2007/05/28

CLARINHA

Clarinha ficava à porta do hotel, branca, quase translúcida, cabelos negros e escorridos, olhos fundos, quase nunca falava, e quando o fazia era com uma voz tão baixa, um sussurro, um suspiro que era impossível de ouvi-la. Penso que intuía o seu pedido de socorro.

Qual seria a sua idade? Não sei. Parecia uma menina, parecia uma mulher, parecia uma princesa encantada de mármore, tão branca e tão fria...

No alto do primeiro lance de quarenta e seis degraus fica Machadinho, o guarda-costas de Carla Sandra, sentado em sua cadeira de madeira apoiada à parede, de modo que conseguia ver o que acontecia na calçada e no andar superior. Todos, inclusive eu, achavam que Machadinho estava morto e empalhado. Os seus olhos sempre arregalados, fora das órbitas, a baba grossa escorrendo do lado esquerdo do lábio inferior, e a mão direita segurando uma faca.

Clarinha trabalhava para Carla Sandra, que a explorava assim como a outras tantas meninas. Clarinha ficava toda a noite na porta do hotel, que como um camaleão, mudava de cor de acordo com a luz de néon da porta. Ela não arrumava nada, a ninguém chamava a atenção, ficava como que mumificada à porta com chuva ou frio.

Pouco faltava para expirar...

É aí que eu entro. Procurava-a todas as noites, conversava, ou assim pensava, com ela. Pedia-lhe que largasse aquela vida enquanto ainda havia tempo, em vão.

Minhas palavras não encontravam asilo em Clarinha, ela tornara-se impermeável a tudo, ou quase tudo...

Carla Sandra, não suportava a minha presença, segundo ela, perniciosa, e fazia ameaças e mais ameaças para mim e da porta do hotel ela gritava para que Machadinho viesse me dar uma lição para nunca mais esquecer.

Machadinho nada dizia e nada fazia, nem piscava o que me levava a crer mesmo que ele estava morto e empalhado. De Carla Sandra eu esperava tudo, inclusive isso. Embora Machadinho, morto, não se movesse, outros clientes de Carla Sandra desciam os dois lances de quarenta e seis degraus para me pegarem.

E como todas as noites eu corria em disparada para salvar a minha vida e voltar na noite seguinte. Corria ladeira acima, metia-me na rua do mercado, que funcionava a noite toda numa mistura de baile popular e restaurante a céu aberto, onde se encontrava de tudo. Enfiava-me na rua dos avicultores e voava feito um cometa entre as galinhas, pavões, perus, patos, marrecos, deixando para trás uma barafunda de penas e grasnados alucinados, assim fugia para voltar amanhã.

Chegava em casa com o coração saindo pela boca, trancava a porta com duas voltas da chave, pega-ladrão, tetra-chave, encostava na parede e respirava fundo até conseguir fazer o coração voltar a sua pulsação normal.

Clarinha tornou-se a donzela que eu havia cismado de salvar, e Carla Sandra, o dragão da maldade que eu iria eliminar desse mundo.


__Não consegui nada hoje, mas amanhã à noite volto a tentar...


Noite escura, lá estou eu na porta do hotel, Clarinha alva e multicolorida, em pé à portaria esperava, não por mim, não por algum freguês, ela esperava por Carla Sandra, pela sua poçãozinha mágica, era esse o seu pagamento, a mágica alquimia que Carla Sandra lhe dava todas as noites, noite após noite. Esse era o segredo de sua figura diáfana, sua morte a prestações...

Fui a ela como um apóstolo que leva a palavra, fui a ela com um amigo, com um filho, fui como seu anjo da guarda, mas ela, ela não me rejeitou, ela simplesmente não me via, não me ouvia, não me sentia, ela já quase não era mais desse mundo. Pobre Clarinha...

Do alto da escadaria onde Machadinho tudo via, via mesmo?, a voz metálica e cruel de Carla Sandra mais um vez incitava os sua clientela contra mim. Fugi como fujo todas as noites, na certeza de que algum dia eu salvaria Clarinha ou então eles se cansariam de me perseguir.

