrimas desenhando trilhas de brancura nas faces (essa foi uma pontada no coração, não foi?) segura, abraça e ampara um irmão de armas, tenta incutir-lhe um pouco de esperança na chegada de reforços, na ajuda médica, afinal esperança de que algo suja para tirar-lhe dali.O soldado mais ferido tenta falar algo, esboçar um sorriso, mas a tosse aguda o impede. (nesse momento quase ouvimos uma música triste tocar)__(tosse)Desesperado o amigo, sim nessa hora todos tornam-se amigos e irmão, graceja e diz que tudo isso vai passar e logo-logo estarão rindo disso ele ia ver.Enfim escurece, a chuva fina engrossa e o frio piora. O primeiro soldado acende um cigarro e o divide com o companheiro que piora a olhos vistos. Ao longe um trovão, sacode a terra, ou seria um tiro de canhão? Assustam-se, o segundo soldado que piora, engasgasse com a fumaça...Escurece e exaustos, enfim dormem...O amanhecer os encontra abraçados, trêmulos de frio e cobertos de lama que já começa a secar. O primeiro soldado olha para o céu e em voz alta agradece a Deus por ter sobrevivido a essa noite, ele sorri e chama o companheiro agonizante para uma prece de ação de graças.(Fosse isso um filme e eu o diretor, nesse momento mandaria a produção soltar uns mil pombos, para aumentar a dramaticidade do momento, mas como não sou, segue a história.)__Viu? Eu não disse que tudo daria certo? Aqui estamos nós vivinhos, e tenho certeza que logo o socorro chegará. Olhe lá!Com esforço ele levanta a cabeça do moribundo e vira (penso ouvir um crec?) para o outro lado, onde se avista no horizonte uma fila de soldados chegando.__Olhe, olhe, olhe, a ajuda está chegando, veja são os nossos homens chegando – diz chorando de emoção incontida.Arrebatado ele salta e começa a gritar, gritar com toda a força de seus pulmões.(Lembram-se dos pombos que falei acima? Se eles estivessem nessa história, agora voariam assustados com os gritos)__Hei, hei, heeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.(Entra outra uma trilha sonora, de preferência do Ênio Morricone, triste de fazer partir um coração de pedra)Fim perguntarão vocês?Um Happy End?Não!(Olhem que beleza seria ter os pombos nessa história, agora que o fim aproxima-se, eles voariam para o horizonte, que lindo seria!)Mas sigamos...Ele decepcionado, arrasado, triste, vê o batalhão virar para direita (ou esquerda, tanto faz, o importante é que seguiram para outra direção) deixa-se cair como um pacote abandonado sobre o corpo inerme e já frio do companheiro morto. (Sim ele morreu com o pescoço quebrado)Sentado sobre o cadáver, ele se entrega, rende-se à sua desgraça. Olha para cima e vê o dia clarear, o solo secar e mais um dia perdido começar.Sobre sua cabeça os pombos voltam a revoar.Bruscamente ele ergue-se de sobre a carcaça enlameada e com uma pistola na mão põe-se a disparar contra as pobres e inocentes aves columbinas...E então do nada surge em fade-in, a palavra:

THE END

2007/09/21

O QUE ESTÁ ERRADO?




Reclamam que fumo, reclamam da fumaça de meus charutos, reclamam, reclamam, cara, como reclamam!

Sigo em frente, e tento não me aborrecer com isso.

Mas há tantas coisas que incomodam muito mais e não vejo ninguém rezingar, será que a razão seria a falta de “propaganda” da TV? Seria a falta do “testemunho” de famosos? A ausência de campanhas publicitárias?

Senão vejamos:

1 - Hoje almoçando num desses restaurantes “por quilo” que pululam pelo centro, um sujeito na mesa ao lado comia tendo o garfo na mão direita e um nextell, pibando, na esquerda. Ele falando alto e a pessoa do outro lado respondendo no mesmo volume. Horrível comer com um barulho desses.
Ninguém parecia estar incomodado com aquilo, ninguém.

2 - Na mesa atrás da minha, uma criança manhosa chorava, batia os pés no chão, chacoalhava a cabeça, empurrava as cadeiras em volta da mesa dos pais...
Ninguém, oura vez, mostrou-se arreliado com isso.

3 - Isso sem falar na fumaça de óleo Diesel que os caminhões e ônibus espalham pela cidade, pintando o ar de cinza, quando não preto!

