2007/06/29
2007/06/28
ZÉs
(Drama Relâmpago)
__Olá Zé, o xará está lá atrás, bebendo para esquecer outra vez- responde o dono.
__Outra vez? Ele está assim a uma semana, quanta cachaça é preciso para ele se esquecer de tudo de uma vez?
Zé segue para a mesa suja e engordurada onde o outro Zé está com a cabeça arreada sobre o copo de pinga.
__Zé, acorda – diz sacudindo o bêbado Zé – acorda cara, pára com isso de tanto beber para deslembrar. Ela já foi, acabou. Ela se mandou pro Norte, fim!
__Uh! – diz o Zé bêbado, sacudindo a cabeça marcada com um círculo vermelho na testa – Uh! Me deixa, me deixa beber e esquecer.
__Zé, você tem que parar com a bebida, essa pinga vai te destruir...
Lá do fundo Zé, o dono do bar olha para os dois Zés ruminando uma praga:
__Maldito nome esse meu, Zé! Todos os Zés que conheço são uns fracassados...
Na mesa o primeiro Zé, em pé, tenta trazer o bêbado Zé, entorpecido à sobriedade.
__Acorda Zé – fala enquanto sacode Zé, tentando tirá-lo da pasmaceira etílica – Vamos Zé, fala comigo, bebendo assim você vai se acabar. Acorda Zé, acorda...
Zé ainda tonto com os vapores do álcool começa a xingar o Zé sóbrio, e pegando a garrafa de cachaça vazia bate na mesa e ameaça feri-lo com ela.
No balcão, Zé, dono bar, já vendo o fim dessa história, corre para separá-los, mas chega tarde, pois o Zé bêbado corta garganta do Zé sóbrio...
__É sempre assim, tô para ver um Zé que de certo nessa vida...
2007/06/25
ELÍPTICO
Elipse: Curva obtida pela intersecção de um cone de
revolução com um plano oblíquo em relação ao eixo e não paralelo à geratriz.
Perguntam por mim ultimamente, “onde anda o Ranzinza; o que é feito de Ranzinza; porque ele sumiu; onde andará; será que fiz/fizemos alguma coisa para ele? Telefonam-se mutuamente, perguntam discretamente, de forma enviesada, por onde andará o Roberto?”
Estou onde sempre estive.
Na minha.
Em paz.
Recolhido em meditação e preces (sim, menos Ranzinza, menos).
Mentira.
Estou acuado em minha toca, em meio a outro surto. Estou enojado das pessoas, das coisas, das situações a que sou obrigado a vivenciar diariamente, dos sapos que sou obrigado a engolir (e não digerir) todos os dias.
Estou farto.
Cansado.
Quando isso acontece, desapareço até recarregar as baterias, esvaziar o “saco”, conseguir alento para voltar ao mundo. Por isso me considero um sujeito elíptico, ora próximo ora afastado.
Quando dou por mim, já estou longe, e aproveito a distância para ver em perspectiva, reavaliar minhas prioridades, pesar o que vale a pena e o que não compensa.
Nesses afastamentos, aproveito para rever velhos amigos, voltar lugares esquecidos e deixados para trás na “última rotação” e reavaliar meus conceitos...
Ando azedo, amargurado, chato. Tento não pensar nas coisas que me chateiam, me aborrecem, me enfadam, me pego muitas vezes lembrando pessoas e situações que me irritaram e pronto, acabou meu dia. Uma raiva muda, seca, me enche o peito, e ...
Cada mais chego à conclusão que bom mesmo é ficar só, ouvindo minhas músicas, lendo meus livros, brincando com meus cachorros, vendo os passarinhos da minha casa, longe de todos, não de tudo, mas de todos. Sem atender telefone, nem receber recados, sem querer saber quem morreu, quebrou uma perna ou pegou resfriado.
As pessoas me cansam.
Certa vez li, não me lembro onde a seguinte frase: QUEM NÃO VIVE PARA SERVIR, NÃO SERVE PARA VIVER. Não sei o que tinha em mente o santo (em minúscula mesmo, haja vista que isso É uma ironia) tinha na cabeça (nível alcoólico) para escrever uma coisa dessas.
