2007/08/31
O INOCENTE ÚTIL DA PROPAGANDA APOCALÍPTICA
__Seus dias estão contatos, seus dias estão contados.
Com frio na espinha vejo que ele vem, mesmo, em minha direção, está cada vez mais perto.
__Isso mesmo, seus dias estão contados, e com esse cigarro na mão você vai morrer ainda mais cedo! Larga isso, larga isso..
Olho para cima e pergunto a Deus porque esse tipo de gente me persegue. Finjo que não é comigo, viro para o outro lado, mas a Besta do Apocalipse Tabagista se aproxima, e, antes que ele profira mais alguma palavra, mando-o a procura da progenitora na zona.
Ofendido, segue em frente e vai ao banheiro, onde outro desafortunado está fumando.
Poucos segundos depois saem os dois, o pobre fumante e antitabagista.
O fumante sai, a princípio sério e espera o eco-asmático-histérico se afastar bufando a largos passos, depois me conta o ocorrido:
__Estava eu ali pensando na minha vidinha, quando entra esse bestão gritando “seus dias estão contados, seus dias estão contados”, olho para ele assustado, e vendo meu espanto ele grita ainda mais:
__Isso que você segura entre os dedos vai te levar à morte, vai te levar à morte!
__Mas o que vai me matar? O cigarro ou pinto? Ele olhou para a minha cara, rosnou alguma praga e saiu do jeito que você viu.
Rimos, rimos de chorar, pensando que tão cedo ele não mais nos perturbaria quando estivéssemos fumando, quando no andar de baixo escutamos a sua ladainha em cima de outro inocente fumante:
__Seus dias estão contados, seus dias estão contados...
Ô inferno que é essa vida que levamos.
MAIS UMA NAQUELE BAR
__Que bom que você me viu da rua.
__Pois é estava passando sem nada para fazer.
__Toma um chope?
__Não, chope não, mas com esse calorão, vai bem uma água tônica.
__Garçom! Um chope e uma água tônica.
__Tá certo – tira os óculos – pode me acerta um murro na cara. Mas acerta no olho esquerdo, o direito está com descolamento da retina.
__Por que eu faria uma estupidez dessas?
__Não seja assim tão santo, desse jeito me arrependo de pedir desculpas...
__Desculpas pelo quê?
__Ora. O que não me falta ultimamente são motivos para me desculpar com todas as pessoas que conheço. Começando por você.
__ ...
__Não me olhe desse jeito. Você sabe do que estou falando.
Chegam as bebidas, acompanhadas de uma porção de pasteis.
__E então? – Toma um gole longo de chope. Talvez para encontrar coragem de continuar a conversa.
__Então o quê?
__Você não está facilitando nada. Sei que te devo desculpas pelas minhas atitudes recentes... – outro gole longo. Esvazia o copo. Faz sinal ao garçom e pede mais um chope.
__ ...
__Como você ainda pode continuar meu amigo?
__ ...
__Pelo amor de Deus, diga alguma coisa!
O garçom chega com a tulipa de chope que é sorvida de uma só vez.
__Garçom mais um chope.
__Se você continuar bebendo de desse jeito...
__Foi só o que me sobrou nessa vida, o chope, os pasteis e essa mesa de bar...
__ ...
__ ...
O garçom traz outra tulipa de chope.
__Acho melhor você dar um tempo com esse copo. Beber não vai ajudar muito...
__ O que mais posso fazer? Estou me afogando em culpa. Sei que errei. Me deixei levar pela ira, procurei outros caminhos que não me levaram a nada, nada mesmo, veja só o que me sobrou – abre os braços abrangendo todo o bar – nada! Errei feio.
__Todos tem direito a errar...
__Sim, direito a errar. Mas o que eu fiz foi...
__Humano?
__Não. Foi estúpido!
__ ...acontece...
__Você vive à beira da canonização. – mastiga um pastel para disfarçar um soluço de emoção.
__...
__Acho que você já me entendeu.
__...
Lá do fundo do bar, enquanto limpa o balcão pela milhonésia vez, o garçom, atento à conversa, torce o bigode se pergunta:
__ Será que ele entendeu?
2007/08/29
Continuando na entressafra, outra republicação!