O que está errado?

Será que sou assim tão cacete?

Será preciso mesmo que alguma “autoridade” manifestar-se a respeito desses incômodos sociais?

E depois reclamam do mísero charutinho....

COISAS QUE AGORA SEI E ANTES NÃO SABIA

Escrevo esse post a convite do amigo Alexandre Costa (http://fabricadehistorias.wordpress.com/) que me passou o tema ‘coisas que agora sei e antes não sabia’:

Eis um assunto que se não sou Mestre, sou vítima!

Diz o amigo Alexandre Costa: “O que sei hoje é que acontecimentos são cíclicos.” – concordo em gênero, número e grau, estou para ver criatura mais cíclica que eu, quando menos espero me pego afastando-me das pessoas que gosto e das que não gosto, mudo de direção e desapareço.

Para quê faço isso?

Para me reciclar, para aprender e apreender o que me acontece, o que acontece à minha volta. Descarregar a “força negativa” e voltar renovado...

Mas com o passar do tempo cada vez que me afasto vou mais e mais longe, demorando ainda mais para voltar. Escrevi à pouco tempo atrás, um texto explicando isso (
http://blogdonemesis.blogspot.com/2007/06/elptico.html)...

O diabo é que quando pensamos que entendemos (algo/alguém), nada entendemos; quanto nos jactamos de saber, nada sabemos; é nessas horas que (com muita coragem no peito) temos ser humildes e ver que só aprendemos com a convivência, na vivência com o próximo.

Sorte minha, que tenho umas pessoas que, se não me entendem, pelos menos me suportam e me aturam, e com eles eu aprendo cada dia mais.

Sorte a minha, repito!

E agora quero passar a "bola" para o Paiação, Armando Jr o cara mais cheio de fé na humanidade que jamais conheci.

Espero não ter feito feio.

2007/09/19

Ainda na entressafra

ÓDIO


...foi muito rápido, até para mim mesmo. De repente, me vi dando um joelhaço nos testículos dele, que, como em câmera lenta, começou a se dobrar sobre si mesmo, e, quando dei por mim, estava acertando sua testa e parte do nariz com outra joelhada.Aí, o branco do ar, como num desenho, ficou marcado com um risco vermelho, que era o sangue que saia de seu nariz. Ele fez um “Huf” e começou a cair para trás; como se eu estivesse num cinema, longe dali, me vi pulando em cima do pescoço dele, e dar murros e mais murros e mais murros, até as minhas mãos começarem a inchar. Ele só dizia “ai ai ai”, quase chorando; chutei o óculos dele para longe, me levantei e comecei a dar-lhe pontapés nas costelas; ele já não falava mais nada, acho até que chorava bem baixinho, e eu gostava do que estava ouvindo...Quanto tempo esperei por esse dia... Quando batia nele, só uma preocupação me afligia: se aparecesse alguém? Não medo que me pegassem socando aquele puto dos infernos, a minha preocupação era que me segurassem, não deixassem socá-lo ainda mais um tempo. A roupa ficou manchada de sangue que saia do nariz, aquele maldito e arrogante nariz adunco.__Cadê a tua chefia agora, seu bosta? - eu falava baixinho no ouvido dele, só para ele ouvir. __ Cadê o teu poder, seu puxa-saco nojento?Ele chorava baixinho. Já não era mais um encarregado poderoso, capaz nos assustar com ameaças; já não usava mais o óculos na ponta daquela massa roxa que era o seu nariz; já não dava mais para ver os seus olhos azuis, inchados de porrada e cobertos de lágrimas.Não sei como arranjei tanta energia para bater nele. Mas bati, bati muito, e, para meu espanto, não perdi o fôlego, e continuei batendo; quanto mais ele chorava, implorava baixinho para eu parar, mais eu batia.Por mim, continuaria batendo nele por horas e horas. Dava gosto vê-lo arreado no chão. Eu olhava de cima, e gostava do que via. Ele parecia um feto, encolhido, abraçando os joelhos e perguntando entre lágrimas ”Por quê? Por quê?”. Pensei em explicar, parei de chutá-lo por um segundo, respirei, tomei ar para falar, mas pensei melhor, e voltei a espancá-lo.Como era bom isso. Gostaria de congelar o tempo e ficar ali para todo o sempre fazendo aquilo, tinha para isso forças e ódio suficiente. Eu sorria e lembrava da cara dele, o espanto ao entrar na minha sala e...