Fugi como fujo todas as noites pela rua do mercado, entro pela rua da avicultura, deixei o meu rastro de penas e grasnados, virei à direita e toquei para casa. Mas hoje enquanto corria esbaforido para minha casa encontrei-me com Ishmael - pobre Ishmael que nunca havia lido o Moby Dick - negro como a noite, sempre encurvado como se carregasse todo o peso do mundo às costas, grandes e amendoados olhos amarelos, assim como as palmas das mãos e as longas unhas, falou-me:

__Irmãozinho, essa branquinha ainda vai te matar, deixe isso pra trás irmãozinho...

__Clarinha, o nome dela é Clarinha - respondi-lhe irritado, quase rosnando.

Ele tentou segurar-me para conversar, mas o medo de ser pego pelos freqüentadores do hotel me fez escapar do seu abraço e fugir, correr, me esconder em casa.

Como todas as madrugadas, entrei em casa, tranquei a porta com duas voltas da chave, o pega-ladrão, e a tetra-chave. Na cama chorava de frustração.

Mas amanhã haveria de ser outro dia, e minha Clarinha, mesmo sem saber, estaria esperando por mim.


__Ishmael não sabe o que diz... – Murmurei entre as lágrimas amargas que desciam pelo meu rosto - Ishmael é um tolo, Clarinha só me faz bem, ela precisa de mim, ela é o meu Norte.


Eu sabia que precisava me esforçar mais, pois não tardaria o dia em que a magia de Carla Sandra conseguiria diluir de vez a tênue existência de Clarinha e, por conseguinte, também a minha.

2007/05/25

Ainda "ODEIO KOMBI"




Clik na foto para saber mais.


2007/05/23

A Não-Declaração.

Quanto estava ali? Nem lembrava, estava ali encostado na coluna fumando um cigarro e olhando para os olhos dela. Mergulhado naqueles olhos, naqueles olhos que não o viam, não o enxergavam, que olhavam através dele…

Mas aqueles olhos, aqueles malditos olhos… Se ao menos conseguisse se livrar daquele torpor, daquele feitiço ele lhe diria tudo o que passava em seu coração. Da sua paixão, da sua idolatria, do seu beijar o chão que ela pisa, da sua…


__Ei! Você está ouvindo o que eu estou dizendo?


Por um segundo ele baixou à terra, olhou em volta como quem acaba de acordar e percebe a guimba do cigarro preste a queimar-lhe os dedos. Do quê ela falava? Mas mesmo assim, afirmativamente meneou a cabeça afirmativamente, e fez-lhe sinal que continuasse a falar.


__Lembra do Antenor?


Vagamente ele a ouve contar sobre uma cantada recebida há tempos atrás, contado a ele em segredo – Olha, só te conto isso em segredo, não vá espalhar por aí - de um colega de trabalho, que sim ele conhecia também (não gostava dele). Parece-lhe, que vagamente ouviu os detalhes, mas as palavras entravam-lhe nos ouvidos como chumbo derretido, as palavras lhe queimavam por dentro.

Ela deu todos os detalhes sórdido, detestáveis, repetiu as palavras que o sujeito usara, descreveu as inflexões, descreveu-lhe até o hálito de hortelã da bala que ele chupava para disfarçar o bafo da marmita do almoço.

Em seu íntimo, olhando para os olhos dela pressentia seu mundo ruir, desmoronar, se acabar, e chegar ao fim suas pretensões de declarar-se hoje, abrir-lhe de vez o peito, contar-lhe da idéia de largar a mulher, os três filhos, os canários, a valiosa coleção de selos, tudo, tudo, tudo.


__Argh!

Gritou um grito de dor, mas foi da chama do isqueiro que queimou-lhe o dedo ao acender, com as mão trêmulas, outro cigarro.

Seus olhos marejados viam a boca dela mover-se, as mãos sacudirem-se fazendo desenhos no ar, a cabeça virando de lado para outro, mas já não conseguia concentrar-se me mais nada.

Em sua cabeça desenhava-se o quadro de sua infeliz e desgraçada existência sem ela. Tragava o cigarro de forma a sufocar-se na fumaça, mas só conseguiu deixar tudo mais enevoado ainda.