Sobre a culpa e outras besteiras
Culpa.
Discutia isso com o Rodrigo hoje. Culpas de haveres, e culpas de quereres. Por que nos culpamos? Porque nos pegaram? Porque nos viram? Porque nossos olhos nos acusam diante do espelho?
Culpa.
Pecamos por pensamentos, atos e palavras.
Ah! Essa minha cultura judaico-cristã. Mas que atire a primeira pedra quem nunca pecou.
(Fico sossegado nessas horas por não possuir ações de pedreiras. Pelo visto ninguém atirou nenhuma pedra, certo?)
Quero crer que a minha meia-dúzia de leitores é honesta, pelo menos consigo mesmo.Culpa.
Nos culpamos por tantas coisas bestas, e nos escusamos de outras realmente condenáveis.
Mas discutíamos outra forma de culpa. O pensamento, esse mostro indomável que trazemos dentro de nós, e que por inexplicável que seja, é muito maior que nós.
Quantas vezes nos pegamos pensando em algo inominável, algo que conscientemente nunca faríamos, que condenaríamos veementemente no próximo?
Um exemplo, besta, mas um exemplo, vivo fazendo regime, mas não posso ver um doce que chego a babar.
__Pecadilho! - Dirão vocês.
Concordo plenamente. Mas e se vemos uma mulher bonita, uma jovem atraente. E se porventura ela dá com o nosso olhar, sorri, mexe o cabelo daquele jeito, sorri um sorriso de fazer covinhas...? Uma torrente de pensamentos libidinosos nos assolam, por um segundo vivemos uma vida de venturas mil, imaginamos as maiores besteiras. Largar a família, deixar o emprego, começar vida nova na Argentina, quem sabe vendendo pulseiras e outras quinquilharias. Ir para a Bahia e morar na praia vivendo de amor eterno...
Um segundo, um mísero e desgraçado segundo, destruímos toda uma vida. Largamos a mulher com quem vivemos os tempo duros, os filhos que às duras penas tentamos educar dentro dos valores (ai ai ai) cristãos/ocidentais, e afundamos na lama da maledicência um bom nome construído com muito suor, muita lágrima e sangue.
Culpa = Arrependimento.
Tivemos toda a juventude para errar. E erramos até na hora de errar. Agora o mal já está feito. Não adianta chorar sobre o leite derramado.Para terminar a conversa, o Rodrigo me enviou esse poema do Olavo Bilac:
Remorso
Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.
Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,E por pudor os versos que não disse
P.S. A propósito, aquela mocinha, não sorriu para você, foi para aquele rapaz musculoso e cheio de tatuagens que estava encostado no balcão do bar bebendo cerveja...
Positivamente, a vida não presta.
2007/08/28
2007/08/24
UMA CARTA
Mas antes tarde do que nunca, frase batida e vulgarizada, mas ainda assim prenhe de verdade.
A princípio me senti traído, me revoltei, xinguei, amaldiçoei, mas como toda situação na vida, acabei por digerir.
Compreendo que você tem necessidade de ter a sua vida, sua família, sua “parte nesse latifúndio”.
Você nunca teve uma família, no sentindo literal da palavra. Pai para um lado, mãe para outro, padrasto e madrasta. Um lá outro cá. Vivendo a disputa de poder, a barganha, os mimos e castigos.
Cresceu dividida e separada.
Agora, repito-me, compreendo.
Espero que tudo de certo para você, seu marido e sua filha.
Lute para que as vicissitudes da vida, (ah! e elas não são poucas, garanto-te) não te façam duvidar de sua escolha, questionar os erros e acertos de tal. Não se deixe levar pelos desencantos e desespero que afligem um começo de relacionamento. Namoro é uma coisa, mas acordar ao lado de outra pessoa todos os dias é outra completamente diferente (cólicas, contas a pagar, etc, etc, etc).
Não se deixe levar pelos arrebatamentos de mau-humor (ô gênio do cão!), aprenda a colocar-se no lugar do outro (sim eu sei, isso é difícil...) aprenda a dar razão a quem tem, afinal nós nunca estamos tão completamente certos (nem tão completamente errados, afinal até um relógio quebrado acerta as horas duas por dia).
