2007/02/27

Horário de almoço

Sentou-se à mesa.
Cruzou as pernas, com muita classe, mesmo quando percebeu que a farpa da mesa puxou-lhe o fio da meia. Virou-se de um lado para outro, quase derrubou o copo de cerveja, conseguiu disfarçar e cobrir o fio puxado com a outra perna.

Olhou à sua volta, o bar estava cheio. Mais gente entrava. Era hora de almoço.

__Não devia estar bebendo à essa hora! - Ri e toma outro gole.

Pela enésima vez olha para o cardápio. Nada lhe apetece. Pede outra cerveja. Depois outra.

Resolve que não quer almoçar mais. Levanta-se e sai do restaurante.

Anda pelas ruas olhando as vitrines, comparando as liquidações, os modelos de roupas. Nos reflexos aproveita para arrumar os cabelos, passar um batonzinho básico, ver se a roupa está bonitinha.

Olha para o relógio, ainda tem tempo para rodar mais um pouco. Em frente a uma agência de viagem vê um pôster de pirâmides, areias e um camelo ao fundo. Sonha com as mil e uma noites, fica com vontade de comer uma esfiha, rir da vontade besta... Segue em frente, mas dá uma última olhada para trás, para o camelo, as areias e a pirâmide.

__Ahhhh! Levar essa minha vidinha árida para o deserto.... - Começa a rir de novo - Essa cerveja fora de hora...

Discretamente olha para os lados, medo que a achem louca, louca e bêbada. Sente o estômago começar a se queixar de fome. Procura um lugar para comer uma esfiha, olha as lanchonetes e em nenhuma delas serve esfiha.

__Droga de pôster das arábias. Além de minhocas na cabeça, vontade de esfiha. - Ri baixinho - Ê cervejinha!

Passa alguns minutos procurando comida árabe. Nada. Resolve olhar o relógio.

__Droga! Hora de voltar, meio bêbada e com fome.

Chega ao escritório roendo um espetinho de filé-miau.

__Só tive tempo de comer um churrasquinho, isso é vida? - Reclama quando chega ao escritório.

A Última Faixa do LP

Drama Relâmpago III




Rec rec rec rec - fazia a agulha no final do disco de vinil – rec rec rec – isso continuaria por toda a noite, até o raiar do dia.
Nenhum dos dois, envolvidos em caricias e carinhos sem fim, abraçados, enrolados, colados, presos a beijos e mais beijos, ouviam mais nada.

Rec rec rec – a agulha acabaria ali mesmo nessa noite, sem dó nem piedade ela se desfaria em rec rec rec...

Cada amor tem o fundo musical que merece.



Fim

Ameaça

Qual Quixote desvairado
Em meu cavalo branco
Corro atrás não de moinhos
Mas de dedicados leitores
E ai de vós que eu veja
Sentado, distraído
Que num átimo
Coisa de segundos
Vos encho de meus papeis
E vos forço a me ler
Temei ó desocupados
Porque lereis

_Ah! Lereis até morte!

A FUGA

Já estava ofegante, o coração parecia que ia sair pela boca, se não estourasse antes no peito. As pernas, tremiam, estavam fracas, o suor empapava a camisa, escorria pelo rosto, descia pelo pescoço, dando calafrios na espinha.

Respirou fundo, apurou os ouvidos, e ouviu os passos. Voltou a correr.

Estava fraco.

As pernas, como num sonho recorrente, davam a impressão estar grudadas no chão, os pés não conseguiam livrar-se do piche, do asfalto mole, presos com em um papel pega-moscas...

Corria, já com o corpo caindo para frente, os olhos esbugalhados, os cabelos desalinhados por causa do suor e da chuva fina. Não arriscava a olhar para trás e perder velocidade.

Fugia de quê?

Não sabemos.

Estava escuro, já anoitecera a algum tempo, as luzes da iluminação pública estavam acesas, não que fizesse alguma diferença, iluminavam o chão e nada mais. Exausto, encosta-se em poste, respira fundo, e lentamente, quase sem perceber, começa a cair inexoravelmente em direção ao chão. Tenta, ainda segurar-se no poste, mas o cansaço fala mais alto, e ele despenca...
Desesperado, olha para trás, procura pelo seu algoz, o coração disparado, faz com que tenha a sensação de a terra estar tremendo, soluça de pavor, de desespero, prepara-se par o pior.

Não conseguindo mais levantar-se para correr, arrasta-se feito um réptil, consegue virar numa esquina.

Escuro. Consegue abrigar-se no portão de uma casa abandonada. Não tem forças nem coragem para entrar nela. Encolhe-se, e começa a chorar. Abraça suas pernas e começa a chorar, a princípio baixinho, a seguir começar a soluçar e a bater com cabeça contra o portão, que range na dobradiça.

Com o barulho um cachorro começa a latir, poucos segundos após, outro responde ao longe, e logo todos os cães da rua começam latir junto.
Pânico. Ele se urina todo. Essa é sua última humilhação. Ele grita:

__Basta!!

Os cães aumentam os latidos, agora somados a uivos e ganidos.

Os passos! Ele torna a ouvir os passos.

Sem forças, quer físicas, quer morais, ele se entrega.

Desiste.

Abre os braços, estica as pernas, vê, humilhado a marca úmida na sua calça e fecha os olhos!

O ESTÓICO


Da corrente

(cromada ou não)

dos grilhões
da porta de ferro
do fosso que separa
dos arames farpados

(e enferrujado)

do olhar perdido no horizonte
do suspiro que vem do fundo d’alma
das cartas de amor lidas

(e relidas)

dos riscos nas paredes que contam os dias
dos morcegos que sobrevoam a insônia
das minhocas na cabeça
dos piolhos no cabelos
da comida estragada

(quando vem)

da água que pinga do teto
dos ratos que correm no chão

(onde durmo)

o que incomoda mesmo
é o vizinho da outra cela
que grita quando apanha!

SEGUNDA-FEIRA

Quarta-feira.

E outra vez seria massacrado pelo encarregado.

Já não cultivava mais nenhuma esperança. Terra arrasada e arenosa, onde os ventos uivavam sem parar...

Os abutres, famintos, voavam em círculos em volta de seus putrefatos sonhos mortos. Todos os seus dias eram absolutamente iguais, sua folhinha de parede só tinha um dia, sempre o mesmo, nela não havia sábados nem domingos, suas semanas eram formadas por seguidas quartas-feiras. Era sempre meio de semana. Um infindável e labiríntico meio de semana, que não ia a lugar algum.

Todos os dias batia cartão. Aos seus pés prendia os grilhões e era chicoteado pela rotina implacável do trabalho.

Ao entrar na repartição colava na cara um sorriso burocrático, automaticamente cumprimentava os colegas. E assim qual um autômato seguia até o fim do expediente, com movimentos inconscientes e automáticos. Vivia num sonhos ruim, do qual, pensava, jamais acordaria.
Às dezoito horas em ponto, levantava-se se sua cadeira e batia o ponto. No elevador, tirava da cara o sorriso, guardava em seu bolso e seguia para casa.

Entrava.

Dia seguinte, quarta-feira.

Seguia para a repartição. Para o relógio de ponto. Para os grilhões. Para o de sempre, que sempre foi e sempre será.

Sempre será?

Se todos os seus sonhos estavam mortos, ainda restava a certeza que um dia a morte chegaria para libertá-lo. E ela chegaria numa segunda-feira. Tinha certeza disso.

Uma segunda-feira gloriosa.
Minha Ode à Maria Eduarda!




Maria Eduarda, é meu desejo que ao você nascer
O mundo esteja um pouco menos pior

(não quero te enganar nem iludir...)

Que as guerras tenham dado um tempo

(não precisa muito, só o bastante para não te causar má impressão, logo assim de cara)

Que as famílias tenham resolvido seus problemas

(duvido muito)

Que o céu esteja mais azul que o normal
Os passarinhos mais afinados
As flores mais perfumadas
As pessoas mais educadas

(sim titio está velho e delira com constância)

Mamãe farta em leite
Papai besta em sorrisos
Que você, recém-nascida,

(feito um anjo barroco, gordinha e com asas)

Seja toda rósea e sorridente

(mas eu duvido, penso ouvir um berreiro, mas é natural)

Que os seus estejam babando de felicidade
E que fique provado, por A + B
Que você é a mais linda da maternidade
Maria Eduarda
Que a sua beleza e formosura
Seja o orgulho da mamãe
E a preocupação (ciúme) do papai
Esses são os votos do titio

Roberto Prado.
Ode aos Nossos Amigos

(Ah! Esses grandes afortunados!)



Aos amigos que nos suportam

(Como uma cruz às suas costas, é bem verdade)

Que (às vezes) conosco se importam
A esses amigos que atormentamos
Quer com nossa fácil presença

(que é fácil de se livrarem)

Quer com nossas constantes homenagens
Sempre muito bem humoradas

(segundo nosso afiado senso de humor)

Aos nossos amigos
Que teimam em nos convidar
Às suas casas
Que nos recebem, sempre
Com mesa farta
Copos cheios
Resignação infinita
Fleuma britânica
E sorrisos sinceros

(e às vezes amarelos, é verdade)

Abraços fortes

(que pensamos serem os últimos nessa vida, tamanha falta de ar nos dá)

A vocês que teimam em continuarem nossos amigos
Das horas incertas, e às vezes bem altas...
A vocês nossos amigos, que
Na falta de uma palavra doce como o mel
Suaves como as nuvens que passam pelo céu azul
Leves como a brisa perfumada que balança as cortinas de vosso lar
Delicadas como a seda
Carinhosas como as de um gato gordo e velho

(quem já teve um sabe o que digo)

A vocês queridos e fraternos amigos
Mais fiéis que aqueles que possuem o mesmo sangue
O temos a lhes oferecer em troca de tanta afeição?

__Sim. As nossas bandalheiras!

Feitas da mais verde bílis que corre em nossas veias

(que alguns incautos, pensam ser sangue azul)

Mas saibam que nada em nós é mais sincero
Que o doce sentimento que temos por vocês
Mesmo quando todos a sua volta riem nossas piadas

(Sobre vocês, doces irmãos)

Mesmo quando, por um átimo, lhes passa pela cabeça um relâmpago homicida.
Mesmo quando vocês se arrependem de terem retirado os cacos de vidro da sobremesa na última hora.
Ou se perguntam por que atenderam a porta.
Lembrem-se, essa é a nossa forma de dizer o quanto amamos vocês.
Sim, triste é o vosso infortúnio, é fato!

Mas pensem bem:


__É ainda melhor nos terem como amigos, que como inimigos...

my pimped pic!
ASSIM SOU

(PRONTO PARA CONSUMO IMEDIATO)
Texto de apresentação para o Jornal O DEBATE (nati-morto)




Sou um birrento, mal-humorado, às vezes teimoso e ranzinza, mas daí me chamarem de pessimista?
Besteira. Sou um homem muito bem informado, formado nas artes realísticas da mais real realidade sólida e concreta, ou seja, não me iludo nem me deixo enganar ou levar por sonhos e fantasias, afinal tudo é Maya!
Maya*!
Pessimista, eu?
O que é ser pessimista? Não crer? Nada (mais) esperar? Desde pequeno não me iludo mais. Papai Noel não existe. Por favor, guardem para si mesmos essa expressão de espanto, limpem a baba que escorre de suas bocas boquiabertas. Acrescento ainda, não existe Coelhinho da Páscoa**, e os últimos que tive o desprazer de ver, graças a Deus, morreram lá na minha chácara, depois de detonarem toda a minha plantação.
Já foram tarde!
Não, não sou pessimista. Simplesmente não espero mais nada de ninguém, nada de lugar nenhum, nem mais olho para o chão procurando moedas, nem fico a perscrutar os céus à procura de anjos.
Não sou bom nem mau, sou eu mesmo, e isso já me basta e me cansa deveras sê-lo ou ser-me (o Sr. Alexandre Costa, meu copy desk, que corrija ou não).
Tenho cá no meio peito, onde pulsa o meu segundo fígado, minhas opiniões. Tantas são que posso trocá-las por algo melhor. Mas duvido que surja mais primorosa mercadoria...
Minhas apreciações trombam constantemente com o Sr. Alexandre Costa, aquele otimista de ***, aquele cripto-Poliana, sempre com aquele sorriso de plantão na cara. Mas o choque cria fagulhas, que por fim produz o fogo, fogo esse que, se não nos foi dado por Prometeu, serve para aquecer os fins de semana em que nos reunimos para escrever nos blogs, produzir nossas rádionovelas e outros projetos fadados ao fracasso financeiro. Financeiro, vejam bem. Esse mundo não está preparado para tanta genialidade.
Azar o dele!
Cresse eu em outra vida, tentaria a sorte em outra encarnação!
Mas esse texto está ficando metafísico demais para meu sofisticado bom gosto, desagradando-me, vamos mudar o rumo dessa prosa.
Esse sou, o prazer é só de vocês.
Nada mais tenho a dizer, tudo já foi dito.
Passem bem, se quiserem!



* Ilusão
** Também não creio em duendes, fadas e outras besteiras new age.
*** Não posso dizer o que significa, mas vocês entendem.

SANDRA

Na vontade realizada de cortar os pulsos, vê frustrada que não lhe corre sangue, mas em vez disso uma hemorragia de letras, que forma poças de contos, que escorrem rios de poesias, mares de novelas...

Tanta arte desperdiçada, tanto a dizer, tanto a contar, um mundo de maravilhas a ser mostrado.

Mas para quem?

Para quê?

Quem lerá?

Essa é a dor que mata, aos poucos, mas mata!

A dor de colocar um pouco de nós em tudo que fazemos e doamos com amor ao próximo.

Que passa, e não se importa, e segue, e não vê e não lê.

É...

MEMÓRIAS (Para quê?)


Isso só pode ser o aviso do fim, da reta da chegada, definitivamente estou ficando gagá.
A idade, a chegada da velhice é um negócio que me assusta, me tira o sono, me apavora.. Não suporto a idéia de ficar velho, dependente, amparado por bengalas, guardar os dentes num copo antes de dormir.
Mas tem horas em nos pegamos vendo o tempo passar. Não falo em aniversários, natais anos-novos e outras datas convencionais.
É quando, do nada nos deixamos levar ao passado, lembranças afloram, sentimentos, e às vezes (acho que é quando o caso está de vez perdido) cheiros e sabores.
Quando, do nada lágrimas brotam, e discretamente as enxugamos, passamos a mão no rosto, como quem tira uma sujeira, um cisco.
Esse preâmbulo todo, essa encheção de lingüiça é para contar-lhe um caso que ocorreu comigo esse fim de semana.Estava assistindo a uns vídeos-clips, quando vejo a deslumbrante Debbie Harry, cantando “Hearth of Glass”.
Linda, loira, desgraçadamente jovem, magra, e tão deliciosamente viva...E aqueles olhos, meu Deus, aqueles olhos...Que dor senti no meu coração. Quantas lembranças, de amigos, que nem sei se ainda vivos estão, de situações, de tantas coisas.Que deprimente!Me perguntei a razão de tal sentimento:

__ Só podia ser uma coisa (além da tão propalada & propagandeada crise os quarenta) a certeza da finitude...Finitude e a constatação de que tudo de bom já se foi, agora é contar os minutos para o fim. Não quero ser dramático, quando digo o fim, quero dizer o fim dos “GRANDES” sonhos, “GRANDES” projetos, fim enfim dos planos de longo prazo. Afinal hoje, eu e os amigos de minha geração estamos usufruindo o que conseguimos colher dos “GRANDES” planos e projetos de nossa tão longínqua juventude.E, olha, não foram grandes coisas não!Revi o clip mais de uma dúzia de vezes, e continua o mesmo sentimento.Isso não é justo!Se tenho que envelhecer (uma tremenda injustiça) que a primeira coisa que eu perca seja memória, esqueça de tudo, esqueça até quem sou. Que cada vez que eu passe em frente a um espelho, cumprimente o estranho, e siga mordendo os lábios, haja vista que a essa altura dos acontecimentos, já terei perdido a dentadura.A vida não presta!!! (desculpem se repito muitas vezes essa frase ao fim de minhas crônicas, mas essa é a verdade)

VIDA SAUDÁVEL É ISSO!!


Puxa ferro
Malha
Sua
Rala
Faz flexões
Polichinelo
Pula corda
Rala
Malha
Sua
Bebe isotônico
Consome baixas calorias
Futebol
Aos domingos
Cigarro?
Não
Gordura?
Nem pensar
Malha
Rala
Sua
Corre para
Aquecimento
Relaxamento
Contra cãibras
Música eletrônica
Para os músculo
Música zen
Para o espírito
Vida?
Saudável
Café da manhã?
Granola sem açúcar
Corre pela manhã
Nada à tarde
Malha
Sua
Rala
E a noite
N A D A!