2007/09/18

A Inteligência está de luto


2007/09/17

Essa eu li (e copiei) na Blue Bus

Paulo Coelho avisa q volta após a morte caso seja necessario na Monica 09:15

O testamento de Paulo Coelho nao contem apenas instruçoes sobre que destino dar a sua fortuna.

Nota da Monica Bergamo hoje na Folha aqui diz que o escritor também determina que de nenhuma maneira ele deve ser invocado após a morte "seja por cerimônias mágicas, seja por discípulos, seja por psicografia, ou qualquer outro tipo de arte mediúnica". Avisa que "se eu precisar aparecer por alguma razao, eu darei um jeito". 17/09 Blue Bus


Hahahahahahahahahaha... (não dá para levar esse sujeito e seus "seguidores" a sério)

2007/09/14

Mais um texto desenterrado

"Eu te leio, tu me lês”


Pergunto-me sempre e sempre, qual a razão se continuar a escrever. Não encontrando uma resposta continuo na labuta.

Aborreço-me, e muito, com tal mister.

Quem escreve, ou pinta, compõe, ou produz qualquer tipo de arte, o faz para mostrar, levar a publico, à luz, não para ser ignorado.

Afinal se nos expomos assim é para sermos visto!

Como dói sermos ignorados...

Perpetro meus textos nesse blog, envio postagem aos amigos (?) aos conhecidos, aos desafetos e nada, nada, nada.

Aos poucos que ainda procuro e indago a respeito da postagem enviada ouço sempre que:

1. Texto muito grande
2. Não gosto de ler
3. Falta-me (a colocação correta do pronome foi por minha conta) paciência de ler
4. Não entendo o que você quer dizer
5. Como não tinha foto de mulher pelada nem me dei ao trabalho de ver o resto.

É triste, muito triste.

Escrevo para outros que como eu teimam em escrever, e lemo-nos mutuamente como se fossemos uma sociedade secreta.

É triste.


Fosse mais jovem me dedicaria ao futebol, ao pagode ou ao crime...

Hoje o dia está ganho, fiz um amigo feliz....


2007/09/13

Uma imagem que vale por 1000 palavras...


T, X e Y


Para controlar o meu vício em cigarros estava separando as jujubas (uma forma que arrumei de não fumar tanto) por cor, amarelas de minha especial preferência de um lado, as vermelhas de outro, as verdes mais para cima na mesa e as de cor laranja perto da gaveta, quando lá do outro lado da sala me chamam.

Antes de levantar a cabeça e ver quem me chamava coloquei uma jujuba amarela na boca.

Olhei então para ver quem me chamava, era a Margarida.


__Você já se sentiu numa encruzilhada? Sem saber o que fazer, que decisão tomar?


Peguei outra jujuba amarela, o negócio parecia ser sério.


__Sim já me vi várias vezes em uma encruzilhada. Encruzilhada de vários tipos...

__Hã! Há quantos tipos de encruzilhadas? Pensei que só existisse uma...


Balancei a cabeça, peguei uma jujuba vermelha, respirei fundo e prossegui com minha peroração.

__Sim, existem as tipo T, uma parede na frente, e só se pode ir à direita ou à esquerda; tipo Y abre-se à sua frente dois caminhos quase paralelos, mas que se distanciam aos poucos; e a mais comum o tipo X com quatro caminhos.... Mas não importa qual você vai escolher, no segundo passo você já estará arrependida, com a mais absoluta e cristalina certeza que fez a escolha errada, que o outro caminho seria o melhor. E mais tarde ainda, lá na frente num dia qualquer por qualquer razão besta você se cobrará por ter elegido aquele caminho. Se indagará se a sua vida não teria sido muito melhor se tivesse feito outra opção... - agora escolho uma jujuba verde, que não me agrada muito – sim todos nós temos as nossas encruzilhadas... Optar é descartar... É deixar uma chance, uma oportunidade pela outra... E um dia lá na frente nos confrontamos com os erros e acertos de tal – sou interrompido por Margarida que aflita e balançando as mãos fala:

__Não, não você não entendeu a minha pergunta. Não quero uma sessão de psicologia, eu só quero saber que sapato eu uso hoje à noite, o prata ou o vermelho?!