Mas não se deixe anular, não, nada é mais chato que viver ao lado de uma nulidade, um zero à esquerda.
Antes de falar alguma coisa que te faça se arrepender (cedo ou tarde todos nós nos arrependemos de uma palavra mal colocada) vá dar uma volta na rua com o cachorro, vá regar as plantas, vá atender ao telefone (ele não tocou? tudo bem finja que ele tocou e saia da sala, ou do quarto, ou da cozinha) e deixe os ânimos arrefecerem...
Quando, de tudo estiver provado que o outro está errado, dê um tempo, espere a ficha dele cair e então volte ao assunto e esclareça tudo de uma vez por todas (às vezes precisamos voltar ao assunto outras tantas vezes, mas é assim mesmo, leia o Manual.).
All Things Must Pass já dizia George Harrison, que sábias palavras...
Aproveite a chance que você se deu de ter a sua própria família. Esqueça tudo o que já viu, aprenda com os erros dos outros (e olhe que não lhe faltam exemplos de todos os lados) e dê o melhor de si.
Aproveite tudo o vier pela frente e transforme em aprendizado, otimize ao máximo as oportunidades que vierem (e elas vêem, basta estar atenta).
Deixe somente bons exemplos para sua filha, faça-a ver que ela faz parte de uma família vitoriosa.
Trabalhe(m), trabalhe(m), trabalhe(m) (não exclua uma loteria de vez em quando, é claro) e faça sua filha ver o esforço dos dois, não a deixe à margem da vida feito uma alienada mimada, faça-a conhecer o doce que vem do suor do trabalho, assim ela crescerá com um caráter forte, e não te fará vergonha no futuro.
E pense nessa pérola de profunda sabedoria:
“O fracasso, depois de certo tempo, enche o saco”.
2007/08/22
GRINGA
___Isbiutiful, isbiutiful!!
Ela chegou. Uns tocam campainha, outros batem à porta, a gringa grita:
__ Isbiutiful!
Tudo é “Isbiutiful”. Ninguém sabe onde ela aprendeu a falar isso, mas repete a palavra, que pensa ser inglês, a toda hora, em qualquer situação.
Pobrezinha.
É conhecida por gringa por dois motivos, a saber:
1. Recém chegada de algum lugar ermo do Nordeste;
2. Esse hábito de repetir, feito papagaio, a palavra “Isbiutiful”.
Desgraçadamente, como costuma acontecer, arrumou um emprego de empregada doméstica ou, politicamente correto, de “secretária do lar”.
Na sua hora de almoço, conheceu Sidney, conquistador barato, loiro falso, olhos azuis falsos, pivô no incisivo lateral direito - quase ninguém nota, só quando cai -, cartão de crédito..., também falso.
Ele faz bico numa pet shop, onde a gringa vai passar tempo vendo cachorrinhos poodle e sonhando em comprar um pitbull, segundo ela: “Para ter segurança, sabe como esse povo aqui do sul é, né? Não pode ver uma moça bonita que já mexe com a gente!”. Diz fazendo biquinho, e pensando onde colocar um “Isbiutiful” na conversa.
Não arrumou lugar, vê-se pela feição carregada de frustração.
Gringa vive tentando fugir dos galanteios de Sidney, faz-se de difícil, diz que não quer, mas cede, sempre.
Dia desses, com calor, foi tomar um guaraná com Sidney. Reclamou:
__Não tem petiscos? - palavra nova para salgadinhos.
Sidney sai correndo e traz um pratinho cheio de ração de cachorro, e serve Gringa, que maravilhada diz:
__ Isbiutiful! Delicioso! Enchendo as mãos, e conseqüentemente a boca, repete: - Isbiutiful!
Sidney ri e oferece mais.
Eles se olham nos olhos e pensam se acharão coisa melhor nessa vida.
2007/08/14
TREZE MESES
O apartamento estava pronto, pintado e mobiliado. O carpete da cor que ela queria, o acabamento de primeira, portas de mogno, tudo como o casalzinho desejava.