__Cansado demais...



Entre o veneno e cortar os pulsos


Entende Dolores
De dores,
De porradas
De cólicas

(de se dobrar ao meio)

De desencantos
Das topadas nos cantos

(dos móveis)

Dos amores que foram

(buscar cigarro...)

Das cartas que não vem
Da maionese azeda
Dos números errados
Do:

__
Ele não mora mais aqui!

Dolores pensa:

__”Se meu nome fosse Cida...”

Pobre Dolores, até o nome dói!

Pensando no Estrangeiro

Com o calor de hoje, simpatizei um pouco mais com o “Estrangeiro de Camus.”
O Sol reverberava nas ruas deixando o ar dançando uma dança homicida/suicida, me deu medo!
Procurei uma sombra, não tinha...
Uma saída?
A mais temerária.
No escritório me esperava o ar-condicionado.
Quem é mais condicionado, eu o ar?
O termômetro sobe, o crime me espera.
Penso numa praia, e vejo as areias escaldantes.
Essa imagem me remete, outra vez ao Estrangeiro...
Isso vai mal...
Quando tudo der errado, direi somente isso:


___Foi o sol, o calor estava muito forte!

Da falta de tempo


Na falta de tempo
Que não permite
Telefonar
Escrever
Umas linha que seja
Não permite visitar
Passar pela porta e dizer um

_Oi!

Na falta de tempo
Que o torna grosseiro
Insípido
Distante
Ex-amigo
Nessa falta de tempo
Em que só há tempo para ganhar
Dinheiro.

Em que tempo vivemos....

O Valor daquelas coisas


Um sorriso
Um gesto
Um olhar
Um piscar de olhos

(daquele jeitinho)

A pontinha da língua
Roçando os lábios
O baixar-se e deixar ver
O decote de colo sardento

(Aqui eu perco o fôlego)

O levantar da bunda
O salto alto
O andar
O olhar para trás
Tudo isso muito mais
É tudo o que faz a vida valer
Um pouco mais

O Velho Homem


O velho homem lentamente olha para os lados
Coça a sua longa barba branca
Puxa pela corrente de ouro de seu relógio
Pensa na vida
Revê suas velhas fotos amareladas pelo tempo
(quanto tempo...)
Sua poltrona, com o peso dos anos
(e o seu)
Tomou-lhe as formas
Isso o deixa ainda mais cômodo
O velho homem já não lê mais
Tão pouco escreve
Não há mais vontade
Nem há para quem
Nem há mais porquê...
O velho homem olha outra vez para o relógio
O tempo já não passa hoje como passava antigamente...
Tudo está mais devagar
Como ele ao andar, ao levantar-se
O olhar do velho homem é vago
O velho homem está só
Ha muito tempo até suas lembranças o deixaram
O velho homem já não ora mais
Perdeu a fé
Tudo se foi
Só ele, o velho homem ficou
Para que ficou?
Ele já não lembra mais
O velho homem olha para o relógio
Até o tempo o esqueceu...

A Missiva.



Meticulosamente escreveu a carta, e enquanto o fazia, rejubilava-se por ainda dominar a arte da escrita.

Era uma missivista desde tenra idade, herdara do velho avô o gosto pelas cartas.

Escolheu as palavras, meditou sobre cada uma delas, nenhuma palavra sobrava em seu texto.
Era claro, sucinto, sem ser seco, dizia somente o que deveria ser dito, evitava a redundância, expôs de forma clara a sua decepção, sua frustração, seu ódio. Despejou toda a sua amargura com palavras rebuscadas e esvaziou a sua alma naquelas folhas brancas, que pouco a pouco ele escureceu com o negro de sua tinta...

Ao término, respirou fundo, aliviado, esvaziado de todos os sentimentos.

Pegou o envelope, fechou, selou, postou.

No minuto seguinte arrepende-se.
Outra carta, agora pedindo desculpas...

Ah! Marilzinha.

Marilzinha era orgulhosa de seus namorados, todos sempre bonitões, bem de vida, endinheirado. Embora sempre bons partidos, nunca duravam muito. Saia com o sujeito, gastava por conta do infeliz e depois o descartava. Não demorava muito tempo sozinha, logo estava com outro.

Seu segredo? Simples, respondia ela:


__Hímen complacente...!

Seu Predicado



Sem cultura
Sem diploma
Sem berço
Sem terço
Sem fé
Nem consciência
Ri de tudo
E para todos
Não entende nada
De nada
Está em todas
As bocas
E becos
É querida
Desejada
E convidada
Freqüenta todas as rodas
E em todas roda
Não aprende
E se orgulha
De seu único atributo
Predicado que a distingue
Que em si mais abunda

Sua bunda”

FOTOGRAFIA


Da janela
Clicando sem parar
Fotos e mais fotos.
Alguma sensuais
Outras banais.
Sua musa, a vizinha
Disfarça
Finge que não vê.


Clik Clik Clik


Na janela, cocô de pombos e marcas de cotovelos
Freneticamente fotografa, fotografa, fotografa
A deusa, a sua vizinha disfarça
Mas posa
De toalha se movimenta pela casa
Desliza vagarosamente.
Na certeza de ser clicada,
Deixa-se despir.


Clik Clik Clik

2007/02/26

Apesar de...

Apesar de
todo funk
todo rap
desse céu nublado
dessas crianças gritando na rua
desses carros que aceleram de frente a lombada
desses animais pelas ruas
dessas motos barulhentas
do meu chefe que veio dos infernos
do telefone que não para de tocar
do cão que não cansa de latir
do papagaio do andar de cima que grita o dia inteiro
das pessoas chatas ao meu lado
das pessoas chatas á minha frente
das que ainda vem atrás
de hoje ainda ser segunda-feira
de ninguém ainda ter desligado o alarme do carro lá na esquina
apesar do relógio da parede estar parado
(ou parecer estar)
apesar de tudo isso
esse mundo ainda não acabou!
Mas amanhã...




Depiladas.


No começo
Tesoura e gilete
(ou teriam a coragem de usar navalha?)
Depois, graças a Deus
a G II
Hoje a G III, e
Oh! maravilha das maravilhas
Depilação à laser.
Como elas ficam bonitinhas
Tão bem aparadas
.
.
.

O SOL



Discretamente olha para fora.
O sol
ainda está lá.
Volta para dentro.
Espera.
Torna a olhar para fora, teimosamente o sol ainda brilha no céu. Pelo jeito brilhará para sempre...



__Maldito sol!



Encolhido num canto espera.
Espera impacientemente.
Sente vontade de roer alguma coisa, mas com esse maldito sol lá fora...
Anda de um lado para outro, sobe as paredes, mas lá fora ainda brilha o sol.
A fome começa a apertar, somando-se a isso a irritação e o calor do sol.
O sol.

A tarde demora a chegar.

A noite já se torna um delírio, um sonho distante.
Nunca chegará.



__Na próxima vida quero nascer qualquer coisa, menos barata outra vez!



Importante saber que antes que anoiteça, nos cantos do apartamento um pedaço de comida envenenada, espera pela barata.



Entrei,
não fiz perguntas

Vieram respostas
Não me espantei

Ela me consolou antes

Nem cheguei a pegar a carteira

E ela me deu troco.

Nem tive tempo de dizer


__Entrei na barraca errada!


Saí de lá com meu destino traçado.

ODE AOS OITENTA


Enfim os oitenta
Me vejo no espelho e nada me contenta
Olho para os pés e vejo que mijei neles
Outra vez

Fecho o zíper da calça e prendo o saco
Mordo os lábio para não gritar
E constato que ia sair sem a dentadura
Outra vez

Lá embaixo pessoas me esperam
Já nem lembro para quê
E nem lembro mais quem são
Outra vez

Há! São os meus filhos, ou creio que sejam!
Minhas mãos tremem, mas não de emoção...
Pela cara esqueci os comprimidos.
Outra vez

Procuro pelos óculos e rezo
Espero que não tenha dado a descarga neles
Outra vez

E eles querem comemorar
O quê?

Responda!

Que bom seria se você tivesse
Todas as cartas de amor que
merece

Todas pétalas de rosa que cobrissem a sua casa
Todos os
bombons suíços que deseja

Todos os beijos que te fartassem

Todos os
carinhos que te consolassem

Todos abraços que te aquecessem
Todos os
amigos que te cercassem

Todo o amor desse mundo fosse seu, mas
Pare

Pense

Responda:


__O que você já fez para merecer tudo isso?

CUIDADO COM A NATUREZA!

Tanta preocupação com a natureza...

Preservem isso!

Preservem aquilo!

Bobagem, vos digo, bobagem!

Olhai para os prédios abandonados ou sem trato

Olhai para as ruas sem cuidados

Para as cercas

Para os buracos

Por todos os lados a natureza

Insidiosamente

Se mostra, aparece, se apresenta.

Em forma de árvores em telhados

Samambaias nas frestas

Capim em volta de postes

Raízes quebrando calçadas

Torcendo nossos pés

Machucando nossos pescoços em galhos

Jogando frutas em nossas cabeças.

Atentai à natureza!

Ela ainda acabará conosco

Lenta e discretamente...

Acabai com vossos vasos!

Livrais-vos de vossas plantinhas!

Cimentai vossos quintais!

O aviso já está dado.

Poeminha irônico

As folhas caem
O vento as empurra
O buraco na rua as engole.
Os pássaros voam
Em círculos se despedem
Talvez voltem no verão
O céu escurece
Um trovão ao longe
Choverá?
Os carros passam
Espalham água
Os ônibus passam e não param
O vento fica mais forte
Começa a chuviscar
Olho para o céu com uma certa ironia
Tanta poesia no ar
E eu sem guarda-chuva
Vou para casa encharcado
Sigo a pé
Pisando nas poças
Esperando o resfriado
Sim
Sem dúvida
É o fim.

Drama relâmpago IV

Velhinho, octogenário, vem caminhando pela rua, quando uma dessas mocinhas
o interpela:

- Ô vovôzinho, o senhor dá conta de tudo isso
aqui?

Apoplético e asmático, sacudindo a bengalinha, o velhinho
entre uma tossida e outra, xinga a menina.
Afinal, todos à sua volta rindo,
se perguntam:

- Ele está bravo porque a menina achou que era muito
velho ou impotente?

O Salgado Sabor

.
.
.
E
Então
Aquela
Gota
Pequena
Translúcida
Brilhante
Transparente
Que presa num fino fio
De igual
matéria
Flutuando
Cai
Lentamente,
Mas
Antes
Que se solte,
Quede
É
Aparada por
Uma língua
Que diz:


__Salgada...

Sobre sardas

As sardas

No rosto

No colo

Nas costas

Nas coxas

As sardas
Sobre o nariz

As sardas
Sobre os ombros

Ah! Sardas...

Deus, inspirado, criou a mulher
Mas o diabo
diabolicamente
colocou nelas as sardas

Cevando

Ceva
Alimenta
Nutre
e
mede e pesa
torna a cevar
e
alimentar
telefona de vez em quando
manda flores
e
bombons
às vezes
românticos cartões
ceva
ceva
ceva...
mas
não
come
!

NO CONSULTÓRIO

Entrou na sala, como quem entra num palco a espera de aplausos, só havia um homem no consultório.
Sentou em frente a ele já ofendida por não ter sido notada, ele sequer virou os olhos para fita-la.
Abalou a sua auto-estima.
Cruzou as pernas, resolvida a vingar-se. Tornou a cruzá-las de novo. A meia de seda era da cor da pele (morena de muito sol), por sobre as lentes do óculos escuros olhos para ele.
Nada.
Imóvel. Uma estátua não seria mais inerte, só faltavam as pombas sobre a sua cabeça.
Tossiu, pigarreou, cruzou as pernas com mais vagar, e nada.
Começou a bater com os sapato de bicos finíssimos e saltos altos. Eles tinham detalhes de falsos brilhantes.
Nada.
Jogava os loiríssimos cabelos para os lados.
Nada.
Retocou o batom, com certeza isso deveria chamar-lhe a atenção.
Nada.
Apelou para o perfume (francês=doce) que deveria envolver toda a sala, e chegar-lhe às narinas, fazendo que seus olhos fitassem os seus, para então ela perguntasse:

__O que você está olhando? Nunca viu uma dama perfumando-se?

Nada.
Ainda por cima ele espirrou e levou um lenço ao rosto, assoando o nariz.

__Resfriado! - murmurou baixinho para o espelho em retocava, outra vez., o batom.

Passou a mexer-se na cadeira. Puxar a saia, curtíssima. Arrumar os seios dentro do dadivoso decote.
Apelava, daqui à pouco seria convidada a sair do consultório oftalmológico.
SECO
ÁRIDO
PERDIDO
(OU QUASE)
COM MEDO
DE NUNCA MAIS
ESCREVER NADA
NADA
NADA
NADA
PROCURO ASSUNTO
INSPIRAÇÃO
UM MOTE
E
NADA
NADA
NADA
QUE ME
ANIME
ME
INSPIRE
ESSA MALDITA
FOLHA EM BRANCO
QUE TEIMO EM PREENCHER
QUER COM IDÉIA
QUER COM LEMBRANÇAS
QUIÇÁ UMA
BOBAGEM SEQUER
EMPILHO ESSAS PALAVRAS
ARREMESSO-AS
AO
ALTO
QUE SE JUNTEM
(OU NÃO)
QUE FORMEM ALGUMA COISA
(OU NÃO)
MINHA PARTE FIZ
QUE FOI
DIGITAR
DIGITAR

DIGITAR

DIGITAR
.
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fonte

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2007/02/13

O ESCREVER

Escrever é fácil. Tudo o que você tem a fazer é ficar olhando fixamente para uma folha em branco até a sua testa começar a sangrar.
- Douglas Adams*





Está ai uma verdade ironicamente bom colocada. É fácil escrever?


__Sim/não.

Já comentei antes, e um milhão de vezes depois disso, escrever é fogo, tem-se a idéia, tem-se os teclados, o tempo para isso, mas nem sempre a coisa é assim tão simples. Uma boa idéia, uma boa história na nossa cabeça é uma coisa, mas na hora de colocá-la no papel...

Em quantas oportunidades eu tive a idéia mais genial jamais tida antes por qualquer criatura alfabetizada (ou não), e, na hora “H”, nada!

Então fica-se a olhar para a tela em branco. Sentimo-nos umas bestas. Para que viver? Não presto para nada, como posso pensar em viver de escrever?

Começamos uma “brain storm”, jogamos letras, palavras, frases, na esperança de que surja algum sentido, e, após excruciantes minutos, só temos uma tela cheia de bobagens totalmente sem sentido; jogamos o corpo para trás na cadeira, puxamos os cabelos, passamos a mão no rosto, quase arrancando os olhos, nos levantamos da mesa, chutamos a cadeira para longe, vamos lá fora fumar um cigarro, olhar o céu, procurar um jornal velho e ver as páginas de classificados, afinal não nascemos para escrever; talvez devamos mesmo é arrumar um trabalho honesto, bater cartão, aturar chefe, cumprir horário das 08:00 às 18:00hs e deixar esses fumaças literárias se desvanecerem por completo.

__Mas não! - gritamos par nós mesmos, e voltamos aos teclados, à tela em branco, e começa o segundo round.

Nos sagraremos vencedores?

__Não sei. - Talvez consigamos empatar o jogo. Escrevo alguma coisa, nada que valha um Nobel de literatura, mas alguma coisa que me indique que ainda não é hora de desistir.

Então, vendo algumas frases com sentido lógico, nos sentimos recompensados pela labuta, crendo piamente que amanhã estaremos mais próximos ainda da GRANDE OBRA...
E vinte e quatro horas depois, começa tudo de novo, sangramos não só pela testa, mas por todos os poros.




*Autor do “Guia do Mochileiro da Galáxia”.

ÓDIO

...foi muito rápido, até para mim mesmo. De repente, me vi dando um joelhaço nos testículos dele, que, como em câmera lenta, começou a se dobrar sobre si mesmo, e, quando dei por mim, estava acertando sua testa e parte do nariz com outra joelhada.

Aí, o branco do ar, como num desenho, ficou marcado com um risco vermelho, que era o sangue que saia de seu nariz. Ele fez um “Huf” e começou a cair para trás; como se eu estivesse num cinema, longe dali, me vi pulando em cima do pescoço dele, e dar murros e mais murros e mais murros, até as minhas mãos começarem a inchar. Ele só dizia “ai ai ai”, quase chorando; chutei o óculos dele para longe, me levantei e comecei a dar-lhe pontapés nas costelas; ele já não falava mais nada, acho até que chorava bem baixinho, e eu gostava do que estava ouvindo...