Ela continuava a falar, mas nada mais lhe importava, nem ela, nem o outro, nada mais, ou assim pensava até que para colocar o último prego em sua cruz ela diz:


__Afinal eu amo o meu marido, tão pensando o quê?



O zumbi acende mais outro cigarro…



2007/05/21

O COMBOIO

Há dias venho querendo escrever uma história que tivesse trens.Longos comboios, com cargas misteriosas, neblina espessa e mistérios, muitos mistérios, vamos à ela:


I


É fim de tarde e um longo comboio começa a passar lentamente pela pequena vila, pouco se importando com as pessoas que estão a cada lado dos trilhos. Passa, passa, parece que nunca vai acabar. A noite chega fria, e espessa neblina começa a cobrir a vila.

O barulho titânico do comboio é como a de um monstro mastigando tudo o vê pela frente.

Os carros de um lado e outro dos trilhos buzinam nervosamente uns “bibis” infantis e frouxos. Desanimados os motorista já buzinam “por honra da firma”, como que conformados em passarem uma má noite na rua. A vila é tão pequena que não há nela muitas ruas, e as poucas que há, são por demais estreitas para eles saírem por elas e não lhes passa pela cabeça, voltarem de ré. Os transeuntes, trabalhadores recém saídos do trabalho, jovens indo à escola, todos estão presos esperando o trem passar, a única passarela, é a da estação.



__Logo há de passar esse trem. Vamos esperar um pouco. – Diz uma moça à acompanheira.

__De que tamanho será esse comboio? - Pergunta um anônimo.

__Para onde essa locomotiva estará levando tantos vagões? - responde outro com outra pergunta.



Passado algum tempo, e o comboio ainda atravessando a cidade ,alguns morados vizinhos dos trilhos aproveitam para sair à rua e vender lanches, bebidas e doces e assim afaturar uns trocados.

Começa o mafuá.

Gritos de vende-se isso, vende-se aquilo, temos isso e temos a quilo, as crianças correm feito baratas tontas, vendendo de frutas e cachecóis:

__Afinal a noite promete ser de geada seu moço!

II

Os vagões continuam e a primeira edição já começa a circular. Dentro dos carros cobertos de fina camada de gelo, os motorista insones compram os jornais e tomam café vendido pelas crianças das redondezas. Nada há nas manchetes sobre esse transtorno, nada é dito sobre que mercadoria tão importante está sendo transportada.

O dia amanhece chuvoso e a neblina continua, só que mais densa ainda.

E o comboio prossegue seu longo avanço e por causa da cerração o dia clareia lentamente. O barulho parece com marteladas em ferro, o cleng-cleng-glengs entra pelos ouvidos e chegava aos nervos, aos ossos...

O céu escureceu, choveu, esfriou, as pessoas que estavam nas ruas desapareceram, nada mais de vozes gritadas, nada mais de ofertas de comidas, bebidas, e por fim um bizarro silêncio.

Passada a chuva, o sol volta para iluminar um ermo e os poucos motoristas que ainda continuavam nos carros - muitos os tinham abandonados para irem à suas casas caminhando - horrorizados viram que nada mais havia ali da vila, nada mais de casas, nada mais de pessoas, nada mais de nada.

Nem os trilhos estavam mais lá!

2007/05/18

SEXTA-FEIRA.


Ah! a sexta-feira
Mesa limpa
Cabeça cheia

As horas (tantas) que se atropelam
Mas não passam

O expediente está perto do fim
Dá amanhã
Mas não a hora de ir

Todos os jornais do dia
Lidos

Todos os sites
Visto

Todo o maço de cigarro
Fumado

As conversas
Em dia

Os cotovelos na janela
Já doem

Mas a hora da saída...

2007/05/17

DE POMBOS


passado o calor da batalha, que batalha me perguntam? Qualquer uma de qualquer guerra, guerras as temos de mãos cheias, então escolham uma, abram um mapa e de olhos fechados estiquem o dedo indicador e pousem sobre ele, com certeza ali há de haver uma guerra.

Corpos espalhados pelos campos, fumaça, o cheiro acre de pólvora, abutres voando em círculo no céu nublado. Sim, nublado o céu fica melhor nesse texto, aliás, vamos colocar um chuvisco fino e um frio chegando junto com o entardecer.

(Ótimo, agora o quadro ficou digno de Brueghel.)