Mas nada de se mudarem para lá. A cada hora uma nova exigência, uma nova implicância, um novo sei-lá-o-quê. As paredes da sala já estavam com seis ou sete pinturas diferentes, passou do branco para o gelo, daí para o palha, depois para o amarelo, depois rosa-nenê, rosa-choque, e agora verde-chá, mas Dudu, o noivo, quase vomitou quando se deparou com tal coloração. Correu ao banheiro e lá se trancou, só saindo, aos prantos e soluços, depois de que Gisele (pronuncie-se com sotaque francês, por favor) a noiva, jurou que iria mandar pintar a sala, outra vez.
__Você gostaria de fúcsia?
Lá dentro outro gemido se ouviu.
A mãe de Gisele (olhem o sotaque!) arrancava os cabelos. Pensou a pobre infeliz, que ao casar a filha, estaria também assinando a sua alforria, estaria livre das manias, dos ataques histéricos, das manhas da filha. Mas não! Ela tinha que continuar morando em casa.
Continuar a não fazer nada em casa.
A mandar e desmandar em casa.
De atormentar todos em casa.
Mas um dia Gilda (a mãe, sem sotaque) resolveu dar um basta e tentar resolver de vez essa questão. Acompanhada de Lupe Assunción de las Dores de Dios, argentina naturalizada uruguaia, amiga, confidente e revendedora de jóias, foi ao escritório de Dudu tirar isso a limpo.
Dudu, conhecido publicitário e sócio de uma suspeita casa noturna, recebeu-as com loas e festas. Mostrou para Lupe as dependências de seu escritório, os prêmios, as fotos do casamento e por fim chamou seu sócio Fefê para, junto com a sogra e amiga, tomarem um cafezinho.
Quando Fefê entrou na sala marchando como um soldado prussiano, usando cílios postiços, virando os olhinhos verdes (na verdade lente de contato) girando os bracinhos finos começa a falar feito louco:
__A vida de publicitário é surreal, sur-re-al, não é mesmo Dudu?
Dudu dando as mãos para Fefê, concordava meneando a cabeça.
Lupe assustada olhou para Gilda, boquiaberta. As duas levantaram-se, e deixando o café sobre a mesa, saíram correndo em direção ao elevador para o térreo.
Na rua, Gilda soluçando, falava:
__Gisele (o sotaque, o sotaque) nunca vai sair de casa, o apartamento, todo o meu suado dinheirinho gasto naquela “Sagrada Família” que nunca tem fim. Lupe, aquele casamento é uma fraude. Uma fraude.
2007/08/07
Dona Denaide e Seu Abelardo
(Outro Drama Relâmpago)
Cenário: Uma repartição pública caindo aos pedaços.
Personagens: Dois velhíssimos funcionários, os únicos que sobraram, e que esperam pela aposentadoria, Abelardo e Dona Denaide.
Tempo: Um futuro, infelizmente, muito próximo.
O relógio quebrado há mais de vinte anos, na parede, indica que são 13h30minhs.
Abelardo fala::
___Oi mocinha, ô mocinha, vira pra cá, ô mocinha...
A mocinha vira-se, lentamente para ele, começando pelo pescoço, enrugado, alguns segundos depois, o tronco rijo feito um jatobá centenário, e finalmente a bacia, que já possui uma prótese de platina, o único bem que ela possui nessa vida.
Dona Denaide:
__O que é que você quer? Já esqueceu o meu nome de novo?
Abelardo:
__É que sem poder ver o crachá, não dá para lembrar o seu nome...
Dona Denaide:
__Denaide! Meu nome é Denaide, há quarenta anos que trabalhamos juntos, como você pôde esquecer o meu nome? O que é que você quer afinal?
Tosse, tosse muito, abre a bolsa, e tira de lá uma bombinha para bronquite.
Abelardo, muito nervoso, segurando um carimbo, que está de cabeça para baixo, resmunga:
Abelardo:
__O que é que eu quero? Foi você quem me chamou...
Passa o tempo.
Mais ou menos uns quinze minutos.