Quanto tempo esperei por esse dia... Quando batia nele, só uma preocupação me afligia: se aparecesse alguém? Não medo que me pegassem socando aquele puto dos infernos, a minha preocupação era que me segurassem, não deixassem socá-lo ainda mais um tempo. A roupa ficou manchada de sangue que saia do nariz, aquele maldito e arrogante nariz adunco.


__Cadê a tua chefia agora, seu bosta? - eu falava baixinho no ouvido dele, só para ele ouvir. __ Cadê o teu poder, seu puxa-saco nojento?


Ele chorava baixinho. Já não era mais um encarregado poderoso, capaz nos assustar com ameaças; já não usava mais o óculos na ponta daquela massa roxa que era o seu nariz; já não dava mais para ver os seus olhos azuis, inchados de porrada e cobertos de lágrimas.

Não sei como arranjei tanta energia para bater nele. Mas bati, bati muito, e, para meu espanto, não perdi o fôlego, e continuei batendo; quanto mais ele chorava, implorava baixinho para eu parar, mais eu batia.

Por mim, continuaria batendo nele por horas e horas. Dava gosto vê-lo arreado no chão. Eu olhava de cima, e gostava do que via. Ele parecia um feto, encolhido, abraçando os joelhos e perguntando entre lágrimas ”Por quê? Por quê?”. Pensei em explicar, parei de chutá-lo por um segundo, respirei, tomei ar para falar, mas pensei melhor, e voltei a espancá-lo.

Como era bom isso. Gostaria de congelar o tempo e ficar ali para todo o sempre fazendo aquilo, tinha para isso forças e ódio suficiente. Eu sorria e lembrava da cara dele, o espanto ao entrar na minha sala e...

2007/02/12

CONVERSA DE BAR E SUAS IMPLICAÇÕES


Na terceira mesa à esquerda de quem entra no bar do portuga, num canto sujo e infecto, sob uma lâmpada de quarenta watts, seis amigos, já altos, conversam, riem alto e bebem outra rodada de chope.
A peroração continua, até que, de repente, Zé Carlos, o Fuinha, batendo a mão com força na mesa a ponto de jogar os amendoins ao chão, grita com fúria nunca vista antes:

__Pelo menos eu não sou corno!

O silêncio cai sobre a mesa fazendo mais estrago que um container sobre um fusca. Todos se olham, baixam a cabeça, deixando os copos cheios, as rodelas de lingüiça com cebola e os amendoins no chão. Lentamente, colocam as mãos nos bolsos, tiram de lá uns trocados que deixam sobre a mesa, e vão-se. Nunca mais se encontram.

Ou.

Todos se olham. Dois pegam o Fuinha pelo colarinho e começam a sacudi-lo. Andrézinho cobre o rosto com as mãos calejadas e começa a soluçar. Num segundo, pula sobre Fuinha e ameaça cortar sua garganta com uma tulipa de chope. Os outros dois que estavam ao seu lado ficam espantados com:

1. A violência de Andrézinho, e
2. Saber que ele é corno.

___Logo o Andrézinho, o mais bacana de todos ali na mesa, que injustiça!

Os fregueses acorrem para apartar a briga, os garçons correm para cobrar a conta e o português puxa o bigode preocupado com os prejuízos.
O pau corre solto.
Após a briga, nunca mais se falam, e, dias depois, lêem no jornal que Andrézinho foi preso por agressão, mas a mulher passa bem no hospital.

Ou.

Entra o pessoal do “deixa disso”, pedem outra rodada de chope e mais amendoim salgado. Fuinha explica que não sabe o que deu nele para falar uma coisa dessas, bebe três tulipas de chope de uma só vez, engasga, tosse e começa a chorar. Todos se olham sem graça.

__Será que ele é o corno? - perguntam-se.

O garçom chega com os amendoins e quebra o gelo.
No balcão, toca o telefone que o português atende com rápida presteza. Ele grita:


__Telefone “prú” Fuinha, ó Fuinha! É a Dona Emília.


Os amigos param de beber e, com os copos a meio caminho entre a mesa e a boca, se perguntam:

__Quem é dona Emília?

Fuinha calmamente acaba seu chopinho, enche a mão com os amendoins e levanta-se para ir balcão atender ao telefone.
O garçom traz outra rodada de chope.
A noite vai ser longa para explicar essa história...

Ou.

O BAR

No balcão sujo, as marcas de copos se multiplicam exponencialmente; o barman já não sabe se sorri de verdade ou se aquilo no seu rosto tornou-se um ricto, uma cicatriz; as garrafas estão sempre pela metade, nunca vazias, nunca cheias, sempre a um passo de acabar no próximo copo que nunca deixa de chegar.

Há anos que não se vê mais a cor das paredes, tamanha a densidade da fumaça de cigarros; as cadeiras são fundas, dada a quantidade de fregueses que se sentam ali diariamente e o chão está gasto de tantos passos perdidos que passaram por ali em tantos e tantos anos...

Em algum canto um piano toca, mas onde?

Não pense em procurar onde!

Ninguém sabe, afinal nada se vê naquele ambiente turvo de fumaça e emoções desencontradas e sentimentos conflitantes; as vozes, roucas, roufenhas, sussurrantes, abafam a melancólica melodia da triste música que escorre dos teclados tocados pelos pálidos e suarentos dedos do pianista, que há anos?, séculos?, quem sabe?, toca a mesma canção deprimente.

As luzes no teto são como estrelas, brilham mas não iluminam, nada atravessa aquela atmosfera tão densa.

Um freguês encosta no balcão, e, antes de pedir alguma coisa, o barman, em “piloto-automático”, serve-lhe uma dose de conhaque, que é sorvido de um só gole; outro copo e mais outro são servidos, muitos outros seguirão, até que o indivíduo se deixe seduzir pela melancólica canção, e, como os outros que lá se encontram, esqueça de voltar para casa, para o trabalho, para a família, para vida; se somará a procissão de espectros que, bebendo, esperam pelo fim dos tempos, para que enfim possam descansar.

O barman olha para o estranho calendário na parede que, em vez de dias, marca anos e séculos, e, contando-os para o fim do mundo, faz com o lápis uma cruz nele e, olhando para o relógio, resmunga:


__O tempo não passa... - Pegando o pano de prato, passa limpar pela enésima vez o balcão marcado de copos e dores .


Pela porta da frente, mais um infeliz entra e o barman suspirando pega à suas costas uma garrafa qualquer na prateleira, e, lá do fundo, a música recomeça, a mesma música melancólica de sempre...

__O tempo não passa... - reclama o barman com o homem que bebe e não presta atenção em nada à sua volta. Enquanto limpa as marcas de copos num lado do balcão, no outro, elas renitentemente voltam. - O tempo não passa...

PERDIDO


Desceu do ônibus com muito custo, depois de tantas curvas, estava tonto e quase torceu o pé na escada. Na calçada, apoiou-se no ponto e esperou a cabeça parar de rodar.

Respirou fundo e seguiu em frente olhando para os lados, tentando se localizar no “contexto”. Andou a esmo pelas ruas, subiu ladeiras, desceu; por engano, entrou em becos sem saída, ruas escuras, praça em que ficou rodando várias vezes, atravessou pontes, passou por igrejas góticas e tenebrosas que tocavam seus sinos que ecoavam pelos prédios à sua volta.

Homens de capotes escuros, mulheres de maquiagem carregada e seminuas, que lhe assoviavam; de algum lugar que não conseguiu localizar, ouviu um grito de criança, depois, um latido de cachorro...

Como viera parar aqui?


__Onde é aqui? Onde estou? - indagava-se.


No relógio de pulso, viu que já passava das onze horas da noite, pouco faltava para a meia-noite. Começa a chuviscar, e as ruas enchem-se poças e seus sapatos chapinham n’água.

Em frente a um cinema, uma multidão passa, comentando o filme recém-assistido. Não quis ouvir para não se deixar influenciar, caso resolvesse assisti-lo depois.


__Gostava de cinema? - indagou-se.


Não se lembrava, nem se lembrava se já havia entrado num antes. Do que gostaria? Guerra? Ficção-científica? Romance?...


__Onde estou? De onde venho? Para onde vou?


O que seriam, para outras pessoas, perguntas retóricas, para ele eram como um norte. De onde viera e para onde iria?

Meia-noite!

A chuva engrossa e as poças transformam-se quase em rios que lavam as ruas e levam as pessoas e outros entulhos que encontra pela frente.

Procura uma marquise, um bar aberto, qualquer lugar para abrigar-se àquela hora. Procura nos bolso algum documento, papel, chave, qualquer coisa que lhe dê uma pista de quem é.


__Nada! - diz apalpando-se. Do bolso, tira a mão encharcada de chuva e nada mais.


Um trovão, e a chuva engrossa mais ainda. Correndo, refugia-se num outro ponto de ônibus onde um cachorro molhado também se refugia. Fica ali parado e tremendo de frio.

Na escuridão, uma luz surge, é um ônibus. Ele estica o braço, dá o sinal de parada, e, louco para fugir de todo aquele aguaceiro entra no coletivo, paga a sua passagem e vai sentar-se no último banco, nos fundos.

Senta-se, a água desce de sua roupa e forma poças no banco. Ele, aborrecido levanta-se e troca de lugar; num tranco, o ônibus põe-se em movimento.

P.S. Aproximadamente quatrocentas e vinte e oito palavras, dois mil quinhentos e seis espaços, vinte parágrafos e sessenta e uma linhas depois, ele ainda continuava perdido.

HOJE É DIA



Muito séria, chega à mesa da colega e fala, como se contasse um grande segredo:

__Se a noite a terra tremer, prédios balançarem, lustres ameaçarem cair do teto, não se preocupem, é que as crianças vão para casa do avô essa noite, então você já viu, né???


Vira-se rápido como um raio e grita:


__Olha só, um urubu “traçando” uma pombinha... Coitadinha dela, o que será que vai nascer disso?
As colegas se olham com estranhamento, enquanto ela já corre para outra janela, e aponta para o prédio comercial em frente e grita outra vez:


__Olhem só, o careca aí da frente esqueceu de fechar a porta do banheiro novamente...


As colegas, mais preocupadas, olham-se assustadas quando ela senta-se à sua mesa e começa a bater palminhas, cantando:


__É hoje, é hoje, é hoje... - Virando os olhinhos, pergunta para a moça ao lado:

__ Ainda falta muito para as cinco horas?


Todas olham imediatamente para o relógio de ponto, e, em uníssono, respondem:


__Três horas e cinqüenta e sete minutos!


Inconformada, ela confere com o seu relógio de pulso:


__Hoje dá seis horas mas não dá cinco... – Desassossegada, sai da sala.


__Em vez de um café, ela deveria ir tomar um banho frio - diz a faxineira que, de vassoura na mão, acompanha a agitação da outra.
As outras balançam a cabeça afirmativamente. A porta bate e todas pulam de suas cadeiras assustadas.


__Nem olhem para mim, não tô mais para brincadeira. - Joga-se em sua cadeira e começa a datilografar feito louca.

O que teria acontecido? O que seria capaz de mudar o seu humor daquele jeito?
Ninguém tem coragem de perguntar, e, nervosas, roem as unhas à espera de uma oportunidade de indagar-lhe.

O tempo passa lentamente. Todas olham para a ela que, de cenho carregado, olhos marejados, mãos tremendo, claramente segurando as lágrimas, trabalhava freneticamente.

Toca o telefone. Uma vez, duas vezes, três vezes..., até que a faxineira resolve atender:


__Simone, pra você, é o Seu Gerson!


Choro, soluços, uma gaveta que é fechada com violência, e o cesto de lixo que é chutado para o centro da sala, que a faxineira acabara de varrer.


__Diz que não estou aqui, que morri, pulei da janela, cortei os pulsos, tomei formicida... - Sai correndo para o banheiro, agora sim, dando vazão às lágrimas.


Sem graça, a faxineira vai dar o recado:


__Seu Gerson, aqui é a Jacyra, a Dona Simone mandou lhe dizer que... -interrompendo-se - Oh não! Oh não! Vou correndo agora mesmo atrás dela.



Ela desliga o telefone e sai correndo para o banheiro, mas antes de sair da sala, rindo, ela diz:


__O Seu Gerson ligou para o celular dela e disse que levou uma bolada nos “documentos”. Ela acreditou. Quero ver se chego ao banheiro antes dela pular da janela....

Todas riem, enquanto Jacyra corre para fora do escritório.

REMÉDIO PARA A SOLIDÃO DE NATAL


Click!

Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrr....

Os convidados começam a conversar amenidades, bobagens, besteiras do dia-a-dia, ao som de talheres sobre os pratos, copos fazendo tim-tim, garrafas sendo abertas, rush-rush de cadeiras sendo arrastadas pelo chão. Crianças correm pela sala, o cachorro late e corre atrás delas, uma velha senhora de nariz adunco dá uma bronca numa delas, um copo cai no chão, vozes dizem “Ohs!” e “Ahs!” , mas tudo acaba em risadas e galhofas. Do fundo da sala, alguém diz “Olha o peru quentinho!”. E lá vem ele, o peru, servido sobre uma baixela de prata, trazida por um mordomo empertigado que pensa que é inglês.

Todos à mesa gritam vivas ao dono da casa e você se sente orgulhoso como nunca. Sorri e levanta o seu copo em direção aos convidados.

__Que bom negócio eu fiz! – pensa, enquanto serve-se da salada.

Os homens à mesa começam a cantar canções em sua homenagem. Você sorri outra vez e mastiga a salada com mais vontade ainda. As mulheres acompanham a música com palminhas e risinhos tolos, as crianças, como por milagre, param a correria e, prestando atenção à música, começam a cantar baixinho.

Ao fim do espetáculo, todos de pé o aplaudem e lhe fazem reverência.


__Nunca um Natal lhe foi tão deleitoso - você pensa, enquanto corta um pedaço de pão.

Então...

Click!

Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

O videocassete rebobina a fita e você deixa a mesa onde come sua saladinha com pão velho, para passar o filme outra vez.

FIM DE ANO VISTO DA JANELA


Ele se foi, como se foram os últimos quarenta e cinco, a princípio mancando, e, por fim, se arrastando sob minha total indiferença.

Foi fazendo muito barulho, bem que poderia sair “à francesa”, mas preferiu a bagunça de fogos de artifício iluminando o céu, música atormentando os cachorros e tirando o sono dos que pretendiam dormir àquela hora. Sim, havia quem quisesse!

Foi-se para não deixar saudades, mas deixou marcas que durarão muito e demorarão mais ainda para apagar-se.


__Já foi tarde! Aliás, nem deveria ter vindo, poderia ter passado muito bem sem você...


Na rua, uns alienados choravam enquanto abraçavam outros alienados que, bêbados, com copos na mão, gritavam de alegria, vendo outros tantos estúpidos fantasiados dançarem nas ruas aos sons que saiam das casas e dos carros por ali estacionados em cima das calçadas.

Da minha janela, triste, via aquela babel de frustrações e esperanças regadas a álcool, abraços, risos e lágrimas.


__Pobres coitados!


Crianças corriam pelas ruas, jogando confetes para cima e chutando latas de lixo, cachorros latiam desesperados pela algazarra; parecia um ensaio de fim de mundo, que não chega nunca!

Mas, quem sabe no próximo ano?

__Oremos!!!

ENCONTRO NO CENTRO DA CIDADE


Encontram-se no centro da cidade por puro acaso, trabalhavam juntos no mesmo edifício, eram colegas de profissão, um trabalha no térreo do edifício, o outro, no quarto andar. Raramente se vêem, desencontram-se diariamente há dezesseis anos.

Sabe-se o que acontece um com o outro via conversas e fofocas.

Na semana passada, morreu a esposa de um deles.

Climão!

O que dizer para ele? Como consolá-lo? Há que se fazer algo, dizer algo, mas o quê?
Passa o tempo, passam os dias, e dá-se por esquecido o acontecimento. Ele, viúvo, curte o nojo por sete dias (assim diz a lei).

De volta ao trabalho, tudo segue como antes. Alguns o abraçam sem palavras, outros, de cabeça baixa, apertam-lhe o braço, outros ainda, dão-lhe um tapinha nas costas, e a vida segue em frente.

Carimbos, arquivos, papéis, papéis e mais papéis, e a dor, senão esquecida, é carimbada e arquivada.

Esquecida num armário ou gaveta qualquer...

Mas, eis que passado isso, como dizia no primeiro parágrafo, eles se encontram no centro da cidade. O primeiro vem andando pela rua olhando para o céu, talvez procurando no azul celeste a imagem da falecida; o segundo, procurando um meio de “desencontrá-lo”, mas o inevitável acontece, e eles se trombam.