Aproximando um pouco a nossa câmera, veremos entre os mortos uns poucos sobreviventes que gemem, choram e soluçam. Acho bárbaro ver um soldado moribundo chorando e soluçando, seria melhor ainda se um deles tivesse à mão uma foto. Seja lá a foto da mãe, da filha, da namorada, ainda virgem (desculpem a minha licença poética, não resisti a uma namorada virgem!) ou quem sabe a foto do cachorro... (nada mais comovente que a foto do fiel totó penso ouvir um suspira na platéia)

Vemos então que um dos soldados, arrastando-se na lama, não falei antes que havia muita lama? Desculpem, mas há muita lama, uma lamaçal dos infernos (?). Voltemos ao soldado que empastelado de lodo, sujo e com as lágrimas desenhando trilhas de brancura nas faces (essa foi uma pontada no coração, não foi?) segura, abraça e ampara um irmão de armas, tenta incutir-lhe um pouco de esperança na chegada de reforços, na ajuda médica, afinal esperança de que algo suja para tirar-lhe dali.

O soldado mais ferido tenta falar algo, esboçar um sorriso, mas a tosse aguda o impede. (nesse momento quase ouvimos uma música triste tocar)


__(tosse)


Desesperado o amigo, sim nessa hora todos tornam-se amigos e irmão, graceja e diz que tudo isso vai passar e logo-logo estarão rindo disso ele ia ver.

Enfim escurece, a chuva fina engrossa e o frio piora. O primeiro soldado acende um cigarro e o divide com o companheiro que piora a olhos vistos. Ao longe um trovão, sacode a terra, ou seria um tiro de canhão? Assustam-se, o segundo soldado que piora, engasgasse com a fumaça...

Escurece e exaustos, enfim dormem...

O amanhecer os encontra abraçados, trêmulos de frio e cobertos de lama que já começa a secar. O primeiro soldado olha para o céu e em voz alta agradece a Deus por ter sobrevivido a essa noite, ele sorri e chama o companheiro agonizante para uma prece de ação de graças.

(Fosse isso um filme e eu o diretor, nesse momento mandaria a produção soltar uns mil pombos, para aumentar a dramaticidade do momento, mas como não sou, segue a história.)

__Viu? Eu não disse que tudo daria certo? Aqui estamos nós vivinhos, e tenho certeza que logo o socorro chegará. Olhe lá!

Com esforço ele levanta a cabeça do moribundo e vira (penso ouvir um crec?) para o outro lado, onde se avista no horizonte uma fila de soldados chegando.

__Olhe, olhe, olhe, a ajuda está chegando, veja são os nossos homens chegando – diz chorando de emoção incontida.

Arrebatado ele salta e começa a gritar, gritar com toda a força de seus pulmões.

(Lembram-se dos pombos que falei acima? Se eles estivessem nessa história, agora voariam assustados com os gritos)

__Hei, hei, heeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

(Entra outra uma trilha sonora, de preferência do Ênio Morricone, triste de fazer partir um coração de pedra)

Fim perguntarão vocês?

Um Happy End?

Não!

(Olhem que beleza seria ter os pombos nessa história, agora que o fim aproxima-se, eles voariam para o horizonte, que lindo seria!)

Mas sigamos...

Ele decepcionado, arrasado, triste, vê o batalhão virar para direita (ou esquerda, tanto faz, o importante é que seguiram para outra direção) deixa-se cair como um pacote abandonado sobre o corpo inerme e já frio do companheiro morto. (Sim ele morreu com o pescoço quebrado)

Sentado sobre o cadáver, ele se entrega, rende-se à sua desgraça. Olha para cima e vê o dia clarear, o solo secar e mais um dia perdido começar.

Sobre sua cabeça os pombos voltam a revoar.

Bruscamente ele ergue-se de sobre a carcaça enlameada e com uma pistola na mão põe-se a disparar contra as pobres e inocentes aves columbinas...

E então do nada surge em fade-in, a palavra:


THE END






2007/05/08

COTIDIANO

Acordo de manhã com dor de cabeça
Vou para a rua
E ela vira enxaqueca

Paro o carro
Surge um sobrinho
Para tomar conta

Acendo um cigarro
Vem um cão filar
“na humildade”

Abro carteira
Aparece um necessitado
Com filhos famintos

Olho para os lados
Uma miséria

Do outro lado
A mesma desgraça

E depois me perguntam
A razão de tanto mau-humor...