Abelardo:
__Mocinha, ô mocinha, será que você poderia me fazer um favor?
Dona Denaide, nervosa, procurando o óculos, que está sobre a sua cabeça, larga a revista que estava lendo, também de cabeça para baixo:
Dona Denaide:
__Abelardo, já te falei, meu nome é Denaide, Denaide, olhe aqui o meu crachá. - e falando para si mesma - Quarenta anos, quarenta anos e nada de sair a minha aposentadoria...
Vai até a mesa de Abelardo, com a bombinha na boca e aspirando feito uma resgatada de afogamento, e esfrega o crachá na cara dele, cheia de rugas.
Dona Denaide:
__Olha aqui Abelardo, lê o que está escrito aqui, lê!
Abelardo:
__Denaide! Mas que nome bonito a senhora tem, Denaide! Denaide...
Fica olhando para o crachá e esquece da vida. Os olhos fitam o vazio, o carimbo cai-lhe da mão.
Dona Denaide gritando:
__Abelardo! Você trabalha comigo a quarenta anos, pare de ficar olhando essa foto, eu tinha vinte anos aí. Acorda Abelardo!
Abelardo acorda de um sono de olhos abertos, e pergunta a Denaide o que ela está fazendo em sua mesa, gritando daquele jeito.
Dona Denaide:
__Abelardo você não tem mais remédio! Tá um velho gagá. Foi você que me chamou aqui duas vezes...
Abelardo, ainda com o crachá de Denaide nas mãos, os olhinhos brilhando, talvez de paixão, pergunta:
Abelardo:
__É filha, ou neta sua, essa mocinha tão bonita?
Dona Denaide, surta!
__Essa na foto sou Abelardo, sou eu!
Levantando as mãos aos céus, Dona Denaide grita:
__Meu Deus, se não podemos aposentar, por favor, me leve. Me tire daqui...
Vira-se e começa a voltar à sua mesa, tossindo, quando Abelardo a chama de novo.
Abelardo:
__Mocinha, ô mocinha, se você ver a dona Denaide por aí, por favor, peça a ela que me traga uma frauda geriátrica. Acho que me urinei de novo...
Dona Denaide, enquanto dirige-se ao banheiro, chora e aspira convulsivamente a bombinha para a bronquite.
Abelardo, molhado, sonha com a mocinha da foto.
(que)
FIM
2007/08/06
A REFORMA!
1. Primeiro chegaram arrebentando as paredes. Depois as levantaram e pintaram, deram acabamento de gesso, coisa bonita de ser ver, depois;
2. chegararam os eletricistas, arrebentaram as paredes, passaram canos para fios, mais fios para as lâmpadas, e outros tantos para as tomadas, quando eles se foram vieram os;
3. pedreiros reformar as paredes outra vez. Pintaram, recolocaram os gessos, limparam o salão e se foram para;
4. que o pessoal da informática instalasse os cabos lógicos, logicamente arrebentando novamente as paredes, o gesso recém recolocado no teto, empurrando as mesas e os outros móveis, arranhando o chão já tão sofrido. Foram-se e;
5. voltaram os pedreiros para repintarem as paredes e recolocarem os gessos de volta ao teto. Sentado à minha mesa olhava aquilo entre desolado e histérico, roendo as unhas, quando olho para a porta;
6. os marceneiros chegam para retirar as persianas. Arrebentam as paredes na operação. No chão acumulam-se persianas e pedaços de cimento e gesso que caiu do teto. Horas depois chegam as faxineiras. Depois de tudo limpo;
7. voltam os pedreiros. Cimentam os buracos de onde saíram as persianas. Pintam outra vez as paredes e outra vez o gesso e recolocado no teto. Minhas unhas já se acabaram, acho que agora vão cair-me os cabelos. Pensando nisso vejo;
8. chegar o pessoal que vai passar cascolaque no chão de taquinhos dos anos quarenta (não perguntem o século). Saímos da sala e vamos embora para casa, afinal o cheiro é forte demais. No dia seguinte;
9. nem bem chegamos à repartição, nos damos bonsdiasecomovão, comentamos como o chão ficou bom, quando;
10. voltam os pedreiros para, agora, pintarem o teto!
Responda!