__Olá... Como você está reagindo? - sem graça. - Eu soube o que aconteceu. Você me desculpe, mas eu não presto para nada nessas horas. Sou um arrematado inútil, e acabo falando o que não devo...


__Que é isso? - diz sorrindo sinceramente. - Estou superando, e o que mais você poderia dizer que não o óbvio? Nada nos consola numa hora dessas... Prefiro assim. Não se preocupe.


__Já almoçou? - arrependeu-se na hora da pergunta; se ele ainda não tivesse almoçado, iria convidá-lo, e isso era última coisa que ele desejaria nessa hora, preferiria abrir um canal no dente a ter que tê-lo por companhia numa hora dessas.


__Não, obrigado, já comi alguma coisinha ali. - e aponta para o indefinido, haja vista a quantidade de restaurantes, bares e lanchonetes que há ali nas redondezas. - E você, já voltando para o prédio?


__Sim. Aproveitei para dar um pulo nas lojas, mas já estou voltando.


Os dois ficaram se olhando, sem mais assunto. As pessoas passavam com pressa em volta deles, o céu escurecia.


__Vai chover.

__É capaz.


O segundo dá um pigarro, revira a sacola cheia de compras, e de lá puxa um pacote com charutos recém-comprados, abre e tira um.
Meio sem graça, oferece-lhe.

Emocionado, o primeiro, sem palavras, abraça-o fortemente e dá-lhe sinceros tapinhas nas costas. Com os olhos brilhando, talvez de emoção, talvez de gratidão, diz-lhe:


__Obrigado, obrigado... – sorrindo. - Será que posso fumar no banco?

__Não, acho que não...

__Então vou guardar e fumar em casa no Natal. Obrigado, muito obrigado mesmo.


Sorrindo foi embora, olhando para o charuto, que girava nos dedos, levando de vez em quando ao nariz.

Já não olhava mais para o céu.

A PESCA


Enrolava a linha em volta da garrafa, molhada e já cheirando a mar. Pescava com linhada, que dava mais prazer que vara e carretilha.

Rodou sobre a cabeça a chumbada, deu uma, duas, três voltas no ar e lançou-a ao mar.

Esperou uns minutos, nada dos peixes beliscarem a isca. Tornou a puxar a linhada, enrolar na garrafa e lançar de novo n’água.

Assim passou toda a tarde.

Não tinha pressa nenhuma de voltar para casa. Olhou em volta procurando o cachorro, e o viu correndo atrás de gaivotas, latindo feliz da vida, indo e vindo atrás das aves. Só se ouvia o barulho das ondas e o latido do cão. Isso era bom, e sorria pensando no alvoroço que deveria estar em sua casa a essa hora. Gente falando alto, crianças correndo, os velhos gritando para se fazerem ouvir.

Suspirou e jogou a chumbada de volta à água. A linha corria e espalhava água salgada para os lados. Nesse momento tocou o celular, viu que era a mulher procurando por ele.

Pensou se deveria atender ou não.

Não atendeu.


__Parou de tocar. - Vai ver a mulher cansara de esperar que ele atendesse.


Recolheu a linha mais uma vez, nada de peixe, só água salgada e algumas algas. O cachorro continuava a correr atrás das infelizes gaivotas; estava molhado e sujo de lama, teria que tomar banho quando voltasse para casa.

Sorriu outra vez vendo a imensa alegria do cão. Novamente o celular tocou. Sem pensar, quase como um reflexo, jogou o parelho no mar. Um segundo depois arrependeu-se, teria que comprar outro agora.


__Mas que diabo a mulher tinha que ligar tanto?


Recolheu a linha. Estava mais desanimado ainda com a pescaria. Não estava lá só para pescar, queria mesmo era ficar sozinho com seus pensamentos, os peixes seriam um bônus, mas essa chamada insistente da mulher...

Colocou o camarão no anzol, girou a chumbada sobre a cabeça e arremessou o mais longe possível, e esperou. Para seu espanto, a linha deu um tranco, e ele imediatamente começou puxá-la.

Puxou, puxou e, por fim, na ponta da linha aparece um peixão. O cachorro parou a sua tola correria e veio ver o que o dono tinha conseguido, sentou-se ao seu lado abanando o rabo, quando o dono coçou-lhe a cabeça e as orelhas.

O sol começa a se pôr. O dono pergunta ao cachorro se deve continuar tentando mais um peixe antes de voltar para casa. Em resposta, o cachorro sai correndo para se divertir com as gaivotas.

O velho, sorrindo, começa a enrolar a linha em volta da garrafa...

PRESENTE DE NATAL


No escritório abafado pelo calor e a falta de aparelhos de ar-condicionado (queimados), ventiladores espalhando papéis que não estivessem presos por grampeadores, furadores, pedras trazidas da rua.

Olham para o relógio, a tarde esta chegando ao fim. Na folhinha, o natal está há dois dias de distância.

Das janelas, vêem-se as ruas enfeitadas, pessoas andando com pressa carregadas de sacolas.

__Presentes... - fala a mocinha sonhadora sentada à sua mesa.

__Sim, presentes. Olhem só, quase cinco horas e nada - diz outra abanando-se com um envelope pardo, todo furado de tanto ser reciclado.

O tempo passa e, a cada tic-tac, aumenta a aflição pela espera dos presentes que os chefes darão.

As mesas estão limpas, as gavetas fechadas, papelada despachada, arquivada, escondida. Serviço em dia.

__Cinco e quinze. - reclama outra mocinha, olhando o relógio de pulso e conferindo o da parede. - Acho que não vem nada não!

__Ah! Vem sim! Tenho certeza - diz a sonhadora que ainda está na janela vendo o movimento das ruas.

No prédio, as pessoas começam a sair, desejando-se boas festas; começa a escurecer, não se sabe se é a noite chegando ou se é a chuva de fim de tarde.

No escritório, as meninas continuam esperando o presente de fim de ano. O abono não veio, o presente é a última esperança de um ”Feliz Natal”.

Seis horas!

Começam apagar as luzes, os gerentes já se retiraram pelo elevador dos fundos, o patrão telefona de seu celular, já está na rua, e deseja a todas as meninas um Feliz Natal.

O céu escurece com a chuva e com a noite.

A MALDITA PERGUNTA


( É quando me pergunto se vale a pena ser educado)





___Acordei com trinta e sete graus e meio!

Respondeu o cão, quando por educação (sim a tenho), perguntei-lhe como estava.

Mordi os lábios, e discretamente amaldiçoei a hora em que o encontrei. Tentei seguir em frente, mas ele segurou-me pelo braço (os chatos tem esse hábito!), e começou uma história sem fim e/ou sentido sobre tudo e sobre nada em especial (especialidade dos chatos). Minto, teve fim, quando, por milagre, a porta do elevador abriu-se e, deixando-o a falar sozinho, entrei naquele cubículo espelhado, apertei o botão do terceiro andar, e fui.

Mas antes que o maravilhoso meio de transporte vertical chegasse, ouvi muito. Não entendi nada, deixei-me ficar em piloto automático e balançava a cabeça afirmativamente para cada frase, palavra, sentença, afirmações e negações que ele fez. Concordando falsamente com suas exclamações, balançava a cabeça com mais veemência ainda.

Com as mãos nos bolsos, eu quase me castrava, sentia em meu íntimo que, quando a conversa terminasse, se terminasse, estaria eunuco...

Tudo isso por um simples:

__Tudo bem?

No bolso do meu blazer, trazia um exemplar de “Ficções”, de Jorge Luis Borges que, ainda feliz com a vida, havia comprado num sebo onde passo religiosamente todos os dias.

Pergunto-me se isso tem alguma coisa a ver com a essa situação.

...e ainda gasto dinheiro comprando livros sobre realismo fantástico!

METÁFORA DESCABIDA


(ou não ande sem dinheiro no bolso)




Numa rua escura, suja, molhada e deserta depois de um temporal.


__Nãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonão.

__Pára com isso, mermão. - falando baixinho no ouvido. - Nunca ouviu falar: “Se o estupro é inevitável, relaxa e goza?”

__Só que isso não é uma metáfora...

__Quieto! Se continuar assim, vai ser “metafora” - e fala soturnamente - e eu não vou gostar...

__Nãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonão....

__Relaxa, mermão - fala calmamente -, cê já viu que é inevitável.

__Nãonãonãonãonãonãonão. Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...

Moral da história?

“Se o estupro é inevitável, não dá mais para correr e não adianta gritar, relaxa e goza!”

CRISE



Meia hora em frente ao espelho do banheiro da repartição fazendo maquiagem, outros tantos minutos penteando os cabelos; olha para as unhas, vira de costas e, quase quebrando o pescoço, vê como está a sua roupa recém-comprada (modo exclusivo, disseram à ela!).

Sai e vai à rua almoçar seus legumes e verduras.

Olha-se em todos os reflexos das vitrines por onde passa, sempre ajeitando, ora a roupa, ora o cabelo, ora um detalhe qualquer. No restaurante, escolhe a mesa mais bem localizada, de preferência na entrada, para que possa ser vista por quem entra.

Manipula os talheres com graça e leveza, observando as mãos. Tem com elas uma implicância patológica, acha que as sardas traem a sua idade.

__Não fosse esse um país tropical, andaria de luvas o ano inteiro... - reclama baixinho. - Tantos cuidados, tanta vaidade, quanto dinheiro gasto em cremes para o corpo, cremes para os cabelos, esmalte para as unhas, e essas mãos traindo a minha idade...

Terminada a refeição, sai à rua para tomar um pouco de sol, antes de voltar para a repartição e amarelar-se até às dezoito horas.

Olha em volta de si enquanto anda. Tanta gente jovem e ela ali, envelhecendo, enrugando-se, azedando-se cada dia mais.

Execrando o elevador, ela sobe as escadas nervosa, pensando com seus botões:

__Assim, subindo as escadas, acabo engrossando as panturrilhas!

Quando chegar em casa à noite, vai socar o filho que a tornou avó!

__Ele não perde por esperar...

A FESTA



A música alta faz as paredes tremerem, a bebida correndo solta, copos cheios e garrafas vazias, pernas tortas e cabeças altas, vozes pastosas e palavras enroladas. Casais dançando juntinho, cada vez mais apertadinho. A temperatura subindo, copos esvaziando e mais garrafas jogadas pelos cantos.


__Proibido fotografar!


Fumaça empesteia o ar, risadas ecoam pelo ambiente. Casais se perdem nos cantos escuros, e outros tantos trocam de par. Seguem bebendo, dançando, roçando, rindo, indo e vindo sem parar. Ainda é muito cedo para ir para casa, e tarde demais para raciocinar...

A música segue com bebidas, beijos, dança, risadas, palavras tortas e vozes cada vez mais pastosas.


__Proibido fotografar!


__Ninguém é de ninguém!


A noite segue longa e animada com músicas, bebidas e casais por todos os cantos. Uma feira de farsas, vícios à mostra, taras à espreita, olhos a postos.
Segunda-feira não se falará de outra coisa!

Cenas de ciúme, desculpas fajutas, cabeças baixas, consciências pesadas, reputações e bons-nomes na lama para todo o sempre.


__Quem diria, hein? Logo ela?


Olhos que seguem, sorrisos de escárnio disfarçados, fofocas no café, remoções a pedido e separações.

Sim, ninguém se esquecerá dessa festa tão cedo.


__Ainda bem que não fotografaram nada!

Será que no próximo dezembro haverá outra?

O VELHO E O JORNALISTA


De manhã, numa aldeia de pescadores, numa praia quase deserta.

__Não me lembro bem... - responde o velho quase centenário, sentado em seu velho tronco caído, cheio de vermes, chapéu de palha puído usado ao longo de mais de um século de vida - mas acho que ele viveu por aqui sim...

O velho dá uma entrevista a um jovem jornalista, que está à beira de uma crise de nervos, haja vista que, a cada pergunta, o velho dá uma resposta diferente e contraditória.

__Mas o senhor não me disse que o Alemão viveu aqui?

__Alemão... que alemão? Aqui já viveu algum alemão? - fala enquanto coça a cabeça branca de algodão e com o dedo do pé direito faz buracos na areia.

__Fritz, o senhor lembra do Fritz, o artista que viveu aqui há mais de cinqüenta anos? O senhor cuidava da casa dele... Minhas fontes me indicaram o senhor para me dar mais informações sobre a vida dele.

__Eu cuidei da casa de alguém? - cospe um cuspe grosso de mascador de fumo, e junto vai a dentadura, grande demais para a sua boca, outra vez.

O repórter olha para o lado, enquanto o velho limpa a dentadura e a põe de volta na boca.

__... há mais de cinqüenta anos que não vejo ninguém. O cachorro morreu, sabe? Tadinho, esqueci o bichinho amarrado lá atrás e, quando me lembrei, ele tava lá durinho e sequinho... parecia um bacalhau... - Se abana com o resto de seu chapéu e cospe outra vez, tendo o cuidado agora de tirar a dentadura primeiro. Na mão dele, fica a baba grossa que ele limpa na areia. Olha para o jovem à sua frente e pergunta o que ele quer ali.

O jornalista olha para cima, pega um lenço no bolso e limpa o suor que lhe escorre pelo rosto. Um engulho sobe-lhe pela garganta, respira fundo, olha o relógio:

__Três horas e nada! - suspira. Explica, pela quarta vez, que é jornalista e esta ali para saber mais sobre a passagem de Fritz, o artista alemão que morou naquela praia há meio século atrás, de quem ele, Seu Malaquias, tinha sido empregado, homem de confiança e factótum...
__Respeito, seu moço! - indigna-se o velho que, com esforço sobre-humano, tenta levantar-se do tronco velho. - Não sou homem de ser... ser.... isso que o você falou! - Tosse, tosse muito, escarra um catarro preto de fumo e, com o pé, começa a procurar outra vez a dentadura que caiu.

Apreensivo, o jovem repórter, com medo de que o velho morra antes de lhe dizer alguma coisa, tenta acalmá-lo, levanta-se para ajudá-lo, mas volta atrás com nojo, ao ver o velho limpar outra vez a dentadura na calça encardida e quase fossilizada pelo tempo. O tempo passa, e o sol já está a pino, aumentando o calor, e diminuindo a brisa que vem do mar.

Verde e fresco, o mar com ondas que o convidam a um mergulho, onde limparia a visão do velho sujo e sua dentadura grande, maior que pobre boca banguela e seca, preta pelo costume de mascar aquele fumo nojento.

__Esse cheiro nunca mais vai sair de mim. - Respira fundo, pega o maço de cigarro, mas, antes de acender um, olha para o velho e a poça de escarros dele, muda de idéia e joga fora. - Acho que vou deixar de fumar depois dessa.

__Vamos outra vez. O senhor não se recorda de nada dos tempos em que Fritz viveu aqui? Das esculturas que ele produziu? Dos poemas que aqui ele escreveu? O senhor não se lembra de ter sido, por mais de uma vez, citado nos romances do alemão? - O velho olhava para o nada através dele, como se o jornalista fosse transparente, talvez até mesmo invisível.

Enquanto fala, passa o lenço pelo rosto e pescoço, tentando enxugar o suor que já o empapa. Puxou a sua cadeira mais para perto do velho, assim conseguiria se abrigar na sombra no pé de abricó.

- Abricó, nome mais besta para uma fruta!

Próximo o suficiente para sentir o mau cheiro do velho, olhando de lado, para conseguir uma aragem fresca, ele torna a perguntar:

__Então, o senhor conseguiu recordar mais alguma coisa, Seu Malaquias?

O velho, de olhos opacos, continua a olhar o nada. Mosquitos voam em volta da cabeça encanecida, os lábios brilham com a baba que escorre da sua boca, talvez culpa da dentadura muito grande. O repórter começa a achar que o velho morreu, quando ele fala:

__...sequinho feito um bacalhau... morreu de fome... esqueci dele lá atrás... - começa a rir e a tossir.

__E o alemão, Seu Malaquias? O alemão. O senhor é a última testemunha viva da presença do alemão nessas terras. O que o senhor pode me dizer dele? Dizem que o senhor guardou muitas das obras inéditas dele! – Desesperado, avança em direção à velha múmia, superando o seu asco e sua vontade de mergulhar no mar e sumir dali.

__...sequinho feito bacalhau - interrompido e assustado com as mãos do jornalista em seus ombros, o velho engasga com a dentadura.
O velho tosse.

__Fale-me alguma coisa sobre esse maldito alemão. - grita o jornalista, sacudindo o velho e fazendo que ele cuspa a dentadura que o sufocava. - Fale-me onde estão as obras inéditas que ele deixou com o senhor! Onde estão os manuscritos? As esculturas? Onde, onde, onde?

