De manhã, numa aldeia de pescadores, numa praia quase deserta.
__Não me lembro bem... - responde o velho quase centenário, sentado em seu velho tronco caído, cheio de vermes, chapéu de palha puído usado ao longo de mais de um século de vida - mas acho que ele viveu por aqui sim...
O velho dá uma entrevista a um jovem jornalista, que está à beira de uma crise de nervos, haja vista que, a cada pergunta, o velho dá uma resposta diferente e contraditória.
__Mas o senhor não me disse que o Alemão viveu aqui?
__Alemão... que alemão? Aqui já viveu algum alemão? - fala enquanto coça a cabeça branca de algodão e com o dedo do pé direito faz buracos na areia.
__Fritz, o senhor lembra do Fritz, o artista que viveu aqui há mais de cinqüenta anos? O senhor cuidava da casa dele... Minhas fontes me indicaram o senhor para me dar mais informações sobre a vida dele.
__Eu cuidei da casa de alguém? - cospe um cuspe grosso de mascador de fumo, e junto vai a dentadura, grande demais para a sua boca, outra vez.
O repórter olha para o lado, enquanto o velho limpa a dentadura e a põe de volta na boca.
__... há mais de cinqüenta anos que não vejo ninguém. O cachorro morreu, sabe? Tadinho, esqueci o bichinho amarrado lá atrás e, quando me lembrei, ele tava lá durinho e sequinho... parecia um bacalhau... - Se abana com o resto de seu chapéu e cospe outra vez, tendo o cuidado agora de tirar a dentadura primeiro. Na mão dele, fica a baba grossa que ele limpa na areia. Olha para o jovem à sua frente e pergunta o que ele quer ali.
O jornalista olha para cima, pega um lenço no bolso e limpa o suor que lhe escorre pelo rosto. Um engulho sobe-lhe pela garganta, respira fundo, olha o relógio:
__Três horas e nada! - suspira. Explica, pela quarta vez, que é jornalista e esta ali para saber mais sobre a passagem de Fritz, o artista alemão que morou naquela praia há meio século atrás, de quem ele, Seu Malaquias, tinha sido empregado, homem de confiança e factótum...
__Respeito, seu moço! - indigna-se o velho que, com esforço sobre-humano, tenta levantar-se do tronco velho. - Não sou homem de ser... ser.... isso que o você falou! - Tosse, tosse muito, escarra um catarro preto de fumo e, com o pé, começa a procurar outra vez a dentadura que caiu.
Apreensivo, o jovem repórter, com medo de que o velho morra antes de lhe dizer alguma coisa, tenta acalmá-lo, levanta-se para ajudá-lo, mas volta atrás com nojo, ao ver o velho limpar outra vez a dentadura na calça encardida e quase fossilizada pelo tempo. O tempo passa, e o sol já está a pino, aumentando o calor, e diminuindo a brisa que vem do mar.
Verde e fresco, o mar com ondas que o convidam a um mergulho, onde limparia a visão do velho sujo e sua dentadura grande, maior que pobre boca banguela e seca, preta pelo costume de mascar aquele fumo nojento.
__Esse cheiro nunca mais vai sair de mim. - Respira fundo, pega o maço de cigarro, mas, antes de acender um, olha para o velho e a poça de escarros dele, muda de idéia e joga fora. - Acho que vou deixar de fumar depois dessa.
__Vamos outra vez. O senhor não se recorda de nada dos tempos em que Fritz viveu aqui? Das esculturas que ele produziu? Dos poemas que aqui ele escreveu? O senhor não se lembra de ter sido, por mais de uma vez, citado nos romances do alemão? - O velho olhava para o nada através dele, como se o jornalista fosse transparente, talvez até mesmo invisível.
Enquanto fala, passa o lenço pelo rosto e pescoço, tentando enxugar o suor que já o empapa. Puxou a sua cadeira mais para perto do velho, assim conseguiria se abrigar na sombra no pé de abricó.
- Abricó, nome mais besta para uma fruta!
Próximo o suficiente para sentir o mau cheiro do velho, olhando de lado, para conseguir uma aragem fresca, ele torna a perguntar:
__Então, o senhor conseguiu recordar mais alguma coisa, Seu Malaquias?
O velho, de olhos opacos, continua a olhar o nada. Mosquitos voam em volta da cabeça encanecida, os lábios brilham com a baba que escorre da sua boca, talvez culpa da dentadura muito grande. O repórter começa a achar que o velho morreu, quando ele fala:
__...sequinho feito um bacalhau... morreu de fome... esqueci dele lá atrás... - começa a rir e a tossir.
__E o alemão, Seu Malaquias? O alemão. O senhor é a última testemunha viva da presença do alemão nessas terras. O que o senhor pode me dizer dele? Dizem que o senhor guardou muitas das obras inéditas dele! – Desesperado, avança em direção à velha múmia, superando o seu asco e sua vontade de mergulhar no mar e sumir dali.
__...sequinho feito bacalhau - interrompido e assustado com as mãos do jornalista em seus ombros, o velho engasga com a dentadura.
O velho tosse.
__Fale-me alguma coisa sobre esse maldito alemão. - grita o jornalista, sacudindo o velho e fazendo que ele cuspa a dentadura que o sufocava. - Fale-me onde estão as obras inéditas que ele deixou com o senhor! Onde estão os manuscritos? As esculturas? Onde, onde, onde?
Tremendo, encosta no pé de abricó, respira fundo, olha o mar e vê aquelas ondas verdes. O sol brilha ensandecido.
Senta-se na cadeira e volta a falar com o velho, que outra vez está limpando a dentadura na perna da calça.
__Seu Malaquias, por favor esforce-se um pouco e tente lembrar-se dos tempos em que o alemão viveu aqui nessa vila de pescadores, há mais de cinqüenta anos atrás. Do tempo que ele viva como um de vocês, do tempo em que ele morou na sua casa. - Ele já implora ao velho: - Por favor, Seu Malaquias, me ajude!
Os olhos opacos e sem vida do velho brilharam por um segundo, como se um raio de entendimento e lucidez lhe tivesse clareado a mente. Ele sorri, cospe, sem perder a dentadura dessa vez, faz força para levantar-se do tronco podre onde esteve sentado nos últimos anos.
__Ah! O meu amigo Fritz...
__Sim, sim, o seu amigo Fritz. - quase chorando, o jornalista repete com o velho – Sim, o alemão, fale-me mais dele.
__Sim, o Fritz... tão bom comigo... sempre companheiro... sempre junto comigo... morreu feito bacalhau, sequinho, sequinho. – chora. - Meu cachorrinho que morreu de fome...
Antes que o jornalista pulasse em seu pescoço, Seu Malaquias cai sentado em seu tronco, fulminado.
O jornalista cai sentado na areia, com as mãos faz bolinhos e mais bolinhos com ela. Engatinhando, arrastando-se, ele segue em direção à água verde do mar.