Todas as cartas de amor que merece
Todas pétalas de rosa que cobrissem a sua casa
Todos os bombons suíços que deseja
Todos os beijos que te fartassem
Todos os carinhos que te consolassem
Todos abraços que te aquecessem
Todos os amigos que te cercassem
Todo o amor desse mundo fosse seu, mas
Pare
Pense
Responda:
__O que você já fez para merecer tudo isso?
NO ÔNIBUS
O coletivo está cheio, não há lugar nem em pé. Mas o motorista vai parando de ponto em ponto, mais gente vai subindo e empurrando os demais.
A cada solavanco a “carga” se ajeita.
Nos bancos de trás um casal conversa:
__Já está na hora? - pergunta a mulher.
__Não! Ainda falta, quando chegar a hora eu te aviso. - Diz o homem.
A avenida a essa hora está cheia e o trânsito engarrafado, não adianta abrir as janelas, não entra ar e quando entra está quente aumentando ainda mais o calor lá dentro. As pessoas se abanam com o que podem, uns com carteiras, pacotes, até com talões de cheque. Para piorar ainda mais, fluxo começa a diminuir até que por fim, pára de vez.
Os passageiros começam a reclamar, as velhinhas fingem que vão desmaiar, os jovens que se encontram sentados encostam a cabeça nas janelas e simulam dormir, e as crianças nos colos das mães choram.
__E então está na hora? - Torna a perguntar a mulher lá atrás.
__Não meu bem, ainda não. Fica calma, quando for a hora eu te aviso. - Responde calmamente o marido dela.
A avenida está coalhada de veículos parados. Somente motos e bicicletas passam por ali. Não muito longe ouve-se a sirene de uma ambulância. Agora os passageiros se agitam, afinal eles querem saber como é vai ficar essa situação, já que não há espaço para ninguém mais ali. O som aproxima-se, carros tentam mover-se para algum lugar, mas para onde? Aumenta o som da sirene, os passageiros colocam a cabeça para fora, tanto no ônibus, onde aproveitam para respirar um ar mais fresco, como nos carros. A ambulância chega quase voando e passa sobre o canteiro central e segue em frente. Uma velhinha desesperada começa a gritar que vai enfim morrer, pensando assim conseguir uma carona no resgate, mas em vão, todos viram que era charlatanice dela e começaram a vaiá-la.
E vindo lá de trás aquela voz já nossa conhecida:
__Agora já é a hora? Aqui está muito quente, ainda falta muito?
__Não “môzinho” já tá quase lá. Güenta mais um pouco só. - Diz o marido com voz tranqüilizadora.
No banco na frente do casal, um senhor, suado e asmático começa a ficar irritado com as constantes perguntas da mulher querendo saber quanto falta para chegar ao seu ponto, que começa a morder o bigode, torcer os dedos e repetir baixinho a pergunta dela:
__Faltamuitofaltamuitofaltamuito...?
De repente um estrondo seco, e todos os que conseguem ter um mínimo de mobilidade colocam a cabeça para fora do ônibus e vêem que um carro tentando desesperadamente fugir do engarrafamento seguindo ambulância, atropelou um cavalo que estava pastando no canteiro central, protegendo-se do sol sob a sombra da única árvore que havia ali.
Gritos de indignação, contra o cavalo que, onde já se viu, estava amarrado na sombra, enquanto “nós os humanos” cozinhamos feito sardinhas em lata dentro daquele ônibus?
O motorista fugiu a pé, deixando o automóvel no local, sobre a carcaça da miserável besta que ainda trazia na boca um punhado de grama verde.
A revolta, a inveja, domina as pessoas, que vêem o motorista locomover-se em meio àquela “calmaria” em que todos os outros estão presos.
... e vindo lá de trás:
__Benhê tá muito quente aqui, ainda falta muito?
Nisso o velhinho nervoso e sem o lado direito do bigode, explode:
__Mas é claro que falta muito minha senhora, é claro que falta muito, afinal nós não andamos nem um metro até agora, será que a senhora não pode sofrer em paz como resto de nós sem ficar perguntando a cada cinco minutos se falta muito?