Tremendo, encosta no pé de abricó, respira fundo, olha o mar e vê aquelas ondas verdes. O sol brilha ensandecido.

Senta-se na cadeira e volta a falar com o velho, que outra vez está limpando a dentadura na perna da calça.

__Seu Malaquias, por favor esforce-se um pouco e tente lembrar-se dos tempos em que o alemão viveu aqui nessa vila de pescadores, há mais de cinqüenta anos atrás. Do tempo que ele viva como um de vocês, do tempo em que ele morou na sua casa. - Ele já implora ao velho: - Por favor, Seu Malaquias, me ajude!

Os olhos opacos e sem vida do velho brilharam por um segundo, como se um raio de entendimento e lucidez lhe tivesse clareado a mente. Ele sorri, cospe, sem perder a dentadura dessa vez, faz força para levantar-se do tronco podre onde esteve sentado nos últimos anos.

__Ah! O meu amigo Fritz...

__Sim, sim, o seu amigo Fritz. - quase chorando, o jornalista repete com o velho – Sim, o alemão, fale-me mais dele.

__Sim, o Fritz... tão bom comigo... sempre companheiro... sempre junto comigo... morreu feito bacalhau, sequinho, sequinho. – chora. - Meu cachorrinho que morreu de fome...

Antes que o jornalista pulasse em seu pescoço, Seu Malaquias cai sentado em seu tronco, fulminado.

O jornalista cai sentado na areia, com as mãos faz bolinhos e mais bolinhos com ela. Engatinhando, arrastando-se, ele segue em direção à água verde do mar.

MEMÓRIAS (Pra quê?)


Isso só pode ser o aviso do fim, da reta da chegada. Definitivamente estou ficando gagá.
A idade, a chegada da velhice é um negócio que me assusta, me tira o sono, me apavora. Não suporto a idéia de ficar velho, dependente, amparado por bengalas, guardar os dentes num copo antes de dormir.
Mas tem horas em que nos pegamos vendo o tempo passar. Não falo em aniversários, natais, anos-novos e outras datas convencionais.
É quando, do nada, nos deixamos levar ao passado, lembranças afloram, sentimentos e, às vezes (acho que é quando o caso está de vez perdido), cheiros e sabores. Quando, do nada, lágrimas brotam, e discretamente as enxugamos, passamos a mão no rosto, como quem tira uma sujeira, um cisco.
Esse preâmbulo todo, essa encheção de lingüiça é para contar-lhes um caso que ocorreu comigo esse fim de semana.
Estava assistindo a uns vídeos-clips, quando vejo a deslumbrante Debbie Harry, cantando “Hearth of Glass”. Linda, loira, desgraçadamente jovem, magra, e tão deliciosamente viva...
E aqueles olhos, meu Deus, aqueles olhos...
Que dor senti no meu coração. Quantas lembranças, de amigos, que nem sei se ainda vivos estão, de situações, de tantas coisas.
Que deprimente!
Me perguntei a razão de tal sentimento.

__ Só podia ser uma coisa (além da tão propalada & propagandeada crise dos quarenta): a certeza da finitude...


Finitude e a constatação de que tudo de bom já se foi, agora é contar os minutos para o fim. Não quero ser dramático, quando digo o fim, quero dizer o fim dos “GRANDES” sonhos, “GRANDES” projetos, fim, enfim, dos planos de longo prazo. Afinal, hoje, eu e os amigos de minha geração estamos usufruindo o que conseguimos colher dos “GRANDES” planos e projetos de nossa tão longínqua juventude.
E, olha, não foram grandes coisas, não!
Revi o clip mais de uma dúzia de vezes, e continua o mesmo sentimento.
Isso não é justo!
Se tenho que envelhecer (uma tremenda injustiça), que a primeira coisa que eu perca seja memória, esqueça de tudo, esqueça até quem sou. Que cada vez que eu passe em frente a um espelho, cumprimente o estranho, e siga mordendo os lábios, haja vista que a essa altura dos acontecimentos já terei perdido a dentadura.
A vida não presta!!! (desculpem se repito muitas vezes essa frase ao fim de minhas crônicas, mas essa é a verdade).

A VELHA E A OBRA


Velha safada.

Safada mesmo.

Dona Elvira é safada em último grau, irremediavelmente safada, safada de fazer estivador ficar corado com as besteiras que faz e diz.

Cabelo branco pintado de azul, colar de pérolas falsas, boca e unhas constantemente pintadas de vermelho, quadril enorme de matrona sobre duas pernas cambaias. Na cara, sobre os olhos míopes, uns óculos enormes com armação dos anos sessenta, lembrança última de seus anos dourados...

Todos imaginaram que melhoraria com a menopausa, mas piorou. Todos dizem, quase em uníssono:

___Um caso para a ciência resolver.

Agora ela não pode ver os pedreiros da obra em frente.

Toda hora leva um copinho d’água gelada, embora, a princípio, lhe tivessem sugerido levar logo a água numa jarra:

__Dá menos trabalho, dona Elvira!

Ela até pensou em explicar que, levando de copo em copo, iria lá mais vezes, mas resolveu não falar nada.

E lá vai ela para a rua, mas antes de sair, passa um pente nos cabelos crespos e batom vermelho nos lábios murchos.

Ao meio-dia, hora do almoço, leva sanduíches, mas antes saca da bolsa o espelhinho redondo e o batom vermelho, que espalha pela cara como se quisesse ser vista da lua.

A velha anda quilômetros por dia, indo e vindo da construção. A família, entre preocupada e pilheriando, se pergunta onde ela arranja tanta energia nessa idade.

__E com aquele esporão no pé direito... - comenta uma vizinha.

Sessenta e oito anos num cio de cachorra no verão.

Vaidosa, agora toma banho e troca de roupa três, quatro vezes por dia. Mas a mancha do batom parece que não sai mais da cara.
Os netos riem às suas costas, o genro pergunta para a mulher porque ela não herdou aquele fogo todo, a filha morre de vergonha e faz de tudo para mantê-la em casa.

Telefonou para as irmãs, mas não aceitou o conselho de mandá-la para um asilo, sob ameaça de:

__Ser visitada só no Natal, e assim mesmo se a data cair num domingo!

Sem resultado.

Os peões, que a princípio achavam engraçado, agora fogem dela com medo que um infarto fulminante a mate na obra.

Enquanto uns fazem massa e outros assentam tijolos, um sempre fica de vigia para ver quando a velha aparece.

Um assovio e todos se escondem no almoxarifado.

Dá pena ver a velhinha com a bandeja na mão olhando para a obra vazia, mas ante a possibilidade de ter que explicar para a polícia e a família como ela foi morrer lá, é melhor atrasar um pouco mais a obra.

__Velha assanhada...

__ Vixe!!!!!

E os peões voltam a trabalhar, dobrado agora, para compensar o tempo perdido por causa dela...

GRINGA


___Isbiutiful, isbiutiful!!

Ela chegou. Uns tocam campainha, outros batem à porta, a gringa grita:

__ Isbiutiful!

Tudo é “Isbiutiful”. Ninguém sabe onde ela aprendeu a falar isso, mas repete a palavra, que pensa ser inglês, a toda hora, em qualquer situação.

Pobrezinha.

É conhecida por gringa por dois motivos, a saber:

1. Recém chegada de algum lugar ermo do Nordeste;
2. Esse hábito de repetir, feito papagaio, a palavra “Isbiutiful”.

Desgraçadamente, como costuma acontecer, arrumou um emprego de empregada doméstica ou, politicamente correto, de “secretária do lar”.
Na sua hora de almoço, conheceu Sidney, conquistador barato, loiro falso, olhos azuis falsos, pivô no incisivo lateral direito - quase ninguém nota, só quando cai -, cartão de crédito..., também falso.
Ele faz bico numa pet shop, onde a gringa vai passar tempo vendo cachorrinhos poodle e sonhando em comprar um pitbull, segundo ela: “Para ter segurança, sabe como esse povo aqui do sul é, né? Não pode ver uma moça bonita que já mexe com a gente!”. Diz fazendo biquinho, e pensando onde colocar um “Isbiutiful” na conversa.

Não arrumou lugar, vê-se pela feição carregada de frustração.

Gringa vive tentando fugir dos galanteios de Sidney, faz-se de difícil, diz que não quer, mas cede, sempre.

Dia desses, com calor, foi tomar um guaraná com Sidney. Reclamou:

__Não tem petiscos? - palavra nova para salgadinhos.

Sidney sai correndo e traz um pratinho cheio de ração de cachorro, e serve Gringa, que maravilhada diz:

__ Isbiutiful! Delicioso! Enchendo as mãos, e conseqüentemente a boca, repete: - Isbiutiful!

Sidney ri e oferece mais.
Eles se olham nos olhos e pensam se acharão coisa melhor nessa vida.

A REFEIÇÃO DOS ESNOBES

A mesa está posta.

Da comida quente, levantam vapores que perfumam a casa inteira. Na grande mesa, copos e taças do mais fino cristal, vinhos e licores de várias nacionalidades, frutas exóticas e outras tantas iguarias.

Os convidados estão chegando, aos poucos enchem o salão.

Sentam-se.

Esperam pela anfitriã.

Esperam pelos empregados.

Esperam por alguém que os sirva.

Nada.

A anfitriã não está em casa, os empregados não aparecem, e o silêncio, antes opressivo, torna-se constrangedor. Ninguém quer ser o primeiro a servir-se, até por que seria um ato abjeto e execrável, sendo essa uma função claramente subalterna.

O tempo passa, a comida esfria, a fome aumenta, o silêncio cresce e o constrangimento também.

O salão parece maior que antes.

O sol começa a se pôr, e a tarde, a ceder espaço para a noite. Os convivas, famintos, olham-se e perguntam-se com os olhos o que fazer.

Comer agora está fora de questão. A comida fria perdeu toda a fascinação, moscas começam a pousar sobre ela. Uns e outros, entre suspiros, esperam que surja um criado que seja, para servi-lhes ao menos um café.

Nada.

O tempo passa mais rapidamente. Os comensais continuam sentados, os pratos ingleses e os talheres de ouro, assim como os guardanapos de seda, continuam intocáveis.

Encolerizadas e famélicas, as autoridades, as matronas da sociedade, os nobres, os representantes das grandes linhagens aristocráticas, suam, esfregam as mãos, e comentam a falta de cortesia da anfitriã.

__Nunca mais voltarei a pôr os meus pés aqui! - resmunga uma velha de voz aguda e finíssimos cabelos brancos, coberta de diamantes e pérolas, cuja mão encarquilhada quase não consegue levantar, por causa do peso dos anéis de ouro e a fraqueza da fome.

...

Dias depois, a mansão é invadida pelas autoridades policiais, que, estupefatos, encontram os corpos ainda sentados em suas cadeiras, rijos e eretos.

Mortos.

Todos pereceram de fome.

__Por que eles não saíram, foram embora para as suas casas? - alguém pergunta, balançando a cabeça diante da cena trágica e estúpida.

__Não tinha criados aqui para puxar-lhes as cadeiras. - responde um homem mais velho.

__Burgueses estúpidos! - comenta uma terceira pessoa, que começa a empacotar os corpos.
Os urubus, esses muito mais frustrados, voam em busca de outra refeição!

Agentesevêporaí.


___A gente se vê por aí! - Deu um sorriso, lindo, frio e fechou a porta sem dar um beijinho sequer em seu rosto, deixando como lembrança somente o seu perfume.
Parado com a cara na porta, ele sentiu que era o fim, fim de começo, começo sem porvir, fim,” the end”. Aspirou o perfume, tentou guardá-lo o maior tempo possível.
Trinta e cinco segundos, ainda assim amparado pela parede.

__A gente se vê por aí - repetiu baixinho, como que para assimilar o pé na bunda. - A gente se vê por aí.

Apertou o botão de chamada do elevador, mas resolveu descer os dez andares.
O toc-toc dos sapatos fazia eco nas paredes - Agentesevêporaíagentesevêporaíagentesevêporaíagentesevêporaí - repetia, mascando as palavras como se fosse um chiclete de hortelã.
Seu sabor predileto sempre foi tutti-frutti.
No sétimo andar, as luzes estavam queimadas, acendeu o isqueiro para iluminar e aproveitou para fumar. De olhos fechados, aspirou a fumaça, com um prazer quase sexual, e pensou alto:

__O único prazer dessa noite.

Expirou a fumaça junto com um suspiro. Na segunda tragada, engasgou-se, tossiu e tossindo repetiu:

­­__Agentesevêporaíagentesevêporaí.

Sem fôlego, cansado e frustrado, chegou ao térreo. Carrancudo, deu boa noite ao porteiro, e saiu para rua com a certeza que o baiano estava rindo da sua cara.

__”Agente se vê por aí” deve estar tatuado na minha testa!

Seguiu pela rua escura, uma brisa fresca anunciava uma chuva para logo. Foi andando em direção à sua casa.

__Agentesevêporaíagentesevêporaíagentesevêporaíagentesevêporaí...

Quatro quarteirões depois, começou um chuvisco que logo engrossou, encheu as ruas, encharcou a roupa, os sapatos, a carteira com o dinheiro e os documentos do carro...

__...os documentos do carro! - completa o pensamento com palavras. Grita um palavrão para a mulher e corre de volta para o prédio dela, onde, na esquina, está estacionado o seu carro.

__Agentesevêporaíagentesevêporaíagentesevêporaíagentesevêporaí.

Com esse mantra, ele volta para casa e no caminho ainda se perde duas vezes.

__Agentesevêporaíagentesevêporaí, parece até refrão de música brega, agentesevêporaíagentesevêporaí...

Ao chegar, pingando, deixando poças d’agua pelo chão, sujando o tapete branco, corre para a secretária eletrônica, que pisca, na esperança de uma mensagem dela.
Plantado de frente à máquina, constata tristemente que era a mãe reclamando das varizes, pela terceira vez essa semana.
A poça d’água aumentou ainda mais com suas lágrimas...

Pequena e Ilustrativa História de Como Funciona a Cabeça de Uma Criança.

Antevéspera de Natal.

A sala de uma família, aparentemente normal...

___Eu não acredito em Papai Noel, não acredito mesmo! - Bateu o pé no chão e fez birra.

O pai arrancou os cabelos e começou a gritar que tudo isso era culpa da avó, aquela velha anarco-comunista-evangélica, apontando para o retrato da velha pendurado na parede da sala.
A mãe chorava e gritava com o marido, explicando que a mãe dela não tinha nada a ver com isso, afinal a pobrezinha morava em Bauru e só via o neto no carnaval, bem depois do Natal....
A criança continuava a gritar que não acreditava em Papai Noel. O pai rangia os dentes e gritava com a mulher, que, nervosa, ficava enrolando o pano de prato nas mãos.

__Eu acreditei nele até os sete anos, sete anos. E esse pirralho, com essa idade, me falando essas coisas... Onde foi parar a inocência, a pureza de coração?

A mãe, tentando colocar panos quentes na discussão, pergunta ao filho qual a razão de sua descrença no bom velhinho:

__Papai Noel não existe e pronto! - Cruzou os braços e fez beicinho.

O pai jogou-se no sofá, e começou a socar as almofadas. A mãe não sabia mais o que fazer. Quando teve a feliz idéia de perguntar:

__Se Papai Noel não existe, quem é que vai trazer os seus brinquedos na noite de Natal?

__Ora, o papai! Já fiz até a lista de presentes que eu quero.

__Mas como você sabe que é o seu pai que vai lhe comprar os presentes?

__É mais fácil assim.

__Fácil como? - pergunta a mãe apalermada, tentando achar alguma lógica nesse diálogo sem sentido.

__Não acreditando em Papai Noel, não preciso ser bonzinho o ano inteiro, porque o meu pai tem que me amar de qualquer jeito, não é mesmo?

No sofá, o pai pôs a mão no peito.

Cristina

(Conto)



Saiu do banheiro em direção à cozinha. Preocupado, tremia e suava, a camisa já estava empapada. Acendeu a luz e dirigiu-se ao armário. Olhou para dentro, tirou as latas de ervilha, de milho verde, palmito, sardinha... Esvaziou o armário todo. Todas as latarias largadas e espalhadas pelo chão. Algumas ainda estavam rolando de um lado para o outro.

__Que diabo! Onde ela foi se enfiar?

Foi à sala. Levantou os tapetes, empurrou os sofás, quase deslocou o ombro direito tentando empurrar a estante para outro lugar. Dolorido, resolveu retirar os livros, um a um, para poder procurar com mais cuidado. Nada encontra. Volta sua frustração à TV. Pega um exemplar de “A Divina Comédia” (capa amarela, livro antigo, comprado há muito tempo), joga contra o tubo de imagem, provocando grande barulho e sujeira com os estilhaços do vidro.