“Eu te leio, tu me lês”

Pergunto-me sempre e sempre, qual a razão se continuar a escrever. Não encontrando uma resposta continuo na labuta.

Aborreço-me, e muito, com tal mister.

Quem escreve, ou pinta, compõe, ou produz qualquer tipo de arte, o faz para mostrar, levar a publico, à luz, não para ser ignorado.

Afinal se nos expomos assim á para sermos visto!

Como dói sermos ignorados...

Perpetro meus textos nesse blog, envio postagem aos amigos (?) aos conhecidos, aos desafetos e nada, nada, nada.

Aos poucos que ainda procuro e indago a respeito da postagem enviada ouço sempre que:

1. Texto muito grande
2. Não gosto de ler
3. Falta-me (a colocação correta do pronome foi por minha conta) paciência de ler
4. Não entendo o que você quer dizer
5. Como não tinha foto de mulher pelada nem me dei ao trabalho de ver o resto.

É triste, muito triste.

Escrevo para outros que como eu teimam em escrever, e lemo-nos mutuamente como se fossemos uma sociedade secreta.

É triste.

Fosse mais jovem me dedicaria ao futebol, ao pagode ou ao crime...

2007/05/07

VADINHO

Explicações.


Esses dias comecei, nem sei direito o porquê, a lembrar de certas besteiras que fazia junto ao meu amigo Vadinho, que como diz no subtítulo, são memórias desconexas e atemporais, haja vista que elas me vieram de forma aleatórias e caóticas sem qualquer ordem, principalmente cronológicas...



VADINHO


Quatro horas da tarde, estava arrumando uma tomada na parede da sala, toca o batem palma na frente da casa, era o Vadinho. Entrou, redundante pergunta o que estou fazendo, explico e constato que falta uma tomada nova para tocar a velha, concordamos em ir buscar uma na rua.

A caminho, muito calor, resolvemos tomar a primeira cerveja, uma segunda se segue e outra e mais outras...

Onze horas da noite, damos contas que estamos em Agenor de Campos, quase divisa de Mongaguá com Itanhaém.

__Tarde...

__Muito. Vamos embora?

Concordamos, e vamos para a beira da estrada esperar um ônibus.

Já dentro, esse diálogo:

__Desço no Samabaia.

__Eu em São Vicente, depois venho buscar a pasta.

__Ok!

Com o balanço do ônibus, dormimos embalados pelo barulho do motor. Acordamos meia-noite no Canal Dois. Em frente ao Marreiro, bateu a fome, e fomos encarar uns mariscos à vinagrete.
__Você não percebeu que passou do seu ponto?

__E você ao percebeu também? Ó português, outra cerveja aqui.

Acabada a porção de marisco, fomo ao Gonzaga tomar um sorvete de cupuaçu e outro de caipirinha.

Despedimos-nos e fomos embora. Cheguei em casa depois das duas da manhã. Com ressaca no dia seguinte, vejo que me esqueci de comprar a tomada.

VADINHO

2. Pescaria.

Cidade Náutica, Praia do Imperador, onde Pedro I levava Dona Domitila para namorar, quando lá ainda havia água, como nos ensinavam os livros de ciências de nossa infância.

Sol forte, em frente ao Bar e Ferro-Velho Naman (sim, um palíndromo), alugamos um barco para pescar. Dentro uma pedra amarrada a uma corda à guisa de âncora e três remos. Para quê três remos? Afinal entendemos de pescaria não de navegação náutica...!

Empurramos o barco para água e lá vamos nós. A maré está subindo, e empurra o barco que estupidamente tentamos dominar, remamos, remamos e remamos, e nada do barco obedecer e seguir para onde queríamos. Desesperados (não muito, isso é só para dramatizar um pouco o texto) resolvemos jogar a âncora (aquela pedra amarrada numa corda!). O barco cessa de subir com a maré e começa a rodar em voltar da corda. Gira, gira, gira, lá da margem algumas pessoas param para ver e tentar entender o que estamos fazendo. Ninguém entende, nem os da margem nem nós...