Gritaria outra vez, uns dão razão ao velho, outro acham que foi muita grosseria da parte dele, afinal se ele estava cansado de ouvir a voz da pobre mulher, que descesse e fosse à pé.
Diante do olhar furibundo do marido, o velhinho resolveu mesmo descer e sumir na multidão. A turba aplaudiu e começou a gritar que quem não estivesse satisfeito que seguisse o velho. O marido levantou as mãos e pediu calma, que não se deixassem levar pela fúria, que pensassem bem, afinal o calor estava muito forte e não valia a pena se aborrecerem dessa forma, a final ele mesmo já havia “esquecido” o episódio. E olhando par a mulher diz:
__Espere mais um pouquinho, que já vai chegar a hora, tá certo? - Disse coçando o bolso.
A mulher balançou a cabeça anuindo mansamente. E então um tranco leve e o movimento começou, e à frente os automóveis começavam a movimentar-se, uns transeuntes cristãos de bom coração retiraram o corpo do cavalo para a outra pista, que agora por seu turno começava a engarrafar o trânsito...
Hurras e vivas, as velhinhas começavam a agradecer a Santo Expedito pela graça alcançada, nenês paravam de chorar, os jovens “despertavam” de seu sono providencial, uns ainda aflitos, abanavam-se com mais força, o motorista, relaxado, assoviava um sambinha das antigas, e engatava a quarta marcha.
Agora a coisa ia.
E lá de trás aquela voz nossa conhecida pergunta:
__E agora benhê, falta muito?
__Não meu bem, agora é hora. - Responde com firmeza.
Então ambos levantam-se, as pessoas à sua frente dão passagem para que eles desçam, quando eles falam juntos:
__Todo mundo quieto, isso é um assalto!
AS LÁGRIMAS DELA
A (sua) impotência
As lágrimas dela
Que corriam pelas faces
O soluço
O olhar para baixo
Envergonhada
Fraca
Naqueles olhos
Vermelhos
As lágrimas
As lágrimas
As lágrimas
Corriam
A (nossa) falta de palavras
Que a consolassem
A falta de palavras
De qualquer palavra
Que a amparassem naquele momento
A verdade dura
A falta de volta
O adeus doído
Que fere
Que sangra
As lágrimas de dor
de frustração
De um adeus sem retorno
De fim
De acabou
De:
_Já vou!
As lágrimas dela
As lágrimas dela
As lágrimas dela
Nunca vou esquecer
As lágrimas dela
A Missiva.
Era uma missivista desde tenra idade, herdara do velho avô o gosto pelas cartas.
Escolheu as palavras, meditou sobre cada uma delas, nenhuma palavra sobrava em seu texto. Era claro, sucinto, sem ser seco, dizia somente o que deveria ser dito, evitava a redundância, expôs de forma clara a sua decepção, sua frustração, seu ódio. Despejou toda a sua amargura com palavras rebuscadas e esvaziou a sua alma naquelas folhas brancas, que pouco a pouco ele escureceu com o negro de sua tinta...
Ao término, respirou fundo, aliviado, esvaziado de todos os sentimentos.
Pegou o envelope, fechou, selou, postou.
No minuto seguinte arrepende-se.
Outra carta, agora pedindo desculpas
2007/08/03
O Velho Homem
Coça a sua longa barba branca
Puxa pela corrente de ouro de seu relógio
Pensa na vida
Revê suas velhas fotos amareladas pelo tempo
(quanto tempo...)
Sua poltrona, com o peso dos anos ( e o seu)
Tomou-lhe as formas
Isso o deixa ainda mais cômodo
O velho homem já não lê mais
Tão pouco escreve
Não há mais vontade
Nem há para quem
Nem há mais porquê...
O velho homem olha outra vez para o relógio
O tempo já não passa hoje como passava antigamente...
Tudo está mais devagar
Como ele ao andar, ao levantar-se
O olhar do velho homem é vago
O velho homem está só
Ha muito tempo até suas lembranças o deixaram
O velho homem já não ora mais
Perdeu a fé
Tudo se foi
Só ele, o velho homem ficou
Para que ficou?
Ele já não lembra mais
O velho homem olha para o relógio
Até o tempo o esqueceu...