Os vizinhos debaixo, preocupados com o barulho, imaginaram:

__ Estão de mudança!

No chão, uma pilha de livros, de todos os tamanhos e cores. Ele estava, no momento, em sua “fase” azul.

Nada.

Vai ao quarto, levanta a cama de casal e a encosta na parede. Abre o guarda-roupa, retira de lá todas as peças, e as espalha. Camisas, cuecas, calças, paletós, tudo espalhado pelo quarto.

__Com essa bagunça, vai ficar mais difícil achar alguma coisa.

Volta à cozinha. Abre as gavetas de talheres, joga tudo para o alto. Facas, garfos, colheres, tudo voando como num furacão. As panelas seguem o mesmo destino, espalhadas pelo chão. Volta à sala. Começa a arrancar as cortinas pelos trilhos.

Mais barulho. Olhando para dentro do apartamento, teríamos a impressão de que ali houvera um incêndio ou qualquer outro tipo de desastre.

Arrancando os cabelos do peito (haja vista que já era calvo), ele volta, pára no centro da sala e começa a olhar para os lados, tentando imaginar um canto qualquer que ainda não tivesse sido revistado. Dando um tapa da cabeça, volta para o banheiro. Com uma força sobre- humana, arranca o vaso sanitário. Chacoalha o vaso. Olha para dentro dele. E, por fim, arrebenta-o, jogando contra a parede ladrilhada.

Embaixo, os vizinhos começam a se preocupar.

Os ladrilhos começam a cair, a princípio, um a um. Logo, uma chuva de ladrilhos inunda o chão do banheiro, deixando as paredes em petição de miséria.

Então, no meio do entulho, surge uma barata cascuda, suja, imunda e repugnante. Vendo isso, grita:

__ Cristina, onde você se enfiou dessa vez???

Abrigando-a carinhosamente em sua mãos, ele a banha com suas lágrimas

__Cristina, Cristina, Cristina...

A GRATA SATISFAÇÃO QUE ANDAR DE ÔNIBUS NOS DÁ

Andar de ônibus!

Terrível, não é? A situação e o assunto.

Fazer o quê?

Essa semana, a pessoa que caridosamente me dá carona (até o meio do caminho, é verdade, mas que me deixa um pouco mais perto de casa me deixa, isso lá é verdade), deixou-me na mão. Obrigando-me a tomar o coletivo, e me compor ao próximo, que, por causa da superlotação, fica cada dia mais próximo, próximo demais para meu refinado gosto...

Entro, pago, e procuro desesperadamente (mas muito discretamente) um lugar no fundo do corredor, perto da porta. Lá aconchegado (riam, isso foi uma piada), ligo meu sonzinho, abro um livro e tento esquecer onde estou e de onde saí.

Mas...

Agora deu para isso, esse mas.

Mesmo ouvindo música bem alta, não posso me furtar a ver e ouvir o que acontece. Todos os dias, como num ritual, eles, os pedintes, entram no ônibus e começam ( como só costuma acontecer com pedintes) a pedir dinheiro.

Senão, vejamos:
1. Outro dia entrou um sujeito se dizendo de uma seita evangélica, que além de salvar almas, salvava jovens de ruas, que vivem na perdição das drogas e outras drogas. Vendia um chocolate (que a polícia deveria mandar investigar, de tão suspeito) pela módica quantia de um real. Se o passageiro não tivesse um real, que desse o que pudesse, qualquer quantia. Mas (agora é que dói), ameaçava o salvador de almas e homens, se você tiver dinheiro e não quiser colaborar, saiba que você (e apontava com o dedo em riste) vai se haver com o Senhor no Dia do Juízo!
É de enlouquecer, não é?

2. Vamos à segunda. Essa é a pior, na minha opinião. Entra um sujeito, de muletas, encosta na catraca, levanta a perna da calça, e nos agracia com uma erisipela “daquelas”. Começa a chorar (choro mais falso que nota de três reais), e começa, entre pranto, a explicar como sente humilhado em ter que pedir dinheiro etc. etc. etc.. Como não surte efeito, então ele começa a soluçar, não fosse eu esse homem sem coração (que dizem) que sou, já teria vendido minhas terras no sul da França e doado a ele. Feita a sua colheita, ou coleta, sei lá, ele desce, todo faceiro, e entra no ônibus que vem atrás do nosso.

3. Mas ontem foi o fim da picada. A essa altura o caro leitor já percebeu que eu estou começando a “curtir” essas situações escabrosas. Lá estava esse pobre funcionário público, sentadinho lá atrás, lendo uma obra do Barão de Itararé (que recomendo fortemente), quando entra mais pedinte. Esse fugia um pouco ao fenótipo a que estou acostumado(!). Era jovem, todo tatuado, usando roupa de fanqueiro, bonezinho virado para trás. Entra pedindo desculpas, essa é a regra para você que nunca se aventurou num ônibus saber que vai ser extorquido de alguma forma. Explicou-nos que era ex-detento (imaginem o clima), que estava desempregado, com contas para pagar (só ele?) e que não podia levar comida para casa. Deixou claro que, ao pedir dinheiro aos passageiros, evitava cometer crimes nas ruas... (juro que não senti nenhum alívio com aquilo). Enquanto ele desfiava seu rosário de desgraças e desventuras, eu abaixei ainda mais a cabeça (parecia que em vez de ler, estava procurando o livro debaixo dos bancos), aumentei o som e me “desliguei”.

4. Já chegando em casa, entra um cego, daqueles de feira, feio, mal vestido, cheirando à pinga, acompanhado (eles nunca anda só) de menino negro, mas com um cabelo loiro como nunca vi antes em minha vida. O menino não falava nada, só andava com a mão estendida e nos olhando nos olhos algo entre ameaçador e digno da mais cristã das piedades. Vindo lá da frente, o cego vinha gritando (talvez achasse que houvesse algum surdo por lá) como era triste ser cego, que ele não desejava isso a ninguém, e para que isso não acontecesse a ninguém, ele pedia um dinheirinho. Não entendi. Será que dando o tal “dinheirinho” eu acordaria livre da cegueira, ou seria mais uma praga sub-reptícia?

Como era meu ponto, desci quando ele estava bem pertinho de mim. Desci e logo atravessei a rua e fui embora sem olhar para trás. Afinal, há mais de dez anos fiz uma cirurgia de correção de miopia (quinze graus), e vai que a praga dele pegue....?

Sobre a culpa e outras besteiras

(Crônica)

Culpa.

Discutia isso com o Rodrigo hoje. Culpas de haveres e culpas de quereres.
Por que nos culpamos? Porque nos pegaram? Porque nos viram? Porque nossos olhos nos acusam diante do espelho?

Culpa.

Pecamos por pensamentos, atos e palavras.

Ah! Essa minha cultura judaico-cristã. Mas que atire a primeira pedra quem nunca pecou.

(Fico sossegado nessas horas por não possuir ações de pedreiras. Pelo visto ninguém atirou nenhuma pedra, certo?).

Quero crer que a minha meia-dúzia de leitores é honesta, pelo menos consigo mesma.
Culpa.
Nos culpamos por tantas coisas bestas, e nos escusamos de outras realmente condenáveis.
Mas discutíamos outra forma de culpa.
O pensamento, esse monstro indomável que trazemos dentro de nós, e que, por inexplicável que seja, é muito maior que nós.

Quantas vezes nos pegamos pensando em algo inominável, algo que conscientemente nunca faríamos, que condenaríamos veementemente no próximo?

Um exemplo, besta, mas um exemplo: vivo fazendo regime, mas não posso ver um doce que chego a babar.

__Pecadilho! - dirão vocês.

Concordo plenamente. Mas, e se vemos uma mulher bonita, uma jovem atraente. E se porventura ela dá com o nosso olhar, sorri, mexe o cabelo daquele jeito, sorri um sorriso de fazer covinhas...? Uma torrente de pensamentos libidinosos nos assolam. Por um segundo vivemos uma vida de venturas mil, imaginamos as maiores besteiras. Largar a família, deixar o emprego, começar vida nova na Argentina, quem sabe vendendo pulseiras e outras quinquilharias, ir para a Bahia e morar na praia vivendo de amor eterno...

Um segundo, um mísero e desgraçado segundo, destruímos toda uma vida. Largamos a mulher com quem vivemos os tempo duros, os filhos que às duras penas tentamos educar dentro dos valores (ai, ai, ai) cristãos/ocidentais, e afundamos na lama da maledicência um bom nome construído com muito suor, muita lágrima e sangue.

Culpa = Arrependimento.

Tivemos toda a juventude para errar. E erramos até na hora de errar. Agora o mal já está feito. Não adianta chorar sobre o leite derramado.

Para terminar a conversa, o Rodrigo me enviou esse poema do Olavo Bilac:


Remorso


Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias
e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que
perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os
gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor
quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que
desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da
hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por
timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!





A propósito, aquela mocinha não sorriu para você, foi para aquele rapaz musculoso e cheio de tatuagens que estava encostado no balcão do bar bebendo cerveja...

Positivamente, a vida não presta.

Para vocês mocinhas

(Crônica)

Essa é para você mocinha, jovem adolescente, que está agora abrindo os olhos para vida. Que está dando os primeiros passos no pantanoso terreno do amor, plena de ilusões, peitos, digo, peito cheio de coragem, preparada para lutar pelo ente querido, aquele ser que não sai de sua cabeça e pulsa no mesmo ritmo que o seu coração.

Sim, minha querida, esse texto, essas humildes letras são para você, só e exclusivamente para você.

Preparada para lê-lo? Está com tempo e paciência?

Sim, paciência, sei o quanto é raro essa mercadoria nessa idade.

Se você respondeu SIM para todas as questões acima, vamos lá, ao interessa.

Dia desses - todos tão iguais ultimamente (desculpem-me, às vezes divago demais) - recebi, se bem conheço quem o enviou, de sacanagem, o endereço de um orkut.

Entrei e sambei.

Não entendo desse negócio, mal e mal, tive um blog. Tive que telefonar ao amigo que me enviou o endereço e perguntar como funcionava o negócio.

Explicado, lá fui eu navegar pela página.

Logo entendi a razão de estar lá vendo o que estava vendo.

Era uma moça (quanto tempo não leio essa palavra!) se declarando à outra moça (!).

Gente, eu não trago cá no peito muitos preconceitos, não. Vocês viram que eu não disse: “Não trago cá no peito nenhum preconceito”?

Não sou perfeito, nem tenho essa tara, afinal, esse é o meu tempero.

Divago de novo...

O que mais me espantou não foram as “juras de amor eterno" - aliás num dado momento uma das amantes até diz: “Não digo que te amo para sempre, porque o sempre sempre acaba” - muito original, não é? - O verdadeiro incômodo estava nas transgressões, ora gramaticais, ora de concatenação de idéias. Fora, é claro, o modo como esse pessoal se comunica(?). Não consegui ler uma frase completa, foi um inferno tentar compreender.

Que pobreza! Que idéias!

Chafurdam-se num pântano de lugares-comuns, afundam-se na mediocridade das declarações. Juro que não vi naquilo nada mais que a vontade de ser “transgressoras”, “rebeldes”, “mudernas”. Francamente, nem refrão de pagode poderia ser mais pobre e vulgar.

Queridas mocinhas, se vocês querem impressionar alguém, preocupem-se em impressionar o ser amado, não se preocupem com os que estão à sua volta. Impressionem o objeto de seus amores com coisas belas, belas palavras e, por favor, palavras que contenham sentido.

Dar-lhes-ei um exemplo de declaração de amor entre iguais, de autoria de Safo*, poetiza grega. Leiam, apreendam e, se possível for, aprendam:

A Lua Já Se Pôs

A lua já se pôs
As Plêiades
também:
Meia-noite: foge o tempo,
E eu estou deitada
sozinha.


Outra só para vocês terem um gostinho, e não mais:

A Amada

Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir

Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir

Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Fogem-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.

Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemos-nos a tudo...
Contra um angústia insofrida
Tudo se deve tentar.

Por favor, minhas jovens, aprendam a declarar vosso (não ouso dizer o nome) com amor, inteligência e, se não for pedir muito, com delicadeza. Ser sapata não que dizer ser “caminhoneira”, que me desculpem os/as resentantes de tão nobre profissão!













*Safo, poetisa nascida em Mitilene, na ilha de Lesbos, por volta do século VII a.C
** Leiam Oscar Wilde

Vaca e meu Charuto

(Crônica)




Estava andando pelo centro, fumando um charutinho, fazendo hora para voltar para essa filial do inferno, onde cumpro pena em troca de um abatimento de meus pecados, quando vi, numa dessas praças que não sei o nome, uma multidão reunida. Fui lá para ver o que era.

Era um bando - essa é a palavra redonda para essa turba de desocupados - agitando bandeiras vermelhas com o símbolo do PCB, ou PC do B, e outra dessas utopias anacrônicas.

Fecharam a rua e, creio eu, deveria ter um boçal qualquer ou um candidato a algum cargo público (ai do nosso dinheirinho) prometendo rios de leite & mel, o fim da fome e a revogação da Lei da Gravidade...

Não deixo de ficar besta com isso!

Via-se nas faces daqueles que balançavam as bandeiras uma apatia, uma fome (já tatuada, de tantas outras fomes), que não convenciam ninguém que passasse por lá. A agitação era fraca, falsa, não convencia. O descrédito estava palpável na atmosfera. Foi-se o tempo (percebi tarde?) em que as pessoas mais humildes entravam nessas manifestações, pelos menos para conseguir uma camiseta, um santinho para remendar a sola dos sapatos.

Nem isso. Os nossos salvadores da Pátria (cheguei a pensar em escrever com “p” minúsculo) agitavam-se, gritavam, badernavam em frente a restaurantes de luxo, pensando (?) assim que, junto com os filés-mignons e chopes, entrasse alguma consciência social nos comensais...

Para quê?

Pode alguém dar-se ao trabalho de responder-me?

Quem ainda acredita nas utopias socialistas? Ninguém com um pingo de massa cinzenta.

Agora a pergunta capital:

__O que ganham os que ainda “vendem” essa utopia?

Meu Deus, meu Deus! Onde está o direito dos consumidores dessas quimeras?

Segui fumando o meu charutinho (tem coisa mais burguesa?), olhei com meu habitual olhar de desprezo para aqueles (preencham com o predicado que acharem melhor), e recusei os santinhos, dizendo:

__Sou 100% ateu e descrente em Deus e nos homens, principalmente nesses aí.
Não percebi se o faminto distribuidor de panfletos me xingou ou não, não me importa. Preocupadamente tomo consciência que cada dia me importo menos com qualquer coisa.

Segui em frente, deixei-os para trás e me comprometo a não falar mais desses estelionatários de sonhos.

__Conformem-se, a vaca foi para o brejo!

Para Silvana e sua tara


Pés que andam
Que seguem trilhas tortuosas
Estradas de pedras
Com espinhos, que sangram e ferem
Pés que deixam pegadas na areia
Que deixam pistas de crimes
Pés que têm chulé
Pés que chutam
Como o Rei Pelé
Pés que chutam bundas
Que chutam latas
Pés vira-latas
Pés bem-nascidos
Tantos são os tipos de pés
Com calos
Com unhas encravadas
Frieiras
Fungos fedorentos
Mas Silvana,
amar um homem
Por causa de seus pés?

É demais até para mim...

TIM-TIM


O silêncio é quebrado por um “tim-tim” e taças de cristal são elevadas ao alto cheias de vinho fino.

__ Para que esse brinde? Para quê? - reclama o solitário no balcão do bar, entornando outro copo de uísque nacional e barato, talvez até com data de validade vencida.

Na mesa, risos e mais tim-tins, seguidos de aplausos e gargalhadas. Em uníssono, todos gritam:

__Discurso, discurso, discurso!

No balcão, o bêbado reclama com o barman e grita:

__Não vou fazer discurso porra nenhuma. Tão pensando que eu sou o quê? Político? Candidato? Não adianta insistirem, não vou discursar e pronto! - Entorna outro copo de uísque e deixa os amendoins caírem da mão.

Na mesa, as pessoas começam a ficar chateadas, mas disfarçam e começam a bater com os talheres na borda dos copos, insistindo no discurso. Aplausos, “vivas”, “hurras”, “já ganhou”, e mais tim-tins. As mulheres estão lindas, os homens começam a afrouxar as gravatas, os garçons postam-se ao lado, prontos para os pedidos.