Sempre fiz o possível para servir bem as pessoas à minha volta, mas em algum momento (deslize meu, talvez?) acho que dei a entender que minha amizade, meu apreço por eles, meu desvelo, era subserviência e me vi sendo, se não explorado, pelo menos depreciado, relegado a quase uma pessoa de segunda classe, aquele que, se “não arrumar coisa melhor para fazer, passamos lá; se chover e desmarcarem o compromisso anterior te ligo”, ou depois de tudo combinado, te ligam e dizem: “Não tô mais afim...”
Entro agora em meu afélio, porque só me afastando(e muito) para agüentar essas pessoas à minha volta...
2007/06/18
Ô RAÇA!
É um ceguinho (ou deficiente visual, com queiram) na esquina, tateando com sua bengalinha, tentando ou adivinhar altura da calçada em relação a rua ou chamar a atenção de algum cristão penalizado com sua triste sina cego (ou de deficiente visual) sem guia e sem cão-guia.
Nessa esquina há um bar, nele um balcão e nesse balcão há várias pessoas, umas almoçando, outras só lanchando e maioria tomando cerveja (o calor lembram?). Elas se olham esperando que alguém ali, tocado no recôndito mais profundo de seu coração, vá auxiliar o pobre ceguinho a atravessar a rua.
Uns viram de lado e fingem, mal e mal, que não é com eles, outros pegam as garrafas de cerveja e vão para os fundos do bar onde não se vê a rua, nem a meninas dos escritórios de navegação que saem em bando barulhento de risinhhos e arrulhos para almoçar também.
É o preço! Mas ainda sai barato...
Até que do outro lado da rua surge, enfim, um samaritano disposto a auxiliá-lo. Pega-o pela mão (a outra, aquela não segura a bengala), coloca-se a frente dele e pergunta angelicamente se ele podem ajudá-lo atravessar a rua.
Espantado ouve a resposta:
__Quero atravessara não, eu aqui tô é precisado de um dinheirinho para comer. O senhor pode me dar?
Do bar veio uma gargalhada que encheu a esquina, os bebuns que estavam no fundo voltaram rindo e beberam mais cervejas ainda, os que almoçavam no balcão engasgaram-se com a comida e o pobre homem bom, de vez perdeu a fé na raça humana.
2007/06/13
Dia de Santo Antônio
Você mocinha sonhadora, ingênua e leitora de Sabrina, não se esqueça que hoje é Dia de Santo Antônio.
Já fez as suas promessas? Já pendurou o pobre santinho de cabeça para baixo? Já arrancou de seu colo a pequeno Jesus? Já praticou todo a sorte de atrocidades contra ele?
Já pulou fogueira? Já pingou gotas de cera para descobrir as iniciais do nome do seu futuro marido?
Já fez a trezena , rezando fervorosamente até os joelhos doerem?
Já arrancou os cabelos o ano passado, depois de ter feito tudo isso e nada aconteceu?
Se depois de tudo isso nada aconteceu, não perca, ainda, as esperanças. Faça tudo o foi descrito acima para São Gonçalo.
Se não der certo, suicide-se, ou conforme-se em ser a Tia Solteirona da vizinhança, assustando as criancinhas, fofocando no portão, e maldizendo as mocinhas bonitinhas e casadoiras...
Desejo a todos muita pipoca, amendoim, canjica...
Passem bem.
Por hoje é só.
2007/06/12
ESTAR SÓ NO DIA DE HOJE
Cuspir nas vitrines das lojas
Chutar pombos
Empurrar casais abraçados
Odiar o céu azul
Desprezar as estrelas que cintilam no céu
Pisar nos jardim
Sangrar os dedos arrancando as roseiras pelo caminho
Morder os lábios para não chorar
Andar de óculos escuros para que ninguém
Ninguém veja os meus olhos vermelhos
Me vestir de preto
Andar na contramão
Atropelar tudo e todos pela frente
Não sorrir
Não ser educado
Não se gentil
Não estar aqui
Esperar a meia-noite desse dia
Amanhã tudo passou
Acabou
Outro doze de junho
Só no ano que vem.
Amém!
2007/06/11
O VELHO LÉOZINHO E O MAR
Depois de anos ouvindo os comentários desairosos delas, chamando-nos de bando de poltrões, vagabundos e ignorantes que perdemos nossas vidas em cervejas e caipirinhas, resolvemos nos reunir um sábado por mês (mas só se chovesse) para discutirmos os livros que lemos na nossa juventude, sim, juventude, porque nessa altura de nossas vidas, só temos tempo para ler um jornalzinho e olhe lá...