Suspirando guardo minhas jujubas de volta no saquinho de onde as havia tirado, jogo-as de qualquer jeito na gaveta e saio da sala para o corredor dos fumantes. Lá acendo meu cigarro, dou uma tragada tão profunda que chego a ficar tonto...


__É por isso que eu fumo desse jeito... – murmuro para mim mesmo.

2007/09/11

SIMONE CHEGA EM CASA



Ela nem bem entrou em casa e ele veio para cima dela.

Primeiro ficou encarando-a por uns segundos, depois aproximou-se desconfiado, olhando para os olhos dela.

Simone já lhe falara diversas vezes para não fazer isso, se não confiava nela que fosse embora, outro como ele se achava aos montes pelas ruas. Parada na porta Simone sustentava-lhe o olhar, assim ficaram mais alguns segundos.

Simone, por fim entrou, passou a chave na porta, passou por ele e foi para cozinha. Ele a seguiu, e ficou disfarçadamente tentando sentir algum cheiro estranho, alguma prova de sua traição, algo que provasse seu passo em falso, a prova definitiva que ela tinha outro.

Nada conseguiu além de quase levar com o saco de verduras na cabeça. Ele se retirou para a sala, deitou-se no sofá esperando pelo almoço pois já estava em cima da hora e se ela se atrasasse mais uns minutos ele comeria até os seus sapatos.

Da cozinha vinha o cheiro da comida, o vapor das carnes. Simone o chamou para comer, mas magoado, desconfiado, enciumado, fez que não ouviu e continuo fingindo que dormia.

Simone chamou uma segunda vez, dessa vez quase gritando, ele sabia que quando ela falava assim a coisa iria desandar. Espreguiçando-se dirigiu-se à cozinha e cabisbaixo começou a comer, a princípio de má vontade, mas a refeição estava tão boa que acabou comendo tudo e repetiu.


__Desgraçada, tinha que cozinhar tão bem? - Pensava enquanto devorava o segundo prato.


Quando acabou de comer, olhou para Simone, seus olhos agora brilhavam satisfação.


__Como poderia ter desconfiado dela? Como?


Simone, como que lendo seus pensamentos, aproximou-se dele e começou a fazer-lhe carinho na cabeça, beijou-o, e falou-lhe bem baixinho:

__Seu bobo! Nunca vou trocar você por outro cachorro! Tonto!

Deixando Toby abanando o rabo feliz da vida, vai tomar banho.



2007/09/04

O PORTA-RETRATO DE CELESTE

Acabara de polir o porta-retrato de Celeste, e o colocara sobre a velha cômoda. Sentou-se na poltrona e ficou a contemplar a foto. Admirava-se da beleza jovial de Celeste, o sorriso, os cabelos, o vestido azul-claro, as mãos brancas, o colo levemente sardento...

Celeste imortalizada naquela foto.

As horas passavam lentamente e Lúcio continuava a olhar para o porta-retrato alheio a tudo mais.


__Celeste... - murmurava com um sorriso maroto e baboso.


Pensava sobre o milagre da fotografia, da capacidade, do poder de imortalizar o momento e as pessoas.


__Celeste, tão linda Celeste. - resmungava baixinho para a foto.


A barba por fazer, os cabelos longos e desgrenhados, as roupas puídas, as costa curvadas, enfim um homem acabado e apaixonado por uma foto, um momento, um período passado de sua vida.

Tantos sonhos, tantos planos, projetos de vida, a certeza de envelhecerem juntos.

Lúcio e Celeste, Celeste e Lúcio.

Mas o tempo inclemente que devora os próprios filhos e os sonhos levou o melhor de Celeste...

Levou-lhe a juventude, o viço, a pele de pêssego, o sorriso, o brilho dos cabelos cor de ouro, a alegria, enfim levou de Lúcio a sua Celeste, que hoje vive em um porta-retrato de prata que ele pule todos os dias.


__Celeste...


Dos fundos da casa uma voz aguda e estridente chama seu nome:


__Lúcio seu vagabundo, cadê você, seu imprestável?


Lúcio enxuga uma lágrima amarga que corre pelas rugas de seu rosto magro e seco, e quase chorando olha para o porta-retrato de Celeste e se pergunta:


__Celeste, o que tempo fez com você meu amor? – E com dificuldade levanta-se da poltrona para atender aos gritos de Celeste, a velha!

2007/09/03

Odeio Kombi


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