__Discurso, discurso, discurso...

Vindo do balcão, o bêbado furibundo, chacoalhando o copo de uísque cheio de gelo, tropeçando nos amendoins, grita com a língua enrolada de embriagado:

__Já falei que não vou fazer discurso nenhum.

Na mesa, os grã-finos ficam chateados com a atitude do bêbado, levantam-se e retiram-se do restaurante, jurando nunca mais comemorarem nenhuma outra promoção na empresa.

__Aquele porco ingrato! - reclama Rosilda da contabilidade.

Depois que todos saem, o bêbado ri até vomitar o uísque e os amendoins. Cai sentado e, coçando a barriga, fala quase dormindo:

__Maldita promoção...


A CARONA

(Um conto muito curto)




No carro.

Chove fininho, o limpador do pára-brisas indo de lá para cá. O trânsito carregado.

Dentro do carro, o casal calado. Olham para frente, esperando uma chance de se deslocarem, saírem do lugar, poucos metros que sejam.

Falta assunto.

A razão? Não vem ao caso e nem nos interessa...

Para quebrar o gelo, o homem comenta, tentando, quem sabe, melhorar o clima:

__Nunca mais essa rádio tocou a nossa música, não é?

No que a mulher, entre ríspida (afinal ela está ao volante) e com pouco caso:

__Nossa música? Desde quando nós temos uma música? Você tá viajando? Vê se entende uma coisa de uma vez por todas. Isso é só carona. Não sou sua mulher, não sou sua namorada e nada sua, além da pessoa que lhe dá carona. Compreendeu isso de uma vez por todas?

De repente parece que o engarrafamento nunca mais irá acabar. A chuva engrossa, e o rádio não toca a música “deles”...

E o clima dentro do carro piora.

NO CONSULTÓRIO


Entrou na sala, como quem entra num palco à espera de aplausos. Só havia um homem no consultório.

Sentou-se em frente a ele, já ofendida por não ter sido notada. Ele sequer virou os olhos para fitá-la.

Abalou a sua auto-estima.

Cruzou as pernas, resolvida a vingar-se. Tornou a cruzá-las de novo. A meia de seda era da cor da pele (morena de muito sol). Por sobre as lentes dos óculos escuros, olhou para ele.

Nada.
Imóvel. Uma estátua não seria mais inerte, só faltavam as pombas sobre a sua cabeça.

Tossiu, pigarreou, cruzou as pernas com mais vagar, e nada.

Começou a bater com os sapatos de bicos finíssimos e saltos altos. Eles tinham detalhes de falsos brilhantes.

Nada.
Jogava os loiríssimos cabelos para os lados.

Nada.

Retocou o batom, com certeza isso deveria chamar-lhe a atenção.

Nada.
Apelou para o perfume (francês=doce) que deveria envolver toda a sala, e chegar-lhe às narinas, fazendo seus olhos fitarem os seus, para então ela perguntar:

__O que você está olhando? Nunca viu uma dama se perfumando?

Nada.
Ainda por cima, ele espirrou e levou um lenço ao rosto, assoando o nariz.

__Resfriado! - murmurou baixinho para o espelho em que retocava outra vez o batom.

Passou a mexer-se na cadeira, puxar a saia curtíssima, arrumar os seios dentro do dadivoso decote.

Apelava. Daqui a pouco seria convidada a sair do consultório oftalmológico.

ZULMIRA MORREU


Toca o telefone tarde da noite, lá pelas três e meia da madrugada. Evaldo, tonto de sono, tropeçando nos móveis, vai até a sala atender:

__Alô?

__Evaldo?

__Sim, sou eu! - rosna ao reconhecer a voz de Timóteo, amante de sua ex-mulher. - O que você quer a essa hora?

__Evaldo..., a Mira morreu!

Silêncio.

Evaldo respira fundo, procura o maço de cigarros no bolso. Está só de cueca, não há bolsos nem tampouco cigarros. Tremendo, procura um apoio na parede.
Respira fundo e recomeça a falar:

__Como aconteceu?

__Não sei. Quando acordei, ela estava dura ao meu lado na cama.

__Estou indo para aí. Não faça nada até eu chegar.

__Evaldo - quase chorando -, nós estamos num hotel.

__Me dê o endereço do hotel, logo chego aí.

__Evaldo - agora chorando -, o hotel fica em Portugal...

__O que vocês estão fazendo em Portugal? – Histérico, começa a socar as paredes enquanto começa a chorar. - O que vocês estão fazendo em Portugal? Levei quarenta e cinco anos para conhecer Portugal e você, com dezenove anos, está aí com a minha mulher... - interrompido por Timóteo:

__Ex-mulher, Evaldo, ex-mulher! Ela falou que você estava concordando com o divórcio... - agora interrompido por Evaldo:

__Eu nunca iria concordar com esse divórcio, nunca. Entendeu bem? Eu amava a Mira, amava... - interrompido por Timóteo:

__Escute, Evaldo, escute o que eu tenho a lhe dizer.

Do outro lado da linha ainda dá para ouvir o choro de Evaldo, o nariz escorrendo, e os socos que ele continua dando nas paredes.

Suspiro.

__Está bem, pode falar, Timóteo. Seja breve.

Timóteo pigarreia, tosse, por alguns segundos tamborila o fone com os dedos, tosse de novo e fala:

__Evaldo, agora que ela morreu, acho que podemos dividir a grana dela. O que você acha?

Evaldo, espantado, olha o telefone como se quisesse ver Timóteo do outro lado da linha. Se pergunta como um boyzinho desses, recém saído das fraudas, poderia lhe fazer uma proposta dessas? Já não bastava a vergonha que ele passou quando Mira fugiu com ele? Não bastava a vergonha diante dos filhos. Afinal Timóteo estava na mesma classe que o seu filho mais velho? Não bastava ele, Evaldo, ter que sustentar a ex-mulher, fazer-lhe a feira toda semana, pagar o supermercado? Suprema vergonha, pagar as roupas que Timóteo usava, e ele agora queria dividir a sua herança?

Não! Evaldo desligou o telefone, voltou ao seu quarto, revirou as gavetas do guarda-roupa até encontrar a escopeta. Carregou-a, vestiu-se e pensou como mataria Timóteo quando chegasse a Portugal.

Enquanto descia as escadas, murmurava:

__Essa herança é minha, só minha...
Em Portugal já era inverno...

Anteontem à noite


Escutou um som rascante vindo da porta. Olhou e viu um bilhete ser empurrado por baixo dela. Correu para pegar, abriu a porta, mas já era tarde demais, a pessoa já havia sumido.

Com o coração disparado, abriu o envelope, e mordendo o lábio inferior leu: “Eu estava lá na noite retrasada. Vi tudo. Logo entrarei em contato. Nem pense em fugir, sei como encontrá-lo em qualquer lugar.”

Sentou-se na poltrona e espremeu os miolos para lembrar-se do que havia feito na noite retrasada. Correu a ver a sua agenda. Nada. No seu diário (onde que um homem mantém um diário hoje em dia?). Nada.

Recorreu ao orkut, nada.

__Meu Deus, o que foi que eu fiz?

Pensou em ligar para Renata. Mas logo deixou a idéia de lado; se havia feito alguma coisa errada, não foi com ela, e se era coisa errada, seria bom ela não saber.

Começou a roer as unhas, acendeu um cigarro, e foi à cozinha comer amendoins e conferir a folhinha. Nada estava marcado.

__O que foi que eu fiz??

Foi ao banheiro chorar.

Chorou até ficar com o rosto inchado, os olhos vermelhos e o nariz escorrendo. Voltou à sala, encheu um copo com uísque e sentou-se no sofá para reler o bilhete outra vez...

Revirou o guarda-roupa, olhou os bolsos da calça, da camisa e do blazer. Nada. Pensava no que dizer à Renata caso algo lhe acontecesse. Se ele morresse? O que ela iria pensar? Envolvido em drogas? Crimes? Prostituição? Espionagem? Tráfico de escravas brancas para ao Oriente Médio? Pedofilia? Necrofilia?

__Não!! - gritou.

Começava a delirar, deixara-se levar...

Olhava a janela, já considerando atirar-se dela, quando toca a campainha.

Assustou-se.
Correu a atender a porta. Girou a chave, puxou os três trincos, o pega-ladrão, e abriu-a; um tipo suspeito, de capote, chapéu, óculos escuros e guarda-chuva encarava-o.

Ele tremeu; em sua cabeça passou o filme de sua vida. Reviu toda a sua infância, juventude, adolescência, toda a vida adulta até a noite de anteontem e nada havia ali de excepcional.

O homem levantou os óculos e perguntou:

__Hoje você recebeu uma carta.

__Sim - tartamudeou tremendo.

__Onde ela está? - perguntou com voz firme, estendendo a mão.

Ele, pensando que seria estrangulado, procurou proteger o pescoço, e correu para dentro do apartamento.

O sujeito entrou na sala, fechou a porta, girou a chave e puxou de volta os três trincos e o pega-ladrão. Seguiu em direção ao pobre coitado que chorava baixinho no canto do sofá.

__Onde está carta? - perguntou com voz soturna e ameaçadora.

__Aaaaaaqui! - tremia, chorava, os olhos saltando das órbitas, urinando-se.

O tipo puxou-a bruscamente, pôs no bolso do capote, virou-se em direção à porta, onde teria de girar a chave, puxar os três trincos e o pega-ladrão, quando por fim a escancarou, voltou-se para trás e disse:

__Essa carta foi posta na sua porta por engano, era para o seu vizinho aqui do lado. Uma palavra e você é um homem morto. - Virou-se e foi-se embora.

Em menos de uma hora, já estava com o caminhão de mudança na porta do prédio. Mudou-se e não deixou endereço para ninguém.

Nem Renata sabe que fim ele levou.

GANÂNCIA


Com salário tão bom
Vivendo tão mal
Podendo comer do melhor
Come pão seco sobre papel
Cata os farelos
Empurra para a palma da mão
E num só ato
Aspira tudo para dentro
Rica de grana
Miserável de espírito
Ganha tão bem
E vive de trocados
A vida é mesmo injusta!

HEDONISMO

uma tragada
que delícia!
o prazer
efêmero da fumaça
que sai da boca
das narinas
segue pelo ar
até os pulmões
dos infelizes
anti-tabagistaS
vegetarianos
anti-omnívoros
anti-vivos
anti-hedonistas
mortos-vivos
que assombram os
que bem-vivem.
um torresminho.
que delícia!
o croc-croc
o sal
os dedos sujos
de gordura.
ah! vocês que passam
pela vida e não vivem
talvez existam até os
oitenta
mas isso é vida?
é viver?
não!
acho que
não

A LANCHONETE NOVA

Na sala, uma estagiária, sentada no canto da parede, babando, sacode a cabeça de um lado para o outro, murmurando - Não, não, não... - rói as unhas, em estado de choque. Os seus olhos arregalados seguem a gorda, que fala sem parar:

__...e eu ia fazer um lanche ali na esquina da avenida da igreja com o correio, mas depois o meu marido ligou e tive que mudar os planos - Fala alto, quase histérica, para outra colega na mesa ao lado: - Agora vou ter que pedir um lanche para comer aqui mesmo. - Bate com a mão na mesa e derruba as canetas esferográficas. - Mas eu estava com uma vontade de almoçar lá naquela lanchonete... - suspira, olha para os lados e encontra outra vítima para sua lenga-lenga.
Encosta na mesa ao lado, recomeça a cantilena:

__...então, sabe aquela lanchonete que abriram ali na esquina da avenida da igreja com o correio? Então, eu ia almoçar lá hoje, mas então meu marido me ligou agora e vou ter que pedir um lanche. Era tanta a vontade de conhecer a lanchonete que abriram ali na esquina da avenida da igreja com o correio... Agora vou ter que comer aqui mesmo na minha mesa. Você conhece a lanchonete nova lá da esquina da igreja com o correio? Então, me falaram que a comida é tão boa lá, mas agora vou ter que comer um lanche por aqui mesmo. Mas lanche do quê? Aposto que nada que eu peça vai ser igual aos lanches da lanchonete nova da esquina da igreja com o correio. Se não fosse o @#$**&¨%$ do meu marido, eu estaria lá na lanchonete nova da esquina da igreja com o correio.
De repente...

...ouve-se um barulho de vidros quebrando. A moça que roía as unhas joga-se pela janela para não ouvir mais essa história da lanchonete da esquina da igreja com o correio, que era nova.
Todos acorrem à janela e vêem, lá no chão, o corpo estendido. Os transeuntes olham para cima e para a pobre moça estendida. Dentro do escritório, gritos, correrias, choro. Já se ouve o som das sirenes das ambulâncias.

- Parece que ela ainda está respirando - diz uma voz na multidão.

Todos os funcionários estão reunidos próximos à janela quebrada. Quando a gorda se aproxima falando:

__Coitada! Foi ela quem me recomendou a lanchonete nova na avenida da igreja esquina do correio...

Interrompida, ainda espantada, é com surpresa que sente o corpo gordo se estatelando no chão ao lado da outra funcionária.

Jamais saberemos se a lanchonete nova na avenida da igreja, esquina com o correio, era boa ou não...

AS PITONISAS HODIERNAS

(Crônica)


Dizem que o dinheiro não traz felicidade nem compra o amor.

Será verdade?

Senão, vejamos essa propaganda que está colada em todos os postes da cidade, em qualquer bairro, seja ele pobre, miserável (o que mais tem) ou rico.

Parece que, independente da classe social do indivíduo, o amor não está fácil.

Quando começamos a precisar de ajuda de cartomantes e outras formas heterodoxas de auxílio para encontrar a cara-metade, o outro pedaço da laranja, acho que a vaca foi para brejo.

Tento imaginar a cara da pessoa entrando no consultório (?)/ barraquinha de lona colorida (?) ou seja lá o que for que a tal vidente do amor use como ponto. Lá está o coração solitário, olhos fundos, pálida/o, mãos tremendo e suadas; nas mãos calejadas e cheias de anéis de pedras falsas, correntes de ouro, também falso, lenço encardido na cabeça, nos cabelos tingidos de preto da dita vidente.

Sim, a pessoa tem que estar muito, mas muito desesperada mesmo, para se sujeitar a isso.

O houve que com o nosso mundo?

Não me espanto com a propaganda de vidente de amor, videntes que ajudam a ganhar dinheiro (que vontade de tentar...), videntes que enxergam o futuro. Nada disso é novidade, elas existem desde que o mundo é mundo.

Mas eu esperava que, com o tempo, com a tecnologia, com a facilidade de comunicação, as pessoas se tornassem mais céticas a esse respeito. Só que, em vez do ceticismo, tornaram-se cínicas umas e mais burras outras.

Por favor, não percam tempo com essas falsas pitonisas hodiernas, saiam mais à rua, conversem com seus vizinhos, saiam de seus casulos de egoísmo, e dêem ao próximo a chance de se aproximarem de você.

Quem sabe o amor está ao seu lado e você ainda não percebeu. Aplique o dinheiro que você depositaria nas mãos da velha bruxa em um cinema, uma lanchonete e, quem sabe, se tiver sorte, num motel?

Como já cantava o velho George Harrison: O AMOR CHEGA PARA CADA UM.

Pensem nisso.

NOSSO TIPO DE DOR

(Crônica)


Dores.

Quantas e tantas, que nos afligem e fustigam e nos arrebentam, aos poucos, aos pedaços, deixando fatias de nós pelos caminhos.

A dor de ser ignorado. De ser tornado invisível, inaudível e, a pior para quem escreve, de ser ilegível, indecifrável, indecodificável, ser deixado de lado, para lá, ali, em qualquer lugar, menos em frente aos olhos.

Saber que nossas linhas, páginas, brochuras, livros, ficam enfeitando uma estante cheia de pó. Que nosso texto na tela do computador é deletado, depositado na lixeira e, no fim do dia, excluído de vez.

Tanto para ser dito e tanto sendo ignorado.

A dor fica cada dia mais dolorida, e mais ainda teimamos em escrever, obstinados em colocar caractere após caractere numa folha, numa tela, num tomo; opúsculo após opúsculo, dia após dia, teimamos, e teimamos...

Dizem-nos as pessoas que lhes falta tempo para ler, que não gostam de ler, que não entendem o queremos dizer, e se afundam em diz-que-diz-que das revistas de fofocas, nas telenovelas da vida que, há anos, para não afastar a “audiência”, repisam as mesmas fórmulas de mocinhas apaixonadas por galãs ricos, amores difíceis tornados possíveis no último capítulo (sempre às sextas-feiras com reprises no sábado) - uma alquimia barata e burra para consumidores burros e baratos.

Dores.