Mas como dizia quando comecei a divagar, era o sábado aprazado (e sim, chovia) para a reunião, estávamos já quarta ou quinta garrafa de cerveja, e em vozes altas discutíamos o livro O Velho e o Mar, do Ernest Hemingway, como vocês bem devem saber, ou se não sabem segue aqui um breve resumo, que, que ninguém nos leia, saquei do google para impressionar os amigos, afinal nessas alturas já não lembro nem a cor das minhas meias, muito menos livros que li em minha juventude:
“Depois de passar quase três meses sem fisgar um peixe, escarnecido pelos colegas de profissão, o velho Santiago enfrenta o alto-mar, sozinho, em seu pequeno barco. Quer provar aos outros e a si mesmo que ainda é um bom pescador. É em completa solidão que ele travará uma luta de três dias com um peixe imenso, um animal quase mitológico, que lembra um ancestral literário, a baleia Moby Dick.
À medida que o combate se desenvolve, o leitor vai embarcando no monólogo interior de Santiago, em suas dúvidas, sua angústia, sentindo os músculos retesados, a boca salgada e com gosto de carne crua, as mãos úmidas de sangue. Por fim o peixe se dobra à força do pescador. “Mas a vitória não será completa - surgem os tubarões...”
Frisson, uaus e vivas, fiz bonito!
A partir daí começamos um papo bem macho, principiamos a discutir pescarias e contar causos e mais causos, quando lá do fundo da sala, Léozinho levantou a mão e disse que também gostava muito de pescaria, logo o Léozinho cuja existência ninguém reparava, pouco faltava para tropeçarmos nele, tão insignificante era sua figura. Olhamos um para os outros e rimos baixinho, mas rimos. Léozinho gostava de pescaria? Nunca o vimos nem tomando sol na praia...
Pela primeira vez na vida centro das atenções, aproveitou e começou a sua peroração sobre a arte de pescar, mas percebendo nossa incredulidade, resolveu convidar-nos à sua casa.
Fomos!
Rapaz o que vimos na garagem dele, nunca vimos nem lojas especializadas!
E lá começou a apontar para os objetos exposto e a descrever-los:
__ Esse aqui é uma carretilha Shimano Curado 201 DHSV, carretilha perfil baixo com 6 rolamentos, capacidade para 110 metros, isso aqui - enquanto descrevia ia vestindo - é um colete Sampo para pesca oceânica, que permite uma rápida junção entre o pescador e o equipamento. Feito em tecido sintético branco telado, que garante o conforto térmico e a ventilação durante a utilização. Ah! Essa isca de superfície desenvolvida por Nelson Nakamura, um dos maiores pescadores do Brasil. Muito eficiente na pesca do Robalo, Robalo que eu preparo com uma farofinhas de camarão... e de várias outras espécies. Tamanho: 9 centímetros. Esse peixinho aqui na minha mão – quase esfregando em nossas caras – é uma isca artificial Miss Carna, fabricada no Japão. Uma das iscas mais eficientes na pesca no mar. Possibilita ótimos arremessos. Trabalho em zigue-zague. Tamanho: 14 centímetros. Peso: 40 gramas
Extasiado com as discrições dos materiais, em estado de plena graça, estava quase se elevando do chão. Nunca vimos o Léozinho falar desse jeito, ele estava dando uma aula para a gente.
__ E esse alicate então? Com balança para até 17 quilos e corda para prender no pulso. Já esse outro alicate é fundamental para embarcar os peixes na pesca com iscas artificiais. Com balança para até 17 quilos e corda para prender no pulso. Bóia Paulistinha, a melhor para o robalo. Muito eficiente na pesca com camarão vivo. Bóia Petersen com chicote de aço, muito resistente. Ideal para pesca de carpas em pesqueiros, ou robalos com camarão vivo. Peso: 27 gramas. Case Pelican 1490 a prova d’água, ideal para o transporte de celulares, rádios, máquinas fotográficas, notebook´s e gps´s em embarcações. Totalmente vedado. Com válvula automática de pressão. Fabricado nos EUA. Dimensões internas: 44,5 X 29 X 3,8 cm. Caixa estilo bandeja com profundidade menor, tamanho 34,5 X 21 X 3 centímetros, com travas reforçadas e a possibilidade de ajustar de 5 a 34 compartimentos.
Ele já estava em frenesi...