Remamos um para cada lado e o terceiro remo largado ali.

O barco gira ainda mais em volta da corda, começamos a ficar tontos (mais que o nosso normal) e eu mareado. Depois de muita peleja conseguimos levar o barco para a margem. Estamos terrivelmente longe do píer do Naman. Movidos pela lógica (?) empurramos o barco de volta andando pelo mangue.

Sujos de lama fedida e picados por borrachudos chegamos gloriosos ao píer. Entramos em acordo que um continuaria a empurrar o barco, enquanto o outro amarra o miserável numa das pilastras. Posto-me na proa como um capitão de uma esquadra invasora. O barco aproxima-se mais ainda do píer, grito para ele:

__Pára! Para essa p***...!

Ele não consegue parar e o barco segue em frente, quanto mais ele avança, mais recuo, ele avançando e eu recuando, até que, o barco seguindo para baixo do píer, me obriga a abraçar-me num dos pilares, coberto de cracas, que me corta os pés e as pernas, enquanto vou me afundando, todo arranhado e lanhado, para dentro d’água.

Corremos para o bar de Naman, onde ele piedoso, lava-me as feridas com cachaça.

Voltamos à pesca.

Agora acocorados no píer, começamos a lançar a linha. O sol queima, a canícula está de matar, as horas passam, e as gaivotas em mergulhos quase suicidas pescam mais que nós.

10x0 para elas.

Horas depois, a primeira fisgada. Um bagre, pequeno, mas peixe é peixe, e precisamos de alguma prova que pescamos...

Seguido desse, mais outros que guardamos em um saco plástico. Entusiasmados começas a comemorar. Tanta alegria nos fazia pular, num dos pulos pisei num dos bagres, que ficou colado no meu calcanhar esquerdo.

Mais uma vez acorremos ao bar do Naman, que generosamente lava-me, novamente a ferida com cachaça. Ele balança a cabeça e resmunga:

__Isso vai doer muito à noite, vai sim...

Mancando volto ao píer. Lançamos mais linhas, e rimos da coisa besta que é pisar num bagre, quando pisou em outro, agora no pé direito. Impressionante como sangra esse machucado.

Lá vamos outra vez ao bar do velho Naman, que mais uma vez usa sua panacéia universal para todos os tipos de machucado: CACHAÇA!

Em seu semblante carregado percebemos alguma séria preocupação, Vadinho pergunta o quê o aflige, e velho responde:

__Ele vai morrer. Duas ferroadas de bagres... Ele vai ter muita febre se não morrer...

Mais preocupado que ele volto estupidamente à pescaria.

Cuidadoso, perscrutando cada centímetro quadrado do píer, procurando um lugar para sentar longe daqueles peixes dos infernos. Vou para o canto esquerdo do píer, longe do saco plástico. Coloco a isca no anzol, jogo a vara para trás, pego impulso e a lanço com força para a água.

Sorrio de prazer, pescar é tão bom...

Vou cutucar o Vadinho que está do outro lado. Me estico, estico e nada de chegar perto dele, ainda sentado, dou um pulo para trás, me aproximo dele e na hora que estendo a mão, ele sem me ver levanta-se e enfio a mão no saco de plástico cheio de bagres.

O velhinho quase chora ao me ver com um bagre preso pela barbatana na palma da minha mão. Estampado em seu rosto está a minha morte certa.

Resolvo dar um fim a essa pescaria antes que o velho morra de preocupação. Saio mancando e cheirando a pinga.

Não morri (nota-se) e nem tive febre, mas que a p**** das ferroadas doeram, há doeram muito mesmo...


VADINHO


3 - Pingas Aromáticas



Essa faz mais tempo ainda, do tempo em começamos a fazer teatro amador. Aliás, foi quando nos conhecemos. Fomos apresentados um ao outro pelo um amigo em comum, L.B., não declinarei seu nome, temo que ele pode vir a me processar por isso.
Foi numa noite no campus da faculdade em que ambos estudavam História à época. Discutia o amigo L.B., sobre a direção de sua nova empreitada teatral, Senhora, de José de Alencar. Nos bancos da cantina, foi discutida a escolha dos personagens, a preparação dos atores (não riam). Terminada a reunião, que foi até muito rápida, seguiram todos, ou quase todos, já veremos isso mais adiante, para as respectivas salas de aula.