Todas elas nos afligem por sermos pedantes, arrogantes, soberbos, por nos acharmos “Prometeus hodiernos”, salvadores desses rebanhos de ovelhas idiotas, que teimam, não sei se por estupidez mórbida ou por preguiça de pensar, e que, para nossa vingança, acabarão seus dias sendo sacrificadas no altar de sua própria ignorância. Seguidos de seus descendentes, pois cheguei à triste conclusão que a falta de inteligência tornou-se genética.

Dores.

Tantos e tantos contornos. Mas, pensando bem, até que a nossa é menos pior. Afinal, temos a nossa capacidade de ver, ler e apreender o que acontece à nossa volta.

Só erraremos por vontade própria (ou praga de mãe)!

EDUCAÇÃO, PARA QUÊ?

(Crônica)




Triste o nosso trópico, triste.

Tento não ser pessimista, mas vejam essa experiência com crianças.

Estava, esses dias, na Feira da Cidadania, em São Vicente, num stand, não interessa qual, conversando com crianças.

Entre as muitas que lá estavam, uma me chamou mais a atenção.

Ela, não declinarei o nome, com treze anos, falava, com certo orgulho, que não gostava de ler.

Não lia nada, absolutamente nada. Nem quando o professor assim mandava para fazer algum trabalho. Se muito, passava os olhos num livro ou outro em dias de prova. E, mesmo assim, copiaria o que pudesse dos colegas.

Fiquei besta com isso.

Perguntei-lhe se nunca nenhum livro lhe havia chamado a atenção, um livro de histórias, mesmo história da carochinha...

Em certo momento, perguntei-lhe:

__Você já leu Drummond?

__Leudrummond? Não, nunca ouvi falar nesse cara. – disse, olhando-me nos olhos, como se eu tivesse lhe indagado se já havia visto um marciano.

Expliquei-lhe, entre as gargalhadas dos presentes (sim, há testemunhas), que não era “Leudrummond”, mas Drummond, Carlos Drummond de Andrade.

Mas debalde.

Ela não entendia nada. Nada de leitura, nada das gargalhadas. Mudei o rumo da “prosa”.

Quis saber o que ela planejava para o seu futuro (pra quê?).

Respondeu, outra vez toda orgulhosa (pobre, pobre criatura!):

__Faxineira de shopping ou diarista!

A princípio, engasguei.

__Como alguém em sã consciência quereria ser faxineira de shopping?

__Para ver gente bonita por perto toda hora! - respondeu, horrorizada com a minha ignorância.

Como fazê-la ver que isso não era sonho? (quando não um pesadelo?) Que ser faxineira de shopping era mais uma triste conseqüência que uma opção?

Expliquei-lhe, já nervoso e desiludido, que se ela não estudasse, se empenhasse em ser melhor, em se destacar dos seus colegas, ela não seria nada na vida. Que, sem estudo, sem um pouco que fosse de cultura, educação, sua vida não seria nada gloriosa...

Que, em última instância, o conhecimento era o único bem que ninguém poderia tirar; que o saber não era um relógio, um tênis de marca que poderia ser roubado; que, diferente da sua juventude, ele não se perderia ou acabaria...

Quando ela me interrompe com sua displicente arrogância:

__Então vou para Miami casar com um homem bonito e rico!

Passei as mãos no rosto, cocei os cabelos, respirei fundo e tornei à minha arenga. Tentei, já a essa altura dos acontecimentos, inutilmente, fazer-lhe ver que nenhum homem “bonito & rico” se interessaria por uma mulher feia e burra, sem um mínimo de conhecimento, modos e educação.

Pondo as mãos na cintura, ajustou a mini-saia suja e surrada e, jogando os cabelos para trás, falou cheia de soberba estupidez:

__Ihhhh, tio, que papo! Se nada der certo, então viro mulher de traficante.

Virou-se e saiu, rebolando e arrastando as chinelas.

Que fiz eu?

Acendi o meu charuto, velho amigo e companheiro dessas desditas.

A queda de Germano

Vagarosamente, devagar, quase em câmera lenta, Germano cai. Como se estivesse numa gravidade lunar, sua cabeça aproxima-se vagarosamente do chão de pedras.

Numa vagarosidade vertiginosa, Germano vê o chão vir em sua direção. Seus braços, pesados como chumbo, estão imóveis. Não, não imóveis, mais parecem braços feitos de panos, balançando-se feito bandeirinhas ao vento, eles não mais obedecem à sua vontade. Germano não consegue fazê-los ampararem a sua queda.

O chão aproxima-se mais e mais.

As pernas, como arames, estão enroscadas uma a outra; os seus pés, parece, trocaram de lugar, onde deveria estar o direito, o esquerdo, e vice-versa.
O chão aproxima-se ainda mais.

O rosto de Germano estampa o desespero, a perplexidade, a impotência. O chão sujo está ainda mais próximo. Sua respiração está suspensa, seu coração bate tão rápido que parece que parou.

A paisagem à sua volta tornou-se um borrão multicolorido. Enquanto cai, Germano espanta-se com o repentino silêncio, tudo parece parado, estático, congelado.

O chão mais perto.

Germano voa, desliza pelo espaço; qual um super-homem de história em quadrinhos, verticalmente flutua, cai...

O chão duro recebe o corpo de Germano. Encabulado, Germano levanta-se, amarra o cadarço de seus sapatos e segue em frente, embaraçado, envergonhado, com vontade morrer de vergonha.

A REFORMA!


(Uma história (i)real)



1. Primeiro chegaram arrebentando as paredes. Depois as levantaram e pintaram, deram acabamento de gesso, coisa bonita de ser ver, depois;

2. chegaram os eletricistas, arrebentaram as paredes, passaram canos para fios, mais fios para as lâmpadas e outros tantos para as tomadas, quando eles se foram, vieram os;

3. pedreiros reformar as paredes outra vez. Pintaram, recolocaram os gessos, limparam o salão e se foram para;

4. que o pessoal da informática instalasse os cabos lógicos, logicamente arrebentando novamente as paredes, o gesso recém-recolocado no teto, empurrando as mesas e os outros móveis, arranhando o chão já tão sofrido. Foram-se e;

5. voltaram os pedreiros para repintarem as paredes e recolocarem os gessos de volta no teto. Sentado à minha mesa, olhava aquilo entre desolado e histérico, roendo as unhas. Quando olho para a porta;

6. os marceneiros chegam para retirar as persianas. Arrebentam as paredes na operação. No chão, acumulam-se persianas e pedaços de cimento e gesso que caiu do teto. Horas depois, chegam as faxineiras. Depois de tudo limpo;

7. voltam os pedreiros. Cimentam os buracos de onde saíram as persianas. Pintam outra vez as paredes e outra vez o gesso é recolocado no teto. Minhas unhas já se acabaram, acho que agora vão cair-me os cabelos. Pensando nisso, vejo;

8. chegar o pessoal que vai passar cascolaque no chão de taquinhos dos anos quarenta (não perguntem o século). Saímos da sala e vamos embora para casa, afinal, o cheiro é forte demais. No dia seguinte,

9. nem bem chegamos à repartição, nos damos bonsdiasecomovão, comentamos como o chão ficou bom, quando;

10. voltam os pedreiros, agora, para pintarem o teto!

DE SACO CHEIO COM TEXTOS BONITINHOS



(Crônica)




Ser honesto!

Não é fácil, não é fácil. Temos de sorrir, engolir sapos, fazer-nos queridos, sentirmo-nos estimados; ansiamos ser amados e, para isso, muitos de nós “abrem as pernas”.

Quantos de nós não se prostituem por alguma coisa, por alguma razão, por algum motivo, por alguma pessoa?

Quantos não se anulam para ser o que esperam que ele seja? Quantos morrem por dentro para serem o que esperam que seja por fora?

E tem quem pense que ser honesto é só não roubar...

Escrever o que esperam que escrevamos é a pior forma de prostituição, a menos que sejamos pagos para isso, porque escrever só para agradar é baixo meretrício!

Estou cheio de ler textos “bonitinhos, agradáveis, cor de rosa”. Nada é mais fútil, nada é mais tolo. Não há uma exposição de idéias, de posturas, de “é assim que penso”. Não sei se é medo (medo de quê? De desagradar? Desagradar quem? E por que agradar?), não sei se é só mediocridade ou comodismo.

Tomem posições e as defendam a qualquer preço! Sua idéia é sua alma, se tiver que vendê-la (cedo ou tarde sempre o fazemos), que seja bem cara!

Tenho dito!

SOBRE ANJOS E DEMÔNIOS

Anjos e demônios. Eles nos cercam, nos acercam e nos perseguem, cabe somente a nós fugir deles, ou optar por um deles.
Parece que é fácil, não é?
Esses dias, uma leitora, a sétima, “s é t i m a” - já superei aquela meia-dúzia - disse que escrevo como um anjo atormentado por demônios.
Devo declarar, a bem da verdade, que nunca reparei nisso, não sei se por falta de atenção ou por pura descrença. Mas, levantada a lebre, comecei a dar mais atenção a mim mesmo, a meu modo de escrever e como me vem à cabeça tais idéias/inspirações.
Nada reparei. Não me acho assim tão importante para perder tanto tempo prestando atenção a mim mesmo.
Logo esqueci disso e segui em frente.
Mas não é que essa noite, enrolado nas cobertas tentando dormir, alguma coisa começou a me incomodar. Virava de um lado para outro, socava o travesseiro, me cobria, descobria, e por fim não consegui mais reconciliar o sono e levantei-me.
Que frio fazia!
Fui à cozinha, bebi água, abri a geladeira, dei uma geral e nada que me interessasse comer. Fui à sala, liguei o note-book e comecei a escrever.
Surgia na tela, letra a letra, a última e definitiva historinha do Doidinho e Dona Dedé. Há tempos, estou escrevendo suas desventuras, e já havia dado um fim a eles, ou assim pensei, até que, ao fim da dita historinha, escrevi a palavra fim.
Nunca havia terminado um texto sobre eles com essa palavrinha simples de três letrinhas.
Ao acabar de digitá-las, F I M, deu-me um alívio, o sono voltou, minha alma relaxou, voltei para a cama e dormi.
Quem acompanhou a série de historias de Doidinho & Dona Dedé, sempre teve a impressão, nunca negada por mim, de que esse moleque era o CÃO em forma de gente, era o agente do apocalipse, o precursor do fim do mundo, um ser que vivia em função das indústrias farmacêuticas que vendem calmantes e antidepressivos para pais estressados que vivem à beira de um ataque de nervos.
Mas, ao fim da historinha, não é que esse moleque acaba com asas de anjo?
Bem, com isso deixo claro quem está ao meu lado quando escrevo. São demônios perturbados por anjos de asas alvas, de penas brilhantes e sorrisos sacanas.
Espero que esse pequenino texto esclareça a sua dúvida, minha sétima leitora.

Conversas, conversas, conversas...

Duas pessoas conversam.
O local não é lá muito iluminado, as poucas luzes que piscam e brilham pouco ajudam, e os dois trocam impressões meio encabulados e apreensivos com o estranho zumbido que vem de trás das paredes.
O mais inconformado começa a falar, enquanto anda de um lado para o outro.

__Veja só. Mais essa no meu currículo. Quando digo que essas coisas me acontecem, ninguém acredita e ainda dizem que sou exagerado.

__É verdade. Quando você dizia que tudo te acontecia e só faltava ser..., como é mesmo a palavra?

­­__Abduzido!

__Sim, abduzido. Bom, mas vamos deixar isso pra lá. O que foi mesmo que te aconteceu? Quero os detalhes sórdidos. Me conte sem entrelinhas, que ainda estou meio tonto.

__Tá certo. Pela cara vamos ter muito tempo mesmo para isso. Vamos lá. Lembra da Silvinha?

__Ô, se lembro. Vinte e três aninhos... Princesinha...

__Pois é. Eu estava de cacho com ela.

__Como? Quando? Com ela???

__Vai me deixar falar ou não?! Assim eu paro de contar. Então, como eu dizia, estava saindo com ela, escrevendo umas bobagens, curtindo uma paixonite daquelas. Tudo no maior sigilo, segredo de estado, coisa de não falar nem em confessionário. Tudo via e-mail, smn e essas bobagens modernas. Na maior inocência. Achando que ninguém iria descobrir. Escrevia coisas melosas, poesias, contava as desgraças da minha vida. Não podia ficar uma noite sem escrever para ela. Planejávamos encontros. Tudo ia às mil maravilhas... Não mudei meus hábitos. E mantinha a linha, vivia na maior calma, levando a vida na flauta. Não reclamava de nada em casa.. Nem o cachorro percebeu nada, e olha que o Toby é esperto!

__Até...

__Até que a Carla descobriu tudo! TUDO, tudinho!

__Então, como ela descobriu? Telefonema anônimo? Carta anônima? Vizinha te flagrou? A mãe dela ligou? O cunhado...
__Que nada! Entrou no meu e-mail. No meu e-mail.

__E então, o que foi que ela fez? No mínimo começou a chorar...

__Chorar? Não! Gritou! Me ameaçou, pegou uma faca e começou a correr atrás de mim.

__E você, o que fez?

__Corri para a rua do jeito que estava. Com um pé calçado e o outro não. Sem camisa, com a calça semi-aberta. Tropeçando, corria e tentava fechar o zíper da calça. Foi quando te encontrei e...

__E fomos abduzidos?

__Isso mesmo. Era só o que me faltava acontecer. E depois dizem que sou exagerado. Agora você é minha testemunha.

O outro levanta os ombros e olha em volta, dando a entender que a sua opinião agora já não adiantava mais nada.

O nervoso, puxando o outro pela manga da camisa, leva-o até a janela do disco voador e aponta:

__Olha a Terra, ela é azul mesmo...

__E ficando cada vez mais longe...

O dois balançam a cabeça conformados, enquanto a nave segue pelo espaço, deixando a Terra e seus problemas para trás. Não fosse o vácuo do espaço sideral, ouviríamos os latidos de Toby...

Notícia de Morte

Acordei assombrado por essa idéia de morte, após ter tido o enooooorme desprazer de ver a minha velha (e aparentemente imortal) sogra na festa de aniversário de (tá certo, tá certo, eu também procuro) minha cunhada ontem.
Pois acordei pensando em como reagiria à notícia de sua (dela, minha sogra) morte.
Como não costumo pensar nela com freqüência, ou melhor, evito pensar nela, como qualquer um evita pensar em câncer de testículo, virei de lado na cama e continuei dormindo. Mas a idéia ficou me assombrando, então, OK, levantei-me e cá estou digitando esse texto.
É mais ou menos assim. Alguém chega para mim e diz:

__Sua sogra morreu!

Aí seguem as minhas várias reações. Mas lembrem-se, isso foi um sonho.
· Espanto, incrédulo:
__Tem certeza mesmo de que ela morreu? O que diz o laudo médico? Tem aí uma cópia do Atestado de Óbito?
· Histérico, descrente:
__Oh, meu bom Deus, não pode ser verdade... Quero ver, preciso ver, tenho que ter certeza! - Então, corro à cozinha, pego o cutelo e, quase voando, vou até o necrotério para retalhar a velha e certificar-me.
· Religioso:
Ajoelho-me e, banhado em lágrimas, dou graças a todas as entidades divinas, pagãs e cristãs.
· Estático, com os olhos esbugalhados, boca aberta, digo assim:
__Se eu soubesse que ontem seria seu último dia de vida... Quanta coisa tinha ainda a lhe dizer... - Corro ao necrotério e, da rua, vou xingando o cadáver. Algumas pessoas tentam me deter, explico que a minha velha sogra jaz ali, dura, morta, e que eu sou genro que quer lhe prestar as últimas homenagens. Uma senhora (com cara de ser sogra de alguém) me pergunta o que faço com uma estaca na mão, mas o homem jovem ao seu lado (talvez seu infeliz genro) a puxa de lado, e abre espaço entre a multidão para que eu possa passar; ele me dá uma piscadela cúmplice e empurra a velhota para a rua. Por pouco uma betoneira não passa sobre a velha (mas a vez dela chegará, sempre chega).
· Úmido e sôfrego:
Acordo empapado de suor, molhado de urina, sem ar... Olho para o meu lado da cama. Minha mulher ainda dorme; parece que sonha com anjos ou fadas, tendo como fundo musical Enya...
Vejo ainda sonado que tudo está bem, a velha continua viva. Esperançosamente, ainda sob efeito do sonho, do sono, dos copos de cerveja, uísque, batidas de côco e amendoim, aguardo o telefone tocar; os segundos tornam-se longos minutos e nada. Concluo então:

__Foi mais um pesadelo, não um “dream come true...”.
Mas um dia, um dia...