__ Aqui temos um anzol forjado em aço estanhado, próprio para ser utilizado em água salgada. Extremamente resistente perfeito para corricar...
__Péraí - tivemos que interromper - afinal o que é corricar?
Com que desprezo ele nos respondeu, com um desprezo...
__Corricar é rodar, girar uma rodinha ou rodela, simples o Hemingway nunca descreveu isso em seus livros? Francamente... Mas voltando ao assunto, aqui eu tenho as minhas varas de pesca, esta, por exemplo, possui um conjunto para pesca com mosca, essa aqui é uma vara de grafite, com cabo em cortiça, 9 polegadas de comprimento em 2 partes, 5/6 WT. Linha floating número 6 e backing de dacron 20 libras. Acompanha um cortador de linha, uma tesoura para retirar a mosca da boca do peixe e 5 moscas variadas.
Enquanto Léozinho falava e descrevia em tom professoral todos os seus materiais de pesca, nos ficávamos mais bestas ainda... Como era complexo pescar!
__Essa aqui é uma caixa térmica que pode ser ligada um acendedor de cigarros de 12 V, conservando os alimentos quentes ou frios. Sem necessidade de gás é perfeita para viagens de carro, para uso em trailers, em vans ou caminhões. Compatível com fonte opcional para uso em casa ou no escritório. Nunca precisa de gelo, portanto termina com o problema de água escorrendo ou alimentos encharcados. Esfria até vinte e dois graus centígrados abaixo de zero ou aquece até trinta e oito graus centígrados acima da temperatura ambiente. Uso vertical ou horizontal com bandeja divisória e a porta que pode abrir tanto para a esquerda com para a direita.
Mas enquanto Léozinho aponta com seu chaveiro de mira laser para os apetrechos, começamos a nos cutucar discretamente, mostrando uns aos outros que todo o material estava intacto, como se nunca tivesse sido usado antes. Foi ai que Viviano resolver pergunta a razão disso. Quando Léozinho estava pronto para responder, apareceu Cidinha, esposa dele, e disse:
__Ele só está esperando comprar uma lancha para usar!
Outra surpresa! Léozinho comprando uma lancha para pescar. Logo, se ele iria pescar, nós seus amigos, também iríamos, certo?
Quase!
Diante de nosso espanto diante de sua resposta, Viviano tornou a perguntar para Cidinha:
__É mesmo? E depois?
Olhando profundamente para os olhos de Léozinho ele respondeu:
__Pego as crianças e me divorcio. - Virou sobre os calcanhares e foi-se embora.
É por isso que eu digo, “Homem que é homem não perde tempo discutindo livros...”
2007/06/05
Hoje é o Dia Internacional do Meio Ambiente.
Grande bosta vos digo.
Vindo para o trabalho hoje, como venho todos os dias, infelizmente, o que vejo numa rua?
Digo-vos!
Funcionários da prefeitura destruindo uma árvore à guisa de poda. A pobre vítima encontrava-se já rendida no chão, os galhos espalhados pela calçada e os ditos funcionários, munidos de facões, destruíam-na com golpes fortes e certeiros. As folhas, como se sangue fossem, espalhavam-se pelo chão afora...
Me digam como é que pessoas tão despreparadas são contratadas para esse serviço? Aquilo não era poda, nem aqui nem no meio do inferno, aquilo era destruição, que só não direi “gratuita” por que estavam fazendo aquele trabalho a soldo da prefeitura.
E aproveitando de tão (des)importante data, republico aqui um poeminha cínico sobre o dia de hoje, perpetrado o ano passado.
CUIDADO COM A NATUREZA!
Tanta preocupação com a natureza...
Preservem isso!
Preservam aquilo!
Bobagem, vos digo, bobagem!
Olhai para os prédios abandonados ou sem trato
Olhai para as ruas sem cuidados
Para as cercas
Para os buracos
Por todos os lados a natureza
Insidiosamente
Se mostra, aparece, se apresenta.
Em forma de árvores em telhados
Samambaias nas frestas
Capim em volta de postes
Raízes quebrando calçadas
Torcendo nossos pés
Machucando nossos pescoços em galhos
Jogando frutas em nossas cabeças.
Atentai à natureza!
Ela ainda acabará conosco
Lenta e discretamente...
Acabai com vossos vasos!
Livrais-vos de vossas plantinhas!
Cimentai vossos quintais!
O aviso já está dado.