Lá embaixo ficamos somente nos dois.

Ele não falava nada, até hoje ele é um sujeito de pouquíssimas palavras, embora tenha um vocabulário exemplar, ele olhando para mim, e eu olhando para ele. Minha vontade na hora, não entendi a razão até hoje, foi de dar-lhe uma porrada na cara. Estava prestes a fazê-lo, quando ele disse a palavra mágica que ali mesmo naquele dia e hora estabeleceu uma amizade que dura todos esses anos, que não são poucos:

__Vamos beber?

Fomos a um bar que ficava no porão de uma casa em frente à faculdade. Mais que um bar parecia um museu de garrafas coloridas. Uma coleção etílica de cachaças com todos os tipos de ervas, madeiras e raízes (não, não havia pinga com cobras, aranhas e outras criaturas veneníferas) que se possa conceber. Fora um ou dois barris da mesma, em estado de cristalina pureza.

Bebemos, bebemos e bebemos, lembro-me até hoje que a última dose que tomei foi de pinga com patchuli.

Cheguei em casa com as tripas perfumadas e um amigo para toda a vida.

Depois da montagem de Senhora, montamos nosso próprio grupo teatral o G.E.T. JOÃO CICLISTA, O GLORIOSO.

O que é G.E.T. perguntam-se? Responder-vos-ei com o peito cheio de orgulho quase paternal:

“Grupo Etílico Teatral.”

Nunca chegamos a apresentar nada, nem comer ninguém, mas só nossos ensaios entraram para a história (de quem nos conheceu, é claro). Arrumamos encrencas com muita gente e até com sub-gente (não, não explicarei isso), gente famosa, gente da P.F. (era o tempo de censura), e principalmente com os outros grupos que ensaiavam no Municipal.

À época todos eram contra a censura, os milicos, a situação, todos eram de esquerda, aquela famosa esquerda festiva, que no caso deles eram a esquerda de “gliter&miçangas”. Tinha todo o tipo de mamíferos por lá, desencaminhados, homos, héteros, bi, tri, etc..

Dois casos engraçados e marcantes da época:

1. Num balcão de bar Vadinho com a sua cara de pau pergunta para um rapaz de outro grupo, claramente homo:


__Cara, afinal você é ativo ou é passivo?

Mamado, ele olha para o nada e responde com ar indefinidamente vago.

__Sou relativo...


2. Uma noite, após o ensaio, estávamos num bar, bebendo (novidade!) quando de repente Caxuxa (pelo apelido, façam uma idéia da criatura) sai brava, reclamando do dito cujo já supracitado:

__Assim não! Um cara lindão ali, e esse viadinho se mete no meio, como vou competir desse jeito...

Às vezes pergunto-me a razão de tal nostalgia...

Outra.

Fevereiro, um calor dos infernos, um vento noroeste que temperava o mal estar, um convite de Vadinho:

__Uma feijoada?

__Sim. – responde esse idiota.

Por menos que isso o amigo Lalá teve um infarto, ficou cego e quase morreu...

Mas isso já é história para outra ocasião!


O Que o Ser Humano É Capaz de Fazer....

2007/05/03

O Movimento de Extinção Humana Voluntária

Eu estou fazendo aminha parte, agora faça a sua!



Você quer ajudar a salvar o nosso planetinha?
Então click aqui.

2007/05/02

UM CIGARRO


Um click do isqueiro
A chama azul que se ergue
Um cigarro
Uma baforada
O cigarro que descansa
A fumaça que sobe
O tempo que passa
Outra baforada
Um pensamento que passa feito um raio
O tempo que passa
A cinza que cai
O tempo que passa
O tempo que passa
O tempo que passa

Outro Micro conto

Aquilo já não era amor, era um refrão de pagode.

Microconto

Espremia cravos na frente do espelho. Na gaveta uma arma.

Vejam a Arte do Sr. Alexandre Costa.

Clic na foto para saber mais.
Estou de volta ao batente, e de muita má vontade!
Ponto final!